Em tempos de coronavírus, aqui no Brasil temos que lidar com mais dois vírus: o Bolsovírus (político) e o egovírus (social).
Confesso que estou, excepcionalmente, em uma situação privilegiada em meio à pandemia. Estou empregada (não é mérito meu; foi sorte), mas independente disso, teria minhas economias (isso é mérito meu, que aprendi depois de tantas dificuldades laborais durante a vida). Eu sei que sem isso eu estaria dormindo mal, comendo mal, angustiada, mas nem que eu estivesse numa situação financeira complicada, eu preferiria a economia à vida. A morte é a única coisa para a qual não se tem remédio. A frase é chavão, mas desconheço verdade maior que essa.
E veja o que é a hipocrisia dessa classe média que fica dizendo que "sem economia não há vidas". 😕 Essa mesma turma que diz que tem que abrir o comércio (e isso implica no risco de vida para os funcionários e, consequentemente, para as famílias deles), é a mesma turma que não quer mandar seus filhos para a escola quando as aulas voltarem. O famoso pimenta no ** dos outros é refresco.
Eu não tenho condições nem de continuar me chateando com isso. Hace falta fuerzas. Péssima época para ser alfabetizada em português.
Vou cuidar da minha vida, que eu ganho mais. A alma mesquinha do brasileiro é uma prova cármica pesada demais para tempos de coronavírus.
Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
quinta-feira, 30 de abril de 2020
domingo, 26 de abril de 2020
O cinema afetivo de Campanella
Eu me identifico muito com o cinema argentino. Se a nossa televisão é superior a dos hermanos, o inverso acontece no cinema. E eu acho que, a despeito do que dizem do ego gigantesco dos nossos vizinhos, eles são mais simples. O mal do cinema brasileiro, a meu ver, são três: pretensão eterna de ser profundo e intelectualizado; roteiros que dificilmente são redondinhos; direção de atores que ainda falha muito. Tudo ao contrário do que vejo nos filmes argentinos. Sou fã confessa do cinema dos hermanos.
E eu amo o cinema afetivo de Juan José Campanella. Até porque eu amo cinema argentino. Até porque eu amo Ricardo Darín. Até porque Hollywood e o Oscar amam os dois, portanto não estou sendo nada original, né?
Em dez anos, ele produziu cinco filmes que falam de histórias banais (acho que a exceção é "O Segredo dos Seus Olhos"), mas com personagens bem construídos, próximos do público, e, por isso, são histórias que nos tocam, pois falam com elegância e humor de momentos possíveis na vida do espectador, pelo menos na maioria das vidas.
Acho que só não assisti "Las Comadrejas", que é recente. Mas os filmes dele fazem uma linha do tempo muito bacana. O primeiro, de 1999, é "O mesmo amor, a mesma chuva" (foto), que conta as idas e vindas de um casal, entre os anos 80 e 90. Nada de mais, mas uma graça de história. O final é muito fofo. Se você não se apaixonou aí, vai se apaixonar por "O filho da noiva" (foto), mais uma vez estrelado por Darín (que é o ator de Campanella, juntamente com Soledad Villamil e Eduardo Blanco), que é a história do casamento de um senhorzinho e de sua esposa de anos com alzheimer (Darín é o tal filho do título); o noivo quer realizar o sonho da noiva de casar na igreja, que no passado ela deixou passar em branco respeitando o fato dele não ser da mesma religião dela, ainda que ela, nos dias atuais, nem vá se dar conta de que estão realizando o sonho dela. Depois, em 2004, veio "Luna de Avellaneda", que é o menos legal de todos, mas bom de assistir; você se afeiçoa aos personagens. E por fim o consagrado "O Segredo dos Seus Olhos", que, além de trama policial, traz uma história de amor das boas com a mesma dupla de "O mesmo amor, a mesma chuva". O que todos esses filmes têm em comum? Bons personagens, tipos carismáticos. É isso: Campanella sabe criar "tipos", como se diz em espanhol!
Como bom canceriano, ele fala da importância dos afetos: da lealdade das amizades, da cumplicidade de casal, do amparo entre pais e filhos. Eu sempre achei que nada é mais político do que o próprio cotidiano. Se bem feito, não fica nada a dever aos "filmes de machos" que geralmente ganham as grandes premiações.
Fica a dica. :)
quarta-feira, 22 de abril de 2020
TTS
Faz dois meses que comecei uma formação em psicoterapia. Há muito tempo tinha vontade de experimentar esse caminho - desde a Facom -, e já que estou mesmo no limite com o jornalismo, resolvi me jogar. Fiz meu cálculo e decidi que, mesmo na pior das hipóteses, vou me melhorar.
