terça-feira, 24 de junho de 2025

Trauma de família

Eu odeio a minha, na moral. Fora o apoio financeiro do meu pai, que infelizmente precisei ao longo desses anos, esse povo, além de não me ajudar, ainda me atrapalha. E critica quando eu reclamo. Eu sou a ruim da história. Sério mesmo, foram tantos anos de sobrecarga emocional, que eu tomei ranço. Se houver uma situação em que eu precise cuidar dos meus pais, teremos problemas, porque não estou aguentando a mínima convivência mais. Foram anos confinada num quarto e sala com minha mãe, colada em mim, sem vida própria, que não saía de casa. Ela ainda sai de dedicada, quando na verdade virou uma parasita da minha vida. Ninguém gosta de parasita, ninguém suporta ser sugado energeticamente. Mas tive que aguentar porque é mãe (e eu gosto dela, mas não dá pra viver a vida nesta simbiose doentia). Minha mãe tem sido uma figura tão pesada que me tirou qualquer vontade de constituir família. Deus me livre ficar presa a alguém de novo. 

Se minha vida foi uma grande sucessão de abusos emocionais, a família foi o principal palco disso, infelizmente. Me choca como eles se enxergam como pessoas ótimas e não enxergam o quão tóxicos são em família. Eu tenho consciência dos meus, mas eu sou a ponta dessa corda, a última a chegar. Muita coisa já é resposta e autodefesa. Sabe aquela coisa do se der mole, monta em cima? Bem isso aí. 

Meu pai há quatro anos promete me ajudar a procurar a minha casa, mas toda vez, além de me submeter a esse confinamento que eu odeio, que me bota trancada em um quarto minúsculo, não faz nada. É desculpa pra tirar férias. Ele só fez isso uma vez. Ele tira meu sossego pra tirar férias. Só que ele não tem nada pra fazer o dia inteiro; já o meu dia só pára depois das 22h. Eu não tiro férias, mas minha irmã tira e marca pra meus pais chegarem bem no meio de um feriado em que eu poderia viajar (ela viajou, eu não). Acabou com as minhas férias, mais uma vez marcando essa porra dessa viagem sem falar nada comigo. Tive que cancelar. Mamãe querida mais uma vez queria impor a presença dela aqui, mesmo eu falando que não queria ela aqui. Quando eu consigo juntar um dinheiro pra me distrair, a irmã mais velha, mais uma vez, estraga as minhas férias. E eu sou a gente ruim da história. Passei a vida inteira sobrecarregada, nunca ajudada, muito menos emocionalmente, mas eles não hesitam em jogar um peso a mais, como se eu fosse um burro de carga, qualquer coisa, menos um ser humano.  

Qual é o problema deste povo comigo? Eu não faço nada pra essa gente, fico o mais no meu canto possível, mas além de não me ajudarem em nada, eles não estão nem aí pro caso de me atrapalhar. É inveja? É maldade pura? Eu não sei. Só sei que só terei paz quando estiver longe deles. Amém!

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Daniel Keller, a indiferença social, as más escolhas da vida e Vânia Abreu

Esta semana começou com uma notícia chocante, que até agora estou com dificuldade de assimilar: a morte do criminalista Daniel Keller, provavelmente por suicídio. Conheci ele há 16 anos, quando era um menino de 25 anos recém-formado, e trabalhamos na mesma empresa. A impressão que tive dele é de uma boa pessoa, mas mais imaturo do que queria aparentar, com muita vontade de fazer sucesso (e ser validado), mas com baixa autoestima, no fundo. Também não era muito fã de banho e de escovar os dentes, preciso dizer. Sempre teve namorada, nunca estava sozinho, mas sempre o mesmo tipo de mulher-troféu como Jéssica (Senra) e a última, uma advogada que ele noivou e com quem havia terminado há pouco, o que dizem ter sido o estopim pro suicídio (que é sempre multifatorial). Atuou em casos famosos enquanto criminalista, mas nunca pus muita fé na competência dele, não vou mentir. Penso que ele meteu os pés pelas mãos no caso dos irmãos mortos pela médica, por exemplo. Pra resumir, achava ele uma boa pessoa, meio meninão, nada brilhante, porém esforçado e ambicioso. Um ser humano como muitos por aí, mas talvez pra ele não fosse o bastante. (Por que não dizemos às pessoas que não precisam ser excepcionais para serem dignas de serem amadas?)

