Faz três dias que eu soube da morte dele e uma pergunta não me sai da cabeça: como deve ser morrer? Confesso que isso meio que me apavora.
Eduardo foi meu colega em A TARDE. Colega mesmo, só saímos em pauta uma ou duas vezes, nunca tivemos muito contato. De longe, simpatizava com ele. Morreu jovem, 46 anos. Há uns dois, fiquei sabendo da doença. "Normal", já que meio mundo hoje em dia está tendo que lidar com o câncer. Muita gente, graças a Deus, sobrevive. Há cerca de um ano, o vi, magro pra caramba. Confesso que fiquei chocada, mas achava que era apenas uma fase ruim do tratamento. Ele morreu na quinta-feira. O que terá sentido? Ele teve tempo para digerir a ideia de que iria morrer? Pra onde foi?
Eu ando pensando muito no passado e no futuro. No que eu preciso fazer pra garantir uma boa experiência, se valeu a pena o que eu vivi até agora, que condições eu preciso pra envelhecer.
Vou te contar, nada de mais me aconteceu em 36 anos de vida: sem abuso sexual, sem fome, sem doenças, alguns bons amigos, dá pra comer pizza e comprar um livro, tudo na medida do razoável. Mas as dificuldades que atravessei pra chegar aonde cheguei, principalmente as relacionais-emocionais, me desgastaram muito, muito mesmo. O corpo está ok, mas a alma tá cansadíssima. Eu desconfio que muita gente, na mesma altura da vida que eu, também está cansada, mas como só sei mesmo de mim, confesso que já tá tudo muito repetitivo e desgastante até. Eu tô cansada de viver, mas não sei se quero morrer. Será que me mudar de Salvador resolveria? Não sei o que poderia melhorar isso. E não sei se isso acontecerá. A seguir cenas dos próximos capítulos.
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