quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Soul

 


"Soul" é o lançamento da Disney/Pixar. Dessa vez, o estúdio resolveu mexer com as emoções do espectador discutindo questões como propósito de vida (Joe Gardner) e sentido da vida (22). (contém spoilers daqui por diante)


Joe é um músico de jazz que acredita que tudo na vida dele vai mudar quando ficar famoso. Mas ele morre antes da sua grande chance. Do outro lado da vida, no "grande além", ele conhece 22, uma alma que faz qualquer negócio para não viver na Terra, na sua interpretação um lugar horroroso. Algumas das grandes almas que no planeta viveram, inclusive, já tentaram fazer 22 mudar de ideia, mas sem sucesso. A alminha fujona alega que onde ela está já tem uma rotina, é tudo conhecido, e apesar dela nunca ter pisado na Terra, ela não quer nem tentar. 


Até que um dia, ela e Joe, que não aceita ter morrido, voltam à Terra por acidente. Nessa passagem pela vida de Joe, ao retornar para "o grande além", os dois estão com as suas expectativas positivamente quebradas: Joe aprende que o sucesso não o define e que mais do que "chegar lá", bacana era o caminho; 22 aprende que há sabores, sons, toques e sentimentos que só estando na Terra para experimentar - e apenas isso faz a vida por lá valer a pena. 


Na minha perspectiva, "Soul" é um filme sobre o poder da experiência e o valor das pequenas coisas da vida. Joe precisou "chegar lá" para ver que nada mudou, que não há momento mágico, mas que encantadora pode ser a vida. 22 só foi capaz de gostar da vida quando foi para a vida de fato. Não houve simulação, testemunho ou mentoria capaz de fazê-la sentir o que ela se maravilhou de viver na prática. 


Definitivamente não é um filme para crianças. Aliás, sou curiosa para saber como uma criança vê esse tipo de discussão suscitada pelo filme.




Pra que serve a culpa?

 


Depois do texto de ontem, fiquei pensando em como não cumprir as metas traçadas nos gera culpa e baixa a nossa autoestima. Por isso ressaltei que é importante estabelecer metas reais, ter paciência e aceitar quando não deu para fazer tudo, valorizando que o que foi feito também foi bom - é melhor fazer algo do que nada. Ou, no caso de desistência, aceitar que não foi possível cumprir com aquilo naquele momento. Às vezes a gente não está preparado para sustentar uma ação, mesmo sabendo que ela é necessária, e tudo bem. Fica para depois. Mais importante que a velocidade é a direção.

A gente vive numa sociedade que adora atribuir culpas. O problema da culpa é que ela não serve para nada e ainda acorrenta a pessoa ao passado, dificultando bastante o seu caminhar - que energia há em quem se consome de dor? É ilusão achar que voltando ao passado faria diferente. Seu eu de lá não é o de agora; é desleal essa comparação. Sua escolha seria a mesma porque era o que você sabia fazer naquela época. Fora que a culpa funciona como uma gangorra, com alguém por cima e outro alguém por baixo. Não é à toa que as pessoas tendem a lidar com isso de forma tão radical: ou se atribuindo culpa demais ou negando todas. 

Acredito que o melhor caminho é trocar a culpa pela responsabilidade. Nessa última, você é chamado a tomar o seu quinhão na história, mas aprendendo com o erro e sem perder a dignidade como acontece na culpa. 

Bert Hellinger, o organizador da Constelação Familiar, afirma uma coisa muito interessante sobre o adultério, caso clássico de vítimas e culpados. Ele observa que o desabafo/revelação do adúltero seguido de um pedido de perdão faz o traído se sentir abusado, porque ao fazer isso, quem traiu fica passivo esperando que o traído resolva a situação. Ou seja, aquele que nada tem a ver com a coisa recebe, de uma hora para a outra, a responsabilidade de que tudo fique bem. Hellinger diz: 

"Seria melhor se ele dissesse: ´Fui injusto com você. Eu arco com as consequências. Sinto muito pela dor que lhe causei". Por meio dessas afirmações ele fica equilibrado em si mesmo e pode agir imediatamente. E o companheiro é respeitado". 