Keller foi ator amador na escola - assim me contou uma vez. Era muito teatral, performático, então acho que isso dificultou um pouco perceberem que estava mal. Mas mesmo assim, especialmente os mais íntimos, não viram nada? O dia 12, que mexe com quem tem problemas de relacionamento e rejeição, deveria ter sido previsto, já que havia terminado um noivado. Fico besta com essas negligências, mas também acho que Keller foi vítima das próprias ilusões. A gente vai atrás de umas escolhas, imaginando ser olhado e amado, mas no fundo não é algo que a gente queria ou não consegue se preencher com isso. Pior ainda quando essas "escolhas" nos levam a lugares que atiçam os nossos maiores gatilhos. Mulher troféu, assim como o homem trofeu, gosta de receber, de ser paparicada, mas não são boas companheiras. A homenagem de Senra foi muito bem escrita, bonita, mas como as pessoas se entregam nos discursos, ela quase falou dele como um fã qualificado. Esses amigos, será que eram amigos mesmo ou gostavam dele pelo que proporcionava? Se ele largasse a advocacia e escolhesse um caminho menos glamouroso, será que essas pessoas permaneceriam com ele? A família não devia enxergá-lo, tanto que Jessica insinuou que ele tinha questões de infância. E ninguém pensa que pessoas bem sucedidas podem estar quebradas por dentro. Típico. Ficou evidente que ele não tinha um lugar seguro para recorrer em meio a crise. Ele e a torcida do Flamengo, né? Perdemos nosso senso de comunidade.

Gente muito sensível deve evitar ambientes muito competitivos. Alguns são bastante: a advocacia, o jornalismo, as artes, a política. Acontece que é quase irresistível pra gente com pouco amor próprio ir pra esses lugares pra se provar pros outros e conseguir a migalhinha de atenção e de aplauso. Keller se deu bem, mas a que custo? A mesma coisa nos relacionamentos. Se você precisa fazer demais para que alguém olhe pra você, é sinal de que está com as pessoas erradas. Nunca pode ser unilateral e precisa fluir, não pode ser forçado. Neste caso, é melhor distribuir sopa na rua, pelo menos o reconhecimento vai ser mais sincero. 

Três coisas aprendi na vida, mas já tarde: desistir é ter força; rodar máscaras não é falsidade, mas uma necessidade; simpatia nem de longe é quase amor. 

Temos que ter muito cuidado com isso, com o se auto objetificar e também objetificar o outro, porque na sociedade de consumidores, é fácil escolher alguém pra dividir a vida com a mesma lógica que se escolhe tomate na feira. Mas relacionamento, qualquer um, é a junção de bom caráter e afinidades, pede lealdade e não pode ser pensado como um mero custo-benefício. Gente carente - que parece ter sido o caso dele - se dá muito, geralmente para pessoas erradas (egoístas), na esperança de serem reconhecidas e receber algo de volta, mas no final sai magoada e levando apenas algumas migalhas. Ele não se matou por causa desta noiva, mas provavelmente pela sensação acumulativa de nunca ter sido amado de fato. Isso dói. Pena que desta vez ele não conseguiu esperar a dor passar. 😞

No dia dos namorados, data em que Keller se matou, a cantora Vania Abreu participou de um programa de tv e fez uma colocação que achei muito pertinente sobre os amores de hoje. Nascida em 67, ela disse que a geração dela se jogou no amor, aceitando o que vem com ele: o tesão, as alegrias e os sofrimentos. E deu crédito às músicas da época, que imprimiam esta pedagogia, que ensinavam a viver o amor com integralidade. Para ela - e eu concordo - as pessoas hoje estão com medo e as músicas falam de revanche, e não há mais essa preparação para a arena afetiva. Minha geração é bem essa e as mais jovens não sei se estão mais preparadas. Difícil amar querendo só o "venha a nós". 

Esta idade dos 40 é foda. A própria ciência diz que é o ponto mais baixo da felicidade do ser humano. Muita gente se dá conta que não viveu uma vida que valeu a pena. E é nessas horas que a gente pode desequilibrar e cometer um ato extremo de vez. Em um mês, ele é o quarto caso de homem na faixa dos 40, bem sucedido, que se suicida. Isso significa alguma coisa, com certeza. 

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Como os nossos pais - no caso, a mãe

Hoje me veio a epifania de que minha dedicação aos estudos é uma reprodução da minha mãe. Não deixa de ser irônico porque a velha tem alergia a escola e livros. Mas assim como ela se dedicou ao trabalho gratuito por toda a vida a fim de ser validada - e a sociedade não valida ambos os trabalhos -, olha eu aqui estudando sem parar - de graça - com o mesmo objetivo. Eu gosto mesmo - e pra sempre - de aprender. Isso é meu, ponto. Mas já virou compulsão, e como toda compulsão quer dizer algo.