Ainda estou no início da experiência, mas tive alguns aprendizados interessantes até agora.
O primeiro módulo foi uma grande introdução, em que se explicou o conceito de transpessoalidade. Foi interessante ter conhecimento de que as influências podem vir de várias zonas da vida da gente, inclusive dos antepassados. Também gostei muito de uma frase, que tô levando para a vida: a gente só reconhece o que conhece.
Tem gente que é ruim mesmo, mas a grande maioria não consegue compreender porque não conhece, então não vai conseguir reconhecer. Como um amigo meu, super bom coração, que foi distribuir uns pães comigo e se chocou com a violência das pessoas pra ter pão. Ele não reconhece o que é ter fome e viver na rua. Veja, pra pessoa crescer o olho por um pão, é porque a vida é pra lá de desgraçada. Isso serve pra outras coisas como racismo, diferença de gênero.
No segundo módulo, de PNL, foi interessante para aprender como acessar experiências não assimiladas e ressignificá-las. Também gostei da parte de linguagem corporal. Algumas coisas vou observar na vida, hehe.
O último módulo, agora, foi de iridologia. Nosso olho entrega a nossa vida. Impressionante.
Mas uma segunda ideia que eu aprendi lá e achei genial (e é muito simples) é: toda situação que te emociona revela uma ferida da criança interior. Só curando ela primeiro para o adulto poder assumir as rédeas da situação. Fez sentido. Isso explica tanta gente em relacionamento abusivo. O adulto não reage porque é a criança que está se relacionando.
Olha, ser humano é babado.
sexta-feira, 17 de abril de 2020
A saga humana
Acho que é por isso que eu gosto tanto de História e de ficção histórica e sonhava, quando criança, com a máquina do tempo. Me dá um aperto quando vejo/leio que mulheres eram propriedades de homens, que negros eram propriedades de branco, que pessoas sem muita noção de para onde iriam chegaram a um "novo mundo", que operários chegavam a trabalhar 14 horas e morriam antes dos 50, incluindo aí crianças.
E por isso me irrita muito que gente arrogante e mimada não consiga aquietar a raba no sofá de casa, gritando que estão ferindo o direito de ir e vir, mesmo com tudo disponível, enquanto pobres, quase sempre pretos, estão por aí arriscando a vida por uns trocados.
Péssima época para me reintegrar à saga humana, viu? Lucy (foto), tua raça não anda valendo o que come, moça.
domingo, 12 de abril de 2020
Babu e a fake news do "Querer, poder e conseguir"
Eu não assisto BBB, mas quando você frequenta o Twitter, impossível não saber o que rola por lá.
Há três personagens negros nessa fase final: Telma, a negra bem resolvida e bem sucedida; Flay, a que tem passabilidade e muita raiva no coração; e Babu, o ator cuja carreira foi desfavorecida pelo racismo e que passa muitas dificuldades materiais.
Detesto Flay porque, a parte de qualquer sofrimento que ela tenha passado, ela é gente ruim na essência, dá pra sentir isso. Torço por Telma. Tenho o pé atrás com Babu. Ps.: Ranço de Manu.
Por quê? Porque ele me remete a um fenômeno de pessoas negras, especialmente de homens negros, que querem compensar o racismo sofrido sustentando uma vida que eles não têm cacife para sustentar, cuja inconsequência impõe consequências às pessoas da família.
Babu reclama que os filhos chegam quase a passar fome. Algumas pessoas do público se aproveitam disso para questionar o fato de um dos filhos dele estudar em colégio de luxo (é bolsa integral, oras. quem não proporcionaria uma chance dessas aos filhos?). É aquela gente que acha que preto e pobre tem que ser humilhado o tempo todo. Todo mundo deve ter coisas boas, mas se puder. A minha bronca com Babu é ele não se adequar às possibilidades e querer forçar um sonho que compromete pessoas além dele, algumas delas menores de idade.
