Esse foi um ano, digamos, esotérico. Porque, diante de caminhos nebulosos, só o trabalho e a fé salvam. Sério. 🙌(Nessa hora eu sinto falta dos emotions do meu celular, na boa. :( )
A parada espiritualista, na verdade, tinha tido início no ano passado, por causa das meninas da pós-graduação. Pois bem, a coisa foi mais profunda em 2016. Vamos à retrospectiva:
- Jogo de tarô: influenciada por Terena, entrei num curso para aprender a jogar com os arcanos maiores. Isso foi em abril. Engraçado que no final de 2015, enquanto procurava um livro pro aniversário de Flavimir, vi um livro que ensina a jogar tarot e o comprei.
- Iluminati: uma boa ideia que por diversas razões não foi pra frente. Mas nos dois meses em que fiz parte da empresa aprendi sobre umbanda, magia, meditação, tarot e até banhos. Meditação guiada funciona. E banho de alecrim é bom para restaurar a alegria.
- Festa de Oxóssi: em maio, fui pela primeira vez na umbanda (que pretendo voltar um dia, mas dependo de encontrar um lugar confiável - isso é de extrema importância - e de comprar um carro, pois essa galera se mete em cada lugar, que Deus é mais!...). Logo na festa do meu orixá. A entidade me mandou jogar flores brancas no mar... Um amigo disse que isso é coisa de Oxum. Suspense: serei eu filha de Oxum e não de Yemanjá?!😕
- Jogo de búzios: Oxum, Oxóssi e Omolu me acompanham. Bem, enfim, eu sou das águas. Espero que Oxum me perdoe por eu já ter dito que ela é superestimada. 😬
- Cigana: Voltando para casa com uma nova colega umbandista, que tem uma cigana que a acompanha (e que ela incorpora tão sutilmente que mal dá pra perceber, quando está jogando cartas ou lendo mãos), pedi a ela para ler a minha mão. Ela disse que vê um casamento para mim e que numa vida passada meu matrimônio terminou em morte (não soube dizer se minha ou do meu esposo). Falou que perto dos 40 minha vida ia mudar positivamente, que seria como uma nova encarnação dentro dessa encarnação.
- São João, Cruz das Almas: tive um sonho muito louco, mas que me deixou intrigada. O mesmo Oxóssi que eu vi na festa me mandava o recado. Era pra eu entregar meu violão a um homem e eu brigava com a entidade, que mandava que eu não resistisse e obedecesse. Cortava para uma imagem que aparecia a data de 12.08. Corte: um homem moreno, um pouco mais velho que eu e com pinta de empresário surgia. O sonho teve outros desdobramentos envolvendo pessoas conhecidas e que pegariam mal aqui, hehe. Uma pessoa mais espiritualista interpretou como um homem de Oxóssi vindo por aí... Mas eu não tenho nada a ver com empresário, gente! Ih... 😲
- Dia 12.08 eu recebi um torpedo da Uneb dizendo que havia sido aprovada em Direito. Eu não tinha índice para isso e nem me lembrava de ter feito essa escolha no Sisu.
- 11 de dezembro: estava ansiosa e sonhei com o resultado da etapa final da seleção do mestrado. A tela do meu computador, no meu sonho, aparecia turva. Tinha a impressão de ter visto meu nome, mas por ela estar dobrada, não conseguia ver. Acordei sem saber se tava ou não na lista. Na quarta, abri a lista e não estava. Na sexta, após recurso, estava lá.
- Hoje: sonhei que procurava apartamento e encontrava um legal na Federação. Dessa vez para morar sozinha. Estava acompanhada de amigos, que me ajudaram a escolher o apê.
Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
sábado, 31 de dezembro de 2016
PNL
E aqui estou eu, no último dia de 2016, dez anos, um mês e 25 dias após a criação desse blog. :)
Sim, sou feliz em escrever, mesmo que seja para falar das mesmas coisas por mais de dez anos, hehe...
Esse foi um ano em que me despedi do passado, mas ainda não dei olá ao futuro - e isso é muito difícil, acreditem, porque produz um vazio dos diabos. Trabalho por um amanhã melhor às cegas, na fé de que uma hora vou colher os frutos. Foi um ano de muita introspecção, de solidão, que eu encarei com uma dignidade que me impressiona até agora. I´m a survivor, como diz Beyoncé.
E numa época em que eu achei que a depressão ia me pegar feio novamente, por acaso, descobri as palestras do Dr. Helio Couto no Youtube. Ele é uma espécie de precursor da PNL (Programação Neurolinguística). Comecei a ouvir os áudios dele sobre diferentes temas (autoestima, coragem, determinação, prosperidade, relacionamentos, etc) e, de forma impressionante, notei mudanças, sutis mas ainda assim significativas. Eu me tornei mais resiliente, mais calma, mais focada e mais confiante. Não ainda nas doses necessárias, of course, mas houve uma melhoria que foi o suficiente para botar antigos planos em andamento: consegui, depois de 13 anos, finalmente fazer um projeto de mestrado (e passei!); consegui mudar a alimentação e fazer exercícios, eliminando sete quilos; consegui, depois de quatro anos, começar a estudar para concurso. Até consegui assistir A Sete Palmos, que Anderson havia me emprestado há mais de um ano. Troquei a melancolia pela ação e recomendo a todos. Mas talvez isso, essa força de vontade, só surja quando você se sente de algum modo pressionado pela vida a agir. Me senti demais em 2016 e, graças a Deus, dessa vez consegui reagir.
Já tinha ouvido falar de PNL. Meu ex-terapeuta, Djalma Argollo, já havia me indicado um livro, A Qualidade Começa em Mim, de Tom Chung. Mas naquele turbulento 2013, eu nem prestei atenção. A gente nunca acha que tem tempo para novas ações. Em tempos de dificuldades, a gente costuma seguir no piloto automático, esperando que a vida nos salve. Mas dificilmente isso acontece. Então às vezes a vida precisa tirar tudo que te distrai para que você tome providências e mude de rota. Essa foi a minha vida em 2016.
A PNL trabalha com a lógica de que o mapa não é o território, ou seja, as suas crenças não são você, portanto você pode mudá-las, atraindo a vida que você merece. E o primeiro trabalho de "limpeza" deve ser o do autoamor, do autoperdão. Se eu errei, era o que eu tinha condição de fazer naquela situação. Paciência. O passado não volta. O que temos é o presente, então foquemos nele. ;)
Sim, sou feliz em escrever, mesmo que seja para falar das mesmas coisas por mais de dez anos, hehe...
Esse foi um ano em que me despedi do passado, mas ainda não dei olá ao futuro - e isso é muito difícil, acreditem, porque produz um vazio dos diabos. Trabalho por um amanhã melhor às cegas, na fé de que uma hora vou colher os frutos. Foi um ano de muita introspecção, de solidão, que eu encarei com uma dignidade que me impressiona até agora. I´m a survivor, como diz Beyoncé.
E numa época em que eu achei que a depressão ia me pegar feio novamente, por acaso, descobri as palestras do Dr. Helio Couto no Youtube. Ele é uma espécie de precursor da PNL (Programação Neurolinguística). Comecei a ouvir os áudios dele sobre diferentes temas (autoestima, coragem, determinação, prosperidade, relacionamentos, etc) e, de forma impressionante, notei mudanças, sutis mas ainda assim significativas. Eu me tornei mais resiliente, mais calma, mais focada e mais confiante. Não ainda nas doses necessárias, of course, mas houve uma melhoria que foi o suficiente para botar antigos planos em andamento: consegui, depois de 13 anos, finalmente fazer um projeto de mestrado (e passei!); consegui mudar a alimentação e fazer exercícios, eliminando sete quilos; consegui, depois de quatro anos, começar a estudar para concurso. Até consegui assistir A Sete Palmos, que Anderson havia me emprestado há mais de um ano. Troquei a melancolia pela ação e recomendo a todos. Mas talvez isso, essa força de vontade, só surja quando você se sente de algum modo pressionado pela vida a agir. Me senti demais em 2016 e, graças a Deus, dessa vez consegui reagir.
Já tinha ouvido falar de PNL. Meu ex-terapeuta, Djalma Argollo, já havia me indicado um livro, A Qualidade Começa em Mim, de Tom Chung. Mas naquele turbulento 2013, eu nem prestei atenção. A gente nunca acha que tem tempo para novas ações. Em tempos de dificuldades, a gente costuma seguir no piloto automático, esperando que a vida nos salve. Mas dificilmente isso acontece. Então às vezes a vida precisa tirar tudo que te distrai para que você tome providências e mude de rota. Essa foi a minha vida em 2016.
A PNL trabalha com a lógica de que o mapa não é o território, ou seja, as suas crenças não são você, portanto você pode mudá-las, atraindo a vida que você merece. E o primeiro trabalho de "limpeza" deve ser o do autoamor, do autoperdão. Se eu errei, era o que eu tinha condição de fazer naquela situação. Paciência. O passado não volta. O que temos é o presente, então foquemos nele. ;)
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
Ted também não ama Robin (How I Met Your Mother)
Muitos fãs concordarão que a repórter canadense de How I Met Your Mother não ama Ted, que passou nove temporadas eventualmente atrás dela. O que poucas pessoas (ou nenhuma) percebem é que Ted também não ama Robin. Vejamos: quando ele está feliz com alguém, ela é só uma amiga. Quando ele está carente ou ela está séria com outra pessoa, tende a correr atrás dela. Ted deseja desesperadamente encontrar uma Lily e acha que, por se darem bem como amigos (e Robin não fazer questão dele, o que frequentemente é instigante), é só questão de conseguir o amor da amiga que a vida amorosa se resolverá. Isso não vai acontecer com ninguém até que ele pare de agir ansiosamente. Robin não é a mulher da vida dele só porque tiveram um romance mal resolvido. Isso tem nome: autossabotagem.
Barney também não gosta tanto assim de Robin. É que ela é a única que não espera nada dele e é a única que o deixa seguro justamente por causa disso. Se ela fosse grudenta-esposinha como Lily, ele sairia correndo. Robin, na verdade, é a versão feminina e sem egotrip de Barney. Eles são muito iguais para darem certo. Ted é intenso demais, eles nunca seriam um casal. Querendo muito encontrar alguém, os três confundem carinho com amor.
Na verdade, apesar de ser um fofa, Robin é o pior tipo de gente para se relacionar porque ela não se apega a ninguém. Ela uma hora acha que gosta de A, depois acha que gosta de B... Gente que não se vincula é melhor cair fora. Ted deveria se tocar disso. Mas a indústria cultural prega que você tem que correr atrás (eu concordo, contanto que haja uma chance real, né? ficar no vai e volta é coisa de quem não sabe o que quer e nem tá muito a fim de verdade de querer alguma coisa), que o que vale a pena é sofrido e muita gente se lasca nessa.
ps.: ainda estou na sexta de nove temporadas.
Barney também não gosta tanto assim de Robin. É que ela é a única que não espera nada dele e é a única que o deixa seguro justamente por causa disso. Se ela fosse grudenta-esposinha como Lily, ele sairia correndo. Robin, na verdade, é a versão feminina e sem egotrip de Barney. Eles são muito iguais para darem certo. Ted é intenso demais, eles nunca seriam um casal. Querendo muito encontrar alguém, os três confundem carinho com amor.
Na verdade, apesar de ser um fofa, Robin é o pior tipo de gente para se relacionar porque ela não se apega a ninguém. Ela uma hora acha que gosta de A, depois acha que gosta de B... Gente que não se vincula é melhor cair fora. Ted deveria se tocar disso. Mas a indústria cultural prega que você tem que correr atrás (eu concordo, contanto que haja uma chance real, né? ficar no vai e volta é coisa de quem não sabe o que quer e nem tá muito a fim de verdade de querer alguma coisa), que o que vale a pena é sofrido e muita gente se lasca nessa.
ps.: ainda estou na sexta de nove temporadas.
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Dizer ou não dizer... Eis a questão!
Dois amigos meus costumam discutir bastante, mais por conta de questões da profissão. Um nunca aceita as correções e o outro sabe disso, mas insiste em dizer. Quase tudo que ele fala está correto, pelo menos me parece coerente, mas do que adianta se o outro não tem disposição de ouvir?
Eu fico neutra e sinceramente dividida. Um lado meu questiona por que achamos que temos que sempre dar a nossa opinião? Claro, tô falando da opinião não solicitada. Não faria como uma amiga que me deu uma cortada me perguntando por que eu queria saber a opinião dela. Óbvio: porque você quer que seus amigos mais íntimos deem opinião; você confia no discernimento deles e quer ver se a sua opinião é justa, coerente, comparando-a com outras respeitáveis na sua opinião. Eu não perguntaria certas coisas ao pipoqueiro. Mas se a pessoa não se interessa pelas suas questões, não custa nada respeitar. Por outro lado, minha Lua em Sagitário (risos) acha que onde minha expressão não é aceita não me interessa ficar. Não sou elegante, não sou discreta, detesto pisar em ovos e tenho ódio secreto de situações/pessoas que me forçam a isso. Eu nunca amaria realmente alguém que me cerceasse na minha autoexpressão. Isso é básico. Love it or leave it.
O caso é que há vários meios de silenciar a pessoa: não prestando atenção na figura, diminuindo a validade da opinião dela, contestando cada coisa que a pessoa diz, valorizando mais quando outra pessoa dá uma opinião ou até mesmo não dizendo nada. Claro que, eventualmente, essas coisas acontecem. Eu estou falando de hábitos na conversação. É muito chato conversar com gente que desdenha a sua opinião, mais ainda se for gente próxima. Porque se há intimidade, há vontade de trocar ideias. Mas o que fazer se o outro acha que você só fala bobagem (alguém que nunca concorda com você, por inferência, acha que você não fala o que preste)? É tenso. O julgamento/silenciamento está ali, implícito, e ninguém ousa falar sobre isso. Aliás, se falar, acabará a amizade. Meus dois amigos não discutem isso, mas uma hora, receio, o conflito virá. Ninguém é criticado longamente sem desenvolver mágoas. A seguir cenas... E eu continuo na dúvida. hehe...
Eu fico neutra e sinceramente dividida. Um lado meu questiona por que achamos que temos que sempre dar a nossa opinião? Claro, tô falando da opinião não solicitada. Não faria como uma amiga que me deu uma cortada me perguntando por que eu queria saber a opinião dela. Óbvio: porque você quer que seus amigos mais íntimos deem opinião; você confia no discernimento deles e quer ver se a sua opinião é justa, coerente, comparando-a com outras respeitáveis na sua opinião. Eu não perguntaria certas coisas ao pipoqueiro. Mas se a pessoa não se interessa pelas suas questões, não custa nada respeitar. Por outro lado, minha Lua em Sagitário (risos) acha que onde minha expressão não é aceita não me interessa ficar. Não sou elegante, não sou discreta, detesto pisar em ovos e tenho ódio secreto de situações/pessoas que me forçam a isso. Eu nunca amaria realmente alguém que me cerceasse na minha autoexpressão. Isso é básico. Love it or leave it.
O caso é que há vários meios de silenciar a pessoa: não prestando atenção na figura, diminuindo a validade da opinião dela, contestando cada coisa que a pessoa diz, valorizando mais quando outra pessoa dá uma opinião ou até mesmo não dizendo nada. Claro que, eventualmente, essas coisas acontecem. Eu estou falando de hábitos na conversação. É muito chato conversar com gente que desdenha a sua opinião, mais ainda se for gente próxima. Porque se há intimidade, há vontade de trocar ideias. Mas o que fazer se o outro acha que você só fala bobagem (alguém que nunca concorda com você, por inferência, acha que você não fala o que preste)? É tenso. O julgamento/silenciamento está ali, implícito, e ninguém ousa falar sobre isso. Aliás, se falar, acabará a amizade. Meus dois amigos não discutem isso, mas uma hora, receio, o conflito virá. Ninguém é criticado longamente sem desenvolver mágoas. A seguir cenas... E eu continuo na dúvida. hehe...
