domingo, 26 de março de 2017

Tia Má somos nós

Ontem Maíra Azevedo, vulgo Tia Má, estreou o espetáculo "Tia Má com a língua solta". Um amigo meu assistiu e disse que o texto é massa, que gostou muito. Ela praticamente faz o discurso da militância e fala das vezes em que foi rejeitada, desacreditada e desestimulada. 
Acho que a fama deve estar fazendo bem para a autoestima de Maíra. Sim, ela não é esse poço de segurança. Aliás, vaidade não significa autoestima e muita gente famosa está longe de ser um poço disso. Fato. Eu trabalhei com ela por quatro anos e posso dizer algumas coisas a respeito.
O jornalismo impresso gosta de gente com aparência de intelectual, e Maíra não é intelectual, embora seja uma mulher inteligente, com experiência de vida e que tem o que dizer. Ela nunca foi valorizada (mas também não precisa forçar a barra, agora, dizendo que é uma jornalista nacionalmente premiada, porque é uma meia verdade. Tira o sapatinho e põe o pé no chão, né, Bê?...). Enfim, Maíra era a pessoa com as qualidades erradas para o meio, embora seja competente como repórter, mas, de fato, o brilho dela está no carisma, no humor, na facilidade de se comunicar com o povão sem ser popularesca, sem nivelar por baixo, levando reflexão e informação. Acho que as mulheres, especialmente, tinham carência de alguém assim.
Gosto muito da definição de Wagner Moura sobre a fama, como aquilo que você sempre foi e, de repente, todo mundo descobre que você é. Muita gente extraordinária passa a vida sem que alguém tenha olhos para ela, até que vai lá, faz e prova que tem valor. Mônica Martelli, aliás, fala muito bem disso, sobre como foi muitas vezes rejeitada antes de fazer sucesso. É por aí: o mundo tem olhos para as coisas já consagradas, já batidas, conhecidas. Por isso alguns tem uma estrada mais curta enquanto outros precisam percorrer um longo caminho para se validar. Não dá para esperar pela sensibilidade dos outros, a motivação tem que ser interna, por mais que o caminho solitário doa às vezes.
As consequências psicossociais do machismo
Maíra sempre foi sensível às rejeições, que ela conta ter sofrido desde a infância. Quem nunca? Ser mulher é ser desacreditada, desestimulada o tempo todo, desde pequena, o que, se você não tomar cuidado, internaliza. Eu sei bem que minha sorte na vida foi ser antissocial, teimar mais em fazer as coisas do meu jeito do que em agradar os outros. Do contrário, estaria já a sete palmos, não suportaria tudo que já passei. Ninguém ganha esse jogo sendo mulher. Lógico, há gradações. Se você preenche os requisitos de boa fêmea, vai ser melhor tratada porque serve como mulher troféu. Mas nunca vai ter a sua humanidade reconhecida, de qualquer forma. Se você não preenche esses requisitos... Oh, meu Pai!... Deus te defenda, porque a lei dos homens, nesse caso realmente me referindo ao sexo masculino, vai te pegar de jeito e as melhores capitães do mato virão do seu próprio sexo. E eu não sou mulher?, você vai se perguntar a vida inteira, tendo como resposta apenas um eco.
Ser mulher é ser condicionada, desde bebê, a se pensar em relação ao outro, ao que ele acha de você, servindo aos outros antes de a si mesma, mas para passar a vida inteira tentando bastante e nunca sendo boa o suficiente. É inglório, é estressante, é humilhante, é desumano. Só quem passa e tem consciência (porque um monte delas prefere abafar isso, opta por se mutilar enquanto indivíduo para agradar) sabe. Os gays não saberão. Homens hétero... Para, vai!... Assim como eu nunca saberei o que é ser uma travesti, uma mulher trans. É um aprendizado de carne, de sangue e de nervos.
A sociedade precisa nos valorizar, até porque atuamos numa esfera altamente desgastante, essencial e pouco valorizada: a do cuidado. E ainda queremos ser reconhecidas como capazes de atuar em qualquer outra esfera. Queremos o direito à maternidade, que os homens sejam levados a assumir as responsabilidades deles e, no caso de mães sozinhas, que haja estrutura para elas e seus bebês. A falta de creches é umas das ações mais misóginas que um governo pode ter. Ah, sim: queremos ter o direito de não termos filhos e sermos tratadas com respeito.
Acho a fama de Maíra providencial, tanto numa microvisão, provando pra gente, do entorno dela, que tudo é possível, que coisas que nunca sonhamos podem acontecer. E numa abordagem macro, acho vital que mulheres comuns sejam valorizadas, mulheres suburbanas, com barriga +3, que cuidam de seus filhos sozinhas. Enfim, as heroínas do dia a dia precisam ser reconhecidas.

