Tem gente que não é nada de mais, não - embora haja sempre quem ponha maldade nas coisas. Apenas beleza. Tem gente que é bacana de olhar, que tem uma aparência gostosa que, às vezes, chega a salvar o dia.
A beleza tem o seu lugar, não vamos mentir. Ela desperta um carinho. Mas às vezes isso é tudo e é bom apenas por ser assim.
Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Pedro Paulo ou a inesperada virtude da ignorância
Pedro Paulo é amigo de um amigo. De cara, adorei ele. Ar de gente boa, cara bonita (isso é assunto para outro post...), tranquilinho. Tem alma de cachorro, é afável com todo mundo. Um fofo, como se diz. Quem nos apresentou é o oposto disso, ligado no 220 w, desesperado, crítico. Amigos de infância que se adoram, mas não têm nada a ver.
É engraçado quando os dois começam a interagir, beira o patético em algumas situações.
Sabe aquela coisa que eu já disse aqui, de que tem gente que terá uma vida linda contanto que nunca tenha certas epifanias? É ele. E, segundo o meu amigo, isso é de família; Pedro Paulo e o irmão são assim desde crianças, o que o intriga ainda mais.
Ele tenta desafiar o bichinho a ter senso crítico de todas as formas, mas não consegue provocar nem um suspiro de cansaço, nem uma ruga de expressão. Pedro Paulo continua lá, na dele, uma folha em branco.
O amigo tenta convencê-lo de que a vida o maltrata, como a todos nós. Que ele passou um tempão trabalhando sem carteira assinada e ainda hoje ganha mal, precisando frilar nas folgas semanais. Que ele nunca vai a lugar nenhum que não seja o Capão. Que ele não come coisas boas. Que morar perto do trabalho e morar na casa da avó não são motivos para ele estar tão satisfeito com a vida.
Aliás, tenho que admitir: uma coisa boa nisso tudo é que ele é a única pessoa que, ao me ouvir reclamando da vida, não tenta competir comigo. E mais: ele ainda ratifica que a vida dele é boa, sem cinismo ou maldade. Pedro Paulo não tem essa complexidade.
No final da história, tudo fica como antes no quartel de abrantes. Se alguém fica abalado é o meu amigo, que, claro, tem ressaca moral de ter abusado tanto o outro a troco de nada. Ele diz: "É, não tem jeito. Então é melhor que ele nem acorde mais e morra assim".
Amém.
É engraçado quando os dois começam a interagir, beira o patético em algumas situações.
Sabe aquela coisa que eu já disse aqui, de que tem gente que terá uma vida linda contanto que nunca tenha certas epifanias? É ele. E, segundo o meu amigo, isso é de família; Pedro Paulo e o irmão são assim desde crianças, o que o intriga ainda mais.
Ele tenta desafiar o bichinho a ter senso crítico de todas as formas, mas não consegue provocar nem um suspiro de cansaço, nem uma ruga de expressão. Pedro Paulo continua lá, na dele, uma folha em branco.
O amigo tenta convencê-lo de que a vida o maltrata, como a todos nós. Que ele passou um tempão trabalhando sem carteira assinada e ainda hoje ganha mal, precisando frilar nas folgas semanais. Que ele nunca vai a lugar nenhum que não seja o Capão. Que ele não come coisas boas. Que morar perto do trabalho e morar na casa da avó não são motivos para ele estar tão satisfeito com a vida.
Aliás, tenho que admitir: uma coisa boa nisso tudo é que ele é a única pessoa que, ao me ouvir reclamando da vida, não tenta competir comigo. E mais: ele ainda ratifica que a vida dele é boa, sem cinismo ou maldade. Pedro Paulo não tem essa complexidade.
No final da história, tudo fica como antes no quartel de abrantes. Se alguém fica abalado é o meu amigo, que, claro, tem ressaca moral de ter abusado tanto o outro a troco de nada. Ele diz: "É, não tem jeito. Então é melhor que ele nem acorde mais e morra assim".
Amém.
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
"A vida não é um filme. Você não entendeu..."
Eu sempre tive dificuldade para realmente perceber que a vida é comigo e não uma ficção. No fundo, bem lá no fundo, eu ainda espero que alguém me acorde e me diga que isso não aconteceu, que isso não é a minha vida. Eu ainda acho que vai ser possível, um dia, entrar na máquina do tempo e reviver.
Ainda acho que isso tudo aqui é ilusão. Que eu sou uma extraterrestre perdida no corpo de uma terráquea. Que eu nunca fui humana antes e pertencia a um grupo de amebas. Que estou no mundo de Matrix.
