Foi no meu segundo dia em França que fiquei frente a frente com uma das imagens cristalizadas em minha mente sobre a vida dos imigrantes: um apartamento minúsculo, daqueles em que a sala de estar fica embaixo do beliche, sem janelas, com alguns móveis e objetos amontoados. Senti, vindo da cozinha, uma fumaça de comida (boa) que empestiava todo o pequeno apartamento. Confesso que tive pena do casal que morava ali: "Deus do céu, do jeito que eu gosto de ficar em casa, nunca conseguiria viver assim, sem espaço", disse a mim mesma.
Mas para aqueles dois jovens vindos do interior do Brasil, a modesta moradia era um luxo. Residiam em França há quatro anos e ali há menos de um. Antes disso, viveram em um apartamento com mais seis pessoas, onde passaram sete meses dormindo "como irmãos" acanhados em trocar qualquer tipo de carinho na frente dos colegas de quarto.
Ele contava dias piores que a esposa, cuja chegada em terra estrangeira deu-se sete meses após a dele. No início, morava em um apartamento com 20 pessoas. Todas brasileiras. Foi ajudado pelos colegas durante momentos críticos em Paris. "O dinheiro que eu tinha para fazer o mercado eram os 20 euros que o pessoal me dava; cada um me emprestava 1 euro, que eu fazia questão de devolver quando recebia o salário. Alguns não queriam receber a moeda de volta, mas eu insistia: 'Aceita, porque se um dia eu precisar de novo, você vai confiar em me emprestar´", recorda o rapaz. A lembrança de gestos de solidariedade como esses não serviram para apagar a desconfiança gerada nesses anos no exterior, incluindo a dos próprios compatriotas."Quem mais sacaneia o brasileiro fora do Brasil é o próprio brasileiro", disse - eu ouviria essa mesma frase de outros imigrantes.
O primeiro golpe veio em menos de duas horas após a chegada em solo europeu. Os 2 mil euros que trouxera evaporaram-se nas mãos do homem - irmão de uma colega de trabalho de seu último emprego no Brasil - que havia articulado a sua mudança para Paris, com promessas de trabalho fácil e ganhos financeiros abundantes. O sujeito argumentou que precisava da quantia para saldar as despesas iniciais do rapaz, e nunca mais apareceu, deixando-o com apenas um mês de aluguel pago. À esta altura, voltar não era mais opção. "Precisava pagar o empréstimo de R$8 mil que havia pegado no Brasil pra vir pra cá", conta.
Teste de esforço - Geralmente o imigrante sai de seu país intermediado por outro conterrâneo que já mora no exterior, mas há histórias em que a disposição de tentar a sorte dispensou mediadores e, diriam alguns, o bom senso. Um dos casos mais impressionantes que ouvi em Paris foi de uma mineira que há seis anos saiu do Brasil para tentar a sorte na Europa. O destino original era Londres. Como muitos brasileiros, a moça foi barrada na Imigração. Mas não desanimou: desviou a rota e aventurou-se na cidade luz, sem ninguém para ampara-la, sem saber uma palavra de francês ou de qualquer outro idioma. Hoje, casada com um francês, realizou o projeto de uma vida, se não luxuosa, ao menos mais confortável fora de sua terra natal.
Ficar rico não é uma meta fácil de ser alcançada, mesmo quando se é pago em euro. Primeiro porque aos estrangeiros cabem os empregos braçais que os nativos já não querem mais desempenhar, cujas remunerações basicamente propiciam a sobrevivência. Além disso, é comum o uso de parte do salário para saldar débitos no país de origem ou socorrer a família.
Mas é possível fazer uma poupança. Viver no exterior é especialmente gratificante para quem não tem qualificações. Sabe o casal do início desse texto? Eles já possuem dois imóveis em sua cidade, feito difícil de realizar se não houvessem imigrado. Não foi fácil: "Após quase três anos trabalhando aqui, compramos roupa nova pela primeira vez no final do ano passado", conta a esposa.
Os empregos mais comuns são no bâtiment (construção civil), de babá e na limpeza. Os trabalhos exigem fisicamente - especialmente no deslocamento entre um local de trabalho e outro, pois quase ninguém tem apenas um empregador -, mas as condições laborais costumam ser boas. Só se encrenca quem (poucos, felizmente) realmente está desesperado por dinheiro e precisa faturar muito além da média salarial. Nesse caso, a jornada de trabalho torna-se um verdadeiro teste de esforço. O pessoal da limpeza, por exemplo, produz principalmente antes e após o horário comercial. Há quem se sujeita a jornadas que começam às 4h da manhã e terminam às 22h. Com três horas de sono por dia, muitos sucumbem, e quem resiste sabe que esse ritmo intenso de atividade tem "prazo de validade": até o corpo não mais suportar.