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
Quando a Síria deixou de ser longe demais de mim
Essa foto foi tirada há um ano e meio, com um colega muito especial da excursão pela Cidade do México, Munir, um sírio-venezuelano que bem poderia ser brasileiro. Munir foi a primeira pessoa, numa excursão da terceira idade (risos), a falar comigo na van. Sentou do meu lado e começou a falar mal do governo de Maduro, apontando para um meme de internet no celular, de um prato de comida em que a proteína animal, um pedaço de frango, estava desenhada em um pedaço de papel. Eu fiquei assustada com a abordagem à queima roupa, mas também achei engraçado. Munir seguiu o discurso indignado, contando que a Venezuela estava pior do que quando chegou ao país, no final dos anos 50. Ficamos best friends durante a viagem (com direito a ponga em várias das minhas fotos! hahaha). Uma pena que nunca mais a gente vai se ver.
Munir é comerciante, pelo visto muito bem sucedido, porque ele e a esposa viajam umas quatro vezes por ano para destinos nada baratos. Ela é mais fechada, foi se chegando aos poucos, até porque viu que estava sozinha (para uma mulher árabe, estar solteira e sozinha numa viagem deve ser o fim da picada, um atestado de forever alone, rs) e que Munir e eu havíamos estreitado laços. Ele tem alma de cachorro vira lata e conversa com to-do mun-do, fica alegre ao te ver como se fosse a pessoa mais importante do universo falando com ele. Virou o mister simpatia da viagem, xodó de guias e garçons - nem tanto assim de um dos guias, Carlos, sujeito seríssimo que perdia a paciência com as interrupções e intervenções sem noção de meu amigo, hehe.
Lembro muito dele quando ouço coisas sobre Aleppo. No último dia no México, ele falou que, se a situação melhorasse, visitaria seus parentes de lá. Não melhorou. Será que a família dele na Síria ainda está viva? Como está a situação dele na Venezuela? Toda a alegria de Munir não merece esse duplo bombardeio. Será que ele continua feliz? Tomara. Odiaria saber que, depois de uma vida que me pareceu tão bonita, meu amigo da van está sofrendo em sua velhice e não por culpa dele. Mundo, na boa, você está precisando melhorar.
sábado, 10 de dezembro de 2016
Quando o passado volta (e ele não é nada gatinho)
Há três dias, fiz a temida entrevista do mestrado da Facom. Eu nem deveria querer falar disso, mas há uma sabedoria por trás do episódio, então vamos lá (risos).
Depois de um susto com uma professora que saiu berrando da sala (por motivo justo até, mas a cena me deixou mais apavorada ainda), estava lá eu sozinha, sentada no banco à espera da minha vez, pensando que cazzo eu queria voltando pra Facom. Vi um professor que uma vez me disse algo negativo passando pelo corredor e, de repente, a bad vibe daquele lugar voltou à memória. Lembrei também de ter dito na cara de um professor da especialização, oriundo da Facom, ainda esse ano, que pretendia fazer mestrado, mas não na Facom, Deus que me livrasse disso. Então, lá estava eu, sentada, tensa de ter que ficar de frente pra aquele povo de novo, sendo avaliada, traumatizada pelo passado, sem saber direito se eu queria voltar pra ali ou não. Até regredi aos cinco anos de idade e mandei mensagem para um amigo que adoro, ansioso crônico, desabafando: "Véi, quando é que a gente vira adulto de verdade nessa vida e para de se apavorar?". Ele ainda se deu ao trabalho de responder: "Nunca. Relaxe, menina".
Então, chegou o moço que seria entrevistado depois de mim. Um doce de criatura, mas mal sabe ele que contribuiu pra meu mal estar quando disse que havia perdido a seleção ano passado justo na entrevista. Eu entrei, passei sufoco, achei que não fui bem, saí e avistei uma conhecida, que seria entrevistada depois do rapaz. Precisava desopilar a mente e resolvi puxar papo com ela.
Nos sentamos e uma terceira moça chegou. Concentradíssima, cara séria, de quem faz o que faz - jornalismo corporativo - enquanto nós duas, de gerações diferentes da Facom, falávamos sobre as mudanças dela. Por duas vezes, a moça pediu desculpas e nos interrompeu, dizendo que havia se identificado com as nossas histórias. Como mulher às vezes é um bicho graciosamente doido, acabamos trocando as três confidências. Eu me senti tão identificada com a experiência dela que tá difícil não chamá-la de Juliana, apesar de saber que o nome dela começa com uma das últimas letras do alfabeto. Foi aquela coisa, né: menina classe média baixa, mestiça, se mete na Facom, acha aquilo o inferno em vida, muita humilhação, mas pensa duas vezes porque já foi um feito e tanto chegar ali, segue em frente, quer sair o mais rápido possível dali, luta por cada oportunidade na vida profissional, cresce, mas, quando volta ao velho lugar de deslocamento, se sente indefesa de novo, novamente. Ela também estava se perguntando que cazzo fazia ali?
Bem, ao contrário de mim, ela se fez essa pergunta antes de entrar nessa barca. A análise dela, que vou levar pra vida, é que está voltando para o mesmo lugar, que pode, infelizmente, ainda continuar o mesmo lugar ruim, mas o caso é que ela mudou, evoluiu. E é nisso que pretende se segurar. Sim, que bom que a gente evolui (em alguns casos).
Depois de um susto com uma professora que saiu berrando da sala (por motivo justo até, mas a cena me deixou mais apavorada ainda), estava lá eu sozinha, sentada no banco à espera da minha vez, pensando que cazzo eu queria voltando pra Facom. Vi um professor que uma vez me disse algo negativo passando pelo corredor e, de repente, a bad vibe daquele lugar voltou à memória. Lembrei também de ter dito na cara de um professor da especialização, oriundo da Facom, ainda esse ano, que pretendia fazer mestrado, mas não na Facom, Deus que me livrasse disso. Então, lá estava eu, sentada, tensa de ter que ficar de frente pra aquele povo de novo, sendo avaliada, traumatizada pelo passado, sem saber direito se eu queria voltar pra ali ou não. Até regredi aos cinco anos de idade e mandei mensagem para um amigo que adoro, ansioso crônico, desabafando: "Véi, quando é que a gente vira adulto de verdade nessa vida e para de se apavorar?". Ele ainda se deu ao trabalho de responder: "Nunca. Relaxe, menina".
Então, chegou o moço que seria entrevistado depois de mim. Um doce de criatura, mas mal sabe ele que contribuiu pra meu mal estar quando disse que havia perdido a seleção ano passado justo na entrevista. Eu entrei, passei sufoco, achei que não fui bem, saí e avistei uma conhecida, que seria entrevistada depois do rapaz. Precisava desopilar a mente e resolvi puxar papo com ela.
Nos sentamos e uma terceira moça chegou. Concentradíssima, cara séria, de quem faz o que faz - jornalismo corporativo - enquanto nós duas, de gerações diferentes da Facom, falávamos sobre as mudanças dela. Por duas vezes, a moça pediu desculpas e nos interrompeu, dizendo que havia se identificado com as nossas histórias. Como mulher às vezes é um bicho graciosamente doido, acabamos trocando as três confidências. Eu me senti tão identificada com a experiência dela que tá difícil não chamá-la de Juliana, apesar de saber que o nome dela começa com uma das últimas letras do alfabeto. Foi aquela coisa, né: menina classe média baixa, mestiça, se mete na Facom, acha aquilo o inferno em vida, muita humilhação, mas pensa duas vezes porque já foi um feito e tanto chegar ali, segue em frente, quer sair o mais rápido possível dali, luta por cada oportunidade na vida profissional, cresce, mas, quando volta ao velho lugar de deslocamento, se sente indefesa de novo, novamente. Ela também estava se perguntando que cazzo fazia ali?
Bem, ao contrário de mim, ela se fez essa pergunta antes de entrar nessa barca. A análise dela, que vou levar pra vida, é que está voltando para o mesmo lugar, que pode, infelizmente, ainda continuar o mesmo lugar ruim, mas o caso é que ela mudou, evoluiu. E é nisso que pretende se segurar. Sim, que bom que a gente evolui (em alguns casos).
Decisão
Apesar de discordar aqui e acolá, eu gosto de ouvir as palestras de Medrado, da Cidade da Luz. Eu não devo ser lá muito inteligente pra vida, mas tento buscar orientação, rs.
Dia desses, ele palestrou sobre força de vontade. O argumento dele era muito bom - pelo menos eu penso assim, já que comprovei isso na prática esse ano: para ter força de vontade é preciso decidir.
Se você fica em dúvida, não vai conseguir ir em frente. Uma vez que você decide, a coisa anda. Pode até demorar a se concretizar, mas anda, se direciona.
Dois dias depois, li algo, no Insta, que achei interessante e dizia assim: "Equilíbrio é pensar com a emoção e sentir com a razão".
Para decidir, portanto, tem que haver um equilíbrio. Refletindo sobre algumas coisas que disse a uma amiga e que acredito que foram bons conselhos, me perguntei se o que eu disse foi oportuno. Sim, porque posso estar coberta de razão, mas se eu digo certas coisas a quem não está preparado pra digerir aquilo, em vez de ajudar, estou implantando mais elementos de angústia para a criatura. Melhor mesmo é deixar que cada um siga na sua, por mais que doa, às vezes, ver a pessoa indo ladeira abaixo. Vou procurar não ajudar quem não me busca. Essa é uma decisão e dificílima. Vamos ver se haverá força de vontade.
Dia desses, ele palestrou sobre força de vontade. O argumento dele era muito bom - pelo menos eu penso assim, já que comprovei isso na prática esse ano: para ter força de vontade é preciso decidir.
Se você fica em dúvida, não vai conseguir ir em frente. Uma vez que você decide, a coisa anda. Pode até demorar a se concretizar, mas anda, se direciona.
Dois dias depois, li algo, no Insta, que achei interessante e dizia assim: "Equilíbrio é pensar com a emoção e sentir com a razão".
Para decidir, portanto, tem que haver um equilíbrio. Refletindo sobre algumas coisas que disse a uma amiga e que acredito que foram bons conselhos, me perguntei se o que eu disse foi oportuno. Sim, porque posso estar coberta de razão, mas se eu digo certas coisas a quem não está preparado pra digerir aquilo, em vez de ajudar, estou implantando mais elementos de angústia para a criatura. Melhor mesmo é deixar que cada um siga na sua, por mais que doa, às vezes, ver a pessoa indo ladeira abaixo. Vou procurar não ajudar quem não me busca. Essa é uma decisão e dificílima. Vamos ver se haverá força de vontade.
Relacionamentos tóxicos
"E, se ninguém vos receber, nem escutar as vossas palavras, saindo daquela casa ou cidade, sacudi o pó de vossos pés."
(Mateus 10: 14)
Como escrevo com pouca frequência ultimamente, nem lembro direito o que já falei aqui esse ano.
Eu contei que, com muito tempo livre para pensar, passei por uma revisão interna e tentei zerar questões que ainda estavam pendentes? Pois é, pelo sim, pelo não, deixarei pra lá essa história. Apenas é importante dizer (ou relembrar) que foi um completo fracasso. Tomei na cara em todas as tentativas. Antes tivesse ficado quieta no meu canto. Mentira. Foi decepcionante, mas foi ótimo para derrubar ilusões e me dar a real, uns insights significantes: quando um não quer, dois não se dão bem. Melhor deixar ir quem não faz e nunca fez esforço pra ficar. A vida é assim mesmo, cíclica e o natural é que o que já foi próximo um dia se afaste. Ah, se eu tivesse essa consciência há dez anos, vinte anos... Não tinha perdido tanto tempo, não tinha sofrido tanto, não tinha me prestado a ser saco de pancada de gente egoísta, não teria dito tantas coisas que não (me) fizeram bem e que, pior, não resolveram nada.
Eu comecei a ter amor próprio. Então, mesmo que alguém goste muito de mim, se essa pessoa não me trata bem, eu não sou ruim por ir embora. Essa sempre foi a minha maior dificuldade de sair de relacionamentos tóxicos (é perverso o modo como as meninas são criadas, forçadas a passar sempre por cima de si mesmas para satisfazer os outros). Meu maior compromisso é me proteger. Amar não pode ficar só na teoria - sim, pra quem não sabe, afeto abandonado à míngua morre de fome. Não, não. E eu sou uma pessoa muito da prática. Acho até que minha dificuldade em sair de Salvador é essa: amor, pra mim, é presença e a distância afasta mesmo, a não ser que os dois lados tenham amor pra valer e força de vontade. Eu preciso de interação, interesse. Meu afeto não se satisfaz com gente calada, ausente, não dura na unilateralidade. "All I want is a little reaction...".
Vendo TV agora, Dr. Oz discute relacionamentos tóxicos. Mãe que humilha a filha gorda, o marido que sabe que a mulher está doente, mas não ajuda no tratamento... Um horror! Eu acho que de certas mágoas não dá pra se recuperar. Quer dizer, até dá, o que não dá pra recuperar é o relacionamento. Esse nunca mais será o mesmo. Enfim, amar e não falar a mesma língua é muitíssimo complicado. Tem que ter química, não tem jeito.
Curioso que ontem eu assisti um filme muito bonitinho e que tratava desse tema: "As vantagens de ser invisível". Em determinado momento, o protagonista, um menino fofo e inocente apaixonado pela personagem de Emma Watson, pergunta ao professor por que gente legal namora gente ruim. O mestre responde: "Cada um tem o amor que pensa merecer". Bingo!
Deus me ajude a pensar direito.
(Mateus 10: 14)
Como escrevo com pouca frequência ultimamente, nem lembro direito o que já falei aqui esse ano.
Eu contei que, com muito tempo livre para pensar, passei por uma revisão interna e tentei zerar questões que ainda estavam pendentes? Pois é, pelo sim, pelo não, deixarei pra lá essa história. Apenas é importante dizer (ou relembrar) que foi um completo fracasso. Tomei na cara em todas as tentativas. Antes tivesse ficado quieta no meu canto. Mentira. Foi decepcionante, mas foi ótimo para derrubar ilusões e me dar a real, uns insights significantes: quando um não quer, dois não se dão bem. Melhor deixar ir quem não faz e nunca fez esforço pra ficar. A vida é assim mesmo, cíclica e o natural é que o que já foi próximo um dia se afaste. Ah, se eu tivesse essa consciência há dez anos, vinte anos... Não tinha perdido tanto tempo, não tinha sofrido tanto, não tinha me prestado a ser saco de pancada de gente egoísta, não teria dito tantas coisas que não (me) fizeram bem e que, pior, não resolveram nada.
Eu comecei a ter amor próprio. Então, mesmo que alguém goste muito de mim, se essa pessoa não me trata bem, eu não sou ruim por ir embora. Essa sempre foi a minha maior dificuldade de sair de relacionamentos tóxicos (é perverso o modo como as meninas são criadas, forçadas a passar sempre por cima de si mesmas para satisfazer os outros). Meu maior compromisso é me proteger. Amar não pode ficar só na teoria - sim, pra quem não sabe, afeto abandonado à míngua morre de fome. Não, não. E eu sou uma pessoa muito da prática. Acho até que minha dificuldade em sair de Salvador é essa: amor, pra mim, é presença e a distância afasta mesmo, a não ser que os dois lados tenham amor pra valer e força de vontade. Eu preciso de interação, interesse. Meu afeto não se satisfaz com gente calada, ausente, não dura na unilateralidade. "All I want is a little reaction...".
Vendo TV agora, Dr. Oz discute relacionamentos tóxicos. Mãe que humilha a filha gorda, o marido que sabe que a mulher está doente, mas não ajuda no tratamento... Um horror! Eu acho que de certas mágoas não dá pra se recuperar. Quer dizer, até dá, o que não dá pra recuperar é o relacionamento. Esse nunca mais será o mesmo. Enfim, amar e não falar a mesma língua é muitíssimo complicado. Tem que ter química, não tem jeito.
Curioso que ontem eu assisti um filme muito bonitinho e que tratava desse tema: "As vantagens de ser invisível". Em determinado momento, o protagonista, um menino fofo e inocente apaixonado pela personagem de Emma Watson, pergunta ao professor por que gente legal namora gente ruim. O mestre responde: "Cada um tem o amor que pensa merecer". Bingo!