É um problema de existir mesmo, acima de qualquer coisa.
É um problema de existir mesmo, acima de qualquer coisa.
Vejamos.
Desde que eu tinha uns cinco anos, tenho pensamentos estranhos.
Eu nunca entendi porque eu tinha que ser Juliana. Eu nem sou exclusivamente Juliana. Muita gente, muita mesmo, tem o meu nome. Por que obedecer a ele, sempre? Eu não entendia por que não ser às vezes Carol, Fernanda ou Mariana.
Eu também tenho muita dificuldade de aceitar a incompletude das coisas. Como boa lua em fogo, se falta um pedaço, falta tudo e eu não quero mais, não. Quando eu tinha cinco anos, o sapato de um dos pés da minha Susi caiu dentro de um capô de carro. A boneca acabou, ali, pra mim. Não dá pra brincar com uma boneca descalça. Falta algo. O sapato. A inteireza.
Eu quase nunca lembro dos eventos de uma perspectiva minha. Sei do que aconteceu com todo mundo, menos comigo. É que as coisas são tão aleatórias ou empurradas (ou mesmo rápidas quando são boas), que eu quero apenas que elas passem pra eu poder voltar para casa. Viver cansa. Estar rodeada de gente é bom, mas trabalhoso, ainda mais pra quem tem pouca energia e mente dispersa. Focar e produzir. Arre!... Só curto depois de pronto. Raramente o processo não é um sofrimento.
O que será que vai comigo dessa existência? Sinceramente, não sei. Há dez anos, a minha infância era muito presente. Mas, descobri num grupo de ex-colegas de escola, que isso já não me diz mais nada - eles que não me ouçam, mas é, mesmo, como se fosse uma lembrança de outra vida.
Minha nova infância são os meus dois primeiros anos na faculdade. Porque, de fato, minha vida começou na "adultescência". Eu sei por quê. Além da liberdade - que veio casada com a independência financeira -, teve a descoberta de gente que era como eu; o aprendizado acelerado de um monte de coisas, as descobertas de mundos que eu mal conhecia; o desenvolvimento pessoal. Foi intenso como nunca mais ocorreu na vida.
Minha nova infância são os meus dois primeiros anos na faculdade. Porque, de fato, minha vida começou na "adultescência". Eu sei por quê. Além da liberdade - que veio casada com a independência financeira -, teve a descoberta de gente que era como eu; o aprendizado acelerado de um monte de coisas, as descobertas de mundos que eu mal conhecia; o desenvolvimento pessoal. Foi intenso como nunca mais ocorreu na vida.
Naquela época, poderia contar o meu futuro e ele parecia um filme. A seguir, cenas dos próximos capítulos...
domingo, 2 de agosto de 2015
Dependência
Por coincidência, assisti a dois filmes que tocam no tema "dignidade diante da doença", nesse final de semana:"Para sempre Alice" e "Mar adentro".
O primeiro é mais dramático; o segundo é mais leve, mas produz excelentes reflexões. Que diálogos! Fora o carisma do elenco espanhol.
O protagonista, Ramon Sampedro, diz algo que eu nunca tinha pensando, apesar de ser bastante óbvio: "Quando a gente depende dos outros para tudo, perde a privacidade". Não é só o brio que vai pro espaço, mas o direito de ficar a sós. Tão precioso!...
Deus do céu, já não era tempo de haver cura para essas coisas? Tomara que não tarde a acontecer.
O primeiro é mais dramático; o segundo é mais leve, mas produz excelentes reflexões. Que diálogos! Fora o carisma do elenco espanhol.
O protagonista, Ramon Sampedro, diz algo que eu nunca tinha pensando, apesar de ser bastante óbvio: "Quando a gente depende dos outros para tudo, perde a privacidade". Não é só o brio que vai pro espaço, mas o direito de ficar a sós. Tão precioso!...
Deus do céu, já não era tempo de haver cura para essas coisas? Tomara que não tarde a acontecer.
sábado, 1 de agosto de 2015
Qual o limite do humor?
Muita gente, eu me lembro, se queixava de Joan Rivers, a famosa crítica do tapete vermelho. Não havia meio termo: ou você era fã do humor mordaz dela ou achava a mulher uma bruxa insensível.
Ok, expor as pessoas ao ridículo é cruel, mas, na boa, dizer que quem é lindo, bem sucedido e às vezes até está na festa para receber um prêmio se vestiu mal, está brega, não tem o poder de causar lá grandes prejuízos à figura. Se isso acontece, é mais um caso de ir ao psicólogo que à Justiça, a meu ver. Além do mais, essas pessoas ou exageram, querendo chamar a atenção, ou são displicentes quando têm, à disposição, toda uma indústria, em torno de si, querendo ajudá-los com a aparência. É um jeito nada educado de passar uma informação, mas, convenhamos, se a celebridade tiver um pouco de senso crítico, vai poder aprender com aquilo, quer assimilando ou se posicionando.
