quinta-feira, 20 de junho de 2024

Dissidentes

 Voltando ao tema da ansiedade, outro dia ouvi um especialista falando algo que já observei aqui: não é a tela que está produzindo uma geração ansiosa (afinal, televisão e cinema existem há anos), mas sim as redes sociais, que promovem a comparação (mentirosa ainda por cima). 

A comparação lasca tudo, ainda mais quando se é muito jovem. Deus me deu a graça de não ser adolescente na era das redes sociais. 

E o caso é que cada dissidência da norma pede uma competência que a compense aos olhos da sociedade. Aí é que ferra. Com a quantidade de coisas que a gente vê de errado na gente a partir dessa vizinhança do tamanho do mundo que é a rede social, forma-se uma lista enorme de competências que temos que ter pra compensar nossa incompetência existencial. Não bate essa conta e isso nunca ocorrerá. 

Na verdade, apesar de ser um condicionamento muito difícil (afinal, queremos ser amados), temos que largar os "tem que" que a sociedade joga pra cima da gente. 'Tem que" viver o melhor possível (o que pressupõe reconhecer limites e necessidades), e pronto. 

domingo, 9 de junho de 2024

Viver a vida

 




Viver a vida está cada dia mais caro. E não pagamos mais por isso apenas financeiramente, mas no corpo e na alma. 

Muita gente credita isso ao trabalho. De fato, no mundo de hoje não dá mais pra trabalhar 44 horas por semana, de segunda a sábado. Isso é querer matar a pessoa, porque com essa jornada é impossível cuidar da saúde, que dirá viver no sentido da alma. Você vai apenas acordar, tomar gagau, trabalhar, tomar gagau e dormir, como diz Helga de "Abafabanca". Neste modus operandi, quem vai conseguir se aposentar aos 65 anos? Morreremos ou adoeceremos seriamente antes disso.

Mas acredito que o problema transcende a questão do trabalho. Precisamos de mais tempo pra viver? Sim! Mas precisamos ter vida fora do trabalho e a maioria de nós está sendo roubado (e virando robô) pelos mil "tem que" e tecnologias. Tem que ficar sarado e bonito (o que leva muito tempo e dinheiro), tem que ter vida social (e nessa você vai até pra o que você não gosta só pra não ficar em casa e mostrar que está "vivendo"), tem que zerar as séries, tem que interagir com as pessoas no WhatsApp (incluindo o povo do trabalho) e Instagram e em meio a tantas tarefas e tempo e dinheiro escassos, há uma enorme carga mental planejando e administrando isso tudo. Multiplique por dois (três ou mais) se tiver filhos ou pais dependentes. Quem vive num esquema desse? Aquele vídeo da Luana Piovani falando que o Brasil não deixa ela postar foto de biquini é ridículo, é hilário, mas infelizmente é certeiro. Cada vez mais eu entendo os meus parentes mais velhos que decidiram se enfiar na roça. 

Eu estou tentando ao máximo cortar tarefas e necessidades, mas mesmo assim tenho muita coisa pra fazer. Tenho conseguido me salvar de me afundar, mas não de me cansar. E eu tô só nos "tem que", ainda usufruo muito pouco do meu tempo e dinheiro, pois por hora estou fazendo o que tenho que fazer, o que é prioritário para a minha manutenção neste mundo, neste País difícil pra caramba (a sociedade em que se vive precisa entrar nesta conta, pois é fator decisivo, embora ninguém se lembre disso. Tenho plena ciência que não estaria neste sufoco caso tivesse nascido no Norte global, na Suíça ou na Austrália, por exemplo). Eu não tenho condição de gerir ninguém além de mim. Caso quisesse ser mãe, seria uma tragédia, porque eu não teria condição ou traria alguém a esse mundo sob um custo altíssimo pra mim. Eu quero vida, não tá valendo a pena transmitir a outra criatura o legado da nossa miséria, como disse Machado de Assis. Aliás, ele como homem negro, teve um trampo danado pra chegar a um nível razoável de vida. Quando a gente nasce na prateleira de baixo, só a gente sabe quanto custa sobreviver! 

A luta pela sobrevivência é diretamente proporcional ao crescimento do vazio interior. E você acaba mergulhando na luta também para escapar desse vazio, pra não pensar no que está faltando e no que virá, nos seus medos. Sem ócio, como você vai sequer se (re)conhecer? Vez ou outra você se conecta através de uma paixão inesperada, mas o normal é se conectar primeiro pra se apaixonar, porque simplesmente você não vai ver fora o que não existe por dentro. 

E por isso estamos todos adoecendo. Eu não lembro na geração de meus pais de tanta gente doente. Claro, eles tinham problemas, o sofrimento humano é coisa antiga, mas as pessoas não adoeciam em bando com 40 ou menos como agora. Eu tenho pelo menos duas mãos de gente 40- que tiveram câncer ou mal súbito, gente inclusive aparentemente saudável, que malha, cuida da dieta, faz check-up, etc. Uma coisa que aprendi naquela minha experiência como terapeuta é que seguir na vida não depende de fazer força, do famoso "aguentar firme". Se você for nessa, uma hora vai faltar gasolina, você morre na beira da estrada, seu motor pifa. São o amor e o prazer que trazem impulso de vida, que nos fazem seguir adiante. Quando você está sofrendo muito, não é fazer força que vai fazer passar por isso. No máximo você vai conseguir ir no modo zumbi, que é pior que morrer. Você precisa parar, respirar, fazer algo prazeroso, que te conecte com o bom da vida, que vai fazer se reenergizar e conseguir força pra seguir em frente. Parar e respirar. Não há prazer de fato em fazer sexo com todo mundo, comer dez pizzas seguidas, se endividar pra caramba por causa de coisas que você não precisa. Isso é desespero e é justamente essa a intenção desse sistema que te mantém na corrida do ratinho: acordando, tomando gagau, trabalhando e dormindo, pra acordar de novo e repetir o ciclo. É a ansiedade, o desespero e a angústia que vão fazer a gente tomar atitudes desesperadas e depois se acabar pra arcar com as consequências delas. 

