sábado, 29 de outubro de 2011

Vassoula

(Paris, em alguma rua próxima a Place do Tertre, por volta das 17h de uma sexta-feira do final de junho)


Rapaz (em francês): Boa tarde. Nós gostaríamos de uma garrafa de água, por favor.
Proprietária do Restaurante Grego: De acordo. Mas só temos da maior, de 1 litro. Custa 1,90 euro.
Moça (cochichando para o rapaz, em português): Até que o preço está bom. No metrô, a de 200 ml tá por 2 euros...
Proprietária (interrompendo, em francês): Ei, não está caro nada; está super barato!
Moça: Mas eu...
Proprietária: Não, eu quero ver você encontrar uma garrafa deste tamanho por esse preço!
Rapaz (em francês): O que ela estava dizendo era exatamente isso, que está barato.
Proprietária (ar desconfiado): Ah tá. Pois é mesmo.
                     Um minuto que eu já trago a água.
(Rapaz e moça folheiam um caderno de visitantes que está em cima da mesa. A dona do restaurante chega com a garrafa de água)
Prop.: Vocês dois são de onde?
Rapaz: Brasil. A senhora é grega, não é?
Prop.: Siiiiiiim!
Rapaz: Meu avô era grego.
(Ela começa a conversar em grego com ele, que fica sem graça por não entender patavinas do que ela está falando)
Rapaz: Oh, me desculpe, mas eu não falo grego.
Prop.: Humpf... Vê-se que seu avô não lhe ensinou nada.
(Ela volta para detrás do balcão)
Rapaz (cochichando em português com a moça): Na verdade, eu quis dizer meu bisavô, mas eu não sei como dizer isso em francês. (Pausa) Madame, é possível usar o banheiro?
(Neste momento chega um senhor, amigo da proprietária do restaurante)
Prop. (respondendo ao rapaz, enquanto sai do balcão em direção à porta para receber o amigo que a espera): Só um minuto, jovem, que eu preciso te orientar em como usar a descarga.
Rapaz: Ok.
(Cinco minutos depois, ela ainda continua conversando com o amigo, na porta do restaurante, de costas para a dupla de turistas)
Moça: Hum, acho que comprar a água não foi um bom atalho para conseguir um banheiro.
Rapaz: Qual é mesmo o nome dela? Vassélia? Valinda?...
Moça: Vassoula.
Rapaz: Com licença, Vassoula... Posso usar o banheiro?
Prop.: Me dê só um minuto e eu já vou aí.
(Cinco minutos depois, ela vai explicar o uso da descarga ao rapaz, que finalmente consegue usar o banheiro)
Moça: E aí? Fez tudo como ela mandou? Deu tudo certo?
Rapaz (sem graça): Eu acho que acabei fazendo tudo que ela me mandou não fazer.
Moça: Então agradeça logo e vamos nos mandar antes que ela perceba.
Moça e Rapaz: Tchau. Foi um prazer conhecê-la!
Vassoula: Até mais!
(Neste momento, ela saca um perfume spray e dá uma borrifada nos dois jovens, que ficam sem entender a "saudação de despedida")
Moça (cochichando com o rapaz, ambos já de costas para o restaurante, rindo da situação): Por essa eu não esperava: viajar 12 mil km da Bahia até a França para ganhar um banho de cheiro de uma maluca grega!