Deus me ajude a pensar direito.
domingo, 20 de novembro de 2016
Confusão mental
Recebemos tantas informações hoje em dia que, pelo menos eu, confesso, não sei mais de nada. Tanta gente saindo do armário, tantas coisas saindo das sombras, que fica difícil organizar o pensamento, ponderar, garantir que está dando conta de todas as nuances. Às vezes nem quero saber de mais nada, de tanta coisa que já pede a minha atenção, por mais que eu reconheça que é tudo muito legítimo e necessário. Eu quero sossego. Quero não ser invadida, por mais bacana que seja o exército invasor. Tempos modernos.
Então, acontece que em meio a informações e militâncias, deixamos escapar coisas graves. Deixa eu me fazer entender. Uma vez, Fernanda Montenegro disse que via muita gente com problemas emocionais e até mentais ingressando no teatro pra tentar esconder esses problemas, já que na arte "tudo pode".
A mesma coisa eu acho que acontece nas formas "alternativas" de sexualidade (na verdade, em todas as formas). Olhem essa matéria: http://revistamarieclaire.globo.com/Web/noticia/2015/12/homem-transgenero-abandona-familia-e-passa-viver-como-uma-menina-de-seis-anos-de-idade.html?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=post. O título diz: "Homem transgênero abandona família e passa a viver como uma menina de seis anos de idade". Não precisa ser psiquiatra pra saber que ele tem um problema psiquiátrico grave. Ele é um caso extremo, mas quando olho pra um Liniker, que tá todo mundo amando em alto grau, não vejo muito equilíbrio, não.
E é muito complicado falar disso, já que o movimento LGBTi historicamente luta para sair do estigma de doença, de perversão, que a sociedade cristã teima em lhe imputar. Então, essas questões vão sendo varridas para debaixo do tapete em nome de um bem maior. Será que isso vai dar problema? Olha, amigo, estamos em 2016 e eu não sei mais de nada.
A morte de Eduardo Martins
Faz três dias que eu soube da morte dele e uma pergunta não me sai da cabeça: como deve ser morrer? Confesso que isso meio que me apavora.
Eduardo foi meu colega em A TARDE. Colega mesmo, só saímos em pauta uma ou duas vezes, nunca tivemos muito contato. De longe, simpatizava com ele. Morreu jovem, 46 anos. Há uns dois, fiquei sabendo da doença. "Normal", já que meio mundo hoje em dia está tendo que lidar com o câncer. Muita gente, graças a Deus, sobrevive. Há cerca de um ano, o vi, magro pra caramba. Confesso que fiquei chocada, mas achava que era apenas uma fase ruim do tratamento. Ele morreu na quinta-feira. O que terá sentido? Ele teve tempo para digerir a ideia de que iria morrer? Pra onde foi?
Eu ando pensando muito no passado e no futuro. No que eu preciso fazer pra garantir uma boa experiência, se valeu a pena o que eu vivi até agora, que condições eu preciso pra envelhecer.
Vou te contar, nada de mais me aconteceu em 36 anos de vida: sem abuso sexual, sem fome, sem doenças, alguns bons amigos, dá pra comer pizza e comprar um livro, tudo na medida do razoável. Mas as dificuldades que atravessei pra chegar aonde cheguei, principalmente as relacionais-emocionais, me desgastaram muito, muito mesmo. O corpo está ok, mas a alma tá cansadíssima. Eu desconfio que muita gente, na mesma altura da vida que eu, também está cansada, mas como só sei mesmo de mim, confesso que já tá tudo muito repetitivo e desgastante até. Eu tô cansada de viver, mas não sei se quero morrer. Será que me mudar de Salvador resolveria? Não sei o que poderia melhorar isso. E não sei se isso acontecerá. A seguir cenas dos próximos capítulos.
Eduardo foi meu colega em A TARDE. Colega mesmo, só saímos em pauta uma ou duas vezes, nunca tivemos muito contato. De longe, simpatizava com ele. Morreu jovem, 46 anos. Há uns dois, fiquei sabendo da doença. "Normal", já que meio mundo hoje em dia está tendo que lidar com o câncer. Muita gente, graças a Deus, sobrevive. Há cerca de um ano, o vi, magro pra caramba. Confesso que fiquei chocada, mas achava que era apenas uma fase ruim do tratamento. Ele morreu na quinta-feira. O que terá sentido? Ele teve tempo para digerir a ideia de que iria morrer? Pra onde foi?
Eu ando pensando muito no passado e no futuro. No que eu preciso fazer pra garantir uma boa experiência, se valeu a pena o que eu vivi até agora, que condições eu preciso pra envelhecer.
Vou te contar, nada de mais me aconteceu em 36 anos de vida: sem abuso sexual, sem fome, sem doenças, alguns bons amigos, dá pra comer pizza e comprar um livro, tudo na medida do razoável. Mas as dificuldades que atravessei pra chegar aonde cheguei, principalmente as relacionais-emocionais, me desgastaram muito, muito mesmo. O corpo está ok, mas a alma tá cansadíssima. Eu desconfio que muita gente, na mesma altura da vida que eu, também está cansada, mas como só sei mesmo de mim, confesso que já tá tudo muito repetitivo e desgastante até. Eu tô cansada de viver, mas não sei se quero morrer. Será que me mudar de Salvador resolveria? Não sei o que poderia melhorar isso. E não sei se isso acontecerá. A seguir cenas dos próximos capítulos.
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
Os homens que não amavam as mulheres
Eu há muito tempo desenvolvi a convicção de que os homens héteros gostam de homens... héteros. Na verdade, ninguém gosta de mulher, embora todo mundo use e abuse delas, como fazem com a natureza (e somos natureza também porque damos a vida).
Eu sei: soa infantil, soa amargo. Mas, me explique, por que os homens preferem tanto a companhia de outros homens e se sentem rebaixados estando com a mulher? Qual é a grande dificuldade em assumir um relacionamento, de casar? Por que os "companheiros" nos matam tão facilmente? Por que nos desqualificam como quem bebe água? Por que os gays da moda matam o feminino no corpo feminino? Por que impõem um ideal de beleza inalcançável e doloroso? Por que o mercado de trabalho nos exige mais e nos paga 30% menos? Por que pagamos mais pelo que consumimos? Por que as mães são mais exigidas? Por que somos pessoas ruins apenas por questionar?
Nem as mulheres poupam outras mulheres. Não hesitamos em destilar julgamento, enquanto que para os homens somos só compreensão.
E seria tão fácil sair dessa. Bastaria apenas reconhecer no outro a dignidade que independe do sexo.
Eu sei: soa infantil, soa amargo. Mas, me explique, por que os homens preferem tanto a companhia de outros homens e se sentem rebaixados estando com a mulher? Qual é a grande dificuldade em assumir um relacionamento, de casar? Por que os "companheiros" nos matam tão facilmente? Por que nos desqualificam como quem bebe água? Por que os gays da moda matam o feminino no corpo feminino? Por que impõem um ideal de beleza inalcançável e doloroso? Por que o mercado de trabalho nos exige mais e nos paga 30% menos? Por que pagamos mais pelo que consumimos? Por que as mães são mais exigidas? Por que somos pessoas ruins apenas por questionar?
Nem as mulheres poupam outras mulheres. Não hesitamos em destilar julgamento, enquanto que para os homens somos só compreensão.
E seria tão fácil sair dessa. Bastaria apenas reconhecer no outro a dignidade que independe do sexo.
domingo, 13 de novembro de 2016
Café Society
Muita gente achou o último filme de Woody Allen aquém dos anteriores. Esse diretor, pra mim, é que nem chocolate: é bom mesmo quando não é o melhor. É um filme pra desiludir românticos. Avisei sobre isso a uma amiga que não está atravessando uma fase muito "auspiciosa" da vida amorosa.
Finalmente, ela o assistiu, mas não ficou batida com o final sem final; o que a incomodou foi que o casal não ficou junto. "Não ficamos com os amores das nossas vidas". Acho que não, também. Eles servem, na esmagadora maioria dos casos, como uma espécie de escola do amor. Mas a pessoa com quem você se casará dificilmente será a que mais lhe empolgou. Vai ser a pessoa mais adequada, na hora certa, aquela com quem conseguirá visualizar o dia a dia.
Fui pra casa pensando sobre o filme, sem ainda digeri-lo totalmente. Hoje, enfim, a ficha caiu. Além da questão dos encontros e desencontros, como diria o poetinha, e da aleatoriedade da vida, presente nos filmes do cineasta, o verdadeiro fator de desilusão em "Café Society" é jogar na nossa cara que as nossas escolhas amorosas são mais pragmáticas que românticas. Sonho bom é aquele que não se realiza, justamente porque poderá seguir sendo idealizado. Para o dia a dia, queremos quem mais nos convém. É dispensável explicar a escolha da personagem da Kristen Stewart (mulheres são mais pragmáticas que os homens, segundo o filme, porém, se considerarmos a época em que se desenrola, temos que levar em conta a vulnerabilidade da mulher na sociedade), mas, convenhamos, o de Jesse Eisenberg não precisava ter se casado, pelo menos não tão cedo. Ele não deixou escapar a mulher que lhe convinha muito bem, apesar de amar outra. Ninguém ali lutou por amor, certamente porque intuíam ou temiam que o sentimento especial que tinham poderia ir embora com a realidade. O que sentiam era fraco para fazê-los sair da zona de conforto e forte o suficiente para não ser esquecido. Tirando o cenário de glamour de Hollywood, quem já não viu esse filme?
Finalmente, ela o assistiu, mas não ficou batida com o final sem final; o que a incomodou foi que o casal não ficou junto. "Não ficamos com os amores das nossas vidas". Acho que não, também. Eles servem, na esmagadora maioria dos casos, como uma espécie de escola do amor. Mas a pessoa com quem você se casará dificilmente será a que mais lhe empolgou. Vai ser a pessoa mais adequada, na hora certa, aquela com quem conseguirá visualizar o dia a dia.
Fui pra casa pensando sobre o filme, sem ainda digeri-lo totalmente. Hoje, enfim, a ficha caiu. Além da questão dos encontros e desencontros, como diria o poetinha, e da aleatoriedade da vida, presente nos filmes do cineasta, o verdadeiro fator de desilusão em "Café Society" é jogar na nossa cara que as nossas escolhas amorosas são mais pragmáticas que românticas. Sonho bom é aquele que não se realiza, justamente porque poderá seguir sendo idealizado. Para o dia a dia, queremos quem mais nos convém. É dispensável explicar a escolha da personagem da Kristen Stewart (mulheres são mais pragmáticas que os homens, segundo o filme, porém, se considerarmos a época em que se desenrola, temos que levar em conta a vulnerabilidade da mulher na sociedade), mas, convenhamos, o de Jesse Eisenberg não precisava ter se casado, pelo menos não tão cedo. Ele não deixou escapar a mulher que lhe convinha muito bem, apesar de amar outra. Ninguém ali lutou por amor, certamente porque intuíam ou temiam que o sentimento especial que tinham poderia ir embora com a realidade. O que sentiam era fraco para fazê-los sair da zona de conforto e forte o suficiente para não ser esquecido. Tirando o cenário de glamour de Hollywood, quem já não viu esse filme?
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
Nem vou posar de vítima das circunstâncias...
Não vou posar, aliás isso que vou comentar aqui é quase um segredo de estado, pois me gera vergonha, ou melhor, mais que isso uma frustração profunda. Mas às vezes todo ser humano acaba sendo vítima das circunstâncias: do país onde nasce, da família que o recebeu, da época em que nasceu, do corpo que recebeu. É difícil essa tarefa de herói do dia a dia. Super Man tinha super poderes, eu não.
O meu corpo, que é bom no geral, me "presenteou" com uma falta de energia, que faz a minha "pilha" acabar muito rapidamente. Eu consigo um bom desempenho quando estou descansada, mas canso rápido. Um turno de atividades já me deixa esgotada. E daí tenho que conviver, depois disso, com um desempenho meia boca. O corpo não corresponde ao espírito, que tem muita energia. Estou sempre cansada e isso é frustrante. E ainda há o estigma...
O meu corpo, que é bom no geral, me "presenteou" com uma falta de energia, que faz a minha "pilha" acabar muito rapidamente. Eu consigo um bom desempenho quando estou descansada, mas canso rápido. Um turno de atividades já me deixa esgotada. E daí tenho que conviver, depois disso, com um desempenho meia boca. O corpo não corresponde ao espírito, que tem muita energia. Estou sempre cansada e isso é frustrante. E ainda há o estigma...
Ônibus 174
Vi o documentário só agora, 14 anos depois, para uma disciplina da pós. O cara, Sandro, era um pobre coitado, sozinho pra caramba, desde os seis anos por conta própria, traumatizado pela morte violenta da mãe e que, diante das câmeras, desempenhou o papel que aprendeu ser reservado a "gente como ele".
Eu sou uma versão mais rica de Sandro, nós temos muito em comum e, olha, pensando bem, ter tido mais dinheiro me livrou foi de coisa.
Tenho tendências inclusivas na política porque tenho pena, porque tenho remorso (sou essa parte da sociedade) e porque tenho consciência de que estamos aqui para tudo e não gostaria de pensar que, em casos extremos, algum sobrinho-neto, sobrinho-bisneto possa sofrer o mesmo que Sandro. Tem que haver um mínimo de amparo para todos. Isso não é nem ser bom samaritano, porque não me acho tão nobre assim; é ser inteligente.
Eu sou uma versão mais rica de Sandro, nós temos muito em comum e, olha, pensando bem, ter tido mais dinheiro me livrou foi de coisa.
Tenho tendências inclusivas na política porque tenho pena, porque tenho remorso (sou essa parte da sociedade) e porque tenho consciência de que estamos aqui para tudo e não gostaria de pensar que, em casos extremos, algum sobrinho-neto, sobrinho-bisneto possa sofrer o mesmo que Sandro. Tem que haver um mínimo de amparo para todos. Isso não é nem ser bom samaritano, porque não me acho tão nobre assim; é ser inteligente.
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Olhando pelo retrovisor
Se tem algo positivo nesse momento político que estamos vivendo é a possibilidade de repensar antigas certezas e atitudes. Quanta coisa, hoje, o PT está vivendo e quis impor aos seus adversários políticos (não podemos comparar, lógico, o poder para esse tipo de manobra que direita e esquerda possuem)? Quantas atitudes equivocadas ou violentas? Mas a gente só tem noção disso vendo a coisa vindo contra o partido que a gente discorda menos ("preferir" ou "gostar" são verbos muitos fortes para os tempos atuais no país), até porque, mesmo sendo vítima de exageros da esquerda, a direita sempre foi canalha, portanto se os meios foram questionáveis, os fins, sem dúvida, eram legítimos.
Às vezes eu mesma duvido de minhas convicções sobre Lava-Jato, PT e etc. Mas uma certeza não cai, infelizmente, porque isso me gera raiva e frustração: quem está do lado CBF da força não quer um projeto de inclusão. Portanto, sinto muito, não dá pra ficar do lado dessa gente. Canalhice tem limites.
Às vezes eu mesma duvido de minhas convicções sobre Lava-Jato, PT e etc. Mas uma certeza não cai, infelizmente, porque isso me gera raiva e frustração: quem está do lado CBF da força não quer um projeto de inclusão. Portanto, sinto muito, não dá pra ficar do lado dessa gente. Canalhice tem limites.
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
Parceria forte na vida
Estou assistindo agora, na televisão, um documentário sobre a trajetória de Hillary Clinton. Todo mundo sabe o que ela passou no casamento, sendo publicamente vista como a esposa traída do presidente, e não se separou. A biografia deixa bem claro que ali há amor: não do tipo romântico, eu acredito, e há "amor ao poder", que a gente bem sabe, mas o que existe ali é admiração mútua. Quando é assim, é difícil deixar para trás. Porque ela ganharia moral com o público se o deixasse, mas preferiu mantê-lo por perto. Rola uma certa sapiossexualidade ali, de fato. Grande encontro, sem dúvida. Invejei.
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Aquarius
Ontem finalmente assisti "Aquarius". Gostei! Kleber Mendonça Filho está fazendo o que imagino que será uma trilogia interessante sobre a classe média. Diz um amigo meu que, na verdade, se trata de um movimento do cinema pernambucano esse de colocar um olhar crítico em cima da classe média, essa Blue Jasmine do Brasil.