terça-feira, 14 de março de 2017

Sobre Mulheres e Dinheiro

Tenho uma prima exatamente da idade de minha irmã do meio. Ambas são bem parecidas na personalidade, até, mas diferem em uma coisa básica: carreira. Minha irmã sempre foi boa aluna, já a prima passava arrastada. As duas são tão parecidas que começaram a namorar na mesma idade. Pois é, minha irmã não se impressionou com o namorado rico e foi se formar, construiu carreira, sustenta a família. Minha prima continuou com o namorado rico, e vive uma vida, pela qual minha irmã tem que pagar, às custas do marido.
Pessoalmente, acho as duas situações inadequadas. Ninguém deveria sustentar ninguém, pois é um peso grande demais. Quem é sustentado também não vive uma boa situação porque está na dependência. Vai ficar obrigado a aceitar o que não quer porque precisa e pode perder o mantenedor a qualquer momento, afinal, toda relação pode acabar. O ideal é que homem e mulher dividam as coisas. Claro, há situações e situações. Se você é casado com alguém que dá duro e o ofício dessa pessoa não dá a mesma boa remuneração que você tem, é uma coisa. Sou contra alguém folgar enquanto outra pessoa se lasca. Isso só pode acabar em desrespeito, ressentimento. Em todos os casos, o fato é que se nenhum dos dois reclama, ninguém tem nada com isso.
Mas toda vez que o assunto surge aqui em casa, há um conflito de valores que envolve gerações e eu acho bem interessante. Minha irmã acha que minha prima é interesseira, afinal, quando namoravam, ela dava muito corno nele. E ela raramente publica fotos dos dois no Instagram. Enfim, ela acha que a fulana tá ali, "luxando", sem amar, mas pela boa vida que o marido proporciona. Afinal, sozinha, ela nunca poderia bancar a vida que tem. Minha mãe, que nunca trabalhou fora, se dói, diz que ela vive viajando porque entrou pra igreja e que o povo evangélico é corda de caranguejo e blá blá blá. Mas minha mãe, embora nunca tenha tido a responsabilidade de garantir o dinheiro, ficou com a maior responsabilidade na família: pela administração da casa, pelos cuidados com as filhas, especialmente os emocionais, oferecendo apoio emocional ao marido, que só tinha que se preocupar em trabalhar, um trabalho que ele só perderia se fizesse besteira, já que tinha estabilidade. Minha prima não tem o mesmo peso pra carregar. Bem, minha irmã é de uma geração que refuta esse modelo de mulher, que liga a falta de carreira à ociosidade, a problemas de caráter, realmente. Mas que acaba invertendo os papéis só para reafirmar poder, sem perceber o desequilíbrio.  
Eu sou da mesma geração de minha irmã e também tenho dificuldade de admirar dependências. Mas vamos falar francamente e de forma mais ampla: todo ser humano gosta de moleza (vide a quantidade de homens encostados em suas mulheres que vemos hoje), mas é fácil dizer que as mulheres são parasitas quando o mercado de trabalho ainda é ruim com elas, na medida em que os piores trabalhos ainda são feitos por elas, em que são mais exigidas que os homens e ganham 30% menos. É claro que num cenário assim, esse tipo de prostituição conjugal vai ser visto como uma boa opção. E não se engane, tudo tem um preço. Gente assim paga com o amor próprio e isso não é fácil, não.

terça-feira, 7 de março de 2017

Nem todas as vidas são iguais

Aos 30 e quebrados (mais para uns, menos para outros), vejo que meus amigos já estão cansados, precisando, mas sem muita disposição para recomeçar.
Alerta: eu ando com o "baixo clero", gente de classe média baixa, classe média média, que vem superando os pais em escolaridade.
Meu amigo de 32 anos diz que se lenhou muito fazendo a faculdade, que não tem mais energia para recomeçar. E se fosse só a questão da profissão... A depender da sua configuração social, você vai sofrer duas vezes para conseguir, quem sabe, chegar lá, materialmente e subjetivamente. Não é só o ônibus de Lauro de Freitas ao Canela que cansa, mas ser invisível e subestimado de tantas formas.
Daí, quando você considera as dificuldades para se chegar a determinado objetivo (porque já está, afinal, cansado de ter subido outras "ladeiras"), sempre tem um escroto que vai dizer que quem quer, consegue. Sim, consegue, se houver uma determinação descomunal e ainda uma pitada de sorte. Mas, me diga, quem tem coração para sustentar, 40, 50 anos, assim? O corpo é de carne e a carne envelhece, se desgasta, cansa. Tem gente que não sabe o que fala. Ou melhor, não sabe nada da realidade ao redor.
A gente ignora coisas básicas como, por exemplo, que as qualidades não são exatamente dons de nascença. Elas precisam de contexto para florescer. Aprendi isso no trabalho, a propósito. Coragem, por exemplo, não é uma coisa para todos. Cada um tem uma situação na vida. Ali, no trampo, eu era corajosa porque não tinha apego demasiado ao trabalho, possuía a capacidade de ver os maus feitos e não tinha nenhum dependente pra sustentar. Para outras pessoas seria mais arriscado e, para outras, inconveniente. Outros eram incapazes de reconhecer os problemas.
Ser doce. Isso depende não só da personalidade, mas de condição social. A vida dura não produz muita gente meiga porque exige força, persistência resistência.
Não é possível que seja coincidência que mais gente violenta nasça na periferia que na classe média. Isso não é coincidência, é um problema, um padrão.
Só não vê quem não quer.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Deixem Ivete Sangalo em paz

Quase todo mundo gosta de Ivete Sangalo, mesmo quem acha um saco ela viver em cima do muro e desconfia que, como empresária, seja meio predadora pelas histórias que circulam por aí. É que ela tem carisma e, no meu caso, chama também a minha atenção a lucidez dela, que eu acho rara num meio em que as pessoas são vaidosas e sem noção.
Mas o Brasil pira a cada ato banal da cantora. Eu não entendo, porque acho natural fazer coisas normais, ainda que você seja rica e famosa. Isso não é ser especial, é ser lúcida, normal, equilibrada. Como muitas vezes acontece, a histeria fala mais sobre o histérico do que do objeto que a impulsionou. O brasileiro acha que poder não deve rimar com simplicidade, que quem tem dinheiro e fama nunca pode agir naturalmente. Não é só se ver nela (na condição de "pobre", hoje), mas reconhecer, ainda que inconscientemente, que, uma vez no lugar dela, não agiria do mesmo jeito que hoje. Ai, Brasil!...
Na moral, a única coisa que me choca em Ivete é ela ter tanta paciência com gente. Isso, sim, é impressionante para os dias atuais (risos).