sábado, 9 de janeiro de 2021

Clint e a psicanálise

 


Clint Eastwood - Entrevista onde fala sobre sua experiência de análise com Bion.

"No início da década de 70 estava muito insatisfeito com minha performance no Cinema. Em 1969, eu havia trabalhado em um filme musical, chamado Paint Your Wagon. O filme deu grande prejuízo para o estúdio na época, e só lucrou após ser vendido em VHS e DVD. Muita gente me criticava e até diziam que eu deveria parar. Aquilo foi como um alerta para mim, estava muito triste achando que não conseguiria escapar dos filmes de violência com os quais as pessoas me identificavam. Eu era visto somente como uma espécie de bad boy, um machista, e outras coisas ruins.
Conversando sobre isso com minha amiga Jane Fonda, ela me confidenciou que pelas mesmas razões tinha iniciado um processo psicanalítico, e que sua vida parecia estar dando uma guinada. Perguntei-lhe quem era esse psicanalista, pois duvidava que aqui na Califórnia pudesse encontrar algum analista bom. Ela me disse que ele se chamava Wilfred Bion, que era um analista inglês, muito famoso no meio psicanalítico, recém-chegado em nossa terra.
Prontamente me interessei em marcar uma entrevista com ele.
Curiosamente, quando liguei para o número que Jane me havia dado, ele me atendeu e pediu para que escrevesse uma carta expondo os motivos pelos quais desejava fazer análise. Achei muito curioso e me ocorreu a estranha ideia de que ele poderia desejar analisar minha caligrafia. Escrevi a carta na máquina de escrever, com poucas linhas e motivos sucintos. Não demorou dois dias para que eu recebesse um telefonema marcando uma hora.
Cheguei pontualmente e fui recebido por um homem muito sério, que imaginei ter seus setenta anos, com a mesma altura minha (1,93 cm). Ele se vestia britanicamente com uma jaqueta bege claro, camisa branca, com gravata borboleta azul. Ele me apontou uma cadeira enquanto se sentava na sua poltrona com um divã de cor marrom claro ao seu lado direito. Olhei para ele e notei suas sobrancelhas grossas, que se elevaram como que me perguntando: o que diabos está fazendo aqui?
Achei adequado me identificar novamente. “Eu sou Clint Eastwood Jr. Sou ator, diretor e produtor de Hollywood”. Ele me respondeu com um tom que pareceu sarcástico: Onde mais alguém poderia ser tudo isso? Fiquei um momento em silêncio tentando decidir por onde seguir e ele cortou o silêncio me perguntando: E você já pensou em fazer alguma outra coisa na vida?
Confesso que aquela pergunta me deixou assustado e alegre ao mesmo tempo. Eu não havia mencionado esse motivo em minha carta. Respondi, “bem é por isso mesmo que estou aqui. Tenho pensado nos conflitos_ que não sei quais são_ e que me fazem levantar essa questão”. Mas não resisti diante do que me pareceu uma adivinhação e mencionei que me havia vindo à mente a imagem da inspeção que se faz nos aeroportos através de um detector de metais.
Ele disse subindo de novo as sobrancelhas; é muito importante para a análise que tivestes uma imagem. Ela tem a ver com liberdade e segurança. Eu vou deixar você passar por minha inspeção para fazer análise comigo, mas será que você vai deixar passar pela sua. Não podemos saber, somente a experiência nos dirá.
