Eu nunca me envolvi com política, mas a política sempre esteve envolvida na minha vida, desde que era muito pequena. De tal forma que me considero uma espécie de Forrest Gump das coisas que se sucederam de 1985 pra cá.
A primeira lembrança é da morte do presidente Tancredo Neves. Muita gente não sabe, mas nasci e vivi até os 11 anos em Brasília. Pois então, eu acho que não tinha nem cinco anos quando isso aconteceu e meus pais, que passam bem longe do perfil politicamente engajado, se juntaram a uma multidão que, em silêncio respeitoso, ocupava o Eixão pra se despedir de Tancredo naquela noite, acompanhando um carro que, lentamente, passava levando o caixão do primeiro presidente da nossa recém reconquistada democracia. Essa e a estreia de "Thriller", no Fantástico, são minhas lembranças mais remotas da infância. No ano seguinte, 1986, novamente com meus pais, estive na greve geral (mas meu pai, que sempre teve medo de violência física, achou melhor a gente vazar rápido de lá).
A primeira eleição, em 1989, foi uma festa! As ruas de Brasília viviam repletas de materiais de campanha. A diversão da garotada era colecionar os adesivos dos candidatos. Duvido que alguma outra cidade tenha vivido a festa que houve na capital federal. Quando muito, São Paulo e Rio de Janeiro chegaram perto. A TV ia nos entrevistar na escola - e rolava aquela briga clássica pra decidir quem ia falar. Políticos também apareciam por lá pra tirar aquela foto bacana com a meninada e até rolou uma votação de mentirinha entre os alunos. Votei em Mario Covas, seguindo os votos de meus pais. Covas, o cara que mesmo sabendo que iria se ferrar politicamente, resolveu apoiar Lula no segundo turno - do tempo em que políticos ainda seguiam valores e ideais.
Collor, o caçador de Marajás, ganhou, mas, seis meses depois, você não encontrava um eleitor declarado dele. Em 1992 foi impeachmado. Eu já estava em Salvador, na parte dela que mais se assemelha a um interior, e não sabia circular muito pela cidade. Tomei falta no movimento Caras Pintadas. Mas, meses antes, conheci o presidente no 15 de novembro. Ele abordou a mim e mais dois amigos para comentar sobre a mudança do uniforme da Escola Parque, onde também havia estudado quando criança. Educadíssimo, porém com um olhar estranho. Quando comentei isso a um ex-coordenador da campanha dele, dez anos depois, ele caiu na gargalhada, e me contou: "Menina, era orientação na campanha não dar close nele para justamente não mostrar aquele olhar esquisito".
(O intervalo de mais ou menos 28 anos entre os três ciclos de combate da "ditadura comunista"- a ditadura militar, Collor e Bolsonaro - me fizeram desenvolver a teoria de que a política brasileira funciona que nem aquele livro "A Coisa", de Stephen King. Na história, a Coisa, que volta a perturbar uma mesma cidade a cada 27 anos, se alimenta dos medos dos seus habitantes, que também não são flor que se cheire. Parece muito com um certo país da América do Sul...)
(O intervalo de mais ou menos 28 anos entre os três ciclos de combate da "ditadura comunista"- a ditadura militar, Collor e Bolsonaro - me fizeram desenvolver a teoria de que a política brasileira funciona que nem aquele livro "A Coisa", de Stephen King. Na história, a Coisa, que volta a perturbar uma mesma cidade a cada 27 anos, se alimenta dos medos dos seus habitantes, que também não são flor que se cheire. Parece muito com um certo país da América do Sul...)
