sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O exército paralelo do tráfico de drogas

“Penso que algo vai ter que cair primeiro: ou a gente ou a maldade”. A frase não é de um popular, mas bem que poderia. Seu autor é o sociólogo e diretor de pesquisas do Instituto Sangari, Julio Jacobo Waiselfisz, responsável por estudos como o Mapa da Violência. As tragédias e crimes provocados pelo tráfico de drogas pode dar à população a sensação de encurralamento e impotência. Mas, apesar do panorama desanimador, há sim como acabar com o poder do dos criminosos - é, pelo menos, o que garante os especialistas no assunto como o próprio Waiselfisz.


Para o sociólogo, minar o poder de atração dos traficantes demandaria três condições político-sociais básicas: a competência e a continuidade política; a formação de uma polícia bem preparada, integrada e com boas condições de trabalho; e o investimento em educação para as crianças e jovens.

“A sociedade não criou melhor mecanismo de inclusão social que a educação”, defende o sociólogo.

Um exemplo de que a escola é uma boa estratégia está bem próximo, na Região Metropolitana de São Paulo. Deixar as escolas públicas abertas aos finais de semana foi uma das medidas que levaram à expressiva redução da criminalidade. Ao perceber que nestes dias a violência crescia, as prefeituras de cidades como Diadema e Guarulhos decidiram disponibilizar a área escolar aos jovens. Deu certo. A região, que até a virada da década era uma das mais violentas do Brasil, em menos de dez anos conseguiu reduzir a um terço os índices de homicídio.

A baixa escolaridade dos jovens em idade produtiva é uma porta aberta para a entrada no tráfico. Em tempos de globalização e valorização do saber, possuir nível escolar inferior ao ensino médio completo pode ser um trampolim para a marginalidade. “Nessa situação, qualquer saída é uma boa saída. É preciso que a criança aprenda e permaneça na escola por mais anos. Isso não vai dar a solução, mas vai dar as condições”, diz Julio Jacobo Waiselfisz.

Poderes Falidos
A debilidade das instituições no Brasil é um forte fator indireto do crescimento do contingente de envolvidos com a criminalidade. “Quando o jovem convive com bandidos, vê que o que eles têm dificilmente vai poder comprar com o salário que ganha, e que não são alcançados pela Justiça, sente-se atraído”, diz o professor da Unifacs e coordenador do Observatório de Segurança Pública da Bahia, Carlos Costa Gomes.

A conivência social, que vai de quem é tolerante com a criminalidade para não ter problemas e estende-se até os efetivos participantes do sistema do tráfico, gera condições para que o crime prolifere. A permissividade por vezes flerta com a cumplicidade. “O Rio de Janeiro, por exemplo, tem uma pré-história ligada ao jogo do bicho. As organizações que infringiam a lei eram também as financiadoras dos grandes eventos da cidade, e isso criou facilidades para que o crime se instalasse”, diz o diretor de pesquisas do Sangari.

O despreparo e a falta de unidade da polícia formam outra mazela da segurança pública. As diversas polícias não dialogam entre si, e isso dificulta o combate ao narcotráfico. A falta de preparo e de condições técnicas adequadas também contribuem para a debilidade da polícia, que não consegue, por exemplo, indicar a autoria de 90% dos homicídios no País.

Mas é complicado falar em controle do tráfico quando este já está infiltrado até nas mais altas esferas do poder político. “Alguns deputados em determinados estados foram eleitos pelo narcotráfico”, diz Waiselfisk.

Se não é por corrupção, muitas vezes a falha está na incompetência dos representantes do povo. Para Carlos Costa Gomes, enquanto o governo federal não tomar atitudes básicas como o controle de fronteiras, estará “enxugando gelo” ao tentar combater o crime. “Esse pessoal utiliza armas contrabandeadas, assim como o traficante também vende droga que vem de fora”, observa. “O governo federal ajuda os estados a combater o tráfico, mas ao mesmo tempo não faz a sua tarefa de governo federal”, critica.

O quadro é desolador, mas exemplos de outros países provam que, com vontade política, é possível revertê-lo. Um caso famoso é o da Colômbia, que conseguiu reduzir bastante os índices de violência, inclusive em cidades problemáticas como Medellín e Bogotá, com medidas como ordenamento urbano das regiões de risco, campanhas socioculturais para jovens, promoção do desarmamento da população e depuração do corpo policial.

Antecipar-se ao crime, assim como fizeram os vizinhos sul-americanos, é a saída apontada por ambos os especialistas. “O Estado entra em uma favela para prender o bandido, mas não entra para não sair dela, oferecendo uma estrutura que previna a influência do tráfico”, diz o coordenador do Observatório.

sábado, 20 de novembro de 2010

Ê, camará!

