domingo, 31 de agosto de 2025

Edouard Louis

Acabei de ler a obra mais famosa de Édouard Louis, "Mudar: método". Gostei. Pra mim, o que ele faz não é bem literatura literatura. Falta um estilo, um trabalho mais fino de escrita. É mais um depoimento, como receber um longo e-mail de alguém. É uma crítica social e sob este ponto de vista vale a pena ler. Principalmente pelo fato de estar em primeira pessoa. Aquilo é real, embora cada narração de si tenha sempre um quê de ficção. 

Assim como o editor dele, eu não esperava ouvir essa história de uma família francesa. Mas a pobreza não é só sobre a falta de recursos materiais, mas fundamentalmente ela mata o espírito. As pessoas se dissociam, se ejetam do próprio corpo, da realidade. Édouard é resultado de uma família de ejetados de si mesmos. Comeu o pão que o diabo amassou para estar presente no mundo, mas pelo visto não conseguiu gostar dele. Ou de si. Tomara que um dia ele consiga desenergizar esse trauma. A pobreza, a privação não é neutra, muito menos feliz. Ela pode sim traumatizar. Assim como para o autor francês, ela é o meu maior medo. Dinheiro significa segurança e dignidade em vários aspectos da vida. Eu me identifiquei muito, aliás, com o pensamento dele, ao longo da vida, de que obter sucesso profissional o deixaria a salvo. Sempre tive o mesmo sentimento, mas ainda estou lutando para me salvar. 

Mas não é só o trauma da pobreza. É também o trauma da solidão, do não poder contar com ninguém. O dinheiro te protege de depender financeiramente dos outros pra sobreviver, de não ter o status de lixo humano. 

Lia o livro pensando que, astrologicamente, ele devia ser um sol de casa 8 como eu. Gente, o excesso de crises ao longo da vida é a cara do sol na casa 8. Bingo, ele é! Edouard também tem um aspecto que eu tenho e que quando vejo no mapa de alguém chega me arrepio: sol em aspecto tenso com saturno. Neste aspecto, a pessoa aprende, através do paí, que a vida não é fácil. Mesmo quando a relação com ele é boa, o filho cresce vendo esse pai se lascando. E essa falta de lastro paterno produz uma sensação de insuficiência, baixa autoestima e principalmente um carrasco interno que açoita a pessoa vida a fora. Pessoas com este aspecto querem o sucesso, mas não qualquer sucesso. Ela tem que estar convencida de que aquilo se justifica, o aplauso tem que ser interno também, senão não vale. 

Édouard se expõe de modo cru e o que mais gosto nele é a forma com que costura os lados das histórias. Ele parece não se poupar - embora, claro, não diga tudo, até porque ele ainda é jovem demais pra ter consciência de tudo -, mas ao mesmo tempo ele sabe se defender, no sentido de nos fazer sentir o lado dele na questão. Eu sinto que ele se esforçou pra ser sincero.

E algumas situações são complexas mesmo, como o fim da amizade dele com Elena. De um lado, a moça ficou com o ego ferido ao perceber que ele, que era socialmente tão aquém dela, já não se contentava mais em ser como ela, mas já almejava ser mais que ela. É aquela coisa da pessoa querer seu bem, mas não que você fique melhor que ela. É muito interessante este ponto porque, embora ele seja branco e francês, Edouard aqui esbarrou num critério que limita até pessoas como ele de pertencer à elite daquele país: a tradição. Ele não tem linhagem. 

Por outro lado, ele realmente soou rasteiro e falso quando na surdina se preparou pra ocupar a vaga dos sonhos dela, que ela não ousava tentar por achar tão difícil. Imagine você contar a alguém que entrar em tal vaga é seu sonho e de repente a pessoa, que nunca se manifestou sobre aquilo, aparecer ostentando a aprovação? Fica parecendo que a criatura sente inveja e quer provar que é mais que você. No livro ele explica, e é um argumento plausível, que ele tinha medo de dizer e ser ridicularizado, mas que pegou mal, pegou. Ele meio que assume que usou muita gente enquanto crescia na vida e entendemos que por trás disso está um pavor em regredir e voltar à pobreza. Acho que só o fato dele admitir isso já fala bem dele.

