Acabei de voltar do cinema. Fui assistir "Julieta", o novo de Almodóvar. Para resumir, já vi coisas melhores dele. O diretor tenta ir na linha de "Tudo sobre minha mãe", mas não rola. Só o problema de coluna que ele teve antes de filmar explica ter escrito uma carta em vez de um roteiro, que não acrescenta quase nada à história, é dramaturgicamente fraca. Mas Almodóvar é bom mesmo quando não é supimpa, essa é que é a verdade.
O nome original do filme seria "Silêncio" e ele de fato constrói o filme em cima desse tema. [Spoiler a seguir] Julieta, protagonista da história, é uma mulher que sofre com o sumiço da única filha, que não manda notícias há doze anos. Bem, estamos falando de uma relação especial, de pais e filhos, mas quem nunca sofreu com um silêncio, com uma rejeição sem motivo forte aparente, com perguntas que nunca foram (e às vezes não poderão) ser respondidas, enfim, com lacunas em relacionamentos importantes. Quem nunca?
Isso pode desde provocar uma mágoa guardadinha numa gaveta do fundo do coração até te paralisar, em casos mais extremos.
Julieta descobre, no final do filme, um monte de questões da filha que, a propósito, só lhe escreve quando passa por algo semelhante ao que causou à mãe. No final das contas, é sempre tudo sobre a gente, sobre o nosso mundo interno, os nossos sentimentos... as nossas faltas. Sabe aquela fábula dos Três Porquinhos? Pois é, o estrago só acontece em alvo já danificado. Mas como ninguém tem essa autoestima toda, a gente se ressente do outro não ter nos incorporado de tal forma a não conseguir nos largar, de não termos sido imprescindíveis como gostaríamos (ou melhor, de não nos sabermos imprescindíveis, porque ninguém está dentro de ninguém pra saber a real). Deles terem nos deixado de cara com a gente mesmo, sem refúgio, atingidos na vaidade, sem saber direito o que se passou e pensando em mil possibilidades porque não se aceita o "não".
Eu diria a Julieta: se o amor não deu certo, não fique no mesmo endereço... e nem se mate, como a outra. Siga adiante.
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