Eu não tenho dúvida que a aparência negra de Babu tirou muitas oportunidades dele. E nem o negro gostosinho ele é. Babu é gordo, o que já é "problema", independentemente da cor, e piora no caso de um homem negro. Mas acontece que certas carreiras são máquinas de moer gente de todos os tipos, especialmente aquelas de grupos já marginalizados. Uma coisa é você apostar num destino desse tendo respaldo da família ou sacrificando só a si. Quando você não tem nenhuma condição e ainda arrasta os outros, me desculpe, eu acho egoísmo. É esse egoísmo que me irrita em Babu. E por trás disso não está só a dor do racismo, mas a teimosia do macho que não sabe perder. Às vezes, na vida, a gente perde. Fazer o quê? Quem não tiver as suas frustrações que atire a primeira pedra. Esqueçam Xuxa: querer nem sempre é poder e muito menos certeza de conseguir. Ser uma pessoa boa ou esforçada não te livra de uma vida ruim e não te garante recompensa, só faz bem ao seu espírito mesmo.
Vou puxar aqui a minha própria história. Eu sou filha de uma família de classe média média (pai bancário e mãe dona de casa). Escolhi uma profissão elitista e que paga pouco, quando não impõe períodos de desemprego. Tirando uns dois ou três, meus colegas de curso são do meu padrão familiar pra cima. São pessoas que ganharam carro dos pais (eu não), alguns ganharam o apartamento da família (eu nunca), se estiverem desempregados, mamys leva pra NY (hahaha!), enfim, são pessoas que podem se sustentar nessa carreira instável à beça porque mesmo quando elas perdem profissionalmente, elas não perdem quase nada em padrão de vida. Há ainda aqueles que são casados com gente rica, que acabam também não perdendo quase nada mesmo estando desempregados, que vão dirigir um 4x4 mesmo quando estão sem emprego há um ano. Eu passei um tempão me iludindo que eu era como essas pessoas, porque meu pai é servidor aposentado. O pai de uma amiga minha da faculdade é bancário aposentado, a mãe dela é dona de casa, são pais de três filhas também e deram muito mais suporte a elas. Portanto meu pai poderia - e nossa vida teria tido muito mais possibilidades se ele tivesse feito isso -, mas meu pai não tem o mesmo zelo pelos filhos que os pais de meus amigos. Um dia, até, minha terapeuta esfregou isso na minha cara. Não adianta eu me pensar como um deles que eu não tenho o mesmo respaldo familiar deles. E digo: eu só pude me sustentar 20 anos nessa barca furada porque não tenho filho. Aliás, eu agradecia por isso o tempo todo em 2016, quando saí do jornal e depois da TV e começava a se desdobrar a crise econômica.
Dar comida e saúde a um incapaz, até onde minha compreensão vai, tem que vir na frente de qualquer sonho. A gente tem que sonhar, mas com os dois pés na realidade, se adequando ao que temos no momento, alternando fases da vida. É razoável pensar assim, não? Harrison Ford pensava assim, e só largou a carpintaria quando entrou no elenco de Star Wars. Uma moça branca padrão da minha época de Facom, mas de origem pobre, tentou a carreira de atriz em SP, viu que não ia rolar, e abraçou o jornalismo mesmo em sua terra natal. Wagner Moura foi repórter enquanto não emplacava carreira de ator - e olha que ele era um moço de classe média, não ia ficar sem eira e nem beira, sem teto e comida. Babu não. Eu entendo a frustração dele diante do racismo. Esses exemplos mesmo que eu dei, agora, provam também que praticamente só quem consegue chegar lá são os brancos. Mas Deus não oferece SAC. A gente tem que ajeitar as coisas aqui embaixo mesmo. Por que provar aos outros que pode é mais importante que o bem estar de si mesmo e dos filhos? Eu não consigo simpatizar com isso, eu não apoio quem joga pra conta dos outros as suas frustrações e teimosias pessoais. E, no caso de Babu, ainda me dá agonia a torcida, formada de gente que é acrítica a ele e o apoia tentando uma redenção dos sofrimentos causados pelo racismo através da vitória dele. Sou mais Telma, mas negro bem resolvido não dá ibope no Brasil.
EDIT: Conversei com um amigo sobre Babu, que repercutiu mal nas redes após declarar que o prêmio de R$ 150 mil serviria para pagar as dívidas e torrar. Meu amigo acha que não é só questão de se compensar, mas de ganhar humanidade, ainda que de uma forma que, no fundo, é falsa. Ambos concordamos nisso. Meu amigo também acha que é meio complicado, que tem que tomar cuidado com o discurso moralizante, do tipo "todos devem conseguir agir corretamente". Eu entendo e me preocupo de estar pesando a mão, mas, por outro lado, eu fico pensando se não tem um monte de gente se apegando às questões sociais para justificar um comportamento mimado, pra não precisar amadurecer. A gente não veio do nada, mas ninguém nasceu Gabriela, pô. Infelizmente, tem gente se escondendo por trás de questões sérias. Nisso também concordamos.
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