Comer, rezar e amar não é só o título de um filme, são necessidades humanas. Só quero ver quando é que a gente vai descobrir isso, coletivamente, e se rebelar contra o sistema. É pra ontem! É pra já!

sábado, 1 de junho de 2024

O vínculo fantasma


A psicanalista junguiana Tatiana Paranaguá está lançando um livro sobre o vínculo fantasma, uma prática que ela vem observando na clínica dela. As pessoas, imaturas e muito focadas nelas mesmas, se relacionam com as outras pra satisfazer suas carências momentâneas, e quando a relação pede mais, essa pessoa, já abastecida, vai embora. Tatiana observa que as pessoas estão se relacionando com os outros se esquecendo que o outro não é um objeto e é um ser humano com sentimentos iguais. O outro, nos dias de hoje, é simplesmente uma experiência, como uma série de televisão. 

(e eu não usei tanto "pessoas" no parágrafo anterior à toa...)

Essa é a tônica do nosso tempo em tudo, mas é mais dramático quanto aos laços sentimentais porque, afinal, a pertença e o vínculo, como já disse aqui mil vezes, são as necessidades mais básicas. Discordo de Maslow. Já vi gente jogar a sobrevivência pro alto pra correr atrás de um sonho ou de um laço. Todo mundo quer ser independente pra mostrar força, mas ninguém que está sob esse sol pode prescindir dos outros, do vínculo. A gente definha, morre, não dá.

E eu acho que isso tem a ver com o uso excessivo das tecnologias, porque muita coisa a gente não diria cara a cara, justamente porque o olho no olho faz a gente ter a dimensão da humanidade do outro. Digo isso com o respaldo de quem viveu o início do uso da internet, em que acontecia absolutamente o contrário: sentíamos o contato à distância como se fosse próximo, porque a nossa maior experiência até então era a do cara a cara. Sabe aquela conversa das mães de que o hábito de casa vai pra rua? Pois é, o outro virou um totem de autoatendimento, onde você escolhe, paga, pega e vai embora.  

Mas eu tenho que dizer que se a coisa é geral, independente do gênero, sexualidade ou modalidade de relacionamento entre dois seres humanos - e estou falando de todas: amor, amizade, trabalho, aluguel, etc -, é mais aguda quando se trata dos relacionamentos amorosos com os homens (heteros ou gays). Eu acho que esse tipo de prática virou arma de guerra contra o feminismo e as queixas das mulheres. Sério, eles querem nos enfraquecer através do abandono e da solidão, porque eles sabem que a gente foi criada pro vínculo. Lembra muito a dinâmica da tourada, tão perverso quanto (você "vence" o touro não por ser melhor ou mais forte que ele, mas por ser desleal, atraindo, apunhalando e sangrando ele até que perca a força). Eles são programados pra esse individualismo exacerbado, pra suprimir as emoções, pra pensar a relação em termos sexuais e são super beneficiados, neste sentido, pela internet e novas tecnologias. Quem quiser jogar esse jogo estéril no século 21 tem recursos pra dar e vender. 

Por mais que a gente tenha se liberado, a mulher foi criada pro extremo oposto disso. Acredito que até de uma forma muito doentia, que leva à dependência emocional e à repressão. Mas se os dois lados são criados muito mal, acho que as mulheres pelo menos estão na pista certa, do vínculo, da parceria, do cuidado, etc. Mas, por agora, a gente está tomando muiiita porrada, no corpo e na alma. Eles se acham vencedores, coitados, de uma competição que existe na cabeça deles. Mulher não quer vencer o homem, mas ter o lugar dela também, ser respeitada, mas isso é interpretado, por quem não quer abandonar privilégios de poder, como tentativa de superioridade... Os homens são doentes que não percebem os próprios sintomas. A maioria acha que está arrasando, mas está só se desumanizando e machucando as pessoas. As mulheres sabem que estão sendo lesadas, que foram antes e mesmo reclamando, ainda são agora. E o mais triste disso é que essas situações geram traumas que te impedem de viver a oportunidade de bons vínculos quando eles aparecem. Essa é a nossa lesão de guerra. Amar homem anda muito insalubre, somos um exército de veteranas com deficiências adquiridas nesta guerra. Muita gente tá parando de lutar. Que bom, mas é triste, porque poderia ser outra coisa e bem melhor. 

Quero só saber até quando o ser humano vai aguentar isso? Eu acho que o ponto de virada está próximo. Uma hora, de tanta dor, vamos ter que amadurecer. Essa, alias, é a única coisa para a qual o sofrimento serve.