Mas para aqueles dois jovens vindos do interior do Brasil, a modesta moradia era um luxo. Residiam em França há quatro anos e ali há menos de um. Antes disso, viveram em um apartamento com mais seis pessoas, onde passaram sete meses dormindo "como irmãos" acanhados em trocar qualquer tipo de carinho na frente dos colegas de quarto.
Ele contava dias piores que a esposa, cuja chegada em terra estrangeira deu-se sete meses após a dele. No início, morava em um apartamento com 20 pessoas. Todas brasileiras. Foi ajudado pelos colegas durante momentos críticos em Paris. "O dinheiro que eu tinha para fazer o mercado eram os 20 euros que o pessoal me dava; cada um me emprestava 1 euro, que eu fazia questão de devolver quando recebia o salário. Alguns não queriam receber a moeda de volta, mas eu insistia: 'Aceita, porque se um dia eu precisar de novo, você vai confiar em me emprestar´", recorda o rapaz. A lembrança de gestos de solidariedade como esses não serviram para apagar a desconfiança gerada nesses anos no exterior, incluindo a dos próprios compatriotas."Quem mais sacaneia o brasileiro fora do Brasil é o próprio brasileiro", disse - eu ouviria essa mesma frase de outros imigrantes.
O primeiro golpe veio em menos de duas horas após a chegada em solo europeu. Os 2 mil euros que trouxera evaporaram-se nas mãos do homem - irmão de uma colega de trabalho de seu último emprego no Brasil - que havia articulado a sua mudança para Paris, com promessas de trabalho fácil e ganhos financeiros abundantes. O sujeito argumentou que precisava da quantia para saldar as despesas iniciais do rapaz, e nunca mais apareceu, deixando-o com apenas um mês de aluguel pago. À esta altura, voltar não era mais opção. "Precisava pagar o empréstimo de R$8 mil que havia pegado no Brasil pra vir pra cá", conta.
Teste de esforço - Geralmente o imigrante sai de seu país intermediado por outro conterrâneo que já mora no exterior, mas há histórias em que a disposição de tentar a sorte dispensou mediadores e, diriam alguns, o bom senso. Um dos casos mais impressionantes que ouvi em Paris foi de uma mineira que há seis anos saiu do Brasil para tentar a sorte na Europa. O destino original era Londres. Como muitos brasileiros, a moça foi barrada na Imigração. Mas não desanimou: desviou a rota e aventurou-se na cidade luz, sem ninguém para ampara-la, sem saber uma palavra de francês ou de qualquer outro idioma. Hoje, casada com um francês, realizou o projeto de uma vida, se não luxuosa, ao menos mais confortável fora de sua terra natal.
Ficar rico não é uma meta fácil de ser alcançada, mesmo quando se é pago em euro. Primeiro porque aos estrangeiros cabem os empregos braçais que os nativos já não querem mais desempenhar, cujas remunerações basicamente propiciam a sobrevivência. Além disso, é comum o uso de parte do salário para saldar débitos no país de origem ou socorrer a família.
Mas é possível fazer uma poupança. Viver no exterior é especialmente gratificante para quem não tem qualificações. Sabe o casal do início desse texto? Eles já possuem dois imóveis em sua cidade, feito difícil de realizar se não houvessem imigrado. Não foi fácil: "Após quase três anos trabalhando aqui, compramos roupa nova pela primeira vez no final do ano passado", conta a esposa.
Os empregos mais comuns são no bâtiment (construção civil), de babá e na limpeza. Os trabalhos exigem fisicamente - especialmente no deslocamento entre um local de trabalho e outro, pois quase ninguém tem apenas um empregador -, mas as condições laborais costumam ser boas. Só se encrenca quem (poucos, felizmente) realmente está desesperado por dinheiro e precisa faturar muito além da média salarial. Nesse caso, a jornada de trabalho torna-se um verdadeiro teste de esforço. O pessoal da limpeza, por exemplo, produz principalmente antes e após o horário comercial. Há quem se sujeita a jornadas que começam às 4h da manhã e terminam às 22h. Com três horas de sono por dia, muitos sucumbem, e quem resiste sabe que esse ritmo intenso de atividade tem "prazo de validade": até o corpo não mais suportar.
Nunca de mochila - Há um código não-verbal e não-escrito que permeia a vivência em terra estrangeira. Uma das regras seguidas, por exemplo, pelos homens imigrantes é não usar mochila. "A polícia fica de olho e as chances de te pararem são maiores", explica um imigrante brasileiro. Evitar estar perto de tumultos e multidões também é um cuidado básico.
