quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Tá vendo quando eu digo que é difícil?




Tenho vários colegas psicoterapeutas e psicólogos nas minhas redes sociais, por conta dos cursos que fiz. Alguns deles são pessoas bem inteligentes e tal, mas vira e mexe os vejo escorregando numa casca de banana: todo mundo fala de transformação como se fosse caso de jogar um pó de pirlimpimpim em si mesmo, mas ninguém fala de onde vem/ virá a força psíquica (por vezes hercúlea) que uma superação de vida exige. 

O caso é que a gente não é o que quer, é o que consegue ser. Freud mesmo, em O mal-estar na civilização, afirmou que há pessoas mais talhadas para viver neste mundo que outras. Essa superação do meio ambiente e das experiências ruins do início da vida não depende só da decisão do indivíduo (mas, sim, acredito que tomada esta decisão, algum nível de melhoria a pessoa vai alcançar ainda que não o almejado). A transformação, essa alquimia do chumbo em ouro, depende da personalidade, do nível de energia psíquica que a pessoa consegue mobilizar e também - e nenhum terapeuta ressalta isso - do meio ambiente. Uma pessoa que teve um início difícil, uma construção do eu problemática, se ela cresce e continua num ambiente tóxico e recebendo porta na cara, sem a estima e valorização dos outros, dificilmente vai ter a força psíquica necessária para virar o jogo. Há seres excepcionais, mas a sociedade nem de longe é feita deles. Precisamos pensar as soluções para as pessoas ordinárias mesmo. 
A vida é a arte dos encontros, e precisamos deles também para mobilizar tanto as transformações externas quanto também as internas. Essa história de que sozinho a gente faz e acontece é mentira pura. Assisti, ontem, o penúltimo episódio de A amiga genial e a trajetória de Lila é um exemplo disso. Ela era genial, linda e destemida, mas foi esmagada pelas circunstâncias da vida, uma atrás da outra - e não foi por falta de tentativas de se reinventar e sair adiante. Ela deu muito azar nos encontros que teve. Do primeiro, com um pai abusivo, ela nunca conseguiu se desvencilhar, tornando-se um pouco como ele. A trajetória de Lenu foi muito mais branda, ainda que ela não fosse uma força da natureza como Lila.  
Frases do tipo "Você pode mudar a sua vida", "A raiva faz a sua vibração energética ficar baixa", etc, são bem intencionadas e podem até funcionar para algumas pessoas, mas são facas de dois gumes que podem também levar mais culpa e majorar a sensação de incompetência pessoal do indivíduo, quando há sobretudo um problema social. É como dizer que pessoas positivas superam o câncer. Se não consigo "vencer" a doença, escutando isso fico duas vezes fodido, me culpando por não ter sido positivo o suficiente. Sacou a problemática?
Essas frases feitas só funcionam pra gente no cume do desespero e dispostas a acreditar em qualquer coisa, em se enganar. Eu bem sei disso porque já joguei umas frases assim e deu certo com gente desse perfil aí. Mas dá certo momentaneamente, uma hora a realidade bate de novo à porta. 
Tá vendo aí porque eu digo que ser terapeuta é uma das coisas mais difíceis? Porque não basta ser inteligente, tem que ser sensível e também pragmático. Tem que aprender a sair da experiência particular para pensar a vivência personalíssima do cliente. A pessoa pode saber como viver pra ela, mas será que ela consegue pegar as pistas e racionar a vida alheia, dentro das questões daquela pessoa? É difícil conseguir alguém assim. Tem que ter a inteligência dos livros (sim, é preciso muito estudo) e de alma - de preferência, não ter religião porque isso queira ou não produz pré-julgamentos morais. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Que Xou da Xuxa é esse?

Tenho pensado nos últimos dias que não tenho nada mais a fazer aqui. Sério mesmo, sem depressão, sem dor, é só constatação franca. Eu tenho essa sensação desde nova, nunca tive um gancho com a vida, com o mundo, algo pra querer estar aqui mesmo. Sempre achei tudo meio bleh, sem intensidade, superficial, falso e principalmente sem graça. Mas fui ficando por curiosidade, inventando umas coisas pra passar o tempo. Quem sabe, né? Mas nada mudou e tenho quase certeza que nem vai mudar. O caso é que penso que não tenho mais nada pra ver ou fazer aqui. Minha criatividade em inventar as coisas cessou. Eu estava me questionando esta semana qual era a diferença de ter ido há 20 anos. O que eu teria perdido de significativo? Talvez ter conhecido meus sobrinhos e as viagens que fiz, e olhe lá. Isso não justifica uma existência, o trabalho que dá viver. Vou escrever algo que pode chocar, mas é verdade: se morrer daqui a dois meses ou amanhã, não partiria triste, não. Acho que ia me sentir livre das obrigações que estar vivo impõe e que nunca cessam. Ia ficar na minha nuvenzinha, lendo as coisinhas, vendo uns filminhos, fazendo uns cursos pra desenvolver alguns talentos e assistindo as fofocas daqui de camarote. Ia ser legal poder descansar, enfim.

(Pior que não dá nem pra ter esse papo com alguém. As pessoas morrem de medo de admitir isso, de olhar pra própria miséria e encenação)