Outra coisa é tirar sarro de uma catadora de lixo, tão vulnerável socialmente, tão agredida na autoestima.
Enfim, pra mim, o limite é não fazer críticas gratuitas, sem sentido, muito menos para chutar cachorro morto.
Agora, humor é que nem sexo: pra valer, nunca vai ser limpinho. Desistam dessa ideia.
Os discursos necessários
Um ser humano, por mais libertário, raramente não vai ter seus estranhamentos. É normal. Todos viemos de um recorte social.
Estou numa fase em que, apesar de não lutar contra os meus estranhamentos, eu quero apoiar quem é estranho. Por mais que me desagrade, algumas bizarrices são necessárias para que todos comecem a se acostumar com a diversidade.
E acho que nem todo discurso hipócrita deve ser combatido. Explico. Por exemplo, nosso ex-professor WG não é aquela criatura justa e amável do Facebook. Não mesmo! Qualquer um que tenha sido aluno dele por um mês sabe que ele é preconceituoso e elitista. Mas o discurso dele nas redes sociais, ainda que hipócrita, tem sido muito importante. É um discurso liberal, de aceitação da diversidade, democrático. É uma falsidade do bem. Ele ganha muito com isso, obviamente, mas, inegavelmente, produz um bem ao botar um pouco de luz na cabeça de quem acredita que ele é assim mesmo.
A mesma coisa penso do Jean Wyllys. Se bem que sinto que ele, apesar de elitista e deslumbrado, tem uma essência amorosa, se importa de verdade. Ele está tendo o seu momento "Super Xuxa Contra o Baixo Astral", mas tem feito a diferença na luta das minorias.
Enfim, babies, há situações em que "mentiras sinceras" super interessam.
A Mulher Cordial
Quando estiver na vibe do mestrado, vou propor uma dissertação que vai se chamar "A Mulher Cordial".
A sociedade espera, elas não se posicionam. Quando isso vai mudar? A quem interessa manter? Que síndrome de Estocolmo dos infernos é essa?
Não precisa ser uma Miley Cyrus, não, para chocar. Basta não ser "delicada". Basta não ser "compreensiva". Basta ser direta. E todos vão te criticar, te garanto.
Eu até entenderia se o mesmo valesse para os homens. Mas não é assim. Faça você, mulher, uma piada e faça um homem. A aceitação vai ser completamente diferente. Eles podem. Você que fique confinada na sua caixa de boneca de porcelana.
Eu me lembro, ainda, da primeira vergonha que eu fiz minha mãe passar. Mas por culpa dela, que quis bancar a caridosa às minhas custas. Eu tinha cinco anos e estava em uma festa de aniversário em uma chácara. Teve uma corrida, eu venci e ganhei um porco de plástico verde, com uma nota de R$ 5 dentro. Ela queria que eu devolvesse o prêmio porque as outras crianças eram menores que eu. Me recusei, disse que o porco era meu, que eu era a vencedora. Ela insistiu, querendo me forçar a ser "boazinha". A mãe da dona da festa interveio - não sei se por reconhecer a minha razão ou para evitar o constrangimento -, dizendo a minha mãe que me deixasse, que eu havia ganho a corrida e o prêmio era meu.
A mulher tem que ser sempre enquadrada, desde pequena. "Não reclame". "Seja delicada". "Ceda sempre, sem se importar".
Mas e se eu for uma boa pessoa, solidária, afetuosa, etc, eu me torno uma criatura ruim por defender os meus direitos e a minha individualidade? Desculpe, não é a minha natureza e, na boa, eu não quero ser assim. Por que se ater nisso em detrimento das qualidades?
Por exemplo, eu acho que ninguém tem que aturar infinitamente gente folgada. Por que eu tenho que ter paciência, consideração sem fim, delicadeza com quem não se importa se está me abusando ou não? Se a pessoa não quer parar de ser sem noção, se ela não me enxerga e não se importa comigo, ela tem que assumir, pelo menos, o risco de levar uma cortada uma hora dessas. Das vezes em que fui cara de pau, sabia o que poderia vir e, quando veio, aguentei firme. Afinal, o tamanho do saco da paciência varia conforme o dia. Por muito menos os homens jogam logo um "Porra" na cara da criatura e ninguém diz um "Ai". Mulheres não precisam ser santas. Tá na hora de assumir nossa carne e nosso sangue.