Perfeito! O problema é que nós temos problemas com situações como essa justamente, suspeito, porque foram mal administradas lá atrás, na infância. É a nossa criança ferida que aparece nessas circunstâncias, tanto de um lado como de outro. Raramente é o adulto quem toma a frente. Mas isso é assunto para um outro post.   

PS.: texto número 1000 deste blog! 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A hora da virada


Tem pouco tempo que aprendi a viver no tripé objetivos-planos-prioridades. E que o bom muitas vezes é melhor que o ótimo. Em um ano como 2020, foi difícil viver de acordo com esse tripé, mas foi essencial exercitar esse lema. Estamos a poucas horas de 2021 e, apesar do tempo ser uma convenção, muita gente gosta de usar a mudança de calendário para refazer os planos. Eu já fiz os meus. Bem enxutos, de acordo com o que eu realmente acredito que sou capaz de tocar dadas as condições limitadas da pandemia. Sim, é preciso aceitar que esse período, por melhor que alguém o administre, vem produzindo prejuízos físicos e psicológicos e que precisamos nos ajustar a isso e, principalmente, nos acolher; não é hora de puxar a corda demais sob o risco de arrebenta-la.

Mudar não é fácil, e isso não é novidade para ninguém - quem já fez a tal lista de Ano Novo e depois checou o que foi feito sabe disso bem. Isso porque o cérebro não entende contextos, mas considera os resultados, e se ele entende que você chegou vivo fazendo o que você faz, ele vai tentar te sabotar na mudança de hábito ao melhor estilo "não se mexe em time que está ganhando".

A meu ver, o grande problema é que quando a gente consegue finalmente força para mudar, já está tão esgotado com a situação que quer se livrar dela quase que por decreto. E minha experiência, não só pessoal, mas observando amigos nesse movimento, me diz uma coisa: metas mais humildes e uma boa dose de paciência são recursos preciosos. Afinal, não foi da noite para o dia que a situação que você quer finalizar se estabeleceu, não é? Outro pulo do gato é pensar no agora, resolver o dia. Se você focar lá na frente, vai ficar ansioso e provavelmente desanimará. É preciso também respeitar os limites - o lance do bom ser melhor que o ótimo, lembra? Se só é possível, pelo motivo que for, poupar 50 reais por mês, isso já é melhor que nada.

E você, já fez o seu planejamento? Planejar faz a gente pensar mais claramente em como atingir os nossos objetivos. Mas lembre-se também que não tem coisa mais previsível que o imprevisto. É preciso ser flexível quanto às mudanças de rota. Está aí uma boa meta para 2021 e qualquer outro ano.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Viver é afinar o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro

É natural do ser humano achar que "o inferno são os outros". E há quem diga que é difícil se curar estando no mesmo ecossistema que te adoeceu. Mas gente adulta sabe que nem sempre querer é poder (não a curto prazo pelo menos) e, enquanto isso, o jeito é aprender a jogar o jogo. E quando não é possível mudar o que existe lá fora, o melhor a fazer é aperfeiçoar e ajustar o que está dentro. 

Lembro de uma colega que uma vez postou um texto chateada com uma criança, no ringue de patinação, que corrigiu a filha dela no modo de patinar, o que fez a garotinha se chatear e desistir. Eu argumentei com ela, no inbox, que talvez fosse mais eficiente trabalhar esse tipo de fato junto à filha do que culpar a outra garota. Gente assim aparecerá na vida dela o tempo todo, aparece na de todos nós.

Primeira coisa a ser considerada: nem sempre o outro é vilão. Às vezes a pessoa está apenas operando tomando ela mesma como parâmetro, ainda mais uma criança que não tem essa sofisticação toda. Aconteceu algo semelhante comigo e com minha irmã na infância. Ela sempre foi bastante competitiva e eu bem menos. Quando comecei a dançar na academia que ela dançava há anos, ela ficava no meu pé, me corrigindo pra eu fazer o movimento perfeitamente. Mas eu não queria estar na primeira fila como ela, eu só queria dançar. Ela me tirou por ela. Na cabeça dela, estava me fazendo um bem. As pessoas só reconhecem o que conhecem, o que está no repertório delas.  

