terça-feira, 30 de junho de 2020

O final de Dark (contém spoilers)

Que aperto de mente, meus caros! Que cansaço! Que final agridoce! 


E Jonas mais lindo que nunca, apesar de não tomar banho há 33 anos! <3 Aliás, achei o elenco masculino, dessa vez, bem melhor (o adulto). Mas achei alguns personagens novos chatos, porém os antigos (com exceção da Martha histérica) valeram a pena continuar. Menção de honra para Claudia, la reina! Sempre acreditei em você, Claudjenha, hehe.

Dark revelou, nesta temporada, não só alguns mistérios, mas realmente a que veio: é uma série interessada em ciência, embora o fio da meada seja as famílias de Winden. Os showrunners nos mostraram dramas familiares na primeira temporada, arrependimentos e esperanças antigos na segunda e um artigo científico de física na terceira, hehe (é modo de dizer, porque quem entende de Física disse que os roteiristas se apropriaram dos conceitos fazendo uma ficção em cima deles). Foi uma temporada densa, com alguns buracos na história, mas satisfatória. Gostei mais das outras temporadas, mas valeu a espera. 

Eu gostei de Dark, apesar de uma falha aqui e acolá e de achar que a série tinha potencial para ser melhor. No fundo, quanto a Dark, a pergunta não é o que mas como. Se você parar pra pensar, a história é simples, mas os autores embaralham tanto as coisas, que ficou a impressão de que era algo muito complexo.

O final foi agridoce: para salvar o mundo que eles queriam preservar a todo custo (Jonas até virar Adam), tiveram que aceitar desaparecer e que os seus afetos também desaparecessem, ou seja, desapegar do mais profundo desejo para que as coisas seguissem seu curso natural. 

Definitivamente, se eu encontrar uma máquina do tempo, eu quebro toda, hehe.

Me despeço da série e desse texto com uma frase usada na entrada da terceira temporada: 
"O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer."
(Schopenhauer)







terça-feira, 16 de junho de 2020

Perdidos no espaço



Eu estou lendo um livro sobre terapia de vidas passadas, de um especialista holandês. Ele fala que quando entra um trauma ou algo do tipo, um pedaço seu é "ejetado". O vazio, a solidão seria falta de si mesmo, dessa parte perdida por aí.
Hoje estava conversando com um amigo sobre uma amiga em comum que sofre muito, embora seja uma boa pessoa. Vive com problemas de depressão. Negra, de família pobre, lésbica. E gente delicada não sabe se defender direito e se for inteligente piorou, porque ainda por cima vai sacar a situação. Eu acho que boa parte dela foi ejetada.
Daí, mais tarde, lembrei de uma aluna de jornalismo muito inteligente, mas a rainha da ausência de corpo presente, eterno ar de entediada. Ia chamar de preguiçosa quando lembrei das linhas gerais dela: negra, da periferia, lésbica, militante, gorda.
E como elas penso em um monte de gente que faz parte de minorias, que enfrentaram violência na vida, com dificuldade de estar presente, com eterno ar de Escrava Isaura, caminhando meia boca pela vida. Um cansaço de alma que não passa. Feridas de guerra que, inconscientes, não vão cicatrizar.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Survivor


Sobrevivente:
1.
que ou o que permanece vivo ou continua a existir, depois de determinada experiência de risco.
2.
que ou quem resiste aos embates, circunstâncias, dificuldades da vida.

Sim, eu sou uma sobrevivente. Quem tá de fora talvez não tenha essa consciência, mas juntando a minha natureza com a minha história de vida, e eu acho um milagre eu ainda estar aqui. Nunca vou esquecer de um tratamento de cromoterapia que eu fiz em 2013. Quando a terapeuta foi checar os meus chacras, só o básico estava forte e trabalhando intensamente para compensar os outros, o que fez ela exclamar: "É o animal brigando para viver". E era isso mesmo e é isso até agora.
Claro que isso deixa sequelas e no meio do processo eu perdi minha espontaneidade (o que levou junto meu lado afetuoso e, eu sei que pra algumas pessoas seria difícil acreditar, sou uma pessoa muito carinhosa), um pedaço da minha alegria e um tanto do meu senso de humor, boa parte da minha confiança nos outros e, por enquanto, perdi a vontade de me juntar. Mas, como disse o poeta, "quem quer passar além do Borjador, tem que passar além da dor". O caso é que eu sobrevivi e estou cada dia melhor que ontem, embora a lista de trabalho a fazer ainda seja imensa. 
Portanto, meus queridos, como canta Queen Bey:
I'm a survivor (what), I'm not gon' give up (what)I'm not gon' stop (what), I'm gon' work harder (what)I'm a survivor (what), I'm gonna make it (what)I will survive (what), keep on survivin' (what)

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Paulina




Sabe aquele filme que te leva para um lado, depois te joga para o outro e, no final, você fica com a mente fervendo? É Paulina, filme argentino de 2015, uma adaptação de La Patota, filme dos anos 1960.

A protagonista é uma advogada brilhante, filha de um juiz de Buenos Aires, que escolhe dar aulas sobre política numa escola bem pobre do interior da Argentina. Lá, ela passa por uma situação punk, mas, ao contrário das expectativas, ela continua no mesmo lugar, fazendo tudo como se nada tivesse acontecido. Assim é a personagem central: às vezes você a entende, em outras tem vontade de dar um chacoalhão nela.

Paulina toca em várias discussões: violência contra mulher, a truculência do sistema policial-jurídico, que, como diz a protagonista, quando se trata de pobres, não quer saber de buscar justiça, mas de culpados. É uma personagem de convicções muito fortes, de tal forma que determinadas escolhas em nome de uma ideologia parecem anulá-la como ser humano, enquanto individualidade. Como eu disse, desperta admiração e também indignação.

