Gosto que as mulheres comecem a se dar conta das perversidades do sistema. Mas outro lado meu fica irritado com essa onda de feminismo.
Vamos aos fatos: falam em feminismo as mulheres protegidas, brancas, da classe média. O discurso feminista é bastante classe média. A mulher marginal sempre teve uma vivência feminista, ainda que não tenha consciência disso; foi obrigada a ser autônoma porque ninguém nunca se interessou em protegê-la.
Apesar de classe média, eu sempre fui marginal. E antes de ter consciência disso, já odiava um monte de coisas de mulherzinha.
Odiava quando minha mãe fazia aqueles cachos bizarros no meu cabelo.
Odiava usar meia calça em festa de aniversário (apesar de adorar me ver de vestido). Eu rasgava a dita cuja assim que chegava na festa, mas, na próxima, lá vinha minha mãe com outra, novinha, geralmente branca (argh).
Na adolescência foi pior.
Eu odiava ir ao salão de beleza. Os tratamentos eram doloridos e as pessoas, racistas. Ouvia das mulheres da família: "Ah, mas mulher tem que se cuidar". E o homem? Eles podem ser naturais. Quem nunca desejou ter nascido homem só pra gozar desse privilégio...
Meu pai não estava nem aí, a gente que se virasse.
Enfim, tratamento de princesa passava longe de mim nessa fase.
Eu não vou me estender, mas, para resumir, como sempre fui diferente da norma - e com pouca disposição para me encaixar nela -, sempre tive que defender a minha liberdade.
Isso aí que as neo feministas dizem pras mulheres não deixarem os homens fazerem eu penso desde que me entendo por gente. Cresci entre mulheres violentadas, eu sei bem como isso funciona, e desde criança isso me indignava.
Essa coisa de meu corpo, minhas regras, eu tive que exercitar desde a adolescência, enquanto olhava outras colegas fora dos padrões, como eu, se mutilando para serem como as meninas "adequadas".
Já fui e já voltei nessa história. Já estou na terceira onda, por isso acho que, ao contrário das neo feministas, entendo os críticos do movimento, como Camille Paglia. A independência feminina não acontecerá por mera imitação das atitudes masculinas, numa competição de quem pode mais. Temos que nos descobrir e achar uma terceira via, que não é essa que nos impuseram historicamente e nem a dos homens (que também precisa de revisão urgente). Há características que são, sim, genuinamente femininas e precisamos nos orgulhar delas.
Há 35 anos sou a mulher que quero e posso. Aprendi a gostar de algumas coisas de mulherzinha e para outras nunca terei inclinação. Fato. Sou feminista na minha vida e sempre defendi esse meu direito de performar o meu gênero como eu sei, como eu quero. A única coisa desse universo que eu realmente não abro mão é de batom.