quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Tudo serve para alguma coisa (ou a alegria no dia a dia)

Quando viajei pra prestar o TRT 20, em Sergipe, fiz amizade com uma fisioterapeuta concurseira chamada Carla. Fomos e voltamos conversando muito sobre isso.
Confidenciei que detestava estudar Informática, que não entendia como aquilo ainda era cobrado em concursos. Ela falou algo interessante: apesar de todo mundo saber mexer com computador, a matéria otimiza o seu tempo nele. E arrematou: "Eu aprendi um monte de atalhos que nem imaginava. O lance é esse: procurar o lado bacana de cada matéria, ter interesse no que está aprendendo".
Isso serve para a vida. Por pior que seja, tudo traz algum aprendizado. E se não podemos vencer o inimigo...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Dez lições de HIMYM


É madrugada, eu zapeio a tv e lá está a série passando... Como não assistir, ainda que com uma dublagem horrorosa? <3
Há uma sabedoria sobre a vida, por trás da bobajada cômica de HIMYM, que me cativa. Não acredita? Vou provar com esse post. Take a look:

1- Não dá pra ser o que éramos antes porque simplesmente a gente muda, a vida anda.
Essa foi a lição do episódio que assisti ontem de madrugada. Ted e Marshall, esse último recém casado com Lily, se recordam das viagens que faziam de NY a Chicago só para comer a pizza favorita, nas quais cometiam atos insanos, na época de faculdade. Com ciúmes do casamento do amigo e usando como pretexto o fechamento da tal pizzaria, Ted convida Marshall pra ir até lá, mas além de carregar a esposa a tiracolo (fusão que incomoda demais Ted, já que esse é um programa de "bros"), ele ainda muda a programação da viagem para adequá-la às expectativas dela. Ted, revoltado, sequestra o amigo, mas a viagem é um fiasco: nem eles se divertem como antes e nem a pizza valia mais a pena. Enfim, é melhor aceitar que as coisas mudaram do que se frustrar tentando que sejam as mesmas de novo.

2 - Amar é ceder.
Lily foi odiada por alguns fãs da série depois que Marshall desistiu de uma vaga de juiz para acompanhá-la até a Itália a trabalho (a carreira dela nas Artes é nada promissora; ela tem o sonho, mas não possui talento suficiente). Eles brigaram feio, mas Marshall cedeu porque entendeu que isso era muito importante para Lily, que teve poucas boas chances profissionalmente. De volta aos EUA, ele conseguiu ser juiz e, então, houve happy end.
Ted também deu uma lição nesse sentido ao fazer o possível para que o casamento de Robin (o eterno crush) e Barney (seu amigo) desse certo por entender que eles se amavam e que isso era importante para os dois. Enfim, quem te ama vai levar em conta, no frigir dos ovos, o que te faz feliz.

3- Nada de bom acontece depois das 2 da manhã.
Essa é a máxima da mãe de Ted frequentemente repetida e comprovada durante as nove temporadas.

4 - Às vezes, é mais adequado ser estratégico que correto.
Quando (quase) se casou com Stella, uma mãe solo, Ted desobedeceu um pedido da noiva, de que os exs dos dois não fossem convidados para a cerimônia, pois poderiam trazer à tona sentimentos desagradáveis ou adormecidos. Mas Ted não conseguiu dispensar a presença de Robin e por isso mesmo se sentiu na obrigação de convidar o ex-marido e pai da filha de Stella. Resultado: perdeu a noiva para o sujeito porque eles reataram o casamento ali mesmo. Ou seja, às vezes, mais do que fazer o que seria "correto" ou agradável, devemos ser estratégicos nas nossas decisões.

 5- É impressionante a força que as coisas têm quando precisam acontecer.
Mas a série também ensina, em vários momentos, que o que tem que ser seu vai ser seu, ainda que não pelo caminho que você esperava. Não adianta querer controlar o destino. O exemplo mais marcante é o que dá nome ao seriado. Ted só conhece a mãe quando decide parar de correr desesperadamente atrás de qualquer garota na esperança de encontrar a mulher da vida dele e ser tão feliz quanto Lily e Marshall. Quando ele se desapegou dessa obsessão, o destino imediatamente passou a agir a favor e, sem esperar, acabou conhecendo a mãe do título, com quem foi muito feliz.

