"Se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba."
Hermann Hesse
Ontem fui para mais um "O Terapeuta Responde" no teatro. Pelo visto, o programa de rádio babou, mas as falas de Jordan, pra mim, ontem, foram super úteis, como não haviam sido antes. Quem quiser saber o que ele disse, que me tocou tanto, que me pergunte; não vou contar. :P
Jordan tem um timing muito bom, um carisma indiscutível, mas uma coisa que me irrita - e todo mundo faz igual - é a mania de responder uma perguntar de fundo emocional com algo muito intelectual, racional. Se eu pergunto como esquecer o meu ex, mesmo sabendo que ele me sacaneou, eu não quero ouvir chavões do tipo "tenha amor próprio", porque isso eu já sei. Eu quero saber como trabalhar meu sentimento, ora.
Ele chamou as alunas do seu curso de formação de terapeutas para responder a algumas questões da plateia. Uma delas pedia orientação para lidar com a dor. Por coincidência, a aluna incumbida de responder isso estava lidando com uma dor profunda, proveniente da perda da mãe. Não conseguiu responder bem, disse aquele clichê de que "isso faz parte da vida". Sim, é metade da resposta. Todo mundo sofre, realmente, embora uma vida de Instagram e Facebook faça parecer que não (outro dia, olhando minha conta no Insta, senti inveja de mim mesma e amei meu ano!). Primeiro passo: dá pra fazer algo a respeito? Se sim, mãos à obra, ainda que devagar, porém posicionando-se naquela direção desejada. Se não houver o que fazer, é (chorar) aceitar e aprender. A morte é uma coisa mais complicada de lidar. É o máximo exercício da aceitação; é tentar enfiar na cabeça que tudo tem um início, meio e fim, inclusive a gente mesmo, e nada pode durar para sempre, só o que nunca foi vivo. De resto, é tentar se alegrar com as pequenas felicidades que a vida nos dá e tentar honrar o legado de quem se foi.
Às vezes é isso mesmo, é preciso se vergar para não quebrar, esperando que um dia as faltas diminuam de intensidade, te deixem respirar, viver melhor.
A perda de um emprego ou o término de uma relação amorosa às vezes demanda um mergulho mais profundo e sincero na própria alma. Tudo bem que a gente passa mais tempo no trabalho que em casa, a depender do job, e que namorar é "morar na...", mas se, passado o "tempo regulamentar", a gente não consegue superar, é porque essa perda ativou algum complexo. Tá vendo a frase lá em cima, do Hesse? Pois é, é hora de se perguntar como essa dor, como esse outro que a "provocou", faz parte da gente. O ex não te considera e mesmo assim você continua parada na dele? Será que vocês não estão unidos pelo ato comum de te desprezar e dar pouco valor? Será que o chefe autoritário te desperta ódio porque lembra, por exemplo, o seu pai? Enfim, o outro é uma oportunidade de revisão de como nos colocamos no mundo e de que assuntos precisamos cuidar para seguir bem.
Portanto, saber que precisa se amar pode ser altamente insuficiente para responder a quem sofre uma rejeição, uma perda. É preciso investigar a origem desse desamor, entender o que você vê na atitude do outro que tem a ver com o que você faz a si mesma, elaborar uma listinha das próprias qualidades e, então, se ver com uma lente mais realista, mais amorosa. A gente nunca vai saber o que se passa na cabeça dos outros, mas podemos ver o que anda circulando sorrateiramente na nossa... Enfim, acho que não se resolve um imbróglio desse por decreto, né, gente? "Vá pra casa e acorde se amando". Ah, para. Meu conselho seria: "Vá para casa e investigue suas crenças erradas e os traumas que as sustentam, quais situações precisava enfrentar, mas não enfrentou, te fazendo carregar uma caveira de burro vida afora".
Uma amiga minha não é linda de morrer, mas é bonita e muito articulada - simpática, inteligente, engraçada. Uma figura certamente apaixonante, eu diria. Pois bem, ela não consegue parar com homem nenhum, apesar de nunca estar sozinha. Aparentemente ela leva isso com bom humor, mas, claro, a pulga fica atrás da orelha. Um dia, em consulta com o guia espiritual, descobriu que ainda não havia superado o trauma da adolescência, quando foi trocada, pelo primeiro namoradinho, pela prima, a quem ela o apresentou em um São João na casa de um parente. Como se tratava de família e a sociedade manda a gente manter o orgulho nessas horas, ela não pôs pra fora. Resultado: isso ainda reverbera dentro dela e, somado a uma mãe que toma vários cornos do marido, fez ela acreditar que homem não é ser confiável. Ela está sempre na defensiva, esperando mais uma decepção. E não é que ela seja fria, até porque a personalidade dela não dá pano pra isso, mas, inconscientemente, se porta como se gostasse menos do rapaz do que realmente gosta, como se tanto fizesse pra ela estar com ele ou não. Resultado: todos eles acabam se picando, mesmo gostando muito dela, temendo levar um toco a qualquer hora (sabe como é: homem que é homem não arrisca, se antecipa, hehe).
Jordan diz que quando isso acontece, uma parte de você fica para trás, e é essa parte que precisa ser resgatada e curada, para a vida, naquela determinada área, voltar a andar. No caso específico das relações afetivas, ele aconselha que a gente trabalhe o ódio - pois isso liga as pessoas, tanto quanto o amor - e aceite que aquela pessoa difícil teve a função de ensinar algo importante para a gente. Eu concordo. É difícil chegar lá, mas é possível e necessário.
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