Responsabilizar-se é uma sofisticação da alma cada vez mais rara. E, no caso dele, é curioso: quanto mais ele foi subindo, parece que mais desenvolveu empatia pelas pessoas que surgiram neste caminho. Talvez porque tenha subido, de certo modo, às custas delas, refletindo e contando sobre elas.  

E por falar em Elena, adorei a resposta que Édouard deu à mãe dela, no livro, sobre a acusação de ter se beneficiado da família delas. Ele questiona se Elena também não se beneficiou do meio em que cresceu. Bingo! Óbvio. Essa gente cresce na vida se beneficiando do meio em que nasceu, dos contatos, dos acessos. Mas algumas pessoas estão autorizadas a se beneficiar e outras não. Enfim, igualdade, liberdade e fraternidade não é para todos, nem na pátria que lançou esse slogan.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Imagens e aventuras

Todos nós, a depender da sua identidade, tem suas imagens de perfeição e aventura. Uma mulher cresce acalentando a imagem da bela, sedutora e amada. A aventura é viver um grande amor. Os homens crescem com as imagens de virilidade, força e heroismo. A aventura é viver em perigo e se sobressair como o mais forte. Pessoas ricas crescem acalentando aventuras profissionais, de aquisição, de ascensão social. Com os meninos da favela, a aventura é a de se tornar o traficante, o criminoso temido ou o jogador famoso, e com isso vem todas as imagens de masculinidade já citadas aqui. Os meninos de classe média se aventuram em intercãmbios e na escalada profissional. Cada um segundo o que seu meio prega como o difícil disponível.  

Na verdade, é até esquisito que a gente se prenda nesta teia de aranha e ache que a vida é isso aí mesmo. Que o ser humano, a depender do grupo, aceite passivamente que aquela é a imagem dele, que aquele é o tipo de aventura que ele tem que buscar. 

Mas será que tem como destruir isso? Será que tem como ampliar os tipos de referências e desejos? Não sei. Alias, cada vez menos sei das coisas.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Flavio

Viajei com Erica, minha amiga de longuíssima data, e conversa vai, conversa vem, falando da família, ela me atualizou sobre Flavio. Nascido em setembro de 1981, ele é um herói da resistência. As sucessivas crises de epilepsia, numa época em que não havia muitos recursos, fez dele uma pessoa que vegeta em vida. Fiquei triste, inclusive, de saber que ele passou dez anos dopado. O pai abandonou ele, o irmão caçula maltrata, a mãe se ejetou do corpo e está exausta e minha amiga não dá conta dele. 

Ele foi a primeira pessoa com deficiência intelectual que convivi na vida. Na adolescência, achava que ele era mais feliz que a gente, por não ter consciência. Mas Erica me contou que ele tinha sim, e se revoltava com as limitações dele. Pois é, aprendi que não é porque alguém não consegue se expressar que não existe um mundo interior, uma consciência crítica. 

A história dele me assusta. Eu fico assombrada vendo como alguém que não tem poder fica vulnerável na nossa sociedade - e olha que vivemos a melhor versão do mundo, com direitos humanos supostamente assegurados. Podem fazer o que quiserem com alguém como Flávio, pois ele não tem como se defender disso. A família o trata como um incômodo. No fundo, devem torcer até pra morrer e acabar essa responsabilidade. Ninguém vai admitir isso, mas aposto que sentiriam um alívio depois da dor imediata. Afinal, ele não está mais aqui em espírito. 

Há um quê de egoísmo nisso, mas, por outro lado, não sou hipócrita e sei que na prática, a teoria é outra. A gente mal se aguenta, que dirá um outro tão demandante. Cansa mesmo e pra quem é cuidador, inclusive, chega a ser desumano. A mãe tem toda a razão de estar no limite, sem paciência. Eu estaria. 

Não existem instituições que ajudem as famílias de fato e há muito preconceito com a institucionalização. Mas somos humanos, tanto pra sentir limites e cansaços quanto para prestar assistência a um ser mais frágil. É complicado resolver esse tipo de situação, eu não sei o que dizer. Só sinto muito por Flávio, que merecia ter vivido a vida e não apenas vegetado. Todo mundo deveria ter o direito, ao menos, de tentar.