Seja lá o que ele tenha dito senti que naquele momento meu processo de análise havia começado. Estava diante de uma pessoa que eu sentia ser sensível e pensante, e para quem eu podia dizer o que quisesse.
Respondi, “Dr. Bion muito obrigado por me receber. Eu sempre achei que o cinema me conferia liberdade porque eu lido com imagens visuais, e música. Farei o que for preciso para ajudar o senhor a me analisar”.
Ele disse; continue então sendo sincero e dizendo tudo que vier a sua mente. Não se importe com minha sensibilidade ou outra característica minha. Vamos nos dedicar a nos encontrar com Clint Eastwood. Fez uma pausa e completou: Jr.
Eu prossegui muito impressionado, pois ele assinalou a sensibilidade dele, e que eu havia pensado havia instantes. Eu disse, “o senhor lê pensamentos? ... Caso leia pode saber que eu pensei que além de sensível, o senhor é um pensador”.
Veja bem, Mr. Clint... posso lhe chamar apenas de Clint? ... estamos ambos pensando e analisando um ao outro com liberdade. Existe um ponto entre nós que é impossível decidir a quem pertence. Esse ponto sobre o qual nada sabemos é onde se pode evoluir.
Fiquei em silêncio pensando; é isso... preciso suportar que não sei o que vou fazer para conseguir tomar as decisões certas em minha vida. Preciso tolerar esse encontro com minhas incertezas.
Mas o nosso horário havia terminado, ele disse isso apontando para o seu relógio. Como gosto de relógios identifiquei a marca de relógios inglesa Burberry. Olhei no meu relógio e tinham transcorrido 45 minutos. Ele pegou a agenda numa mesinha ao seu lado e me perguntou se eu poderia voltar na segunda-feira as 13:00 horas. Respondi que o horário era ótimo, mas saí de lá muito inquieto. Algum tempo depois ao comentar com ele sobre isso, escutei algo muito curioso; isso é uma tempestade emocional resultante do contato entre nós dois. Ocorre com qualquer pessoa que se permita expor sua personalidade, sua mente, sua alma, ou seja lá que nome dermos. Não há atividade que faça mais isso do que a psicanálise. Trata-se de um mau negócio que nos desafia a tirar proveito dele.
Foi um ponto absurdamente fundamental da minha análise. Tirar proveito dos maus negócios envolvia decisões nas quais eu tinha que incluir certas coisas e excluir outras para continuar criando.
Eu acabei me interessando por algum tempo pela política e assumi o cargo executivo de prefeito da cidade de Carmel. Minhas atividades foram se sofisticando ao longo dos anos, fui me aprimorando e assumindo o risco dos maus negócios, mas eles deram resultado. Descobri o que era a felicidade podendo encarar minhas tristezas. Descobri o que é ter sabedoria encarando a minha ignorância. Descobri a minha delicadeza encarando a minha violência.
Eu hoje posso resumir isso tudo numa conversa recente que tive com Toby Keith, meu amigo e compositor, com quem jogo golfe. Eu comentei que ia fazer 88 anos na semana seguinte, e ele me perguntou o que eu ia fazer? Respondi, vou começar a fazer um filme. Mas como você consegue isso ele retrucou como que me criticando por estar nessa idade realizando projetos desgastantes. Eu respondi: não deixo o velho entrar....
Parece que minha resposta gerou um desses tumultos que o Dr. Bion falava.
Toby compôs a música do meu filme A Mula.
Sinto muitas saudades do Dr. Bion.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Você está entregando o jogo?