Quem lê isso aqui já viu o filme, imagino, portanto não vale a pena resumir a história. Ao contrário do primeiro filme do diretor, "O Som ao Redor", "Aquarius" não fala da violência da classe média no trato com a classe pobre (embora pincele esse assunto, como comentarei a seguir), mas avisa à classe média que ao contrário do que ela imagina não é o pobre - a quem também maltrata - que a ameaça, mas o grande capital, personificado, na história, na empreiteira Bonfim, que foi claramente inspirada na pernambucana Moura Dubeux, autora do projeto de "requalificação" do cais da cidade de Recife. São aqueles que a classe média considera "homens de bem", que são seus modelos de sucesso, que podem realmente destruí-la. Um amigo ficou muito incomodado com essa abordagem centrada na classe média (o que faz o filme, por vezes, lembrar as novelas de Manoel Carlos, embora, claro, contenha um nível de crítica a esse estilo de vida que o homem do Leblon nunca seria capaz de ter). Mas Mendonça Filho fez filmes conectados com as urgências de suas épocas. "O Som ao Redor", como foi dito, discute a violência da classe média, em um momento do Brasil em que claramente essa esfera da sociedade se encontrava incomodada com a ascensão dos mais pobres. Mas agora o que está em jogo é a tomada do país pelo "andar de cima" sem que uma parte considerável da classe média se dê conta - pelo contrário, essa gente ainda acha que isso faz o país andar para frente e que tem algum poder de decisão quando não o tem de fato.
Desconstruindo Clara
Mas meu amigo tem razão de estar chateado. A classe média, mesmo a mais "engajada", provavelmente sai do cinema achando que Clara é uma heroína, quando na verdade ela é uma pessoa iludida. Sim, ela se importa em agir bem, com integridade, mas o comportamento dela apresenta falhas que são as de todos nós, na verdade, e por isso acho que será difícil que a maioria dos espectadores se dê conta do que está sendo criticado ali, a hipocrisia diária da sua classe social, a ilusão dela de que apita nesse jogo produzida por uma vida desfrutada em uma redoma.
Para começar, a personagem de Sônia Braga é uma pessoa que tem direito à subjetividade, ao contrário da sua empregada, que tem a mesma idade e sofreu uma grande dor, a morte do filho, mas precisa continuar trabalhando, seguindo em frente como se nada tivesse acontecido, sem direito a banho de mar e yoga pra relaxar. Clara lida com a "solidão com vista pro mar". A empregada lida com as asperezas do dia a dia, como a violência no trânsito que vitimou seu único filho e a necessidade diária de lutar pela sobrevivência.
Clara e sua geração de amigas, todas mulheres muito bem sucedidas, têm a independência bancada por essas mulheres da classe baixa. A patroa vive uma falsa aproximação com a empregada, que só acontece segundo a vontade da primeira. Ela é, como os melhores exemplares de nós, pessoas de classe média, gentil: leva bolo pro porteiro, frequenta a festa na casa da empregada. Mas quando é, mesmo, que as duas almoçam juntas na mesa, com a família da patroa? Isso tudo que a gente faz, no máximo, traduz educação, mas nunca inclusão. Nada mais hipócrita do que dizer que os empregados são "da família".
Apesar de muito gentil, a jornalista, em determinado momento do filme, mostra rancor de uma ex-empregada, que furtou joias de sua família. É maravilhosa a intervenção da cunhada: "É, a gente explora elas e elas roubam a gente", lembrando que o abuso é bilateral. É representativo, aliás, que ao ter uma intuição de que está em perigo, isso aconteça através de um sonho com essa ex-empregada, que ao roubar as joias dela a avisa que está sangrando. A doméstica, na mente de Clara, representa sua ideia de ameaça e é justamente ela que resume o recado deixado pelo diretor. O aviso dado por ela no sonho de Clara é como se ela quisesse dizer: "Eu não sou uma ameaça para você, como imagina. A ameaça não vem "de baixo", como você pensa, "mas de cima", de gente que está te sangrando sem que você perceba".
Clara, como boa parte da sua classe, age o filme inteiro partindo do pressuposto de que "tem direitos", ignorando o porte do seu inimigo na história: a empreiteira, importante anunciante da imprensa local e detentora de um robusto departamento jurídico. A personagem age baseada numa ilusão. A meu ver, os verdadeiros heróis são os dois ex-funcionários da empreiteira, que se arriscam para fazer o que é certo - aqueles dois, sim, sabiam o que estava acontecendo.
Dinheiro e Medo
"Aquarius" fala de uma classe média que só é movida por duas coisas: medo e dinheiro. Qualquer coisa que não tenha cunho pragmático é rechaçada por essas pessoas. Quem cultiva ideais, quem pensa diferente, ganha o rótulo de louco.
Todos os personagens ao redor de Clara, da filha dela ao filho do vizinho, só sabem abordar a venda do apartamento por esses dois ângulos. Ninguém se atreve a abrir um terceiro, mais humano: é onde ela, uma senhora de meia idade, ainda se sente acolhida e construiu a vida dela. Os afetos, o eu, também importam, mas quase todo mundo ao redor da personagem parece desconhecer isso.
O conhecimento tão pouco tem valor. Durante a discussão com a filha, Clara é lembrada de que não contribuiu para o patrimônio da família, que sua atividade intelectual de jornalista e escritora não rende dinheiro. O grande legado dos pais, para a filha da protagonista, foram os cinco apartamentos. A produção cultural da mãe não lhe diz nada.
Minorias
Nessa cena, a filha também joga na cara de Clara sua ausência por dois anos (coisa que certamente ela não faria caso tivesse ocorrido com o pai), mostrando a cobrança que se tem em cima do papel da mãe. A própria filha cria o filho praticamente sozinha após a separação e evidencia, em uma de suas falas, que o pai se ausentou da vida do filho desde então. Mas nem isso a faz ser solidária à mãe, enquanto mulheres. Outro diálogo com os filhos, dessa vez com o filho gay, toca nessa questão das minorias: ela, enquanto mulher e idosa, pede a ele, que sabe o que é ser julgado por ser diferente, a compreenda, que não a considere uma louca por pensar diferente da maioria.
Clara, sua beleza, sua idade e seu mutilamento proveniente de um câncer levantam questões sobre o ser mulher em uma sociedade machista, na qual é sempre vista como objeto, como corpo. Ela é uma mulher bem cuidada e por isso ainda atrai olhares, mas mesmo quando se relaciona com um homem equivalente em idade, status social e status civil, pode ser descartada por não ter um dos seios inteiros. Ela range os dentes, em outra sequência, quando é elogiada pelo ex-trabalhador da construtora, que ressalta a sua beleza, numa mistura de incômodo pela invasão e de medo, porque afinal trata-se de um homem bêbado e qualquer mulher sabe a ameaça que isso significa.
Em diversos momentos, inclusive ao falar de tia Laura, mulher que nasceu no início do século 20, o diretor nos lembra de que idosos e idosas já tiveram uma vida sexual ativa, que já amaram e ainda pensam e querem isso. A geração de Laura não tinha acesso a "liberdades" como o sexo pago na terceira idade, coisa já possível para a geração de idosas de Clara, na qual algumas mulheres, inclusive, já lidam bem com isso, pois são, inclusive, economicamente independentes, profissionais capazes, enfim, sujeitos de fato. Por esse prisma, o filme é um bálsamo por retirar um pouco do peso da velhice, etapa dos medos (da solidão, da pobreza, da doença, do preconceito), de quem está concluindo a primeira fase da vida e se despedindo da juventude, como eu, mostrando que ainda pode haver pulso de vida em qualquer etapa dela.
Por último, mas não menos importante, uma personagem aparece amamentando o bebê dela durante uma boa parte do filme, numa evidente defesa da liberdade de exposição do seio que, ao contrário do que prega a nossa cultura, não é só um objeto erótico, mas algo que serve para nutrir e que portanto é natural.
Mas tudo isso só será visível ao entendedores, aos já integrados a esse discurso. Para a maioria, "Aquarius" vai parecer apenas o filme de uma senhora que teima em não sair de sua casa.
Quem lê isso aqui já viu o filme, imagino, portanto não vale a pena resumir a história. Ao contrário do primeiro filme do diretor, "O Som ao Redor", "Aquarius" não fala da violência da classe média no trato com a classe pobre (embora pincele esse assunto, como comentarei a seguir), mas avisa à classe média que ao contrário do que ela imagina não é o pobre - a quem também maltrata - que a ameaça, mas o grande capital, personificado, na história, na empreiteira Bonfim, que foi claramente inspirada na pernambucana Moura Dubeux, autora do projeto de "requalificação" do cais da cidade de Recife. São aqueles que a classe média considera "homens de bem", que são seus modelos de sucesso, que podem realmente destruí-la. Um amigo ficou muito incomodado com essa abordagem centrada na classe média (o que faz o filme, por vezes, lembrar as novelas de Manoel Carlos, embora, claro, contenha um nível de crítica a esse estilo de vida que o homem do Leblon nunca seria capaz de ter). Mas Mendonça Filho fez filmes conectados com as urgências de suas épocas. "O Som ao Redor", como foi dito, discute a violência da classe média, em um momento do Brasil em que claramente essa esfera da sociedade se encontrava incomodada com a ascensão dos mais pobres. Mas agora o que está em jogo é a tomada do país pelo "andar de cima" sem que uma parte considerável da classe média se dê conta - pelo contrário, essa gente ainda acha que isso faz o país andar para frente e que tem algum poder de decisão quando não o tem de fato.
Desconstruindo Clara
Mas meu amigo tem razão de estar chateado. A classe média, mesmo a mais "engajada", provavelmente sai do cinema achando que Clara é uma heroína, quando na verdade ela é uma pessoa iludida. Sim, ela se importa em agir bem, com integridade, mas o comportamento dela apresenta falhas que são as de todos nós, na verdade, e por isso acho que será difícil que a maioria dos espectadores se dê conta do que está sendo criticado ali, a hipocrisia diária da sua classe social, a ilusão dela de que apita nesse jogo produzida por uma vida desfrutada em uma redoma.
Para começar, a personagem de Sônia Braga é uma pessoa que tem direito à subjetividade, ao contrário da sua empregada, que tem a mesma idade e sofreu uma grande dor, a morte do filho, mas precisa continuar trabalhando, seguindo em frente como se nada tivesse acontecido, sem direito a banho de mar e yoga pra relaxar. Clara lida com a "solidão com vista pro mar". A empregada lida com as asperezas do dia a dia, como a violência no trânsito que vitimou seu único filho e a necessidade diária de lutar pela sobrevivência.
Clara e sua geração de amigas, todas mulheres muito bem sucedidas, têm a independência bancada por essas mulheres da classe baixa. A patroa vive uma falsa aproximação com a empregada, que só acontece segundo a vontade da primeira. Ela é, como os melhores exemplares de nós, pessoas de classe média, gentil: leva bolo pro porteiro, frequenta a festa na casa da empregada. Mas quando é, mesmo, que as duas almoçam juntas na mesa, com a família da patroa? Isso tudo que a gente faz, no máximo, traduz educação, mas nunca inclusão. Nada mais hipócrita do que dizer que os empregados são "da família".
Apesar de muito gentil, a jornalista, em determinado momento do filme, mostra rancor de uma ex-empregada, que furtou joias de sua família. É maravilhosa a intervenção da cunhada: "É, a gente explora elas e elas roubam a gente", lembrando que o abuso é bilateral. É representativo, aliás, que ao ter uma intuição de que está em perigo, isso aconteça através de um sonho com essa ex-empregada, que ao roubar as joias dela a avisa que está sangrando. A doméstica, na mente de Clara, representa sua ideia de ameaça e é justamente ela que resume o recado deixado pelo diretor. O aviso dado por ela no sonho de Clara é como se ela quisesse dizer: "Eu não sou uma ameaça para você, como imagina. A ameaça não vem "de baixo", como você pensa, "mas de cima", de gente que está te sangrando sem que você perceba".
Clara, como boa parte da sua classe, age o filme inteiro partindo do pressuposto de que "tem direitos", ignorando o porte do seu inimigo na história: a empreiteira, importante anunciante da imprensa local e detentora de um robusto departamento jurídico. A personagem age baseada numa ilusão. A meu ver, os verdadeiros heróis são os dois ex-funcionários da empreiteira, que se arriscam para fazer o que é certo - aqueles dois, sim, sabiam o que estava acontecendo.
Dinheiro e Medo
"Aquarius" fala de uma classe média que só é movida por duas coisas: medo e dinheiro. Qualquer coisa que não tenha cunho pragmático é rechaçada por essas pessoas. Quem cultiva ideais, quem pensa diferente, ganha o rótulo de louco.
Todos os personagens ao redor de Clara, da filha dela ao filho do vizinho, só sabem abordar a venda do apartamento por esses dois ângulos. Ninguém se atreve a abrir um terceiro, mais humano: é onde ela, uma senhora de meia idade, ainda se sente acolhida e construiu a vida dela. Os afetos, o eu, também importam, mas quase todo mundo ao redor da personagem parece desconhecer isso.
O conhecimento tão pouco tem valor. Durante a discussão com a filha, Clara é lembrada de que não contribuiu para o patrimônio da família, que sua atividade intelectual de jornalista e escritora não rende dinheiro. O grande legado dos pais, para a filha da protagonista, foram os cinco apartamentos. A produção cultural da mãe não lhe diz nada.
Minorias
Nessa cena, a filha também joga na cara de Clara sua ausência por dois anos (coisa que certamente ela não faria caso tivesse ocorrido com o pai), mostrando a cobrança que se tem em cima do papel da mãe. A própria filha cria o filho praticamente sozinha após a separação e evidencia, em uma de suas falas, que o pai se ausentou da vida do filho desde então. Mas nem isso a faz ser solidária à mãe, enquanto mulheres. Outro diálogo com os filhos, dessa vez com o filho gay, toca nessa questão das minorias: ela, enquanto mulher e idosa, pede a ele, que sabe o que é ser julgado por ser diferente, a compreenda, que não a considere uma louca por pensar diferente da maioria.
Clara, sua beleza, sua idade e seu mutilamento proveniente de um câncer levantam questões sobre o ser mulher em uma sociedade machista, na qual é sempre vista como objeto, como corpo. Ela é uma mulher bem cuidada e por isso ainda atrai olhares, mas mesmo quando se relaciona com um homem equivalente em idade, status social e status civil, pode ser descartada por não ter um dos seios inteiros. Ela range os dentes, em outra sequência, quando é elogiada pelo ex-trabalhador da construtora, que ressalta a sua beleza, numa mistura de incômodo pela invasão e de medo, porque afinal trata-se de um homem bêbado e qualquer mulher sabe a ameaça que isso significa.
Em diversos momentos, inclusive ao falar de tia Laura, mulher que nasceu no início do século 20, o diretor nos lembra de que idosos e idosas já tiveram uma vida sexual ativa, que já amaram e ainda pensam e querem isso. A geração de Laura não tinha acesso a "liberdades" como o sexo pago na terceira idade, coisa já possível para a geração de idosas de Clara, na qual algumas mulheres, inclusive, já lidam bem com isso, pois são, inclusive, economicamente independentes, profissionais capazes, enfim, sujeitos de fato. Por esse prisma, o filme é um bálsamo por retirar um pouco do peso da velhice, etapa dos medos (da solidão, da pobreza, da doença, do preconceito), de quem está concluindo a primeira fase da vida e se despedindo da juventude, como eu, mostrando que ainda pode haver pulso de vida em qualquer etapa dela.
Por último, mas não menos importante, uma personagem aparece amamentando o bebê dela durante uma boa parte do filme, numa evidente defesa da liberdade de exposição do seio que, ao contrário do que prega a nossa cultura, não é só um objeto erótico, mas algo que serve para nutrir e que portanto é natural.
Mas tudo isso só será visível ao entendedores, aos já integrados a esse discurso. Para a maioria, "Aquarius" vai parecer apenas o filme de uma senhora que teima em não sair de sua casa.
terça-feira, 13 de setembro de 2016
Meus amigos gays arruinaram minha vida amorosa
Ok, eu sou lerda, eu idealizo, eu tenho um karma amoroso, mas a culpa não é só minha. Meus amigos gays também têm culpa no cartório. Por causa deles, eu quero um homem que goste de mulher, que seja meu amigo. O que vejo, na maioria das vezes, é que os homens heteros são amigos apenas de outros homens heteros. As mulheres ficam apenas com o desejo, que deriva de uma certa ideia de inferioridade.
