domingo, 31 de maio de 2020

"O começo é o fim e o fim é o começo"

Sim, ainda estou na vibe de "Dark" 😎. Mas hoje, vendo um filme francês, ouvi de um dos personagens (foto) uma coisa que sempre achei: o motivo que te faz tomar abuso de uma pessoa geralmente é o mesmo que te atraiu.


A pessoa que era muito racional com o tempo nos irrita pela falta de coração e espontaneidade; quem era "na dele", enche o saco pela indiferença; quem tem opiniões fortes começa a aborrecer pelo autoritarismo, e por aí vai. Mas por que a gente comete esse tipo de inconsistência de julgamento? No filme, o personagem, se sentindo rejeitado pela mulher, alega que assim ela nunca vai construir nada. Mas e se a base é falsa, tem como construir algo de fato? Só se for a casa fajuta do porquinho, pra Lobo Mau derrubar com um sopro. Casa bem construída, como nos ensina a história dos Três Porquinhos, o Lobo morre de falta de ar, mas não consegue derrubar. Não que a consistência nos salve do fim, até porque não ter fim não é selo de sucesso de uma experiência. A consistência nos salva da desilusão, da descoberta de que o que víamos nunca existiu.

Nesse filme mesmo, o cara era um extrovertido e, por detrás do charme dessa característica, havia manipulação e violência. E por que uma pessoa inteligente, como a protagonista do filme, muitas vezes se presta a não enxergar isso (sim, porque está ali, não ver é uma escolha)? Porque convém, porque somos carentes, porque andamos pelo mundo e nos relacionamos com o pires na mão. Porque não achamos graça em nós mesmos, na nossa vida e precisamos que o outro performe para botar um sal nisso. 

Hoje eu acho que um pouco de aventura não faz mal a ninguém, pelo contrário, mas é importante saber onde está se metendo. Esse, pra mim, é o pulo do gato. Na minha própria experiência, o que machuca não é o fim, mas a desilusão de descobrir que o que você adorava não existia, era invenção da tua carência, era projeção. 

Sabe aquela história de ir a uma festa ou ir ao mercado e fazer uma boquinha antes para não agir por desespero, e ou comer demais e passar vergonha na festa ou comprar bobagem no mercado? Pois é, a mesma coisa vale para os afetos. Quando a gente tá nutrido consigo mesmo, de barriga cheia com a própria vida, a chance de passar mal ou ter prejuízo é menor.    

Mas o filme também pontua algo interessante: ela se livra dele, mas demora dez anos até isso acontecer, entre idas e vindas. E ela é uma mulher com toda a condição de viver sem ele, tanto financeiramente quanto socialmente. É que certas decisões envolvem processos, mexem com sentimentos muito profundos e difíceis, que você não vai resolver por decreto. Aliás, é até capaz de dar mais merda se o corte vier fora do tempo, abruptamente. 

Perdidos na Noite



Nunca deu muito certo me deixar perdida, no ar. Velho, como repórter mesmo, sempre notei a diferença entre quando recebia uma pauta de verdade e entendia o que eu ia fazer e quando eu ficava perdida sem sequer saber o que queriam de mim e por onde começar a apuração. O nervosismo me bloqueia, me faz errar, ao contrário de quando eu estou segura e executo muito bem a tarefa. É uma diferença gritante, tanto quanto entre estar muito cansada e descansada e fazer algo. Tem gente que não perde a qualidade quando varia de contexto, eu perco e muito, e é por isso que eu fico puta quando me colocam nesse tipo de esparrela, porque eu sei que vai me custar muito energeticamente e não vai resultar. 
Querer não é exatamente poder. O ser humano tem seus limites. Todos podem conseguir algum resultado, mas dificilmente com a mesma qualidade e nunca do mesmo modo. Acho incrível esse desrespeito ao funcionamento das pessoas, porque isso interfere mesmo. Mas ninguém quer saber do outro, né, minha gente? Ainda estamos no arcaico modelo "manda quem pode, obedece quem tem juízo". 
Eu já consigo aceitar, me trabalhar quanto ao fato de que a vida é a arte do improviso, no sentido de que você vai fazer um plano e alguma circunstância vai aparecer te propondo algo diferente. Eu não consigo aceitar é ficar completamente sem direção e ser jogada para lá e para cá. Deus, na boa, não dá. Send me informações, please!

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Dark


Olha que menino bonito! É tão bom olhar para gente bem diagramada, simétrica, bem talhada, né?
É a única pessoa bonita da série, ele e a versão dele de 50 anos. O restante... Ufff! A beleza da Europa ficou no Mediterrâneo. O povo da Alemanha tem uma cara de século 19, uma aparência antiga e meio mal acabada: testão, cabelo lambido, narigão (agora vejo que Xuxa é bem Meneghel mesmo), sem boca, corpo grande e às vezes desengonçado.