A segunda coisa é que resolve mais aprender a lidar com os nossos sentimentos e mundo interno do que ficar chorando toda vez que as pessoas ferem as nossas expectativas. A intensidade desse incômodo vai variar conforme a nossa autoestima. Quem sabe o que é e o que quer dificilmente se abalará com as opiniões de terceiros a ponto de se desequilibrar, se descompor. Até porque é raro a pessoa estar realmente falando da gente num mundo em que ninguém presta sequer atenção em si mesmo, que dirá nos outros. Quase sempre são projeções. Em suma, se alguém fala algo de você e aquilo não bate com a sua verdade interna, problema dele/a, a projeção é dele/a; se aquilo te abala as estruturas, o problema é seu, é porque há alguma coisa desajustada aí dentro que a crítica da pessoa foi em cheio, e neste caso vale mais se ocupar disso do que da maledicência do/a outro/a. 

Autoconhecimento ajuda muito nesse sentido. Aprender a separar o que é seu do que é dos outros é o pulo do gato, o início do fim dessa espécie de sofrimento, que, claro, nunca vai ser zerado já que somos seres sociais, mas pode ser bastante minimizado, de modo que o protagonismo da sua vida seja seu. Parece pouco, mas esse é o passo fundamental na vida de um ser humano, na minha opinião: identificar quais são seus reais valores e desejos e separar isso da projeção que as pessoas fazem sobre ele/a. Como isso não é fácil nem rápido e frequentemente anda junto com tomar consciência de lados nossos que preferiríamos abafar, torna-se mais fácil jogar a culpa no que está fora do que se ver e se autorresponsabilizar. Eu concordo com a cantora (Leila Pinheiro): viver é afinar o instrumento DE DENTRO PRA FORA, de fora pra dentro.  

sábado, 12 de dezembro de 2020

Deve ser ruim ser um homem velho (no Brasil)

 


Essa é a história clássica em muitas famílias brasileiras: na falta de um companheiro (às vezes há até um homem de corpo presente, mas que emocionalmente ou energeticamente não está lá), uma mulher idosa retira a energia para manter-se viva de seus filhos e netos. Como não é um movimento natural, mas uma busca tentando compensar uma falta, dá merda, e por mais que a amem, os filhos se sentem sobrecarregados. 

Mas não vim falar disso. Vim falar da diferença com a qual geralmente homens e mulheres chegam à velhice. Elas chegam muito mais espertas que eles. E eu tenho uma hipótese para isso: ao envelhecer, as mulheres perdem muito menos do que os homens. De cara, velhice implica na perda de poder, físico e social, já que com ela vem a queda da potência sexual e a aposentadoria. Trabalho e sexo definem muito a identidade masculina. As mulheres se definem pelas relações pessoais. Como mesmo as mulheres que trabalham geralmente cultivam laços familiares, afetivos, elas têm esse apoio mesmo perdendo potência física.

Descobri isso com seu Jajá, o dono de uma das empresas em que eu trabalhei. Eu tinha 26 anos e estava com ele na biblioteca da empresa, e ele me confidenciou que envelhecer era ruim, que esse negócio de "melhor idade" é balela. Imagine o que foi para um homem que criou uma empresa que empregava mais de cem pessoas, de repente, ser deixado de lado e passar a ser tratado como café com leite. As pessoas fingiam que se importavam com a opinião dele, mas ele sentia que era carta fora do baralho. Para quem construiu a autoestima em cima do poder, deve doer e muito. 

Quando não perde a vitalidade, o homem velho perde a noção. E não digo nem de querer namorar, se divertir, etc, que isso é saudável em qualquer idade. Mas muitos regridem à época da vida em que foram mais felizes (e poderosos), se envolvendo com garotinhas nada a ver, na vã tentativa de se sentirem mais longe da morte. 