Hoje saiu o Caderno da Consciência Negra. O tema deste ano é a capoeira.
Ficou muito bacana o resultado!
Embora continue baiana não-praticante (não tenho vocação para tribos, definitivamente), a cultura desse estado é realmente linda. A Bahia é sui generis. Ponto.
Eu continuo nada atraída em jogar capoeira, mas foi muito enriquecedor aprender um pouco sobre ela. Ouvir as histórias dos capoeiristas, ver como as pessoas se envolvem de corpo e alma com essa atividade, conhecer os códigos dessa comunidade... E, claro, é sempre bom ouvir o povo das ciências sociais falando sobre qualquer tema. Adoro pautas históricas!
O interessante deste caderno, numa visão interna digamos, foi que, a exceção de Juracy, os textos foram feitos por mulheres - e sabemos que a capoeira ainda é uma prática mais masculina mesmo.
A parte que mais gostei foi ver os pequenos jogando. Muito fofo! Encontrei uma pecinha chamada Bob, de 4 anos (mas tão pequeno que aparentava ter 2 ou 3), que fez uma coisa que não esperava (aliás, é esse o barato de lidar com criança: elas sempre nos surpreendem). Virei pra ele e perguntei se gostava de capoeira. Ele fez uma expressão travessa pra mim e deu um aú (uma espécie de ponte com as pernas abertas). Melhor resposta que essa não existe, né?
(Vou tentar conseguir a foto dele pra pôr aqui)
O acolhimento que a capoeira dá às pessoas, em especial às crianças, é muito bacana. "Capoeira é liberdade" realmente, como me disse um dos entrevistados. Ninguém é forçado a jogar. Se não quiser, pode cantar ou tocar algum instrumento. Mas nem por isso há esculhambação, muito pelo contrário.  Apesar da capoeira ser "a arte da enganação", as relações são sérias, as pessoas se respeitam muito e hierarquia é coisa sagrada na roda.
Por falar nisso, vou aproveitar para agradecer e elogiar a "mestra" e editora dessa publicação, Cleidiana Ramos, que além de inteligentíssima, sabe como acolher uma equipe de repórteres. "Contramestre" Meire também deu uma colaboração preciosa ao trabalho (que vigor para o trabalho braçal de edição. Benzadeus!)

Saudações,
"Fala Mansa"

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Vale Tudo?

Depois desse blog ter chamado Alosa na chincha, finalmente a Fraude postou algo no Panáfricas - creiam!
Eu daria parabéns, mas, da vero, estou chocada. A víbora andou espalhando por aí que sou parente Wesley Snipes Roriz (vejam bem: ele mal deu início ao seu projeto de poder e já está reagindo assim diante das críticas).
Repito: estou chocada!!! Fazer um treco desse logo com io che amo solo te?!
(E, para o seu governo, meus parentes corruptos de Brasília não roubam nada acima de R$10 mil!)
Nosso amigo deveria dar workshop de vilania ao núcleo mau da próxima novela de Gilberto Braga.
Aliás, falando nisso, até já sei qual será a frase final da autobiografia de Alosa: "Maria de Fátima c´est moi!". E tenho dito!

(sobe som: "Alosa, mostra a sua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim...")

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ela é o cara?

Pois é, enfim Dilma Doucheff é president(uç)a!
Eu até me emocionei, ontem, com a emoção dela no palanque, após o anúncio da vitória. E olha que emocionar alguém tendo o Temer do lado não é para qualquer um - será que ela teve um "media trainning" sobre isso com Companheira Débora?...

Eu tenho minhas reservas com o PT. O Mensalão, por exemplo, não me desce até hoje. Na verdade, embora não seja justificável, essa prática corrupta eu até consigo, no fim das contas, compreender. O comportamento de Lula foi o que me matou nesse episódio: cínico e presunçoso, ele mostrou ser um belo de um malandro, no mau sentido. Desde então, não suporto as "frases espontâneas" do presidente. Saio da sala. Criei com ele a mesma agonia que tenho com Agostinho Carrara (sim, aquele de A Grande Família. É tanta mentira, tanta esperteza que prejudica os outros, que não consigo me divertir com o personagem de Pedro Cardoso. E não é nem moralismo meu, pois adoro Mendonça, que ao menos é um malandro mais sentimental, digamos).

Se você me perguntar se eu gosto de Lula, vou dizer que não, mas só sendo muito do contra para não reconhecer os méritos dele. 

O primeiro, claro, foi ter deixado de ser um sujeito que praticamente só grunhia (era esse o Lula sindicalista: fera acuada) para um homem articulado, bem informado e leve. Esse é o meu critério para avaliar as pessoas: de onde saíram e onde chegaram. Não tem muita graça nascer em "berço esplêndido" e ser mais um na linhagem de advogados, médicos, políticos, o que seja, da sua família. É o mínimo, a obrigação. Lula é um exemplo de superação. Ademais, ele tem um tipo de inteligência que admiro, "pedra bruta" por assim dizer, no caso dele esculpida na rua, no dia a dia, através do saber dos outros.