6- Há momentos em que é preciso abrir mão para ficar bem.
Essa é outra lição recorrente no seriado, que se passa em boa parte durante os anos da recessão americana. Vários episódios retratam a dificuldade dos personagens de realizar os sonhos, especialmente os profissionais. Em um deles, Lily, que queria ser artista mas acaba como professora do Jardim de Infância, aconselha Ted a mudar os rumos da profissão, já que as frustrações nessa área estavam lhe fazendo muito infeliz. Até Marshall, que sonhava em defender o meio ambiente, entende que, casado e em início de carreira, terá que, temporariamente, abstrair certos ideais em nome das contas a pagar.
Enfim, se o plano A não deu certo, tente o B, C, D, etc, mas procure um jeito de ficar bem.

7 - Não adianta ir contra a própria natureza.
Composta de cinco pessoas, a turma de HIMYM tem personagens para todos os gostos. Barney e Robin, os desapegados emocionalmente, por um tempo, quando se apaixonaram, acharam que poderiam mudar, serem "como todo mundo", mas se separaram quando entenderam que não tinham essa aptidão para a vida a dois, que se nem por amor conseguiram mudar, tinham que se aceitar como são. E isso não significa ter uma vida inferior em qualidade: Barney se preencheu com a paternidade e Robin, com a carreira.

8 - A sociedade encara muito diferente homens e mulheres.
Há uma situação interessante em HIMYM: se por um lado temos Barney, o "pegador" clássico, temos, por outro lado, Robin, uma mulher que pouco se vincula aos homens com que se relaciona, terminando relacionamentos sem sofrer muito e tocando a vida adiante. Barney apenas é "grosse", sem noção, mas Robin é frequentemente incompreendida por seu jeito de ser, que não causaria estranheza caso fosse um homem. A começar pelos fãs. Muitos não aceitam bem as negativas da repórter às investidas de Ted. Mas o que ela tem de errado, afinal? Ao contrário de Barney, ela não engana pessoas só para tirar vantagens pessoais. É apenas uma mulher tranquila, que namora quem ela quer, gosta de beber, não quer se casar e ter filhos, prefere a companhia de seus cachorros e investir na profissão e curte esportes. Robin é melhor pessoa que Barney, porém é mais julgada e passa por mais crises só por ser mulher.

9 - A gente perde muito tempo se iludindo que o que a gente quer é melhor do que o que a gente tem.
O melhor exemplo disso é quando Lily termina o noivado com Marshall para ir atrás de uma bolsa de artes plásticas em São Francisco, achando que com o casamento iria perder toda a diversão e aprendizado que poderia ter na vida. Na prática, ela confessa depois, nunca esteve tão infeliz e deslocada do que durante esse período e ter rompido com o noivo não acrescentou nada a ela pessoalmente ou profissionalmente.
Ted é outro caso de autoilusão. Passou o seriado inteiro querendo ser Marshall, casar logo e ser feliz pra sempre, o que acabou acontecendo mais tarde pra ele e por outro caminho. Cada um dos dois, a seu modo, teve uma boa vida. Enfim, não adianta querer a vida dos outros porque cada um terá uma receita de felicidade.

10 - A infelicidade é péssima conselheira.
Há um episódio no qual a turma observa que toda vez que Ted se dá mal, está infeliz com a própria vida, cai na tentação de voltar para ex namoradas problemáticas, o que nunca acaba bem. É aquela coisa: a pessoa tá tão na merda, por baixo, que prefere estar mal amada, mas recebendo alguma migalha para o seu ego, do que só. O ápice disso é o relacionamento dele com Robin: passou nove temporadas dando errado, mas toda vez que ele estava carente, sem ninguém, caía na tentação de tentar mais uma vez conquistar a amiga, sem sucesso, lógico. O seriado, aliás, terminou assim (mas não sabemos se dessa vez o milagre Ted & Robin finalmente aconteceu).

