sábado, 24 de fevereiro de 2018

Lembrete pra mim nº 1209308093902

Juli, sei que você é obcecada em entender as coisas que aconteceram na sua vida, das mais insignificantes às mais complexas, mas, lembre-se disso, até porque o tempo está correndo: algumas coisas não são pra entender, mas para aprender e superar. Grata pela atenção.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Paris is burning (ou "Sempre dependi da bondade de estranhos")!

Eu nunca engoli bem hierarquias. Não essas impostas. Ou eu respeito ou não respeito. Por exemplo, sempre fugi de pedir benção aos mais velhos. No meu caso, não havia sentido, não havia transferência com os mais velhos da minha família.
Família. Pode ser que eu forme uma e eu penso às vezes se eu quero ou não. Se eu fosse homem, não haveria dúvida, mas como sou mulher... Até agora, a resposta é não. Minha ficha caiu depois que eu assisti a um documentário na Netflix, chamado "Paris is burning".
Basicamente, o filme fala de um concurso de drags na periferia nova iorquina no final dos anos 80. Você fica mal com todas as histórias de rejeição e exclusão dos personagens e com tudo que eles sonham e que nunca serão (mas mesmo assim eles não deixam de sonhar). Mas há muita beleza também entre eles e um dos exemplos é como se acolhem, como acabam formando uma família. Sim, como é linda e potente a resistência!
E foi então que finalmente me deu o clique de que eu não preciso de sangue para ter uma família. Eu sempre formei famílias fora, famílias que toda hora mudam de personagens (alguns poucos fazem parte do elenco fixo), é verdade, mas eu sempre pude contar com a bondade dos que não são meu sangue, os "estranhos".

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Lady Bird



"Lady Bird" é uma graça! Fui ver porque o filme se passa numa época em que eu também fui jovem. Sou um pouco mais velha que a personagem, mas ela passou, no ensino médio, pelas coisas que passei na universidade. Algumas, eu continuo passando, hehe. O filme acontece entre 2002 e 2003, e eu tenho imenso carinho por esse período de cinco anos da minha vida, de 1998 a 2003. Muita coisa aconteceu, eu comecei a ser eu mesma, foi quando eu saí de Itapuã pra cidade, pro mundo dos adultos, que, apesar de todos os perrengues, é infinitamente melhor que a adolescência. Ah, sim, e eu adoro a atriz que faz a protagonista!...
O filme fala daquela época em que nos damos conta de que não temos mais nada a ver com as pessoas do nosso entorno, que o espaço conhecido já ficou estreito e que, por mais duro que seja romper, vamos ter que fazer isso, nos "parir", processo esse, aliás, que para pessoas saudáveis, "atentas e fortes", vai durar a vida inteira. Achei muito sagaz o filme ter terminado com o estranhamento dela de Nova York. É o "parto" de decidir ir embora, depois vem esse outro "parto", que é construir seu pertencimento dentro do novo lugar. Nunca para. É cansativo, sim. Dá medo. Mas a boa notícia é que dura, no máximo, cem anos.
Vamos lá, algumas notas sobre "Lady Bird":
1- Incompreensão. A personagem é um ET não só na escola, mas dentro de casa. Todo mundo gosta dela, mas, com exceção do pai, a família não perde a chance de implicar com ela - um jeito de descontar a frustração individual, mas também um meio torto de "educar". Isso me lembrou meu professor de Ética, Renatinho da Silveira, cuja aula não me ensinou nada sobre Jornalismo, mas uma frase dita por ele eu nunca esqueci: "Frequentemente a nossa família até nos ama, mas não nos compreende. E só o amor não é suficiente".
2- Sonhos x Realidade. A família sempre teve pouco dinheiro, está passando por vários problemas neste sentido, e a personagem, além de nunca ter tido grande coisa além do básico, está conhecendo gente rica (vendo que o mundo pode oferecer mais) e sendo podada de sonhar com mais para o próprio futuro. Mas, enfim, ela é a heroína, então acaba tudo bem. Na vida real, é foda esse tipo de atmosfera. As pessoas ficam amarguradas e jogam isso em cima das outras, especialmente na família, diante da certeza de que parente vai sempre perdoar. Mesmo com boa intenção e ainda que tenham feito um esforço para mantê-la em colégio particular (mas não pelo motivo correto, que é a educação, mas mais uma vez movidos pelo medo), eles poderiam ter arruinado o futuro da menina.
3 - Generosidade. Gostei da madre superiora do colégio que, diante das rebeldias de Lady Bird, tentava interpretá-las e não puni-las. Tem senso de humor, é debochada, enfim, uma pessoa que, apesar da autoridade, é generosa. LB também é generosa e, ao contrário do que se espera pra idade, é acolhedora mesmo depois de descobrir que foi traída - se bem que não foi por mal. Lady é generosa principalmente consigo mesma: ela não poderia, mas tenta; se decepciona, mas vai em frente; erra, mas percebe e volta atrás.
4 - O que não é feito ou dito também significa. LB nunca precisou dizer que tinha vergonha da pobreza da família porque o pai podia perceber isso apenas pela resistência dela em ser vista chegando com ele. Sempre tem um mais sensível na família, a pessoa mais generosa em cima de quem todo o azar teima em cair.
5- Ela sabe contracenar. Lady Bird é ótima em dialogar com as pessoas, em perceber o que elas querem e fazer algo para agradar. Eu invejei! Essa nunca vai ficar sem emprego ou namorado, hehe. Figura!...
6 - Expectativa x realidade. Bichinha teve umas quebras de expectativa com o primeiro namorado, com a primeira vez e com a ida a Nova Iorque. Faz parte. Quem nunca? O bom é que ela não se traumatiza. Isso é muito importante.
7 - "Um espacinho para o Espírito Santo!"
Eu achei tão gracinha e sagaz da freira dizer isso para fazer o casal dançar um pouco mais afastado!... Vou arranjar um jeito de usar essa frase um dia. hehe...