Isso não é apenas uma impressão minha. Saindo da esfera privada para a pública, infelizmente, o mercado de trabalho tem demonstrado que conhece muito bem essa realidade e vem trocando, em seus setores mais em crise, homens por mulheres. Girl Power? Sabe de nada, inocente...
Uma amiga estava lembrando, ontem, da ex-diretora do NY Times, que foi demitida após ter descoberto que o seu antecessor, do sexo masculino, ganhava muito mais, o que a fez pedir por paridade salarial. Ainda nos querem, nesses cargos, para Rainha da Inglaterra, aquela figura elegante que não apita nada, realmente.
As empresas fazem isso porque, mesmo pagando 30% menos às chefes mulheres, elas vão se sentir muito agradecidas e vão se portar como cães de guarda do patrão, morrendo de medo de perderem o emprego.
Eu já disse que odeio chefia feminina e é por causa disso. Elas não fazem o que é possível, não são objetivas como os homens, não defendem a equipe, não se seguram nas próprias pernas. O diretor da empresa dá uma ordem absurda e elas vão sacrificar o que for para mostrar serviço. Depois, arrependidas de terem agido como megeras com os subalternos, vêm puxar o saco. É patético.
Isso acontece porque elas são incapazes de se posicionarem diante de uma ordem maluca, são incapazes de defenderem as suas equipes. Agem como mães que acham que podem tudo com os filhos e não querem tomar bronca do marido exigente. A diretoria sabe que botão apertar, nessas horas, e leva para a chantagem emocional. Dizer a uma mulher que ela "não consegue", "não se comprometeu", enfim, que ela "não serve para nada", é a reprodução das relações abusivas dos casamentos dos anos 50 no mundo do trabalho do século 21.
Duas cenas bem simbólicas disso aconteceram na empresa onde trabalho no espaço de uma semana. A hierarquia de um jornal é assim: repórteres - editores - editores coordenadores - secretários de redação - diretor de redação - diretor geral. Guarde isso, que é para vocês sentirem, a seguir, o drama.
1) Situação: fechamento da edição de domingo, sábado, uns 20 minutos antes das 14 h - esse é o horário limite para descer a edição. O pessoal do Comercial liga para o secretário de redação dizendo que vai entrar um anúncio. Ele se recusa a fazer a inserção, afinal, além de um tremendo desrespeito à Redação, isso vai atrapalhar todo o fluxo da edição. Quando a gente atrasa, o pessoal do Industrial logo começa a dar piti. É um inferno. A pessoa do Comercial ameaça dizendo: "Você vai se responsabilizar por isso?". Ele responde que não vai ceder. Fim de papo.
2) Situação: o RH da empresa faz uma série de descontos indevidos aos funcionários que batem ponto na Redação. Alguns descontos beiram R$ 1 mil, então as pessoas ficam revoltadas, até porque vai demorar até serem ressarcidas. Alguns repórteres se pronunciam pelo bate-papo interno, reclamando dos abusos. A diretora de redação não faz nenhum pronunciamento nem toma qualquer providência em prol dos funcionários. No dia seguinte, acontece a assembleia dos jornalistas. Diretora e secretária de redação "desaparecem" da Redação, como não costumam fazer naquele horário do dia. Que "coincidência", né?. Dois dias antes, aliás, a diretora faz terrorismo com os editores coordenadores por conta de problemas nos pontos das equipes. Uma delas, aliás, repassa o terror, com todas as tintas, a uma repórter menos prestigiada, que saiu chocada com essa postura da figura. Em tempo: todo mundo dá a sua produção, certinha, sem prejuízo ao jornal - muito pelo contrário. Mas as chefes são incapazes de bater o pé, nesse ponto de vista, com o RH. Mais fácil aterrorizar - e desestimular - a equipe. Agora leve um bolo ou comidinhas para a mesa central da Redação para ver se essas duas não aparecem, no ato, para ajudar a servir e botar fotinhas fofas da equipe no Facebook. As Rainhas da Inglaterra (sou mais a Rainha Má). Vergonha alheia define.
A que preço, né, meus caros? Não basta agir da melhor forma possível, se esforçar. Tem que sangrar, descer, se encolher, ceder até a última gota de sangue.
Duas cenas bem simbólicas disso aconteceram na empresa onde trabalho no espaço de uma semana. A hierarquia de um jornal é assim: repórteres - editores - editores coordenadores - secretários de redação - diretor de redação - diretor geral. Guarde isso, que é para vocês sentirem, a seguir, o drama.
