domingo, 26 de janeiro de 2020

Anne with sombras



Já havia me prometido que não ia mais agregar séries à minha lista enorme de títulos pendentes. A vida é curta para dar conta da enxurrada de produções. Mas falaram tanto de 'Anne with an e" que eu resolvi dar uma espiada. Pela descrição, achei que seria um respiro em meio a uma sociedade tão pesada ultimamente. Esperava algo algodão doce como "Pollyana". É um livro que eu li com nove anos que falava de uma órfã que, tendo tido uma vida fodida, aprendeu a procurar sentido no lado bom das coisas. Anne vai mais além. As duas primeiras temporadas, pelo menos, exploram bastante os traumas da personagem, que sofreu pra burro, psicologicamente e fisicamente. O primeiro episódio, então, é de cortar o coração e botar no espeto. Eu me incomodei, não vou mentir.
É isso: Anne virou a página e começou uma vida mais feliz, com amor, mas é interessante como, a cada ameaça de dor, ela se torna reativa, age de forma desesperada, o passado retorna e ela não quer sentir tudo de novo. Parece um pouco com o que eu já li sobre estresse pós-traumático. E é interessante, também, como ela tenta compensar a baixa autoestima querendo, toda hora, chamar atenção pra si. É como se ela só existisse se fosse validada por todo mundo. O episodio da fofoca sobre a colega quando chegou a nova professora é bem ilustrativo disso.
Anne é luz, porque alguém que sofreu tanto poderia facilmente ter ficado pelo caminho, se não efetivamente morrendo, morrendo por dentro, afetivamente. Anne é amorosa mesmo sem ter tido isso durante quase toda a sua vida. Ela é otimista. Mas Anne também é sombra. Ela levou com ela todos os traumas, todas as dores. Porque somos a nossa história - só enlouquecendo ou morrendo para não sermos mais -, mas podemos torná-la mais difícil ou mais fácil, a depender da nossa natureza, sorte e disposição para isso.
Resumindo: gostei de "Anne with an e". Eis um personagem positivo, mas humano ao mesmo tempo. Fora que a série trata o tempo todo de temas progressistas de um jeito delicado, adequado aos personagens e à época em que se passa a história. 



Obs. 1: Amo Gilbert. Aliás, ele, ela e a escola me trouxeram lembranças da minha época de colégio. Alguns tipos e situações parecem eternos.

Obs. 2: Amo Matthew. Todo mundo tinha que ter um Matthew na família. Coisa mais doce.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Gatilhos

"Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar...". Pois é, a onda agora é advogar contra os gatilhos, eventos comuns que podem desencadear mal estar em pessoas que sofrem algum trauma. Eu entendo a preocupação com gatilhos como a ansiedade provocada por uma cena de violência no cinema quando a pessoa sofreu violência. Em boa parte das vezes, dá pra fazer algo menos gráfico. Mas acontece que estão implicando com coisas da vida. "Não comemore Dia dos Pais porque isso faz mal a quem não tem pai presente".
Na moral, pra quem está na merda, quem morreu atropelado é uma ofensa, beijo de novela corta a alma, enfim, qualquer coisa vai servir de gatilho. Qualquer coisa mesmo. O problema está na pessoa, não na vida. Eu sei porque eu já me senti assim, fodida. E quem está mal não deve ficar vendo a vida dos outros nas redes sociais. Se você já acha que sua vida é ruim, vendo as dos outros essa sensação aumentará.
Um conhecido meu está se lamentando disso nas redes sociais. Dá vontade de dizer: "Bicho, seu lugar é na terapia e não aqui, contando coisas suas, íntimas, nas redes sociais". Mas se eu disser, vou ser insensível. Essa cartilha da empatia traz coisas boas e outras complicadas, das quais ninguém quer sequer falar. 
Empatia funciona até a segunda linha. Os monstros, o vazio interno é nosso e em boa parte só a gente mesmo pra resolver.

domingo, 19 de janeiro de 2020

O que não nos faz desistir

É difícil especialmente depois de uma certa idade se autoestimular. Você já viu muito, às vezes até tudo. Achar sentido na vida é gostar da vida e pra isso é preciso ter um olhar curioso e criativo. Isso é um dom e é também sorte. Anne Frank foi uma prova disso.
Obviamente vejo muita gente velha, mais do que jovem, desapontada, sem olhar criativo para a vida. Não só porque as condições físicas pioram, mas porque é neste ponto que aquelas distrações que nos permitiam seguir com a vida, dar aquela bela empurrada com a barriga, acabam.
A pessoa passa anos jogando energia psíquica em cima do emprego, da criação dos filhos e de uma hora para outra tudo isso some e a pessoa fica sem nada porque esgotou toda sua energia em tudo, menos no exercício criativo de viver a própria vida. É mais fácil, né, achar graça nos outros que em si.
Ver o novo é tão importante que os vampiros, depois de séculos vendo e vivendo tudo, começam a enlouquecer, a não aguentar mais. Pessoalmente, acho uma tragédia que o ser humano viva cem anos. Teremos criatividade para tantos anos?
Precisamos, desde jovens, de uma vida interna, de um olhar criativo sobre a vida. Não que isso resolva tudo, mas sem fica muito mais difícil.
O que me faz persistir sou eu mesma. Fui empurrada para isso, não foi uma escolha, mas se o caminho foi pedregoso, o resultado foi benéfico. Eu quero sempre poder encontrar sentido em mim.

sábado, 4 de janeiro de 2020

I love Geralt

Apaixonei por Geralt de Rivia, o protagonista de The Witch. Não pelo personagem, mas pelo ator. De corpo, dá pra ver que ele é bonito, mas está muito bombado. Mas que rosto e que voz (apesar de um acréscimo desnecessário de efeitos especiais)! Lindjo esse Henry Cavill. <3


Geraldão tem uma personalidade fofa também. No começo, achei a atuação a la Cigano Igor, mas me explicaram que o personagem era assim mesmo, treinado para não demonstrar emoções. E realmente ele sempre foi maltratado, mas, ainda assim, não conseguiu abafar o lado humano.
Interessante isso: a pessoa é treinada por anos, mas não consegue abafar uma necessidade emocional e nem eliminar instintos de bondade. Mas, embora ele faça o bem, de cara todo mundo só dá porrada nele, é como se por ser bruxo fosse escória, não tivesse humanidade; ninguém olha para os seus atos, só pra aparência. Até me lembrou uma certa pessoa. 
Yennefer é o pós Geralt. Digo, os dois tiveram uma vida muito ruim, de rejeição especialmente na infância, mas ele consegue barganhar consigo mesmo, a racionalidade ainda tem força ali. Ele pensa em construir ou pelo menos conter danos. Ela já deixou a amargura, o caos comandar a zorra toda e, desesperada, acredita que ter poder vai adiantar alguma coisa.