Perto dos meus amigos gays, os homens heteros perdem a graça. Eles são bem humorados, eles são cultos, eles nos escutam, eles são mais humanos. Se permitem com mais facilidade serem humanos. Atacados, reconhecem esse lado que é abafado na criação dos meninos heterossexuais, inegavelmente.
Os homens gays chegam mais facilmente uns nos outros. É um mundo mais carente, diz uma amiga minha, não exatamente mais apaixonado. Penso que ao menos eles se arriscam mais: se entregam, se dão mal e se curam, seguem em frente. Eles não tratam seus namorados como uma posse, como se eles estivessem sempre prontos a trair. Cenas de ciúmes são raras. Eles não têm preconceito com os filmes de Almodóvar, muito pelo contrário. Homem hétero não vai pro cinema ver Almodóvar. E os gays ainda sabem cozinhar.
Não que todos sejam assim. Há gays de baixo nível, que só sabem falar de cu e pica, aliás, como vários homens que enxergam no sexo apenas o toque das genitálias. Os que eu conheço não são assim. Queria ao menos ver um nicho hétero que também fosse assim. Até agora, não tenho tido muita sorte.
Perto dos meus amigos gays, os homens heteros perdem a graça. Eles são bem humorados, eles são cultos, eles nos escutam, eles são mais humanos. Se permitem com mais facilidade serem humanos. Atacados, reconhecem esse lado que é abafado na criação dos meninos heterossexuais, inegavelmente.
Os homens gays chegam mais facilmente uns nos outros. É um mundo mais carente, diz uma amiga minha, não exatamente mais apaixonado. Penso que ao menos eles se arriscam mais: se entregam, se dão mal e se curam, seguem em frente. Eles não tratam seus namorados como uma posse, como se eles estivessem sempre prontos a trair. Cenas de ciúmes são raras. Eles não têm preconceito com os filmes de Almodóvar, muito pelo contrário. Homem hétero não vai pro cinema ver Almodóvar. E os gays ainda sabem cozinhar.
Não que todos sejam assim. Há gays de baixo nível, que só sabem falar de cu e pica, aliás, como vários homens que enxergam no sexo apenas o toque das genitálias. Os que eu conheço não são assim. Queria ao menos ver um nicho hétero que também fosse assim. Até agora, não tenho tido muita sorte.
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
Uma questão de proporção
Primeiramente, fora Temer!!!
Segundamente, leiam esse texto da Juliana Cunha:
http://contente.vc/blog/a-internet-que-a-gente-quer-juliana-cunha/
Terceiramente, vejam essa palestra do TED Talks, "Como um tuíte pode arruinar a sua vida": https://www.youtube.com/watch?v=wAIP6fI0NAI&feature=share
Segundamente, leiam esse texto da Juliana Cunha:
http://contente.vc/blog/a-internet-que-a-gente-quer-juliana-cunha/
Terceiramente, vejam essa palestra do TED Talks, "Como um tuíte pode arruinar a sua vida": https://www.youtube.com/watch?v=wAIP6fI0NAI&feature=share
Visto tudo isso, acho que podemos falar sobre as reações desproporcionais diante de postagens nas redes sociais. Hoje, Juliana Cunha (a blogueira) enfrentou toda a fúria de algumas meninas do movimento feminista negro contra um post dela em que dizia ser ridículo dar tanto peso e profundidade à traição do Usain Bolt. Não dá pra reproduzir aqui o que Juliana disse porque eu acho que a coisa foi tão longe que ela o apagou. As moças argumentaram que o que ele fez feriu sua companheira, uma mulher negra, que o homem negro maltrata a mulher negra e isso tudo é a confluência de machismo e racismo em nossa sociedade e por aí foi a discussão.
Eu cheguei a um nível tal com essas discussões ideológicas nas redes sociais, que eu já simplifico assumindo que tá todo mundo certo - na maioria das vezes é por aí. Nesse caso mesmo, acho que as meninas têm razão quando pontuam que atitudes individuais também são políticas. Mas concordo com Juliana quando afirma que dar uma grande dimensão a uma traição beira o ridículo. Eu, do meu ponto de vista, acho que a medida certa seria problematizar o comportamento do atleta mas sem demonizá-lo. Trair a namorada não é o mesmo que estuprar criancinhas, então não reaja como se fosse a pior coisa do mundo... E é aí que eu acho que o caldo entorna: geralmente esse tipo de fúria tem mais a ver com uma catarse pessoal de quem brada do que com visões meramente políticas/ideológicas. Eu bem entendo essas dores, acredite, mas vamos combinar que o mundo não tem que pagar por danos individuais. (Eu já contei aqui do dia em que me acabei de chorar por causa de uma informação que recebi sobre uma amiga, da minha idade, que enfrentava um câncer metastático? Pois bem, eu, que não choro, me acabei em lágrimas, tanto que fiquei preocupada em como chegaria no trabalho. Por mais que eu goste dela, não foi só por ela que chorei: sofri ao constatar a minha própria vulnerabilidade e mortalidade. Se a morte está para ela, também está para mim, entende?)
Quando tudo é importante, nada se torna importante. As discussões ideológicas estão perdendo o senso de proporcionalidade. E o pior, como as reações são de galera, periga quem exagera nunca descobrir que está agindo como insano, além do que qualquer senso de justiça "autorizaria". Sim, porque o que é certo, se passar do ponto, vira errado. Torna-se uma violência ao próximo até pior. E, afinal, não é por isso que estamos brigando? Por respeito e justiça?
A palestra que indiquei mais acima fala exatamente disso, de como estamos utilizando deslizes de pessoas comuns, que poderiam ser nossos vizinhos ou inclusive nós mesmos, para despejarmos a nossa fúria. Acontece que essas pessoas têm as vidas destruídas. E são pessoas, antes de tudo e boas pessoas, em boa parte dos casos. É importante lembrar que gente legal, decente, também faz coisas idiotas, equivocadas. Vale destacar que o politicamente correto é uma meta e não uma espécie de palmatória; vai levar tempo até todo mundo internalizá-lo. É importante lembrar que a verdade tem vários lados. É crucial dar a devida proporção às coisas. Não há sustentabilidade para uma vida à flor da pele. Olho por olho e vamos acabar realmente cegos, como diz o chavão.
quarta-feira, 24 de agosto de 2016
A vida é tão rara
Quem me conhece mais intimamente sabe que meu "medo de estimação" é da pobreza. Enfim, pelo meu histórico familiar, por ter tido um pai que nos tratava como gado, sem qualquer apoio ao nosso crescimento ou respeito às nossas subjetividades, sempre soube que dinheiro é liberdade. Não tê-lo é estar nas mãos dos outros, dependendo da bondade de estranhos, como disse Blanche, ou pior, de conhecidos que podem te humilhar muito por causa disso. Não quero. Só vou descansar em paz quando atingir a minha tão sonhada estabilidade financeira.
Mas, durante essa jornada, descobri que há um medo que devemos ter: a falta de paixão. Por trás de todas as histórias de gente excepcional há ela. Mandela não aguentou 27 anos na prisão à toa. Nossos atletas, de origem bem pobre, não chegaram às medalhas olímpicas à toa. Eu só quero que meus sobrinhos tenham ética e uma paixão, que sejam movidos por alguma coisa nessa vida, nem que seja um time de futebol ou tocar violão.
Eu, aos poucos, estou tentando aflorar as minhas.
Mas, durante essa jornada, descobri que há um medo que devemos ter: a falta de paixão. Por trás de todas as histórias de gente excepcional há ela. Mandela não aguentou 27 anos na prisão à toa. Nossos atletas, de origem bem pobre, não chegaram às medalhas olímpicas à toa. Eu só quero que meus sobrinhos tenham ética e uma paixão, que sejam movidos por alguma coisa nessa vida, nem que seja um time de futebol ou tocar violão.
Eu, aos poucos, estou tentando aflorar as minhas.
domingo, 21 de agosto de 2016
The way you make me feel...
Não importa as qualidades de uma pessoa, importa como ela faz você se sentir. Se ela desperta o melhor em você, tá valendo. Se não, manda vazar.
Esse pensamento é da Marta, ela mesma, a cronista, que mais uma vez conseguiu resumir o que eu sentia e não conseguia entender.
É tão simples... Como não pensei isso antes? Já me torturei muito na vida temendo estar sendo injusta ao querer me sair de gente que não me fazia bem, que não me tratava bem, apesar do afeto, apesar das qualidades da pessoa. É isso: qualidades e defeitos todos terão. Temos que selecionar, pra perto, aqueles que despertam o melhor de nós. Não há tempo para perder com quem só te joga para baixo. Não mesmo. Hoje eu vejo isso.
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
Aleatória, ridícula e, às vezes, maravilhosa
Assim é a vida, segundo Woody Allen e Nelson Rodrigues, dois pessimistas românticos que o mundo da cultura nos apresentou.
Somos risíveis vistos de perto. E somos porque, basicamente, tentamos o tempo todo controlar o incontrolável, às vezes brincando de Deus, em outras completamente desesperados. Mas apesar de todo esse caos, de vez em quando as coisas dão certo pra gente, ainda que não faça sentido algum o caminho percorrido.
Allen e Rodrigues são donos de uma lucidez incomum. Quando se chega a esse nível de percepção da vida, só o amor - e na maioria das vezes o humor - salva.
Somos risíveis vistos de perto. E somos porque, basicamente, tentamos o tempo todo controlar o incontrolável, às vezes brincando de Deus, em outras completamente desesperados. Mas apesar de todo esse caos, de vez em quando as coisas dão certo pra gente, ainda que não faça sentido algum o caminho percorrido.
Allen e Rodrigues são donos de uma lucidez incomum. Quando se chega a esse nível de percepção da vida, só o amor - e na maioria das vezes o humor - salva.
Mixed emotions
"Se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba."
Hermann Hesse
Ontem fui para mais um "O Terapeuta Responde" no teatro. Pelo visto, o programa de rádio babou, mas as falas de Jordan, pra mim, ontem, foram super úteis, como não haviam sido antes. Quem quiser saber o que ele disse, que me tocou tanto, que me pergunte; não vou contar. :P
Jordan tem um timing muito bom, um carisma indiscutível, mas uma coisa que me irrita - e todo mundo faz igual - é a mania de responder uma perguntar de fundo emocional com algo muito intelectual, racional. Se eu pergunto como esquecer o meu ex, mesmo sabendo que ele me sacaneou, eu não quero ouvir chavões do tipo "tenha amor próprio", porque isso eu já sei. Eu quero saber como trabalhar meu sentimento, ora.
Ele chamou as alunas do seu curso de formação de terapeutas para responder a algumas questões da plateia. Uma delas pedia orientação para lidar com a dor. Por coincidência, a aluna incumbida de responder isso estava lidando com uma dor profunda, proveniente da perda da mãe. Não conseguiu responder bem, disse aquele clichê de que "isso faz parte da vida". Sim, é metade da resposta. Todo mundo sofre, realmente, embora uma vida de Instagram e Facebook faça parecer que não (outro dia, olhando minha conta no Insta, senti inveja de mim mesma e amei meu ano!). Primeiro passo: dá pra fazer algo a respeito? Se sim, mãos à obra, ainda que devagar, porém posicionando-se naquela direção desejada. Se não houver o que fazer, é (chorar) aceitar e aprender. A morte é uma coisa mais complicada de lidar. É o máximo exercício da aceitação; é tentar enfiar na cabeça que tudo tem um início, meio e fim, inclusive a gente mesmo, e nada pode durar para sempre, só o que nunca foi vivo. De resto, é tentar se alegrar com as pequenas felicidades que a vida nos dá e tentar honrar o legado de quem se foi.
Às vezes é isso mesmo, é preciso se vergar para não quebrar, esperando que um dia as faltas diminuam de intensidade, te deixem respirar, viver melhor.
A perda de um emprego ou o término de uma relação amorosa às vezes demanda um mergulho mais profundo e sincero na própria alma. Tudo bem que a gente passa mais tempo no trabalho que em casa, a depender do job, e que namorar é "morar na...", mas se, passado o "tempo regulamentar", a gente não consegue superar, é porque essa perda ativou algum complexo. Tá vendo a frase lá em cima, do Hesse? Pois é, é hora de se perguntar como essa dor, como esse outro que a "provocou", faz parte da gente. O ex não te considera e mesmo assim você continua parada na dele? Será que vocês não estão unidos pelo ato comum de te desprezar e dar pouco valor? Será que o chefe autoritário te desperta ódio porque lembra, por exemplo, o seu pai? Enfim, o outro é uma oportunidade de revisão de como nos colocamos no mundo e de que assuntos precisamos cuidar para seguir bem.
Portanto, saber que precisa se amar pode ser altamente insuficiente para responder a quem sofre uma rejeição, uma perda. É preciso investigar a origem desse desamor, entender o que você vê na atitude do outro que tem a ver com o que você faz a si mesma, elaborar uma listinha das próprias qualidades e, então, se ver com uma lente mais realista, mais amorosa. A gente nunca vai saber o que se passa na cabeça dos outros, mas podemos ver o que anda circulando sorrateiramente na nossa... Enfim, acho que não se resolve um imbróglio desse por decreto, né, gente? "Vá pra casa e acorde se amando". Ah, para. Meu conselho seria: "Vá para casa e investigue suas crenças erradas e os traumas que as sustentam, quais situações precisava enfrentar, mas não enfrentou, te fazendo carregar uma caveira de burro vida afora".
Uma amiga minha não é linda de morrer, mas é bonita e muito articulada - simpática, inteligente, engraçada. Uma figura certamente apaixonante, eu diria. Pois bem, ela não consegue parar com homem nenhum, apesar de nunca estar sozinha. Aparentemente ela leva isso com bom humor, mas, claro, a pulga fica atrás da orelha. Um dia, em consulta com o guia espiritual, descobriu que ainda não havia superado o trauma da adolescência, quando foi trocada, pelo primeiro namoradinho, pela prima, a quem ela o apresentou em um São João na casa de um parente. Como se tratava de família e a sociedade manda a gente manter o orgulho nessas horas, ela não pôs pra fora. Resultado: isso ainda reverbera dentro dela e, somado a uma mãe que toma vários cornos do marido, fez ela acreditar que homem não é ser confiável. Ela está sempre na defensiva, esperando mais uma decepção. E não é que ela seja fria, até porque a personalidade dela não dá pano pra isso, mas, inconscientemente, se porta como se gostasse menos do rapaz do que realmente gosta, como se tanto fizesse pra ela estar com ele ou não. Resultado: todos eles acabam se picando, mesmo gostando muito dela, temendo levar um toco a qualquer hora (sabe como é: homem que é homem não arrisca, se antecipa, hehe).
Jordan diz que quando isso acontece, uma parte de você fica para trás, e é essa parte que precisa ser resgatada e curada, para a vida, naquela determinada área, voltar a andar. No caso específico das relações afetivas, ele aconselha que a gente trabalhe o ódio - pois isso liga as pessoas, tanto quanto o amor - e aceite que aquela pessoa difícil teve a função de ensinar algo importante para a gente. Eu concordo. É difícil chegar lá, mas é possível e necessário.
domingo, 7 de agosto de 2016
Onde os fracos não têm vez
Esse lugar é no meu coração.
Eu queria ser que nem Paula, a amiga de uma amiga, que se relaciona com um cara que é quase um filho para ela, nada de mais, muito pelo contrário, mas ela acha que ele é a melhor coisa do mundo.
Talvez eu esteja idealizando demais, mas para que serve o amor senão para nos iludir, para nos inspirar? Só que eu dei azar. Peguei uma geração de homens fracos, que, pra começar, se educaram via Tiazinha e pornografia na internet, que não sabem quem são, o que querem e não lutam por nada. O que vier é lucro. Ficam que nem Romário na boca do gol. Esse tipo de homem, para mim, é o que há de mais broxante. Uma falta de querer, de ganhar e de perder... Ah, essa minha maldita mania de expectativa! Por que eu não crio unicórnios em vez disso, né?