1) Situação: fechamento da edição de domingo, sábado, uns 20 minutos antes das 14 h - esse é o horário limite para descer a edição. O pessoal do Comercial liga para o secretário de redação dizendo que vai entrar um anúncio. Ele se recusa a fazer a inserção, afinal, além de um tremendo desrespeito à Redação, isso vai atrapalhar todo o fluxo da edição. Quando a gente atrasa, o pessoal do Industrial logo começa a dar piti. É um inferno. A pessoa do Comercial ameaça dizendo: "Você vai se responsabilizar por isso?". Ele responde que não vai ceder. Fim de papo.
2) Situação: o RH da empresa faz uma série de descontos indevidos aos funcionários que batem ponto na Redação. Alguns descontos beiram R$ 1 mil, então as pessoas ficam revoltadas, até porque vai demorar até serem ressarcidas. Alguns repórteres se pronunciam pelo bate-papo interno, reclamando dos abusos. A diretora de redação não faz nenhum pronunciamento nem toma qualquer providência em prol dos funcionários. No dia seguinte, acontece a assembleia dos jornalistas. Diretora e secretária de redação "desaparecem" da Redação, como não costumam fazer naquele horário do dia. Que "coincidência", né?. Dois dias antes, aliás, a diretora faz terrorismo com os editores coordenadores por conta de problemas nos pontos das equipes. Uma delas, aliás, repassa o terror, com todas as tintas, a uma repórter menos prestigiada, que saiu chocada com essa postura da figura. Em tempo: todo mundo dá a sua produção, certinha, sem prejuízo ao jornal - muito pelo contrário. Mas as chefes são incapazes de bater o pé, nesse ponto de vista, com o RH. Mais fácil aterrorizar - e desestimular - a equipe. Agora leve um bolo ou comidinhas para a mesa central da Redação para ver se essas duas não aparecem, no ato, para ajudar a servir e botar fotinhas fofas da equipe no Facebook. As Rainhas da Inglaterra (sou mais a Rainha Má). Vergonha alheia define.
A que preço, né, meus caros? Não basta agir da melhor forma possível, se esforçar. Tem que sangrar, descer, se encolher, ceder até a última gota de sangue.
E elas se submetem porque não suportam desagradar. Mulher não é criada, ainda hoje, para se autoafirmar, mas para agradar. Meu viva às insurgentes! Se der, ainda nessa vida, vou escrever sobre vocês.
É muita filosofia e arte na catraca
Por problemas da própria cidade, não ando fazendo segredo que desejo muito parar de andar de ônibus. É demora, é perigo de roubo, é lotação, leva uma vida para chegar até o destino, enfim, um inferno. Fora isso, para quem pega no mínimo 12 vezes por semana, como eu, cansa, às vezes, a convivência. Há de todos os tipos e, a depender do seu nível de cansaço, a paciência fica curta com gente que berra, que empurra, que toma descaradamente o lugar dos idosos, etc.
Mas coisas engraçadas também acontecem nesse espaço. É inegável que uma das formas de saber o que se passa em Salvador é através do transporte público (mas, na boa, só vou voltar a curtir quando for metrô).
Outro dia, o cobrador batia boca com uma velhinha que, mesmo com a frente, destinada aos idosos, lotada, queria ficar lá, em pé. Ele forçou a barra e ela passou a catraca. Depois, como que prevendo a crítica de alguns passageiros, falou: "Na hora em que ela caísse, a população ia querer linchar o motorista, o cobrador. Em Salvador é assim".
Mas o sujeito gostava mesmo era de pirraçar. Minutos depois, ele estava falando com o motorista que sogra é uma criatura que não nasceu pra ser boa. A mesma velhinha, ainda injuriada por ter sido contrariada, começou a rebater a crítica, dizendo que muitas sogras faziam pelos netos o que "os homens safados" não faziam por seus filhos. E ele continuou pirraçando a criatura até ela descer do coletivo.
Artistas
Há algumas relações menos belicosas, mais artísticas. Outro dia, enquanto ia para o médico, duas garotas, com as caras pintadas e um caixote cada uma, entraram pela porta do meio. Elas começaram a cantar. Pareciam os bichinhos daquele filme "Alvim e os Esquilos". Brincadeira. Elas eram afinadinhas. Cantaram, cantaram, a galera aplaudiu. Elas contaram que vieram de Córdoba, Argentina, e estão rodando a América Latina há dois anos. Por fim, agradeceram muito, sentindo-se sinceramente consagradas dentro daquele coletivo. Não deixaram o motorista de fora, foram super gratas a ele, que retribuiu: "Voltem sempre, minhas lindas!".
O povo é doido, definitivamente.
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