Em 2001, a coisa ficou séria perto de mim pela primeira vez e eu pude ver de perto o que a falta de liberdade pode causar. Talvez a dificuldade de alguns de vocês acreditarem no tal "risco à democracia" é que nunca tiveram contato com esse tipo de situação de abuso de autoridade e menos ainda com a truculência da polícia nessas ocasiões. Naquele 16.05.2001, fui parar numa manifestação de estudantes, na UFBA, por acaso. Estava com meu colega, minha dupla numa matéria chatérrima pro jornal da faculdade naquela manhã, e ele me ofereceu carona para a manifestação, nem lembro mais o motivo dela. Quem me conhece sabe que, pelo combo conversa fiada e carona, eu topo ir até o lado oposto ao meu destino real. Fomos e estava tudo muito tranquilo e pacífico até a Choque entrar na universidade, a mando do falecido ACM. Vi o desespero das pessoas ao meu redor e meu reflexo foi me proteger fugindo para um canto. Enquanto a polícia entrava no campus do Canela, um monte de jovens subiam um morrinho rumo a outro pedaço da universidade. Duas amigas minhas estavam nesse bolo. As duas não chegam a 1,60 m, duas figuras fofas, que não fazem mal a uma mosca. Eu olhava aquilo e ficava apavorada da galera que estava mais no topo se desequilibrar e, como avalanche, levar o povo que estava embaixo, incluindo minhas duas amigas franzinas. Não recomendo ver seus amigos nessa situação; é uma sensação de injustiça e de impotência ruim à beça. Tentam marginalizar protestos, mas a galera que vai pra essas coisas é tão inofensiva como eu e você (claro, em grandes multidões, sempre pode haver pequenos grupos que aproveitam a ocasião pra esculhambar). Perceba, eu fui parar lá por acaso. Minha mãe ainda tranquilizou a minha vó, que via pela TV, dizendo que eu não gostava dessas coisas. Num governo autoritário, poderiam ter sumido comigo, com meus amigos, a troco de nada, e minha família nunca mais saberia do meu rastro. Bem, uma garotada ficou machucada, o episódio virou um escândalo nacional e só porque vivíamos em uma democracia, uma multidão três vezes maior de jovens baianos puderam marchar contra o "dono da Bahia", em segurança, nos dias seguintes.
Em 2006, escrevendo os jornais de uma campanha política pequena, pude ver a revolução que o Luz para Todos fez no interior da Bahia. A direita, "pra variar", mentia e tentava enganar o povo dizendo que o programa era de sua autoria. Luz, gente! Coisa tão simples, mas que ninguém nunca tinha se interessado em fazer.
Em 2013, o desespero de 2001 se repetiu nas manifestações pré Copa. Eu estava lá cobrindo, mas caí na besteira de ficar entre os manifestantes. Jogaram tanta bomba de gás lacrimogêneo que eu, alérgica, eternamente com problemas respiratórios, tive que me ajoelhar e proteger meu rosto, porque não parava de tossir e nem conseguia abrir meus olhos. Um rapaz me ajudou a sair daquela situação. Eu e um monte de garotos terminamos o dia dentro de uma borracharia, para nos proteger dos PMs que corriam pela área em cima de cavalos. Quem já viu a PM em ação, sabe: uma vez que eles partem pra cima, perdem qualquer noção de proporção, parecem aqueles cachorros violentos que quem tem casa cria para soltar no quintal à noite.
As coisas em 2016, nas marchas anti impeachment, foram em paz. Fui de Juliana mesmo, deliberadamente, e foi uma delícia. Não surtiu efeito, mas nada como a consciência tranquila de estar do lado certo da História. Neste caso, como dizia Darcy Ribeiro, os fracassos são de qualquer forma vitórias.
Em 2017, voltei pra UFBA. Me emocionei, não só por estar de volta ao passado, digamos, mas de ver como aquilo tinha crescido, prosperado. Minha turma de tirocínio não seria possível há 20 anos. Aqueles meninos não teriam a oportunidade nem de estar lá, nem de travar as discussões que estavam tendo ali. Que salto!...
Eu sou de uma família tipicamente brasileira - se é que isso existe. Não tenho sobrenome gringo, não sei de onde meus antepassados vieram (apenas que já caminharam por Maranhão, Bahia, Minas, Goiás e o que hoje é o Tocantins), ninguém é herdeiro, é todo mundo mestiço, bem a cara da mistura de raças que formou esse país. Minha família ajudou a construir a capital federal, e está lá desde 1958. Minha mãe, aliás, sempre me contou da precariedade e da felicidade que encontraram nos seus primeiros anos, quando aquilo era só poeira. Meus pais, meus tios, em sua maioria, conseguiram melhorar de vida agarrando as oportunidades que aquela cidade, que este país lhes deu. Eu também. Sou de uma família de servidores públicos e muito do que sou devo também ao governo. Eu sei que meritocracia é uma balela. Só pude estudar porque havia universidade pública. Antes disso, estudei meus primeiros anos em escolas públicas. Quero que quem venha depois de mim tenha isso e muito mais e melhor. Quero que o Brasil tenha a estrutura e a oferta de direitos de uma França.