O ponto mais interessante da protagonista é justamente esse: a capacidade de mesmo diante de uma situação muito desfavorável a ela manter um senso crítico sobre o que a sua figura representa socialmente. Mas isso às vezes escorrega na culpa por ter privilégios sociais, por ter nascido branca, rica e inteligente, o que de certa forma tira a sinceridade da luta dela e de certo modo também a dignidade das próprias pessoas que ela quer ajudar/poupar. Como adverte uma mulher local: ela sente pena e ninguém gosta de ser olhado assim, situação que faz é despertar ódio e não ligação. Esse é um erro de gente de esquerda: paternalizar demais os subalternizados socialmente, como se a pobreza lhes tirasse a agência, a capacidade de escolher, de agir por conta própria, enfim, quase como se fossem sem alma. Esquerdista falando de pobre é quase Caminha falando dos índios (risos). A esquerda bota essa turma pequena demais enquanto que a direita coloca grande demais, no sentido de achar que a força do indivíduo sozinha é capaz de superar estruturas opressoras seculares, como se o contexto social não quisesse dizer nada e todos tivéssemos as mesmas condições para o sucesso. 

Dolores Fonzi merece palmas. Eu já a vi em outros filmes, então sabia que era boa atriz, mas essa personagem era difícil. E eu gosto da aparência dela, que é bonita, mas não é alinhada: o cabelo é meio desgrenhado, ela tem uma verruga nos lábios, ela usa pouca maquiagem. A cara mesmo de Paulina.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

The raw truth

A gente tem muito a tendência de ser perfeito/a, né? Da classe média para cima, então, só tem candidato/a a alecrim dourado (valores elitistas explicam). Eu já fui desse clube, mas estou mudando a direção.

Na verdade, perfeição é coisa de quem tem baixa auto estima. Pronto, falei! Imagine se Jesus tivesse querido ser perfeito para a sociedade da época dele? Ele não seguiu as regras, ele quebrou as regras; ele elevou as regras ao seguir as regras dele.

Muita gente sofrendo não por si mesmo, mas porque não cumpriu as expectativas dos outros. E tem gente que, mesmo íntima, é cruel com os seus afetos. Ninguém deveria fazer isso em uma família, em um relacionamento. Até porque muitas vezes essa exigência com os outros é baixa autoestima nossa. 

Como sabiamente diz José Medrado, o "sim" que você dá aos outros é o "não" que você se dá. Deveríamos nos tocar disso.

Uma amiga minha, que tem essa mania de passar os outros na frente dela, comentava comigo da barra enfrentada por uma amiga em comum que lida há anos com o câncer. As pessoas olham para vidas "imperfeitas" com medo e desprezo. Em parte entendo, porque o medo de sofrer é altamente compreensível. O problema é o modo como se olha para quem passa por um sofrimento. Sinceramente, na abundância é fácil ser grande; quero ver é pisar no fogo e conseguir chegar inteiro do outro lado. A gente se ilude em perseguir o posto de "band leader", mas a gente está aqui para enfrentar o que vier; o que a gente tem é o dia. O grande objetivo disso tudo é ser melhor que ontem. E digo mais, nem tudo que você precisa resolver, vai resolver nessa vida. É fazer o que puder, o melhor que puder pra viver (e morrer) em paz. 

Essa amiga com câncer em questão se tornou alguém visivelmente melhor espiritualmente ao passar pela doença. Vale dizer que antes disso ela já estava na trilha. Se ela for embora deste mundo amanhã, além de ter tido uma boa vida, com amigos e cheia de experiências bacanas, ela soube usar os eventos da trajetória dela para se engrandecer. Gostem ou não, isso é a vida. A gente está aqui para transcender nossos limites. Ponto.

Equilíbrio



Adoraria ser independente financeiramente de forma folgada. Na falta disso, eu adoraria ser herdeira ou sustentada (mas ainda prefiro independência, para poder sair quando puder). Buscar dinheiro é um grande aperto de mente e às vezes te faz fazer concessões nada agradáveis, ainda mais num país escravocrata como o Brasil.

Não sou contra a mulher ser dona de casa sustentada pelo marido, não, desde que isso seja de comum acordo. Só acho que pode ser uma armadilha, haja vista que, por melhor que seja o caráter dos envolvidos, no coração não se manda.

Uma amiga minha, que estudou terapia sistêmica de família, estava me explicando isso de um ponto de vista terapêutico, dizendo que o ideal é que a energia do dinheiro entre igual dos dois lados. Do contrário, é bem possível que, ao estar com alguém que o/a sustente, esteja procurando um pai ou uma mãe.

Entre os orientais é comum que eles sejam donos de um mesmo negócio, buscando esse equilíbrio. Olhos puxados, visão larga.

Mas existe outro desequilíbrio, que é o de expectativas. Homens entram no casamento para ter família; as mulheres para ter romance. Como a expectativa do homem é objetiva, é muito comum que ele negligencie a subjetiva da mulher. Que, por sua vez, acaba às vezes jogando essa vontade de ligação para os filhos (olha o problema!). Minha amiga observa que falta amizade entre os casais, que as pessoas não são orientadas por seus familiares a procurar por isso numa relação e que, na experiência dela de casada e de terapeuta, sem isso vai por água abaixo - e eu observo que sem isso, se continua, alguém trabalha por dois e ressentido.

Acho que fica evidente que o ideal é entrar nas relações já resolvido, sem necessitar de nada, só mesmo do amor do outro, sem esse lance de metade da laranja. Fábio Jr. cancelado