Tempo Rei
"Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito
Que tem sido
Transcorrendo, transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos"
Tudo permanecerá do jeito
Que tem sido
Transcorrendo, transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos"
Uma colega me colocou em uma comunidade do Facebook destinada a criar "laços entre as manas". Eu fiz umas coisas para duas meninas, fiquei feliz com o resultado, mas, na moral, não quero ser mana de ninguém. Não assim, na base da obrigação por ideologia, do "decreto". Ainda teimo que as coisas aconteçam no meu próprio tempo, não na base do "tem que", por melhor que seja o motivo.
Na verdade, eu sou pessimista em relação a grandes transformações, de verdade, entre gente que nasceu nas décadas de 80 e 90, aqueles que, a priori, ainda não estão velhos o bastante para serem "casos perdidos". Eu acho que estamos. Penso que já fomos contaminados por, no mínimo, duas décadas de educação preconceituosa. Por isso, não acredito em homem "feministo" - na prática, eles muito raramente não decepcionam, por melhor que seja o discurso e, digo até, a intenção -, não acredito em igualdade racial e equiparação de direitos entre os sexos. As hierarquias ainda estão aqui dentro de nós, esperando qualquer distração para pular da nossa boca e fazer aquele estrago - aliás, tenho muito medo de quem não consegue perceber isso e acha que pode resolver as diferenças por decreto. O que de melhor podemos fazer é vigiar os monstros que abrigamos, sermos solidários aos que sofrem mais que nós e, principalmente, orientar a nova geração para que sejam melhores. Eles, sim, têm condições de serem diferentes, mas ainda assim, acredito que civilizados, no melhor sentido da palavra, serão os filhos deles. Esse é um trabalho de formiguinha, botem fé.
A essa altura, eu tenho 30 anos de histórias de maus-tratos sofridos nas mãos de outras mulheres. Não tem como apagar isso e dar as mãos a todas, transformando-as automaticamente em "manas", como se eu não soubesse o que uma mulher é capaz de fazer com a outra quando decide que essa "merece" ou simplesmente quando percebe que "pode". Desculpem os fãs, mas não levo muito jeito para hipocrisias, mesmo as mais bem intencionadas. Mas, por isso mesmo, acho que posso adocicar meu olhar e ser solidária a qualquer uma que esteja, de alguma forma, sendo oprimida por ser mulher. Isso eu posso fazer de boa. Não só posso como pratico há muito tempo.
Perder para ganhar
É ruim se sentir rebaixado, humilhado, mendigando. Qualquer ser humano normal evita isso, claro. Mas existem situações em que não tem jeito: é perder para ganhar. Nessa hora, a pessoa tem que ter muita lucidez para ver o que está em jogo e ser humildade.
Quando tinha uns 18, 19 anos, para terminar o curso de inglês em uma boa escola de Salvador, passei maus bocados com o meu pai. Se eu não tivesse um objetivo maior, poderia ter ficado mal com aquilo, mas estava determinada. Minha irmã mais velha, que dividia quarto comigo, um dia me falou: "Eu, no seu lugar, jamais me prestaria a isso". É que ela nunca teve sede de saber. Hoje eu falo, por baixo, duas línguas estrangeiras e ainda arranho em outras duas, e ela nunca sequer conseguiu aprender inglês, mesmo ganhando cinco vezes o que eu ganhava. É que certas coisas, além de vontade, tendem a acontecer com mais facilidade em determinada época da vida. Eu sabia disso, me sujeitei, obtive... E se alguém tem que lamentar é meu pai, não eu. Hoje, só lembro dessa história quando surge um gancho para contá-la.
Essa semana, percebi que uma amiga está desperdiçando algo grande por pirraça, por orgulho. Também estava fazendo isso em uma situação específica.
Por isso, é preciso estar atento e forte, para não desperdiçarmos oportunidades por causa de besteiras.
Quando tinha uns 18, 19 anos, para terminar o curso de inglês em uma boa escola de Salvador, passei maus bocados com o meu pai. Se eu não tivesse um objetivo maior, poderia ter ficado mal com aquilo, mas estava determinada. Minha irmã mais velha, que dividia quarto comigo, um dia me falou: "Eu, no seu lugar, jamais me prestaria a isso". É que ela nunca teve sede de saber. Hoje eu falo, por baixo, duas línguas estrangeiras e ainda arranho em outras duas, e ela nunca sequer conseguiu aprender inglês, mesmo ganhando cinco vezes o que eu ganhava. É que certas coisas, além de vontade, tendem a acontecer com mais facilidade em determinada época da vida. Eu sabia disso, me sujeitei, obtive... E se alguém tem que lamentar é meu pai, não eu. Hoje, só lembro dessa história quando surge um gancho para contá-la.
Essa semana, percebi que uma amiga está desperdiçando algo grande por pirraça, por orgulho. Também estava fazendo isso em uma situação específica.
Por isso, é preciso estar atento e forte, para não desperdiçarmos oportunidades por causa de besteiras.
Robocop Days
Uma amiga está sofrendo muito com uma separação. Ela não é direta, mas dá para perceber. Apesar de discreta, há quem a critique, mesmo ela sentindo uma dor dilacerante (cá pra nós, a outra pessoa foi sacana). Compartilhar é uma das formas de se livrar. Quem escreve sabe muito bem disso, do alívio em entregar uma emoção a outro, da busca por compreensão, por cumplicidade.
Mas é que vivemos em uma era de cyborgs, os "robocop days", em que nada pode nos afetar. Há de sair por cima, sempre. No entanto, até pouco tempo atrás, a gente tinha licença para duelar em caso de ofensa. Ok, com menos sangue é mais legal, mas o caso é que as violências, físicas e sentimentais, mexem com a gente. Por que negá-las, como se fôssemos de aço e não de carne?
Eu não ando passando por uma fase fácil. É um momento de parada forçada, de reflexões sobre o passado (colocando ponto final em certas pendências, que só existem porque quis bancar a racional, a controlada, abafando sentimentos) e questionar o futuro. Me pego entre o impulso de contar (porque o que é guardado cresce e pode até nos engolir) e o medo de ser julgada, da minha confissão ser usada contra mim. É horrível.
Quando foi que ter sentimentos virou algo indecente?
Mas é que vivemos em uma era de cyborgs, os "robocop days", em que nada pode nos afetar. Há de sair por cima, sempre. No entanto, até pouco tempo atrás, a gente tinha licença para duelar em caso de ofensa. Ok, com menos sangue é mais legal, mas o caso é que as violências, físicas e sentimentais, mexem com a gente. Por que negá-las, como se fôssemos de aço e não de carne?
Eu não ando passando por uma fase fácil. É um momento de parada forçada, de reflexões sobre o passado (colocando ponto final em certas pendências, que só existem porque quis bancar a racional, a controlada, abafando sentimentos) e questionar o futuro. Me pego entre o impulso de contar (porque o que é guardado cresce e pode até nos engolir) e o medo de ser julgada, da minha confissão ser usada contra mim. É horrível.
Quando foi que ter sentimentos virou algo indecente?
domingo, 17 de julho de 2016
As escolhas te definem?
Outro dia estava andando na orla, quando encontrei Catarina. Gosto muito de Cat, de graça. Ela é novinha, tem 20, 21 anos, mas já está às voltas com as primeiras grandes escolhas. Ela tem um amigo mais velho, também mentor espiritual dela, que foi contra as duas decisões que tomou recentemente, uma amorosa e outra profissional. Mas a menina teimou, mesmo com todo mundo enchendo o saco dela, simplesmente porque não queria bancar aqueles sacrifícios.
Pois bem, encontrei Cat feliz da vida, com um novo emprego, segundo ela - e eu acho que sim - muito melhor do que aquele que recusou, que o guru insistia pra que ela aceitasse.
A gente sempre pode se surpreender com coisas que não dávamos nada à primeira vista. Isso, no meu caso, se deu mais com pessoas do que com situações. Todas as vezes em que fui pra algo achando que não ia render muito, não rendeu mesmo. Já o contrário aconteceu algumas vezes.
Mas eu penso que mesmo que tenhamos "perdido" algo ao recusar uma situação, aquilo não era para a gente naquele momento. Porque nem sempre temos musculatura para lidar com certas situações e mesmo aquelas que, ao final, são positivas exigem da gente.
Enfim, acho que as escolhas podem nos definir, mas não definimos tanto assim as escolhas. Apenas, nas melhores situações, procuramos fazer as melhores que conseguimos.
Pois bem, encontrei Cat feliz da vida, com um novo emprego, segundo ela - e eu acho que sim - muito melhor do que aquele que recusou, que o guru insistia pra que ela aceitasse.
A gente sempre pode se surpreender com coisas que não dávamos nada à primeira vista. Isso, no meu caso, se deu mais com pessoas do que com situações. Todas as vezes em que fui pra algo achando que não ia render muito, não rendeu mesmo. Já o contrário aconteceu algumas vezes.
Mas eu penso que mesmo que tenhamos "perdido" algo ao recusar uma situação, aquilo não era para a gente naquele momento. Porque nem sempre temos musculatura para lidar com certas situações e mesmo aquelas que, ao final, são positivas exigem da gente.
Enfim, acho que as escolhas podem nos definir, mas não definimos tanto assim as escolhas. Apenas, nas melhores situações, procuramos fazer as melhores que conseguimos.
All by myself (don´t wanna live)
Uma vez li que quem tem Nodo Norte apontado para o signo de Leão, como eu, vai passar a vida inteira se frustrando toda vez que depositar esperanças em parcerias, que a meta é aprender a ser como Leão é, independente e confiante. Não sei se a Astrologia realmente tem fundamento, mas se não tem, foi muita coincidência porque tem sido assim desde o início da minha vida. Se eu quero que algo aconteça, tenho que fazer sozinha.
Mas cansei disso. Eu quero parcerias.
Mas cansei disso. Eu quero parcerias.
Autistas? Até quando?
Essa semana tive a minha primeira experiência pela internet. Não aconteceu nada de muito ruim, mas foi decepcionante. Sabe, ninguém quer ir conquistando os outros aos poucos, é uma pressa, uma falta de sentir o outro que vou te contar. As pessoas estão desesperadas, carentes, afobadas. Desisti. Quero outra coisa, ou melhor, outro tipo de sujeito, eu percebi.
Coincidentemente, algumas histórias negativas - uma delas estarrecedora - chegaram aos meus ouvidos. A galera tá franco atiradora, tentando extrair prazer o máximo que puder, e que cada um aprenda a defender o seu para não tomar bolada nas costas. É isso: as interações entre as pessoas virou um grande jogo de baleado.
Nada contra querer extrair o máximo de prazer, até porque a gente só vive uma vez. Mas acho que as coisas têm que ser de comum acordo. Se todo mundo tá sabendo e tá de acordo, beleza. Fora disso, sorry, não há fair play.
E é com decepção que eu vejo que alguns maus hábitos/equívocos masculinos contaminaram mulheres e gays.
Tenho muita curiosidade pra ver o que vai ser desses trintões daqui a dez anos. No que essa gente "lost in translation" vai dar.
Uma amiga minha aposta que os homens heterossexuais são os que mais vão se surpreender. Isso porque, na percepção dela, eles apostaram que são "mercadoria rara" mediante o número de homens gays, mas não contaram com o aumento do número de mulheres homossexuais. E realmente isso já está acontecendo, pelo menos nos meios mais intelectualizados é o que mais a gente vê. Ela acrescenta que essa onda feminista é, inclusive, uma reação a esse machismo que transformou mulheres em "carne barata" no "mercado amoroso". Realmente, é insuportável o nível de exigência que uma mulher tem que cumprir se quiser "vencer" as demais "concorrentes". Tendo a concordar com ela... Na verdade, os homens heterossexuais ainda são basicamente homoafetivos, por mais contraditório que isso posso soar. No dia em que eles gostarem da amizade de suas mulheres como gostam dos "bróders" a coisa pode começar a ficar boa (e talvez as mulheres menos nervosas, porque eu acho que muita coisa é consequência de não serem ouvidas).
Enfim, folks, a seguir cenas. Isso vai ser interessante de ver. Ou não.
Coincidentemente, algumas histórias negativas - uma delas estarrecedora - chegaram aos meus ouvidos. A galera tá franco atiradora, tentando extrair prazer o máximo que puder, e que cada um aprenda a defender o seu para não tomar bolada nas costas. É isso: as interações entre as pessoas virou um grande jogo de baleado.
Nada contra querer extrair o máximo de prazer, até porque a gente só vive uma vez. Mas acho que as coisas têm que ser de comum acordo. Se todo mundo tá sabendo e tá de acordo, beleza. Fora disso, sorry, não há fair play.
E é com decepção que eu vejo que alguns maus hábitos/equívocos masculinos contaminaram mulheres e gays.
Tenho muita curiosidade pra ver o que vai ser desses trintões daqui a dez anos. No que essa gente "lost in translation" vai dar.
Uma amiga minha aposta que os homens heterossexuais são os que mais vão se surpreender. Isso porque, na percepção dela, eles apostaram que são "mercadoria rara" mediante o número de homens gays, mas não contaram com o aumento do número de mulheres homossexuais. E realmente isso já está acontecendo, pelo menos nos meios mais intelectualizados é o que mais a gente vê. Ela acrescenta que essa onda feminista é, inclusive, uma reação a esse machismo que transformou mulheres em "carne barata" no "mercado amoroso". Realmente, é insuportável o nível de exigência que uma mulher tem que cumprir se quiser "vencer" as demais "concorrentes". Tendo a concordar com ela... Na verdade, os homens heterossexuais ainda são basicamente homoafetivos, por mais contraditório que isso posso soar. No dia em que eles gostarem da amizade de suas mulheres como gostam dos "bróders" a coisa pode começar a ficar boa (e talvez as mulheres menos nervosas, porque eu acho que muita coisa é consequência de não serem ouvidas).
Enfim, folks, a seguir cenas. Isso vai ser interessante de ver. Ou não.
quinta-feira, 14 de julho de 2016
O passado silenciado
Minha mãe, que nunca trabalhou fora e acha que o ser humano tem que se submeter a tudo para ter um salário (qualquer que seja), sempre acha que eu me arrependi quando visito o antigo emprego ou comento com saudade de algum bom momento. Não se trata disso. Não mesmo. E quando uma pontada de arrependimento surge, eu sei que isso tem mais a ver com uma carência minha que com um sentimento real, e logo passa.
Ontem, estava perto do jornal e, após meses, resolvi subir para falar com os amigos. Essas visitas podem ser mal interpretadas, claro, mas que se dane, eu estava com vontade. Conversei, senti saudade da galera, de quando trabalhávamos todos juntos, e quando comentei com a minha mãe, ela veio com essa história de "tá vendo como era bom?". Haja paciência (zzzzz)... Sentir saudade, relembrar o que era positivo, não quer dizer que se quer algo de volta. Não mesmo. É bem lógico para mim que se eu fiquei muito tempo é porque havia coisas boas. Mas se os aspectos negativos superam os positivos, por que eu quereria de volta? Para sofrer tudo de novo?
O passado é a nossa trilha, o tempo é o tecido das nossas vidas, como disse o outro. Ele não merece ser enterrado e silenciado. Tudo bem se pra você já não diz nada. É inteligente fazer isso se acessar o passado lhe fizer mais mal do que bem. Mas não deveria ser pecado querer ter contato com ele. Você pode muito bem não querer mais e ainda sentir carinho. Fato.
Ontem, estava perto do jornal e, após meses, resolvi subir para falar com os amigos. Essas visitas podem ser mal interpretadas, claro, mas que se dane, eu estava com vontade. Conversei, senti saudade da galera, de quando trabalhávamos todos juntos, e quando comentei com a minha mãe, ela veio com essa história de "tá vendo como era bom?". Haja paciência (zzzzz)... Sentir saudade, relembrar o que era positivo, não quer dizer que se quer algo de volta. Não mesmo. É bem lógico para mim que se eu fiquei muito tempo é porque havia coisas boas. Mas se os aspectos negativos superam os positivos, por que eu quereria de volta? Para sofrer tudo de novo?
