Medrado costuma dizer que nada nem ninguém vale a nossa paz e que a gente não deve dar poder aos outros sobre nós. Ele costuma falar umas coisas que, pra quem está sofrendo, soam secas, mas quando você recobra a racionalidade constata que ele diz o que precisa ser dito. Aquele soquinho no ego básico, sabe? Outro dia, fez uma palestra muito boa falando de egoísmo, a propósito.
Essa é uma questão que me é muito cara porque foi forte na minha vida até muito pouco tempo. A dinâmica é sempre a mesma: por carência eu me apego a uma pessoa, me jogo na relação, trato a pessoa como importante, mas não recebo isso de volta, demoro anos achando que a errada sou eu e, quando vou embora muito decepcionada, ainda sou acusada de estar sendo egoísta ou punindo a pessoa. Ninguém é obrigado a gostar da gente, mas ninguém é obrigado também a ficar engolindo calado indiferença ou mesmo desvalorização enquanto dá amizade ao outro, porque, afinal, eu sempre achei que todo mundo precisa ficar satisfeito em qualquer relação, do trabalho à família. Engraçado é que quando eu apontava alguns comportamentos ruins em amizade, eu sempre era olhada como "a dramática", a "que faz tempestade em um copo d´água". Ontem, sentada num café com três amigos - um do Rio, outra de BH e outra de Belém -, as três pessoas têm a mesma opinião que eu sobre as amizades em Salvador, sobre como as pessoas são esquisitas. Uma delas narrou algo que eu já passei muito, sobretudo na adolescência: da pessoa estar com pessoas em comum com você e não te agregar, de você ter que ficar implorando pra se encontrar com as pessoas.
Sempre me doeu muito romper laços, até porque eu trago poucas pessoas pro meu lado e invisto nelas, mas recentemente eu passei a aceitar que faz parte da vida e que não dá pra trabalhar pelos dois. Ou é recíproco ou vá embora. Antes só do que mal amada. Isso corrói a autoestima. Sério. E é a gente que se coloca nesse lugar. Nisso o outro não tem culpa. Aceitar qualquer coisa às vezes é tudo que a pessoa consegue fazer, mas isso não quer dizer que não seja uma escolha, uma decisão. Por outro lado, tem gente que não sabe amar ninguém porque simplesmente não se ama. É furada insistir com essa turma. Puxe seu carro.
Eu fico agoniada vendo o casal de Soprano, Tom e Carmela. Ele é aquele típico marido provedor, que mal dá um beijo na esposa, que já a trai nas vistas de todo mundo e a vê apenas como reprodutora. Ela ama ele e aguenta tudo e aquilo vai dando uma agonia. É meio complicado se separar de um homem que mata pessoas como se mata barata, mas eu torço tanto por ela. A criatura, depois de tanto tempo sendo ignorada, tem zero autoestima. Ninguém merece. Não dê esse poder aos outros. Ninguém tá interessado (e nem tem como) em resolver a vida de ninguém: nem filho, nem marido, nem amigo, nem pai, nem mãe.