Mesmo sustentando aquela expressão sossegada típica de quem é do interior de Minas, o brasileiro Roberto já foi levado quatro vezes pela polícia e deportado uma vez. A última prisão, no inicio deste ano, aconteceu quando o mestre de obras, distraído, se entretinha assistindo a uma briga no meio da rua. O mal-entendido não poderia ter acontecido em hora pior: sua esposa estava no início de uma gravidez delicada de gêmeos. Os amigos mais próximos se mobilizaram para contatar um advogado e tira-lo da detenção. Mas houve, também, quem sequer telefonasse com receio de ser rastreado pela polícia.
Mesmo sustentando aquela expressão sossegada típica de quem é do interior de Minas, o brasileiro Roberto já foi levado quatro vezes pela polícia e deportado uma vez. A última prisão, no inicio deste ano, aconteceu quando o mestre de obras, distraído, se entretinha assistindo a uma briga no meio da rua. O mal-entendido não poderia ter acontecido em hora pior: sua esposa estava no início de uma gravidez delicada de gêmeos. Os amigos mais próximos se mobilizaram para contatar um advogado e tira-lo da detenção. Mas houve, também, quem sequer telefonasse com receio de ser rastreado pela polícia.
Apesar de admitir nunca ter sofrido qualquer tipo de agressão das autoridades francesas, a sequência de apreensões deixou um trauma. Em visita a amiga, também imigrante brasileira, elogiou-lhe o carro, mas se recusou a passear nele. "Ele tem medo de ser reconhecido como brasileiro, pois o carro dela tem um adesivo com a bandeira do Brasil", revela, num cochicho, a esposa.
Exílio afetivo - É comum que os imigrantes, após o período inicial de adaptação, queiram fixar raízes na nova pátria. A organização dos países desenvolvidos e os bons salários - se comparados com os ganhos deles no Brasil - seduzem quem se aventura em terra estrangeira. "Quando a gente chega aqui percebe que o Brasil não é um país tão legal quanto a gente pensa quando mora lá. Só volto se puder ter um negócio próprio, mas a verdade é que gosto daqui, não tenho vontade de ir embora", confessa uma imigrante nordestina. A satisfação com a nova vida esbarra em um obstáculo natural e dificil de driblar, apesar da tecnologia: a saudade da família. Quem tem filhos, então, sofre a frustração de não estar acompanhando momentos fundamentais do crescimento deles: "Outro dia liguei chorando para uma amiga porque não reconheci meu filho mais velho em uma foto que meus pais me enviaram", conta uma rondonense.
Entretanto, é justamente a ausência de estrutura familiar que faz alguns desconsiderarem a volta para casa. "Minha mãe é separada do meu pai e cuida de um irmão meu que usa drogas. Ele já tem outra mulher e só faz beber. Daqui eu tenho condições de ajudar mais ela", diz a moça goiana, para depois revelar o real motivo de não querer voltar para Goiás: "Pra quê vou voltar se ninguém me dá bola? Minha irmã casada tem internet e ninguém nunca entra em contato comigo. Se eu não telefono, eles me esquecem", ressente-se.
Seu marido pensa diferente e aponta outro motivo que não a família para retornar em um futuro próximo: "Tenho saudade de jogar futebol com os amigos", confessa.
Exílio afetivo - É comum que os imigrantes, após o período inicial de adaptação, queiram fixar raízes na nova pátria. A organização dos países desenvolvidos e os bons salários - se comparados com os ganhos deles no Brasil - seduzem quem se aventura em terra estrangeira. "Quando a gente chega aqui percebe que o Brasil não é um país tão legal quanto a gente pensa quando mora lá. Só volto se puder ter um negócio próprio, mas a verdade é que gosto daqui, não tenho vontade de ir embora", confessa uma imigrante nordestina. A satisfação com a nova vida esbarra em um obstáculo natural e dificil de driblar, apesar da tecnologia: a saudade da família. Quem tem filhos, então, sofre a frustração de não estar acompanhando momentos fundamentais do crescimento deles: "Outro dia liguei chorando para uma amiga porque não reconheci meu filho mais velho em uma foto que meus pais me enviaram", conta uma rondonense.
Entretanto, é justamente a ausência de estrutura familiar que faz alguns desconsiderarem a volta para casa. "Minha mãe é separada do meu pai e cuida de um irmão meu que usa drogas. Ele já tem outra mulher e só faz beber. Daqui eu tenho condições de ajudar mais ela", diz a moça goiana, para depois revelar o real motivo de não querer voltar para Goiás: "Pra quê vou voltar se ninguém me dá bola? Minha irmã casada tem internet e ninguém nunca entra em contato comigo. Se eu não telefono, eles me esquecem", ressente-se.
Seu marido pensa diferente e aponta outro motivo que não a família para retornar em um futuro próximo: "Tenho saudade de jogar futebol com os amigos", confessa.