O passado é a nossa trilha, o tempo é o tecido das nossas vidas, como disse o outro. Ele não merece ser enterrado e silenciado. Tudo bem se pra você já não diz nada. É inteligente fazer isso se acessar o passado lhe fizer mais mal do que bem. Mas não deveria ser pecado querer ter contato com ele. Você pode muito bem não querer mais e ainda sentir carinho. Fato.
segunda-feira, 11 de julho de 2016
A teoria da prateleira (criando poeira)
Minha irmã, ser altamente pragmático, quando ainda habitava a nossa humilde residência, uma vez, saindo do banho, enquanto eu escovava os dentes, me surpreendeu com a seguinte afirmação:
- Você é uma mulher escondida, que tá na prateleira e os homens não vêem. Mas quando um te enxergar, vai ver que você é diferente. Vai sair casamento rapidinho.
(Esse homem já apareceu, mas eu é que não tive olhos pra ele. Enfim, não houve convergência de sentimentos e a fila andou... pra ele, of course).
Espero por essa cruzada de olhares, mas alguns dados do mundo real me assustam. Fundamentalmente, os binhos hoje andam em linha reta. Mais fácil olharem pra bunda do boy da frente que pra prateleira.
- Você é uma mulher escondida, que tá na prateleira e os homens não vêem. Mas quando um te enxergar, vai ver que você é diferente. Vai sair casamento rapidinho.
(Esse homem já apareceu, mas eu é que não tive olhos pra ele. Enfim, não houve convergência de sentimentos e a fila andou... pra ele, of course).
Espero por essa cruzada de olhares, mas alguns dados do mundo real me assustam. Fundamentalmente, os binhos hoje andam em linha reta. Mais fácil olharem pra bunda do boy da frente que pra prateleira.
Tempo de revisão
Eu tive um ano bem movimentado até o final de maio. Produção, produção, produção. Desde então, parada há pouco mais de um mês, ando agoniadíssima com o futuro, o que infelizmente vem me impedindo de aproveitar o presente como deveria, coisa que eu pretendo corrigir ainda esse mês. Sou ansiosa, admito. Mas sinto que eu não estou muito em posição de apitar no jogo da vida nesse exato momento. É tempo de espera, de trabalhar no escuro (coisa que eu odeio).
O caso é que esses 40 dias me fizeram refletir muito sobre a vida. Digo até que me fizeram acordar para coisas que nunca, antes, havia dado importância. Um lado meu se desesperou, pedindo urgência em certos assuntos. Outro lado meu adocicou, lançando um olhar mais generoso sobre certas pessoas e histórias com as quais lidava mal. É como se a minha consciência me avisasse de que não há tempo para jogar fora mais, que é hora de assumir as rédeas.
O caso é que esses 40 dias me fizeram refletir muito sobre a vida. Digo até que me fizeram acordar para coisas que nunca, antes, havia dado importância. Um lado meu se desesperou, pedindo urgência em certos assuntos. Outro lado meu adocicou, lançando um olhar mais generoso sobre certas pessoas e histórias com as quais lidava mal. É como se a minha consciência me avisasse de que não há tempo para jogar fora mais, que é hora de assumir as rédeas.
Uma experiência com programa popular
Faz três meses que pedi pra sair de um programa popular, no qual fazia produção. Uma das coisas que me desagradava é que se tratava de um programa assistencialista. É tudo que mais odeio na vida (tenho horror a Gugu e até a Luciano Huck, a versão mais limpinha dele). E fazer produção não é de Deus também. Ô treco chato...
Mas uma coisa eu pude ver estando in loco: não há gente inocente que não sabe o que faz, não ao menos em ambiente urbano. Tendemos a dizer que o cara que deixa seu drama ir ao ar é um coitado, manipulado, mas o que eu vi foi o contrário: gente que sabia muito bem o que ia ganhar com aquilo e que, cá entre nós, dava trabalho para se livrar, que pedia sem parar.
Exemplo: eu produzi uma história, para mim a que deu mais satisfação, de uma senhora que já não comia e estava largada em um hospital da Ilha. Providenciamos a transferência dela pra Salvador. Liguei para a Sesab e foi rapidíssimo, nem pude acreditar. A mulher melhorou e eu fiquei, pessoalmente, feliz com o meu trabalho. Saí do programa dias depois, mas até hoje a filha dessa criatura fica me perturbando via Whatsapp para conseguir para ela outras coisas. Outra dia, começou a conversa com o argumento de que precisa criar dois filhos, que estava em dificuldade. Ok, estava disposta a ajudar até aí. Mas daí ela veio com a história de ir para o programa de Celso Portioli, em São Paulo. Nada contra pensar que um desejo seu é importante, só tenha o simancol de não achar que uma estranha deve se importar com algo que não seja o básico - e olhe lá, porque há uma ala que defende o cada um por si. Pela inconveniência, bloqueei a criatura, embora deteste fazer isso.
Eu tenho pena de todos nós, brasileiros, e especialmente dos mais pobres, pelo básico que nos falta quando não deveria ser assim. Mas é incrível como nem a experiência da dificuldade, da realidade mais dura, retira a ilusão do instinto de malandragem. As pessoas querem que as outras deem um jeito por elas e acham que podem corrompê-las com jeitinho. Essa mulher mesmo, ela acha que me chamando de "anjo de guarda", de "Bê" e coisas gentis do tipo, vai amolecer meu coração e me impulsionar a lutar pelo interesse dela. Vai vendo, "Bê".
Minha irmã teve uma empregada que criava três filhas sozinha. Ela se queixava e pedia as coisas o tempo inteiro. Meu ex-cunhado ajudava no que podia, minha irmã dava de ombros. Mas ela dizia algo do qual não conseguia discordar: "Mag pede as coisas como se a gente tivesse a obrigação de fazer por ela. Se não faz, ela bota uma cara, começa a reclamar da vida, para te fazer sentir culpa". Isso, convenhamos, tira toda a vontade de arregaçar a manga pelos outros. Daí não é mais pedir, é chantagear.
Mas uma coisa eu pude ver estando in loco: não há gente inocente que não sabe o que faz, não ao menos em ambiente urbano. Tendemos a dizer que o cara que deixa seu drama ir ao ar é um coitado, manipulado, mas o que eu vi foi o contrário: gente que sabia muito bem o que ia ganhar com aquilo e que, cá entre nós, dava trabalho para se livrar, que pedia sem parar.
Exemplo: eu produzi uma história, para mim a que deu mais satisfação, de uma senhora que já não comia e estava largada em um hospital da Ilha. Providenciamos a transferência dela pra Salvador. Liguei para a Sesab e foi rapidíssimo, nem pude acreditar. A mulher melhorou e eu fiquei, pessoalmente, feliz com o meu trabalho. Saí do programa dias depois, mas até hoje a filha dessa criatura fica me perturbando via Whatsapp para conseguir para ela outras coisas. Outra dia, começou a conversa com o argumento de que precisa criar dois filhos, que estava em dificuldade. Ok, estava disposta a ajudar até aí. Mas daí ela veio com a história de ir para o programa de Celso Portioli, em São Paulo. Nada contra pensar que um desejo seu é importante, só tenha o simancol de não achar que uma estranha deve se importar com algo que não seja o básico - e olhe lá, porque há uma ala que defende o cada um por si. Pela inconveniência, bloqueei a criatura, embora deteste fazer isso.
Eu tenho pena de todos nós, brasileiros, e especialmente dos mais pobres, pelo básico que nos falta quando não deveria ser assim. Mas é incrível como nem a experiência da dificuldade, da realidade mais dura, retira a ilusão do instinto de malandragem. As pessoas querem que as outras deem um jeito por elas e acham que podem corrompê-las com jeitinho. Essa mulher mesmo, ela acha que me chamando de "anjo de guarda", de "Bê" e coisas gentis do tipo, vai amolecer meu coração e me impulsionar a lutar pelo interesse dela. Vai vendo, "Bê".
Minha irmã teve uma empregada que criava três filhas sozinha. Ela se queixava e pedia as coisas o tempo inteiro. Meu ex-cunhado ajudava no que podia, minha irmã dava de ombros. Mas ela dizia algo do qual não conseguia discordar: "Mag pede as coisas como se a gente tivesse a obrigação de fazer por ela. Se não faz, ela bota uma cara, começa a reclamar da vida, para te fazer sentir culpa". Isso, convenhamos, tira toda a vontade de arregaçar a manga pelos outros. Daí não é mais pedir, é chantagear.
Julieta
Acabei de voltar do cinema. Fui assistir "Julieta", o novo de Almodóvar. Para resumir, já vi coisas melhores dele. O diretor tenta ir na linha de "Tudo sobre minha mãe", mas não rola. Só o problema de coluna que ele teve antes de filmar explica ter escrito uma carta em vez de um roteiro, que não acrescenta quase nada à história, é dramaturgicamente fraca. Mas Almodóvar é bom mesmo quando não é supimpa, essa é que é a verdade.
O nome original do filme seria "Silêncio" e ele de fato constrói o filme em cima desse tema. [Spoiler a seguir] Julieta, protagonista da história, é uma mulher que sofre com o sumiço da única filha, que não manda notícias há doze anos. Bem, estamos falando de uma relação especial, de pais e filhos, mas quem nunca sofreu com um silêncio, com uma rejeição sem motivo forte aparente, com perguntas que nunca foram (e às vezes não poderão) ser respondidas, enfim, com lacunas em relacionamentos importantes. Quem nunca?
Isso pode desde provocar uma mágoa guardadinha numa gaveta do fundo do coração até te paralisar, em casos mais extremos.
Julieta descobre, no final do filme, um monte de questões da filha que, a propósito, só lhe escreve quando passa por algo semelhante ao que causou à mãe. No final das contas, é sempre tudo sobre a gente, sobre o nosso mundo interno, os nossos sentimentos... as nossas faltas. Sabe aquela fábula dos Três Porquinhos? Pois é, o estrago só acontece em alvo já danificado. Mas como ninguém tem essa autoestima toda, a gente se ressente do outro não ter nos incorporado de tal forma a não conseguir nos largar, de não termos sido imprescindíveis como gostaríamos (ou melhor, de não nos sabermos imprescindíveis, porque ninguém está dentro de ninguém pra saber a real). Deles terem nos deixado de cara com a gente mesmo, sem refúgio, atingidos na vaidade, sem saber direito o que se passou e pensando em mil possibilidades porque não se aceita o "não".
Eu diria a Julieta: se o amor não deu certo, não fique no mesmo endereço... e nem se mate, como a outra. Siga adiante.
O nome original do filme seria "Silêncio" e ele de fato constrói o filme em cima desse tema. [Spoiler a seguir] Julieta, protagonista da história, é uma mulher que sofre com o sumiço da única filha, que não manda notícias há doze anos. Bem, estamos falando de uma relação especial, de pais e filhos, mas quem nunca sofreu com um silêncio, com uma rejeição sem motivo forte aparente, com perguntas que nunca foram (e às vezes não poderão) ser respondidas, enfim, com lacunas em relacionamentos importantes. Quem nunca?
Isso pode desde provocar uma mágoa guardadinha numa gaveta do fundo do coração até te paralisar, em casos mais extremos.
Julieta descobre, no final do filme, um monte de questões da filha que, a propósito, só lhe escreve quando passa por algo semelhante ao que causou à mãe. No final das contas, é sempre tudo sobre a gente, sobre o nosso mundo interno, os nossos sentimentos... as nossas faltas. Sabe aquela fábula dos Três Porquinhos? Pois é, o estrago só acontece em alvo já danificado. Mas como ninguém tem essa autoestima toda, a gente se ressente do outro não ter nos incorporado de tal forma a não conseguir nos largar, de não termos sido imprescindíveis como gostaríamos (ou melhor, de não nos sabermos imprescindíveis, porque ninguém está dentro de ninguém pra saber a real). Deles terem nos deixado de cara com a gente mesmo, sem refúgio, atingidos na vaidade, sem saber direito o que se passou e pensando em mil possibilidades porque não se aceita o "não".
Eu diria a Julieta: se o amor não deu certo, não fique no mesmo endereço... e nem se mate, como a outra. Siga adiante.
terça-feira, 28 de junho de 2016
Freddy
Nem sempre fui "bela, recatada e do lar". Até uns seis anos de idade, era bem wild. Vivia apaixonada e expressava meus sentimentos na maior cara de pau e sem direito a democracia. Por base nas minhas paixonites da primeira infância, entendo perfeitamente o que Tônia Carreiro quis dizer quando falou que Vinícius de Morais era capaz de qualquer baixaria para conquistar uma mulher. Eu jogava nesse time. Hehe...
Fora Rodrigo, meu vizinho "rebelde", que se escondia de mim quando eu chegava na casa dele - e eu não me abatia nem um pouco; ia tirá-lo debaixo da cama ou de dentro do armário, esconderijos batidíssimos dele, para abraçá-lo bem forte enquanto ele chorava... puro charme! -, Freddy foi minha grande paixão da infância. Só que ao contrário de Rodrigo, que era da minha idade, ele era 13 anos mais velho que eu. E morava no interior da Bahia, então só o via durante 20 dias por ano, em janeiro. Portanto, a estratégia era praticamente de guerra para chamar a atenção do moço, o mais bonito e disputado por todas as jovens, sem exagero, daquela colônia de férias. Eu, do alto dos meus cinco anos, achava que podia com elas.
É que Freddy me dava ousadia e eu achava aquilo muito natural, e ficava em busca disso o tempo todo. Mas, pensando bem, poderia não ter sido assim, né? Eu achava que ele era gente grande, mas era só um menino, um adolescente. Normal até que ele não me desse atenção. É que me achava engraçada, ria das minhas tiradas, e me considerava esperta. Também acredito que, olhando retrospectivamente, ninguém se esforçava tanto para ter ele por perto, naquela colônia, como eu, que, a despeito de ter mudado muito a partir da adolescência, quando me empolgo, equivalho a um fã-clube ambulante da pessoa. "I was born to love you, with eeeeeevery single beat of my heart...".
Eu me lembro de uma vez em que uma menina da minha idade comentava que ele era o mais bonito da colônia. Eu respondi que ele gostava de mim e ela olhou com aquela cara de "Sério?!". Eu subi de uma árvore e comecei a gritar por ele, pedindo ajuda pra descer. Ele me tirou de lá e me levou pro pátio no colo. Eu me lembro da minha cara de "Viu, bestona, como é que se faz?!" pra coleguinha. Hahaha... Ainda bem que ele me buscou, porque eu não sei como ia descer de lá.
Outra vez, eu tinha guardado a melhor roupa que havia ganho no Natal para mostrar a ele nas férias. Eu vesti a tal, passei por ele, que nem percebeu. Na minha cabeça de criança eu achava que ele tinha que ter percebido e fiquei muito chateada, fui me trancar no meu quarto. A mãe dele sacou o ocorrido e mandou ele conversar comigo. O bico só se desfez assim.
Bem, mas se eu não me dei bem naquela época - graças a Deus, porque seria pedofilia -, ganhei uma honraria que nenhuma outra gostosona daquela colônia teve: minha foto com ele, num porta-retrato, por anos figurando no quarto dele. Sei disso por causa de uma ex-namorada dele que me contou - eu já estava na faculdade.
Ê Julinha retada! Hehe...
Fora Rodrigo, meu vizinho "rebelde", que se escondia de mim quando eu chegava na casa dele - e eu não me abatia nem um pouco; ia tirá-lo debaixo da cama ou de dentro do armário, esconderijos batidíssimos dele, para abraçá-lo bem forte enquanto ele chorava... puro charme! -, Freddy foi minha grande paixão da infância. Só que ao contrário de Rodrigo, que era da minha idade, ele era 13 anos mais velho que eu. E morava no interior da Bahia, então só o via durante 20 dias por ano, em janeiro. Portanto, a estratégia era praticamente de guerra para chamar a atenção do moço, o mais bonito e disputado por todas as jovens, sem exagero, daquela colônia de férias. Eu, do alto dos meus cinco anos, achava que podia com elas.
É que Freddy me dava ousadia e eu achava aquilo muito natural, e ficava em busca disso o tempo todo. Mas, pensando bem, poderia não ter sido assim, né? Eu achava que ele era gente grande, mas era só um menino, um adolescente. Normal até que ele não me desse atenção. É que me achava engraçada, ria das minhas tiradas, e me considerava esperta. Também acredito que, olhando retrospectivamente, ninguém se esforçava tanto para ter ele por perto, naquela colônia, como eu, que, a despeito de ter mudado muito a partir da adolescência, quando me empolgo, equivalho a um fã-clube ambulante da pessoa. "I was born to love you, with eeeeeevery single beat of my heart...".