Crueldade e amor não estão interligados

"Eu levei 47 anos para parar de chamar de 'apaixonadas por mim' pessoas que são simplesmente más comigo. Levei um tempo enorme porque, quando somos garotas, nós somos condicionadas a acreditar que crueldade e amor estão interligados. Isso vem de uma época que nós precisamos nos distanciar urgentemente."


Quem disse isso foi a atriz Uma Thurman. Se uma estrela de Hollywood leva quase 50 anos, que dirá dona Mariazinha, que depende do dinheiro do marido? Que dirá a pobre coitada que tá começando a fazer a vida, com uma lista de "tem que..." da mulher perfeita na mão. Baixa autoestima não é privilégio de um sexo, de uma raça, de uma posição geográfica; estamos todos passíveis disso. Mas, velho, o que fazem com a mulher não é de Deus, não. Se é necessária muita humilhação para produzir "um homem de verdade", para as mulheres essa humilhação não tem fim, não tem redenção no final, não há possibilidade de ocupar, um dia desses, uma posição hegemônica. 
Não se enganem, há muito silêncio aqui também. Mulheres falam muito, mas não dizem 1% do que acontece, do que realmente importa. Somos ensinadas a calar a boca. E há muita contenção da raiva, que não existe só em quem tem a testosterona alta. Temos sangue nas veias! Homens, pelo menos, podem xingar, meter a porrada na porta, enfim, exteriorizar. Com a gente, não. Estão te massacrando, mas continue sorrindo e compreendendo. "Boa menina!"... Isso é tão perverso!... Quando a gente vai poder chorar, mas chorar de verdade, não como sub-humano que não dá conta das coisas, mas como alguém que tem dores e merece tê-las reconhecidas? Quem nos dá colo? Quem ouve a gente? Quando a sociedade vai nos respeitar?
Eu, como feminista, só peço uma coisa: minha humanidade reconhecida, nossa humanidade vista. Fazer maldade a uma mulher é como chutar um cachorro vira-lata: ninguém liga. É isso que me enche de raiva.