Bônus track - 11: O grunge nasceu no Canadá.
Uma das melhores partes do seriado são os flashbacks da carreira de pop star adolescente de Robin no Canadá. Há ótimas sacadas dos roteiristas!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

É mais fácil admitir a existência de uma doença do que a existência do mal

Contardo Calligaris
FSP 19.01.2017

Em junho de 2015, em Charleston (Carolina do Sul, EUA), Dylann Roof, 21 anos, atirou nos fiéis, todos negros, que estavam rezando na Emanuel African Methodist Episcopal Church, uma igreja antiga e gloriosa para a comunidade negra norte-americana –desde o tempo da escravatura até a época da luta pelos direitos civis. Foi por essa relevância simbólica que Roof escolheu o lugar do seu ataque.
Balanço: nove mortos e três feridos. No primeiro depoimento, Roof confessou sua matança rindo. E disse que pensava ter matado só quatro ou cinco, no máximo. Quando soube que eram mais, pareceu satisfeito.
Roof declarou ter agido na esperança de iniciar e fomentar assim, pelo seu ato, uma guerra racial.
Uma das vítimas lhe perguntou por que ele estava atirando. Roof o matou respondendo: "Vocês estupram nossas mulheres e estão assumindo o controle do nosso país. Vocês tem que ir embora".
Em dezembro de 2016, Roof foi reconhecido culpado por um tribunal federal. Em janeiro começou a segunda fase do processo, em que seria decidida a pena.
Nessa fase, Roof pediu para ser o advogado de si mesmo, porque não queria que seus defensores atenuassem sua culpa alegando sua insanidade mental. Contra a vontade de Roof, a defesa pediu que ele fosse declarado doente e incapaz de ser advogado de si mesmo.
Numa nota de seu diário, Roof escreveu: "Quero declarar que sou moralmente oposto à psicologia. É uma invenção judaica, que só inventa doenças e diz às pessoas que elas têm problemas que elas não têm".
Robert Dunham, que dirige o Death Penalty Information Center (centro de informação sobre a pena de morte) comentou: "Imaginemos que o júri enxergue Roof como mau, ou seja, como alguém que fez a escolha consciente e racional de matar pessoas inocentes e devotas, e isso, na intenção de fomentar o ódio racial. Nesse caso, a condenação de Roof à pena de morte é muito mais provável do que se o júri acreditasse que ele é uma pessoa jovem e profundamente doente, que agiu sob a influência de crenças racistas delirantes".
Ora, Roof não quer que suas ideias e motivações sejam consideradas doentias. Em 4 janeiro, na abertura da segunda fase do processo, ele disse aos jurados:
"Vocês devem ter ouvido que a razão pela qual eu escolhi ser advogado de mim mesmo é para evitar que meus advogados me apresentem de maneira errada. Isso é absolutamente correto."
"Eu me represento, não vou mentir sobre mim mesmo. Meus advogados me obrigaram a passar por duas audiências de capacidade mental, não porque eu teria um problema. ["¦] O ponto é que eu não vou mentir para vocês ["¦] Não há nada de errado comigo psicologicamente."
Entendemos facilmente de onde vem o horror que essa declaração nos inspira. Em síntese, para nós, é mais fácil admitir a existência de uma doença ou do erro do que a existência do mal.
Preferimos pensar que Roof esteja errado (mal-informado, extraviado pelas redes sociais etc.) ou, então, que seu erro seja efeito de uma tremenda neurose familiar ou de uma psicose a pensar que ele seja "apenas" alguém que pensa diferente de nós.
Imaginamos ser "tolerantes" e abertos, mas, no fundo, preferimos imaginar que quem pensa diferente de nós esteja doente. Numa briga, o último recurso do ódio é um "Vai se tratar", que condena tudo o que o outro diz e faz à irrelevância.
Enfim, onde estaria a doença de Roof?
1) Ele seria doente pelo que acredita e que motiva sua ação. OK, mas distinguir o "certo" do delirante não é simples. Muitas de nossas crenças são extravagantes quanto as de Roof; só não percebemos sua extravagância porque as compartilhamos com muitos outros. Um delírio coletivo não parece mais um delírio (pense nos dogmas religiosos, por exemplo).
2) Ele seria doente por causa da certeza absoluta, que o impede de discutir e mudar de opinião. De fato, na clínica, a sensação de certeza incontestável é a marca do delírio. Mas essa certeza se tornou hoje um sintoma social banal: é por isso que, na internet, parece que todos procuram apenas o que confirma suas crenças.
Em suma, Roof pode ser louco, mas não é fácil dizer por quê.
Agora, para Roof, ser considerado doente implicaria a irrelevância de seus pensamentos e de seu ato, como "coisa de louco". Seria melhor e mais digno ser condenado à morte, como ele foi em 13 de janeiro. A execução, como sempre acontece, vai levar tempo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Provas de autovalor