Além de todas as vantagens econômicas e sociais, deve ser bacana envelhecer em um país em que você é estimulado a se ver como gente e não como objeto de consumo que também vive a consumir o outro, com prazo de validade. No Brasil a gente descobre que é ser humano acima de tudo tarde demais (quando descobre). A favor desse país, só clima, pelo visto.  

A vez da minha vida

 



Terminei hoje esse livro aí, "A vez da minha vida", da irlandesa Cecelia Ahern. Ela é mais conhecida por aqui pelo livro que deu origem ao filme "P.S. Eu te amo". Comecei a leitura por indicação do meu terapeuta, que "intuitivamente" achou que a história poderia me render insights. Eu aceitei pra não fazer desfeita, já que ainda estou atolada de coisas que dependem de muita leitura, mas conheço esse tipo de literatura gringa e sei que são livros grossos porém facinhos de ler. E assim foi. Gostei viu? Vou explicar por quê.
Resumidamente, o livro conta a história de Lucy, uma mulher de 29 anos, de família rica, que tinha a "vida perfeita" até 3 anos atrás, mas um término fez a autoestima dela e tudo mais descer ladeira abaixo. Como nem ela mesma está segurando a onda da própria realidade e todo mundo ao redor dela parece estar indo magnificamente bem, ela, para não ter que ficar falando de si, começa a mentir. Mas Lucy mente tanto que nada na vida dela fica isento de mentira. Um dia, com um pé na depressão já, ela recebe correspondência da própria vida dela querendo uma reunião. Não preciso dizer que ela reluta em acreditar no convite, nega estar tão f**ida na vida e que Vida consegue, enfim, do auge da sua irritação (e perebas) causadas pelas últimas de Lucy, se encontrar com ela e, aos poucos, ir ajeitando a bagunça. 

[spoiler abaixo, para o caso de alguém ler isso...]

Entendi porque meu terapeuta me indicou essa história. Assim como eu, Lucy começou a história escondendo uma culpa muito grande por ter "fracassado" na vida adulta. Aos poucos, conforme o livro vai evoluindo, ela descobre que não fracassou, que na verdade não tinha a obrigação de se encaixar nas expectativas de ninguém - ela se sentia um fracasso especialmente aos olhos do pai, um intransigente de pai e mãe. Demorou um bom tempo até ela entender que ela não tinha culpa, que algumas coisas, como o fim do relacionamento com Blake, não dependiam dela e que ela não tinha motivo para se esconder e sentir vergonha de si. A culpa era tanta que ela não conseguia enxergar o afeto que as pessoas ao redor sentiam por ela. Basicamente a vida de Lucy só começou a andar quando ela aceitou o passado e começou a se ligar no presente, movimento que demorou boa parte do livro - até chegar essa parte, você fica cumplice de todos os chiliques de Vida com as bobagens que Lucy faz. 
Sobretudo, Lucy, que começou a história dando o perdido em Vida, terminou o livro 100% em aliança, amor e gratidão por ele. 
Ela havia se autoabandonado e, quando é assim, você começa a depender exclusivamente da opinião, do feedback dos outros sobre você. Qualquer vento menino, como canta Fábio Junior, leva pra outro lugar. A pessoa perde a noção de "quanto vale o show" e aceita qualquer esmola. Então, quando o namorado, que ela e todos julgavam perfeito, foi embora, levou junto todo o senso de autovalor dela. Esse ex, aliás, é a cópia do pai dela, uma prova de que o que você não resolve, encontra como destino. Interessante que ela só vai pra um outro tipo de relacionamento quando ela resolve isso do pai internamente.
Na verdade, como indica o título, a jornada de Lucy foi sobre isso: parar de viver para os outros e dar valor a própria vida, se encantar com Vida, ficar parceira dele. 
Há um trecho que é bem engraçado. Entre dois homens, Lucy tem que escolher entre um que quer saber dela, mas ignora completamente Vida e outro que é ignorado por ela, mas que adora Vida. Hummm, com quem será que Lucy deve ficar?
Não vou contar. Leiam. É literatura fast-food, mas vale a pena: Ahern escreve bem, a história é divertida, traz uma mensagem positiva, enfim, uma boa Sessão da Tarde.