Eu nem gosto de esportes, mas, por algum motivo que nem lembro, parei no documentário "The Playbook", da Netflix. Acho que fui para ver quem era esse tal de Mourinho, mas gostei mesmo foi do depoimento de Patrick Mouratoglou. Trata-se de um francês que treina as maiores estrelas do tênis, entre elas Serena Williams. 

A própria história de autossuperação de Mouratoglou já é por si interessante, mas o melhor da meia hora de conversa com esse técnico são os depoimentos sobre como superou problemas com os seus atletas. O cara aparentemente tem uma inteligência emocional de dar inveja a muito guru da autoajuda (e a origem disso está justamente na história de autossuperação dele, ocorrida na infância). 

A história que eu mais gosto é a de Irena, uma adolescente que era a grande promessa do tênis francês quando ele se tornou o treinador dela. A tenista, primeira do ranking, estava com a autoconfiança abalada após ter perdido algumas partidas e, a partir daí, quando ela via que as coisas não estavam indo bem no jogo, passou a entregá-lo. "Ela nem tentava", resumiu Mouratoglou.

Um dia, após ter visto Irena entregando o jogo de forma impressionante, o técnico resolveu entender a razão de alguém jogar a toalha depois de ter trabalhado tanto por aquele objetivo. "Racionalmente não faz sentido", disse. Foi então que, refletindo sobre o assunto, chegou à seguinte conclusão:

"A maioria dos tenistas que entrega é talentosa. Mas a maioria não confia em si mesmo. Não sabem se conseguem, têm dúvidas. Mas há uma coisa de que têm certeza: eles têm talento. E isso é muito bom. É como se lhe dissessem o dia todo: ´Você está bonito. É lindo.' É bom ouvir isso. E se tem uma coisa que eles não querem perder é isso. E o que acontece quando você é um tenista talentoso jogando contra um não tão talentoso assim e começa a perder? Será que você é tão talentoso assim? Não vai se arriscar, vai preferir desistir. Depois vai poder dizer: ´Foi porque eu entreguei´." E então Mouratoglou conclui: "É o medo de perder a única coisa que conta para você, o seu talento." Bingo!...

O técnico conta que foi tirar a limpo o que houve com Irena. Mas, ao invés de culpá-la, resolveu se responsabilizar pelo ocorrido (para espanto total da atleta). Disse estar com ela, ressaltou que ela não estava só. Ele afirma que, dali em diante, Irena nunca mais entregou uma partida. 

Eu não sei você, mas essa história me tocou muito. Entregar o jogo por medo de perder o pouco de autoestima que a gente tem é a coisa mais frequente na vida, ainda mais agora que vemos semi-deuses por todos os cantos da internet o tempo inteiro. E isso é muito comum de ocorrer com gente mais emotiva, como era o caso dessa tenista. Em muitas ocasiões, como essa, faz muita diferença que a pessoa não se perceba só. Aliás, há duas ocasiões extremamente propícias a que o ser humano faça besteira: estando completamente só ou no meio de muita gente, seguindo a manada. Quantas pessoas você conhece que por si não fazem muito, mas, em grupo, por causa de terceiros a pessoa cresce e vai à luta? Pois bem: não foi necessário ameaças, castigos ou algo do tipo, apenas um "Estou com você", e essa tenista nunca mais quis entregar o jogo porque ela não queria desapontar alguém que lhe deu tanta confiança e acolhimento (estrategicamente, mas, enfim, deu). 

De agora em diante, reflita sempre que você sentir que está perdendo a partida: de fato não está rolando ou estou entregando o jogo para defender o meu orgulho? Orai e vigiai a autossabotagem nossa de cada dia, irmãos! 

 


Encontrar a sua essência é como quase tudo na vida: uns já vêm com isso pronto, outros vão trabalhar e chegar lá e outros nunca vão se encontrar com ela. O mundo, a cultura nos encaminha para essa última opção com as suas dezenas de "Tem que...". Mas, como dizia mainha, você não é todo mundo e nem tudo lhe convém. Um dos pulos do gato nesta vida é justamente ficar atento para perceber o que realmente faz sentido (e afastar o medo, principal sabotador disso).
Lembro de uma colega de trabalho que tinha uma aparência toda moderna, alternativa. As pessoas elogiavam o cabelo, as roupas e eu também gostava das escolhas dela. O caso é que aquilo não colava com a personalidade dela. O visual era como ela queria ser vista, mas não transmitia a personalidade dela de jeito algum. Eu também já caí muito nesse conto do vigário - e olha que nem de longe sou alguém que poderia ser classificada de "Maria Vai Com as Outras". 
Por trás disso, acho, está querer ganhar o que tem o outro no qual você espelha. Às vezes isso funciona e você pratica o que a PNL chama de "modelagem". Mas haverá vezes em que você simplesmente vai estar perdendo tempo buscando algo que não é seu, percorrendo um caminho que não é o seu. Um sinal poderoso disso é nada ir muito para frente ou, mesmo indo para frente, haver uma constante sensação de deslocamento, de não pertencimento. 
Não vou dizer que não tem gente que consegue as coisas vivendo o personagem. Tem. Mas imagino que deve ser um negócio pesado, não desejaria isso nem a meu pior inimigo.
Acontece que às vezes seguir o seu caminho significa romper com grupos, alguns que nos são até muito caros. Bem, primeiro que isso pode ser feito respeitosamente. Segundo, sugiro a qualquer um que se agrade primeiramente, pois, obviamente, está no reflexo do espelho a única pessoa que vai ser sua companhia eterna. Além do mais, quem ama a gente entende.