Ontem rolou a polêmica no grupinho (e graças a Deus, dessa vez não tô no meio): até que ponto é brincadeira zoar com uma característica de um amigo, algo que a pessoa tem bem latente? Há de acrescentar que essa zoeira está acontecendo no trabalho e que gente de fora do grupo já tá brincando com o sujeito, que está visivelmente incomodado, mas para não ser desagradável, fica quieto. Minha teoria é de que isso está acontecendo com ele não porque tenha algo a mais para ser criticado que o restante do grupo. É uma mistura de senso crítico (afinal, o que dizem não é mentira) com malícia (sabem que a pessoa fica mexida) e covardia (sim, porque o alvo da brincadeira não vai reagir. Esse tipo de coisa não acontece com quem reage). A pergunta que eu fiz foi simples: se o jogo virar, se ele começar a atacar o teto alheio (porque o de todo mundo é de vidro), vocês vão aguentar a brincadeira? Frequentemente quem brinca não gosta de ser alvo de brincadeira. E quando você é menosprezado, a consequência é, se não sair de perto, desenvolver desprezo por quem lhe molestou. E daí começam as críticas, que minam o afeto. Perceba que por trás de toda mulher que esculhamba o marido existe uma esposa deixada às moscas, menosprezada...
No entanto, cá entre nós, a atitude do coleguinha que tá sofrendo bullying gera um certo desprezo porque é falta de autoestima empanada em vaidade. As pessoas se irritam com mentiras e sempre haverá quem queira desmascará-las. Ele simplesmente se autoelogia por qualquer coisa. Tá fazendo algo banal e acha que tá botando pra foder. Fica visivelmente deslumbrado com elogios. Eu sinceramente acho que a gente tem que fazer bem feito e ficar feliz com o próprio sucesso, porque custa suor e não acontece todo dia, mas se você se deslumbra, você não tá fazendo isso pra você mas para os outros. E essa é uma armadilha perigosa à beça, além de ser uma forma de perder a dignidade.
A certa altura, esse amigo admite que se sente assim porque hoje ocupa um espaço que não imaginava ocupar, ele que vem de uma família de pouco dinheiro. Eu entendo e meu entendimento até extrapola o lado pessoal dele, isso tem uma dimensão política e social no grupo do qual ele pertence.
Mas um amigo em comum, de perfil semelhante, falou algo que é a chave dessa situação, quando disse que ele nunca se colocou nesse lugar, de quem nunca seria nada. Pelo visto, o outro amigo está deslumbrado porque jamais se imaginou nesse lugar que ocupa hoje, no qual qualquer um vê que ele tem competência para estar. Não precisa pirar com isso. No fundo, é tudo uma questão do lugar que você mesmo se coloca. Se você não concorda quando te subestimam, os outros não vão poder fazer muita coisa contra você.
Claro, quem não é ingênuo ou hipócrita sabe que se você não é rico, branco, homem, jovem, magro e hétero, tudo que você fizer vai ser subvalorizado e não é fácil lidar com isso. Eu percebo isso desde criança, mesmo em situações em que eu levava a vantagem. Sempre fui inteligente e responsável, sempre gostei de artes, mas eu só me preocupei com o meu boletim quando percebi que era a senha para ser bem tratada pelos professores. Mas nunca fiz disso o que eu sou. No fundo, sempre tive raiva daquela frase, do tipo "Ah, ela é inteligente". Onde fica o ser humano, né? Aliás, joguei pra cima quando percebi que tinham me resumido a isso, no segundo grau, mas, por azar, fiz isso quando precisava mais que nunca ser assim, na Facom.
Então, se você não faz parte do grupo naturalmente valorizado, você tem que ter em mente que esse é um problema do mundo e não seu. O que sempre me segurou, apesar de ter passado por coisas muito duras e desde cedo, foi saber quem eu sou e sacar as intenções dos outros, as limitações das pessoas. Não é todo mundo que a gente tem que ouvir, nem todo mundo tem inteligência ou olhos para a gente (mas isso não quer dizer que só devemos ouvir quem nos elogia; há quem saiba criticar o que deve ser resolvido). Lógico que a violência produz efeitos e eu tive e tenho que lidar com eles, saná-los, mas você tem que saber quem você é e não entregar essa resposta para os outros que, inclusive, podem usar essa fragilidade para fazer perversidade e, na melhor das hipóteses, vão te ver pela perspectiva deles. A sociedade não é criada para lidar com as diferenças, mas para hierarquizá-las.
Somos seres relacionais, nos confirmamos através dos outros, mas se você está em um grupo e percebe que é mais ou menos bem tratado de acordo com o que você ostenta, esse grupo não é seu. Amor que é amor vê graça até nos "defeitos" (só aprendi isso recentemente com a minha sobrinha). Se pique, porque vai ser esforço em vão, frustração constante. Cada vez mais me convenço que o que é bom vem de graça, você não precisa se esforçar, se podar, correr atrás. A reciprocidade apenas acontece. Qual a finalidade de querer entrar em clubes que não te aceitam? Isso é autossabotagem. Meu amigo Anderson só anda com gente parecida com ele e as coisas fluem. Talvez seja essa a chave do sucesso nas relações: buscar quem tem natural afinidade.
Mas ninguém ensina isso pra gente quando somos muito jovens. A gente acha que tem que caber nos espaços mais "legais" custe o que custar. Ensinam que o que é bom tem que ser batalhado (blá, blá, blá). E depois vê que perdeu um tempo enorme, um tempo no qual poderia estar procurando a própria turma. A gente leva tempo demais até perceber que o que nos preenche são os afetos e não o status.


