Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
Quando a Síria deixou de ser longe demais de mim
Essa foto foi tirada há um ano e meio, com um colega muito especial da excursão pela Cidade do México, Munir, um sírio-venezuelano que bem poderia ser brasileiro. Munir foi a primeira pessoa, numa excursão da terceira idade (risos), a falar comigo na van. Sentou do meu lado e começou a falar mal do governo de Maduro, apontando para um meme de internet no celular, de um prato de comida em que a proteína animal, um pedaço de frango, estava desenhada em um pedaço de papel. Eu fiquei assustada com a abordagem à queima roupa, mas também achei engraçado. Munir seguiu o discurso indignado, contando que a Venezuela estava pior do que quando chegou ao país, no final dos anos 50. Ficamos best friends durante a viagem (com direito a ponga em várias das minhas fotos! hahaha). Uma pena que nunca mais a gente vai se ver.
Munir é comerciante, pelo visto muito bem sucedido, porque ele e a esposa viajam umas quatro vezes por ano para destinos nada baratos. Ela é mais fechada, foi se chegando aos poucos, até porque viu que estava sozinha (para uma mulher árabe, estar solteira e sozinha numa viagem deve ser o fim da picada, um atestado de forever alone, rs) e que Munir e eu havíamos estreitado laços. Ele tem alma de cachorro vira lata e conversa com to-do mun-do, fica alegre ao te ver como se fosse a pessoa mais importante do universo falando com ele. Virou o mister simpatia da viagem, xodó de guias e garçons - nem tanto assim de um dos guias, Carlos, sujeito seríssimo que perdia a paciência com as interrupções e intervenções sem noção de meu amigo, hehe.
Lembro muito dele quando ouço coisas sobre Aleppo. No último dia no México, ele falou que, se a situação melhorasse, visitaria seus parentes de lá. Não melhorou. Será que a família dele na Síria ainda está viva? Como está a situação dele na Venezuela? Toda a alegria de Munir não merece esse duplo bombardeio. Será que ele continua feliz? Tomara. Odiaria saber que, depois de uma vida que me pareceu tão bonita, meu amigo da van está sofrendo em sua velhice e não por culpa dele. Mundo, na boa, você está precisando melhorar.
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