***
O que não é amor: botar pra baixo; não ver o outro além das aparências; não auxiliá-lo quando precisa; não estimular capacidades; manipular para fazê-lo se sentir culpado; silenciar para agredí-lo; não se compadecer de suas dificuldades; não ser solidário quando alguém lhe ataca; não ter mais vontade, mas se sentir obrigado; etc. A lista é longa. Eu demorei 37 anos para parar de achar que eu tinha que compreender quem, nem por um segundo, sente remorso pelo mal que me causa, que não tá nem aí pro que me acontece ou para revisar seus atos. Por que temos que aturar? Qual é o sentido? Por que só um é obrigado a suportar e consertar todo o azedume e perversidade do outro, que, quando muito, joga umas migalhas? 
É impressionante a dificuldade de nós, mulheres, com o "não": com o não te ama; com o não devo ficar perto de gente assim; com o não gosto mais dessa pessoa. Isso vem da culpa. A gente acha que tem que salvar todas as pessoas e relacionamentos: o casamento, a família, o filho, a empregada, os amigos, os pais, inclusive os pais dele, enquanto os homens passam como um trator, sem sequer olhar pra trás. 
A gente faz o que pode, quando pode e quer! Eu tenho vontade de tatuar isso na testa, pra lembrar não só a mim - que tenho tendência à culpa -, como a outros abestalhados como eu. 
Não somos vítimas, somos é muito bestas, isso sim! Tá na hora da gente largar esse papel e começar a escrever a própria e genuína história. 

Perobentos

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A má educação

Muitas mulheres estão enfim contando casos de assédio e até mesmo de violência vivenciados. Mas um caso que não tá descendo redondo pra um monte de gente, até entre feministas, é do ator americano Aziz Ansari. Uma moça, usando o nome fictício de Grace, falou que teve um encontro com o ator e que no meio da coisa, já ali na boca do caixa, ela meio que se sentiu mal, se arrependeu, mas acabou fazendo coisas que não queria fazer. Ela não disse claramente "não" para as investidas do ator, que simplesmente ignorou ela, não prestou atenção, mas não foi coercitivo. Olha, não dá para tratar isso como crime, colocar na mesma esteira que, por exemplo, o chefão da Miramax. Por outro lado, dá muito pano pra problematização.
O caso é o típico reflexo da diferença de socialização entre homens e mulheres e de como isso afeta a dinâmica das relações. Mulheres são criadas para inibirem suas vontades, pra ter medo de desagradar as pessoas, especialmente homens. Os homens são criados para não terem muita atenção com o entorno, para focar em si mesmos e tirar proveito desse tipo de situação. Todo mundo vítima do machismo. Que merda, hein? 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A arte de abraçar

Eu adoro abraçar e amo mais ainda quando encontro uma pessoa boa de abraço. Mas como é raro achar gente que saiba abraçar. 
Meu tio Hugo sabia e nunca mais ninguém me abraçou com a energia dele; ele manjava deste paranauê. Batman, meu colega do colégio, sabia abraçar. Taurino, né, more?
Tá aí: homem hétero é ruim de abraço. Ou é aquela coisa de lado, sem graça, com os bróders, ou é aquela coisa maliciosa de quando quer pegar mulher. Mas aquela coisa gostosa, de aconchego, "homem sofá", é mais com as bichas.
Tem uma, assessor de imprensa em Salvador, que eu fui abraçar na despedida de uma pauta (tenho essa mania, que eu quero até parar, de beijar e abraçar o povo, pois nem todo mundo gosta, né?). Genteeeeee... O homem parecia que tinha uma almofada no corpo. Que pessoa gostosa de abraçar! Quase pedi mais cinco minutos de abraço. "Peraê, binho, só mais um pouco. Que que custa?"
As pessoas deveriam aprender a abraçar direito. Não custa nada, rei. É uma caridade fácil que se faz ao outro.