Essas coisas que nos matam por dentro

Ontem finalmente eu assisti "A Escolha de Sofia". Enrolei porque sabia que ficaria arrasada. E fiquei. O filme é de lenhar: bom roteiro, excelente direção de atores, enfim, bem feito (soube que supera o livro, que divide opiniões).
(SPOILER) No final, a gente sabe que a escolha de Sofia foi entre deixar o filho ou a filha ir para a câmara de gás. Se ela não decidisse, ambos iriam. Ainda teve a presença de espírito de pensar rápido e optou pelo garoto, mais velho, com mais chance de sobreviver, que ela nunca mais viu. A menina, apavorada, tadinha, berrou assustadoramente. Fiquei preocupada porque aquela atriz mirim não estava interpretando; ela estava realmente assustada. Aliás, soube que Meryl Streep se recusou a filmá-la outra vez e disse que, como mãe, seria uma tortura.
Eu, no lugar de Sofia, também optaria (e era optar ou ver os dois morrerem. Qualquer mãe tentaria salvar pelo menos um), mas provavelmente pela menina, que estava no colo, era mais frágil e estava muito assustada, o que não adiantaria muito, porque uma criança pequena tem menos chance de sobreviver. E ficaria fodida pelo resto da vida, porque não tem como não morrer em espírito depois de uma dessa. O nazista teria tido mais misericórdia matando logo os três. Mas ele sabia o que estava fazendo.
Pois é, há situações em que dificilmente dá pra gente ser humano de novo. O filme explora muito esses aspectos psicológicos, que no caso de Sofia são bem complexos: além das violências física e simbólica do holocausto, ela tinha uma relação ruim com pai, a quem odiava, mas ao mesmo tempo seguia. Quando os judeus estavam sendo levados da Polônia, país dela, não se importou. Até que aconteceu com ela, que ficou ainda tentando se distinguir dos demais, pra cair fora, alegando que não era judia, entre o desespero e a arrogância. E ainda sofria violência do namorado americano, que também é um personagem rico psicologicamente.
Sofia conseguiu sobreviver, mas estava sem nada daquilo que pra ela tinha significado. Culpada por ter sobrevivido e os filhos, não. Sem conseguir esquecer a filha que entregou aos nazistas, mesmo sem ter tido culpa.
Como as pessoas conseguem sobreviver a certas coisas? Eu me impressiono.
O mal também pode nos atingir - Há uma coisa interessante nesse filme: Sofia não é uma pobre inocente, ela é uma personagem ambígua. Primeiro que o pai dela era um acadêmico do Direito, católico, que defendia o extermínio dos judeus. Não que ela fosse exatamente como o pai, a quem odiava, mas foi criada assim e, covarde que era, no fundo ficava aliviada porque enquanto levavam os judeus, a guerra não a atingia. Até recusou ajuda a um amante judeu e à irmã dele, que roubaram uns documentos da Gestapo e pediram que ela os traduzisse do alemão, alegando que poderia pôr em perigo a família dela. Os dois morreram e pegaram a família dela inteira, inclusive o pai antisemita, do mesmo jeito.
Moral da história: você se omite achando que não é com você, mas quando o fascismo toma conta, sobra pra todo mundo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Um ano ímpar na minha vida!