Eu me lembro de uma vez em que uma menina da minha idade comentava que ele era o mais bonito da colônia. Eu respondi que ele gostava de mim e ela olhou com aquela cara de "Sério?!". Eu subi de uma árvore e comecei a gritar por ele, pedindo ajuda pra descer. Ele me tirou de lá e me levou pro pátio no colo. Eu me lembro da minha cara de "Viu, bestona, como é que se faz?!" pra coleguinha. Hahaha... Ainda bem que ele me buscou, porque eu não sei como ia descer de lá.
Outra vez, eu tinha guardado a melhor roupa que havia ganho no Natal para mostrar a ele nas férias. Eu vesti a tal, passei por ele, que nem percebeu. Na minha cabeça de criança eu achava que ele tinha que ter percebido e fiquei muito chateada, fui me trancar no meu quarto. A mãe dele sacou o ocorrido e mandou ele conversar comigo. O bico só se desfez assim.
Bem, mas se eu não me dei bem naquela época - graças a Deus, porque seria pedofilia -, ganhei uma honraria que nenhuma outra gostosona daquela colônia teve: minha foto com ele, num porta-retrato, por anos figurando no quarto dele. Sei disso por causa de uma ex-namorada dele que me contou - eu já estava na faculdade.
Ê Julinha retada! Hehe...
O reggae e o mar
Estava arrastando minha mala pelas escadas, após quatro horas de viagem, quando Isaac - um espevitado de quase seis anos, cabelos encaracolados e olhos verdes, meu vizinho - me perguntou sobre o meu São João. Disse que fui bem e ele contou que foi pra Ilha. Então, disse a ele que estava chegando de Cruz das Almas.
Ele fez cara de desdém, e disparou:
- Cruz das Almas, tia? Tem que ir para o mar, para a natureza! - sentenciou.
Eu olhei para ele com espanto. Ia perguntar se sabia onde era Cruz das Almas, mas, na verdade, estava intrigada com o bom conselho que o pequeno, de repente, assim, tirou da cartola. Como acredito que Deus fala comigo por vias estranhas, tô achando melhor anotar essa sugestão, aterrar os pés na areia e respirar a brisa do mar.
Sim, vou "dançar esse reggae" de Isaac. "E eu adoro o reggae como adoro o mar". :P
Ele fez cara de desdém, e disparou:
- Cruz das Almas, tia? Tem que ir para o mar, para a natureza! - sentenciou.
Eu olhei para ele com espanto. Ia perguntar se sabia onde era Cruz das Almas, mas, na verdade, estava intrigada com o bom conselho que o pequeno, de repente, assim, tirou da cartola. Como acredito que Deus fala comigo por vias estranhas, tô achando melhor anotar essa sugestão, aterrar os pés na areia e respirar a brisa do mar.
Sim, vou "dançar esse reggae" de Isaac. "E eu adoro o reggae como adoro o mar". :P
domingo, 19 de junho de 2016
Tá todo mundo mal
É culpa das rancheras que meu pai tocava em casa na minha infância. Certeza que é.
Meu pai passava horas, com cara de cachorro que caiu da mudança, bebericando a cerveja e sorvendo cada palavra de lamentação daquelas canções que falavam de traições, decepções e amores maiores que a vida.
Meu pai se sentia traído pelo destino. So do I. E o corno existencial dói, viu, bicho!... Ô se dói.
Ontem, numa reunião de (queridos) amigos, depois de todo mundo ter cheirado um pouco de rapé paricá, o povo soltou as emoções que estavam presas (o pó produz esse efeito). Eu, que cheguei cheia de carga emocional, precisando desabafar, tive uma epifânia de que talvez seja muito difícil encontrar escuta em 2016 porque simplesmente está todo mundo mal, como diz o título do livro da Jout Jout.
Numa determinada altura da noite, uma confissão duríssima, que fez todo mundo ficar paralisado nas cadeiras: de um estupro ocorrido há mais de 20 anos e como isso foi doloroso, porque inclusive implicou em um silenciamento da vítima por medo de ser julgada. A história dela só não terminou em suicídio porque foi salva pela irmã, que morava na Europa, e a levou para lá para fazer um aborto.
Nessa hora, tive a impressão que uma outra amiga queria fazer uma confissão e não teve coragem.
Enfim, folks, se balançar, cai trauma, dor e insatisfação dessa árvore da vida. Tá todo mundo mal e, pior, guardando isso em segredo.
Meteóro, vem nim nós, que o treco aqui embaixo tá pesado, viu, Bê?
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Mente pra mim, me ajuda a viver
(Esse post tem a benção de José Augusto)
Certas cenas da vida cotidiana se encaixam naquela história do só rindo pra não chorar. Tipo, as instruções da aeromoça antes da decolagem. Fala sério que alguém acredita que aquilo vai funcionar em caso de queda? Também não acredito em quem diz que Jesus tá na direção . Só acredito na condução devidamente habilitada.
Mas o caso é que se a gente não acredita, pira.
Certas cenas da vida cotidiana se encaixam naquela história do só rindo pra não chorar. Tipo, as instruções da aeromoça antes da decolagem. Fala sério que alguém acredita que aquilo vai funcionar em caso de queda? Também não acredito em quem diz que Jesus tá na direção . Só acredito na condução devidamente habilitada.
Mas o caso é que se a gente não acredita, pira.
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Santo Antônio, me traga um Antônio!
Há um ano estava no México, em companhia de um monte de idosos simpaticíssimos. Bellos recuerdos!
Havia um casal bonito em particular, Lola e Antonio. Gente linda, que deve ter parado o trânsito quando mais jovem, um amor de vida inteira, delicado, cheio de admiração de ambas as partes... Eu queria uma máquina do tempo para vê-los se conhecendo e namorando. Antonio é um cavalheiro na acepção mesmo da palavra. Precisava ver ele contando como fez para protegê-la quando houve um problema durante uma viagem ao Egito. Ay, que amorrrrr!
E o México é um lugar que exala isso. Fica a dica. ;)
Ouro de tolo
Uma coisa que me desilude, quanto ao amor, é que hoje em dia pouquíssimos amam ou sabem amar (não sei ainda direito essa diferença). Ninguém quer ficar "por baixo", todo mundo só quer levar vantagem, e assim poucos casais perseveram, as relações não vão pra frente. É triste. Somos tantos, tão precisados de afeto, e então poderíamos ser muito mais amados se fôssemos mais espontâneos.
As mulheres são carentes demais e os homens, alheios demais: não falam de si mesmos e nem escutam a companheira.
As mulheres são carentes demais e os homens, alheios demais: não falam de si mesmos e nem escutam a companheira.
quinta-feira, 2 de junho de 2016
Sobre mulheres e feminismo
Eu questiono as opressões desde criancinha. Cresci rasgando meias-calças (que só serviam para esquentar as pernas em meio ao calor), questionando os "mulher tem que...". Enfim, tô pensando sobre isso faz muito tempo, muito antes do feminismo entrar para o hit parade.
Ontem, teve palestra de Marcia Tiburi sobre esse tema. Ela tocou em temas importantes, como gratidão às feministas do passado e a importância de termos representantes na política. Mas eu tenho algumas críticas a fazer ao feminismo. Para dizer a verdade, não consigo me denominar feminista porque:
- "Quem vigia o vigia?"
Meu ponto é: a militância traz muitas falas e questionamentos super válidos, quem sofre o preconceito e a agressão sabe melhor falar sobre isso, mas é também tentador ser raivoso quando há essa possibilidade (e até descontar, a pretexto disso, raivas produzidas a partir de outras situações). Então quem "vigia" os limites da militância, ainda mais quando ela reage com violência a qualquer tentativa de contradiscurso, como se isso sempre significasse incompreensão ou censura do que foi dito? Claro, muita gente fala merda, gente que não sabe do que está falando, gente que não quer admitir um problema, mas não é possível que nunca ninguém diga nada ao mesmo tempo contrário e sensato.
Minha esperança é que seja apenas uma fase, uma consequência da descoberta da opressão.
- Ainda não é um caminho feminino.
Como sabiamente diz uma amiga, o melhor jeito de ser "feminista" é resgatando um feminino sagrado.
Eu concordo. Em muitas atitudes, a mulher "moderna" é uma cópia do homem. Ou seja, estamos copiando um modelo fracassado e ainda nos achando por isso. Acordem! Leiam "As brumas de Avalon", hehe. Somos poderosas quando seguimos os nossos instintos, a nossa natureza.
- E por último, mas não menos, eu acho essa palavra ruim. Rima com "machista". Esse "ista"... Tem que pensar em outra coisa.
domingo, 1 de maio de 2016
Sobre a dor
Qualquer ser humano com um par de neurônios e algumas décadas de existência já é capaz de entender que a vida não é justa.
Ontem, na pós, uma colega nascida e criada na periferia, primeira geração de sua família a se formar, fez um discurso inflamado sobre o círculo vicioso que é a pobreza. Por fim, emocionada, confessou que sempre será carimbada, pela sociedade, como uma mulher da periferia.
A declaração chocou alguns colegas, que nunca haviam feito essa associação a respeito dela. A professora, com uma história parecida de superação e um dos raros casos na academia de pesquisadores que metem a mão na massa para fazer essa corrente do bem ir adiante, fez um discurso anti vitimismo. A moça abaixou a cabeça em claro sinal de discordância.
Traumatizada por episódios de discriminação, ela deve ter perdido a noção da realidade. Se é inegável que para filhos de analfabetos é muito difícil tomar os instrumentos da mudança, por outro lado não é impossível - ela mesma é a prova.
Chego em casa e vou assistir, mais uma vez, "Comer, rezar e amar", um filme sobre a dor do tédio, do vazio.
Não saberia dizer qual das dores é a maior, a da falta ou a do tédio. Na primeira, dói a indiferença do outro; na segunda, mata sentir a própria indiferença.
É muita miséria para um planeta só.
Ontem, na pós, uma colega nascida e criada na periferia, primeira geração de sua família a se formar, fez um discurso inflamado sobre o círculo vicioso que é a pobreza. Por fim, emocionada, confessou que sempre será carimbada, pela sociedade, como uma mulher da periferia.
A declaração chocou alguns colegas, que nunca haviam feito essa associação a respeito dela. A professora, com uma história parecida de superação e um dos raros casos na academia de pesquisadores que metem a mão na massa para fazer essa corrente do bem ir adiante, fez um discurso anti vitimismo. A moça abaixou a cabeça em claro sinal de discordância.
Traumatizada por episódios de discriminação, ela deve ter perdido a noção da realidade. Se é inegável que para filhos de analfabetos é muito difícil tomar os instrumentos da mudança, por outro lado não é impossível - ela mesma é a prova.
Chego em casa e vou assistir, mais uma vez, "Comer, rezar e amar", um filme sobre a dor do tédio, do vazio.
Não saberia dizer qual das dores é a maior, a da falta ou a do tédio. Na primeira, dói a indiferença do outro; na segunda, mata sentir a própria indiferença.
É muita miséria para um planeta só.
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Como diz o ditado...
... gentileza gera gentileza.
Como disse uma vez Thiana Biondo, sinto que as pessoas esperam muito de mim.
Só pode. Ou quem sabe, me acham menor a ponto de ter que aturar tudo com um sorriso no rosto (a vontade é mostrar o dedo do meio, isso sim).
Vivem me mandando perdoar Fulano, compreender Ciclana, como se eu não fosse humana, portanto nada necessitada dessa empatia e insensível às atitudes ruins que os outros têm comigo. Um robô gentil.
Ah, para, né, gente? Quem quer gentileza, faz gentileza. Ninguém é um poço sem fundo de bondade. Chega uma hora que cansa, que seu limite estoura e, rudeza à parte, que nunca é justificável - um dia eu chego lá -, a gente chuta o balde.
Mas, pelo visto, fino é manter o coração e a pele trancados em uma caixa, dentro de casa. Gente legal não sente nada, não se aborrece, não se magoa, enfim, não incomoda. Tá... Sei... Refletir sobre as próprias mancadas e se portar direito ninguém quer, né?
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Me desculpe a sinceridade, mas eu não quero nada além de viver bem
"Sambaby
Sambaby
Eu posso não ser um band leader
Pois é, mas assim mesmo lá em casa
Todos meus amigos, meus camaradinhas me respeitam
Pois é, essa é a razão da simpatia
Do poder, do algo mais e da alegria"
("País Tropical")
Quando eu era pequena, eu imaginava que um dia ainda ia fazer algo de destaque nacional.
Aos 13 anos, numa redação da escola, disse que ainda seria uma grande advogada.
Aos 15 anos, pedi ao meu pai pra entrar no curso de inglês a pretexto de querer me formar em Turismo.
Aos 17 anos, tive o meu primeiro choque de realidade. Aos 18 anos, escolhi a área de Comunicação por me parecer ser a menos penosa. Jornalismo venceu em um sorteio entre Radio e TV - nem existia esse curso na Bahia -, Publicidade e Relações Públicas.
Fui feliz com a minha escolha durante um mês, porque via muitas matérias que pareciam ser bacanas na grade do curso.
Depois eu vi que Jornalismo era um curso de gente vaidosa, com altas ambições midiáticas ou intelectuais. Não me identifiquei. Quis ir embora, mas como sou ruim de desistir, fui ficando.
Quinze anos depois, com passagens por assessoria, campanhas políticas e jornalismo impresso, tenho certeza que essa não é a minha vocação. Será que eu tenho talento? Não sei. Acho que, mesmo desmotivada, consigo um desempenho mediano, mas nunca poderei verificar qual seria mesmo o meu potencial.
Por enquanto, sabe o que eu gostaria mesmo? De trabalhar pouco e viver mais. Eu sempre trabalhei muito - e estudo também é trabalho - e vivi pouco. É hora de inverter. Não me julguem. Me amem. Eu preciso amar um pouco a vida, gente, e presa entre quatro paredes e muitas pressões não dá. Por hora, desisti de profissão. Quero curtir a vida, aprender. Quero o que for fácil, bom, suave.
Chega de "no pain, no gain".
Sambaby
Eu posso não ser um band leader
Pois é, mas assim mesmo lá em casa
Todos meus amigos, meus camaradinhas me respeitam
Pois é, essa é a razão da simpatia
Do poder, do algo mais e da alegria"
("País Tropical")
Quando eu era pequena, eu imaginava que um dia ainda ia fazer algo de destaque nacional.
Aos 13 anos, numa redação da escola, disse que ainda seria uma grande advogada.
Aos 15 anos, pedi ao meu pai pra entrar no curso de inglês a pretexto de querer me formar em Turismo.
Aos 17 anos, tive o meu primeiro choque de realidade. Aos 18 anos, escolhi a área de Comunicação por me parecer ser a menos penosa. Jornalismo venceu em um sorteio entre Radio e TV - nem existia esse curso na Bahia -, Publicidade e Relações Públicas.
Fui feliz com a minha escolha durante um mês, porque via muitas matérias que pareciam ser bacanas na grade do curso.
Depois eu vi que Jornalismo era um curso de gente vaidosa, com altas ambições midiáticas ou intelectuais. Não me identifiquei. Quis ir embora, mas como sou ruim de desistir, fui ficando.
Quinze anos depois, com passagens por assessoria, campanhas políticas e jornalismo impresso, tenho certeza que essa não é a minha vocação. Será que eu tenho talento? Não sei. Acho que, mesmo desmotivada, consigo um desempenho mediano, mas nunca poderei verificar qual seria mesmo o meu potencial.
Por enquanto, sabe o que eu gostaria mesmo? De trabalhar pouco e viver mais. Eu sempre trabalhei muito - e estudo também é trabalho - e vivi pouco. É hora de inverter. Não me julguem. Me amem. Eu preciso amar um pouco a vida, gente, e presa entre quatro paredes e muitas pressões não dá. Por hora, desisti de profissão. Quero curtir a vida, aprender. Quero o que for fácil, bom, suave.
Chega de "no pain, no gain".
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