Por último, mas não menos, o que ele fez pelo Brasil é inestimável. Lula lançou 25 milhões à classe média. E isso tem revolucionado a economia. Essa explosão imobiliária, por exemplo, é fruto, sobretudo, do aumento do volume de financiamento para imóveis até R$300 mil (lógico que corremos o risco de ver uma rebordosa disso, mas por enquanto tá tudo lindo!). Veja esse programa do Sebrae do microempreendedor individual. Milhares de pessoas vão sair da informalidade e passar a contribuir com a Previdência. E o Luz para Todos? Não tenho dúvida de que foi isso que alavancou, por exemplo, Jaques Wagner ao governo do estado em 2006. Luz em casa é algo tão básico, mas nem FHC nem Itamar se ligaram (com o perdão do trocadilho) nisso.

Lógico que não se trata de bondade pura. Tudo isso traz benefícios financeiros, pra começar. Sobretudo, há ganho de imagem. Pobre é bicho fiel. Lula, assim como Getúlio, vai ser (bem) praguejado durante 5 gerações dessas pessoas que ascenderam. Por falar em Getúlio, apesar de Lula sonhar em ser JK, é impressionante como as trajetórias do torneiro mecânico e do militar gaúcho se parecem (e, de um certo modo, a oposição tem uma certa razão com a paranoia: governos ditadores não raro são populistas, dados a agradinhos para o povão - mas, por favor, se você lê isso aqui, nunca dê ousadia a um tucano, pelo contrário: ressalte a paranoia. Aliás, eles deveriam trocar o bicho símbolo, de tucano para caranguejo: são tão paranoicos, desconfiados dos petistas que chegam a andar de lado, de olho esbugalhado quando falam do futuro do Brasil na mão dos adversários). Como bem lembrou o comentário do Noblat, na edição de ontem de A Tarde, até a dobradinha Getúlio-Dutra é bastante similar a Lula-Dilma.

Noblat também ressaltou algo que já vinha pensando faz algum tempo. Até o momento, sou só elogios para Dilma - tirando a expressão de maluca que ela às vezes assume, ao estilo Collor. Além de oito anos de atuação competente no governo petista, ela foi de uma determinação férrea durante a campanha e se superou, inclusive, pessoalmente, e isso sem contar que, como disse no início, Dilma é de uma gratidão comovente ao Lula. Mas será que ela vai segurar a onda do Palácio? Digo, será que o poder não vai subir à cabeça? Pergunto-me se essa lealdade a Lula vai sobreviver quando ela provar o gosto de mandar e não mais ser subordinada?
Brasileiros, sinceramente oremos!
(E seja tudo que Deus - ou a "energia" que rege o universo ou o nada dos ateus - quiser!)


Pois, apesar de ter sido eleita no Dia das Bruxas e na antevéspera de Finados, desejo que os 4 anos de Dilma não sejam um terror ou mesmo mortos. Muito pelo contrário! ;)

Excesso de bagagem

Há 25 dias, Alosinha não está mais entre nós. Calma, que o homem ainda não partiu dessa para uma melhor (mas depois que contar o fato que me leva a escrever este post - a seguir, a seguir...- , corroído(a) pelo desolamento, você vai até desejar que fosse isso mesmo - no sentido figurado, of course). A fraude do momento é a seguinte: Alosa partiu com uma equipe para filmar um documentário no continente africano. Sorry (for the), periferia!
Desde então, os comentários sobre a viagem pipocam do Twitter do nosso amigo. Nem sempre são "camaradas". Alguns são bem burgueses, como um no qual ele se queixava da cerveja quente (o povo passando fome e o nosso amigo de picuinha com o gerador?!). Em alguns momentos, dá para perceber nas entrelinhas um "Bendita diáspora que botou um continente entre mim e essa África".
Quando recebo esses tuítes, fico me perguntando que zorra Alosa anda contribuindo nesse projeto. Pelo visto, Paulo Rogério, que eu nem conheço mas já julgo um santo!, é quem está fazendo o trabalho duro (vide os posts no PanAfricas - cadê Alosa que não ajuda a atualizar o blog?). Nos créditos do vídeo, eu já prevejo o nome de Alosa em "Apoio Moral".

O que é isso, companheiro?
Aproveitando o questionamento acima, este blog pergunta: você pôs mega hair? Que cabeleira é essa?
(Cartas à redação!)


No destaque, Alosa, que de tão "prestativo", nem se abala em carregar a caixa da pobre senhora. Tsc, tsc, tsc... :(

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Nobre ou esnobe?

Ou estou amadurecendo ou estou ficando esnobe: tinha uma comentário sarcástico para fazer sobre alguém de quem não gosto, mas resolvi me conter.
Palmas para mim?!...