Perdão pela piadinha de segunda, hehe, mas analisando os fatos de ontem, eu concluí que há chances deste ser um ano importante.
Vejamos: os anos em que começo pagando vexame são anos de mudanças na minha vida. O último assim foi 2010, quando fui cortar o cabelo com uma pessoa qualquer que me deixou feito um Playmobil, sobrando pra Mônica consertar o estrago e então ela acabou fazendo o melhor corte que já tive - apesar do baque, num primeiro momento, de ter o cabelo na altura da nuca.
Naquele ano, eu inaugurei o hábito de viajar e entrei no jornal, o que reconfigurou toda a minha vida profissional.
Ontem, pulei elétrica, que nem o coelho da Raiovac, de tão bêbada, deixei o celular cair no mar e terminei a noite abraçada ao vaso sanitário. Tá confirmado: estou com sorte!

How I Met Your Mother - finalmente o final

Após nove temporadas, finalmente me despedi de HIMYM. Tá sendo agridoce. Eu precisava mesmo perder o vício - assisti as nove temporadas em um mês -, mas vou sentir uma saudade da zorra dos personagens.
A série não é nada de mais, mas é redondinha, muito bem feita, bem amarrada e não caiu de qualidade, o que é um grande feito pra quem ficou nove anos no ar. Em alguns aspectos HIMYM lembra Friends, mas eu a considero até superior porque tem mais drama. Se o espectador prestar atenção, ela traz muitas lições boas sobre a vida, sobre se tornar adulto, sobre as pessoas, o destino e as necessidades de cada um. Tô sofrendo agora, admito.
Acabei de ver o episódio final e apesar dele fazer muito sentido, racionalmente, na boa (contém SPOILER), não entendo o casal ficar junto no final. Quer dizer, entendi a intenção dos autores. Ted sempre quis ter uma família; Robin sempre focou na carreira, sempre quis sair pelo mundo e não pode ter filhos. Então, para finalmente ficarem juntos, seria preciso que cada um se realizasse primeiro - e que Robin finalmente percebesse que ama Ted, ao contrário do que pensava até ele se casar.
Mas se Ted  fosse meu amigo, ficaria preocupada. Olha, tem que ter um grande coração, realmente, para ainda correr atrás de Robin. Porque por mais que você entenda e tenha carinho pela outra pessoa, vários episódios acumulados de rejeição não são pouco abalo para uma relação, não digo nem de amizade, porque até dá, com o tempo, para recupera-la, mas de amor. No mínimo, agora seria a vez de Robin ir atrás dele. Enfim, ou Ted é "awesome" ou houve ali muita ficção.