Daí chegamos em 2018 e vejo uma galera bem alimentada e que até já foi pra Disney (alguns continuam. Crise pra quem?), que não procura se informar de fato, que prefere acreditar em corrente maluca do Whatsapp que em fontes de informação de credibilidade (elas existem, é só deixar de paranoia e procurar), que nunca tirou a bunda do sofá para lutar por direito coletivo algum (às mulheres: teu direito ao divórcio, à guarda dos filhos, ao voto, à propriedade, à liberdade sexual e ao mercado de trabalho não caíram do céu. Muitas mulheres morreram para você hoje ter a pachorra de espalhar por aí que feminista é mulher louca que corre nua e defeca na rua) querer jogar toda a nossa liberdade fora por conta de fundamentalismo cristão, moralismo barato e uma ojeriza a um único partido político. O PT foi uma decepção para todo mundo. Fato. Mas não faz sentido jogar a água do banho e a criança fora. Isso é insensato, ou melhor, irresponsável. E não vai ser um governo autoritário que vai melhorar, muito pelo contrário. O cala boca que vai começar pelos ativistas, pela esquerda que você tanto odeia, vai terminar em você uma hora (quem já assistiu "A Escolha de Sofia" sabe do que estou falando). É uma conta alta e que todos pagarão. Quer ver? Nelson Rodrigues, um dos caras mais brilhantes da nossa literatura, era um fiasco politicamente falando. Conservador, não acreditava em tortura, era amigo da ditadura. Até que um dia seu filho sumiu. Foi levado e torturado. Seus amigos milicos não deram a mínima atenção e ele penou até encontrar o rapaz. Ficou arrasado com o que ouviu do filho. Ou seja, teve que acontecer na própria família para ele acordar pra realidade. Sinceramente, é tanto desrespeito às regras do jogo que eu acho que pode acontecer de tudo a essa altura, inclusive um novo regime autoritário. Na dúvida, acho que não vale a pena a gente abrir essa porta, não vale a pena pagar pra ver, muito menos se isso custar a integridade e a vida de LGBTs, negros, mulheres, ativistas, como já está custando. Há algo de muito errado quando uma galera quer endireitar um país, mas partindo do pressuposto de que algumas vidas valem menos e tudo bem se forem sacrificadas. Os fins justificam os meios? Alguém me viu tripudiar da facada de Bolsonaro aqui, embora esteja bem claro que não suporto ele e tudo que desperta nas pessoas? É uma questão de civilidade, de preservar a dignidade do outro e ao mesmo tempo a minha. Quando esse acordo é rompido, já perdemos todos.
A parte mais deprimente desta eleição é ver que o pau está comendo por causa de política e as pessoas não se importam com as outras. Vejo a maioria de um povo, que hoje usufrui de liberdades conquistadas às custas de tantas lutas e mortes no passado, abrindo mão de tudo isso pela mesquinharia de varrer um partido político (que é apenas uma ponta do iceberg) e, mais, impor aos outros o modo como acham que é certo viver. Não vai ser "Deus, pátria e família" que vai me fazer uma pessoa necessariamente boa. Aliás, o que tem de gente com uma biografia moralmente duvidosa pregando esse lema!... Uma pergunta rápida: se um assaltante entrasse na sua casa, você ia preferir que ele só te roubasse pertences ou que fizesse isso e ainda arrasasse física e psicologicamente com a sua família? Pois é, com os demais políticos, corremos o primeiro risco; com Bolsonaro e os milicos, o segundo. O mundo inteiro, em peso, está avisando que é furada. Não é possível que gregos e troianos estejam errados e aquela corrente do zap zap, certa. O primeiro passo pra sair dessa situação é largar de mesquinharia. País grande não combina com sentimentos pequenos, com falta de empatia, desprezo aos valores humanos.
Liberdade é bom demais, gente, estar numa democracia não é perfeito, mas vale ouro. Não deem isso de mão beijada a qualquer vigarista!
Liberdade é bom demais, gente, estar numa democracia não é perfeito, mas vale ouro. Não deem isso de mão beijada a qualquer vigarista!