Mas saindo das futilidades fúteis, vamos para as futilidades úteis, para a série, no caso "Dark", essa produção alemã da Netflix, que, putz!, é muito boa e deu um nó na minha cabeça.

Estou com preguiça de resumir a série, mas em linhas bem gerais fala de viagem no tempo, num período de um século, de pessoas de quatro famílias de uma cidadezinha tipo Chernobyl, criada em torno de uma usina nuclear, no interior da Alemanha. Além dessa ideia de viagem no tempo (de, na verdade, passado, presente e futuro acontecerem ao mesmo tempo), a série traz várias questões filosóficas, sobre Deus ser o mesmo que o tempo, de termos livre arbítrio ou não, etc. Dá para perceber que existe um lastro teórico, uma bibliografia, uma discussão na base da história, além da série reunir um elenco competente e uma direção de produção americana. No final da segunda temporada, até inseriram a questão do multiverso e mundos paralelos na pauta. Luxo!...

Amei que parte da história se passa nos anos 80. Só de ver as cenas, me dá saudade. Talvez seja por ter sido a década da minha infância, aliás, também a dos autores da história. Cara, por falar em anos 80, eu era exotérica desde pequenininha, viu? Naquela época, dizia que Atlântida tinha existido quando vi um filme que se passava lá e meu maior desejo era justamente a máquina do tempo; sempre fui apaixonada por História. Mas não sei se ia ser jogo, não. E nem sei para que certamente nos serviria essa experiência. Acho que seria tão ou mais complicado do que fazer regressão a vidas passadas (tvp).

Alguns avanços humanos são mais pirotecnia que qualquer outra coisa.


"Dark" tem vários personagens que não conseguem se desligar do passado e mesmo aqueles que sabem o que vai acontecer no futuro, bem, parece que essa informação não serve para muita coisa no sentido de dar um sentido maior a tudo que se viveu. Não diria nem que Adam, o aparentemente mais tranquilo, está em paz com o seu passado. Do contrário, por que estaria motivado a terminar com a humanidade?
Olhar as coisas na perspectiva do que aconteceu, da origem, da trajetória pode ser esclarecedor ou um caminho para a desilusão. O contexto da frase de Hannah (foto) é peculiar, mas nos lembra que realmente, por mais que a gente conviva com alguém, falta um pedaço desse quebra-cabeça, que é aquilo que não vivemos junto com essa pessoa, que não testemunhamos e, portanto, ignoramos. A gente gosta ou desgosta da ideia que temos das pessoas, daquilo nosso que projetamos nelas, inclusive, mas é equivocado achar que conhecemos alguém. Até a gente mesmo se surpreende com certas facetas nossas que surgem, de supetão. Aliás, essa é a pergunta de um milhão de dólares: quem é essa pessoa que nos habita? Ao final da segunda temporada, parece que os autores acham que é possível que várias versões de nós vivam em universos paralelos. Uma alma esfarelada pelo cosmo, já pensou? Parece interessante e, quem sabe, é possível. Não duvido nem um pouco. Eu também sempre tive fé na ficção científica. 

Acho que as ideias ou contam do passado que não lembramos ou do futuro que ainda ignoramos. Está tudo aí no inconsciente da humanidade, no inconsciente da coletividade.


Essa questão do livre arbítrio, levantada pelo Jonas de 2052 (foto), também vem de uma forma interessante na série. Por mais que os personagens viagem no tempo, as coisas tendem a sempre acontecer como sempre aconteceram, como se houvesse um fio do destino que comanda tudo. Dizem que sentir é mais importante que saber (eu estou entre esses que "dizem"), e o personagem se questiona em relação ao desejo e o poder dele sobre as ações humanas. Com um "inquilino" martelando o nosso juízo, quem realmente é livre? Você pode até domar a fera, mas não fica livre; sentimento não se arranca, no máximo se ressignifica. Adam tem até uma fala sobre isso, de que alguns acontecimentos mudam a gente para sempre e não tem como escapar disso. 



A outra questão do tempo tem a ver com a frustração (foto), daquilo que se sonhou e saiu dos trilhos por uma série de eventos que pareciam inofensivos, mas que tiveram, em conjunto, a capacidade de produzir grandes estragos. Vários, senão todos os personagens da série têm quilos de frustração, mesmo os do núcleo adolescente. Desejo e frustração são as molas dos ciclos temporais da série.

A última temporada de "Dark" vai ao ar dia 27 de junho de 2020, data cuja soma é 1, o número que significa tanto liderança quanto novos inícios. A terceira etapa... Olha a santíssima trindade aí, hehe. Não é exagero pensar num toque de religião nessa ficção científica. Os nomes dos personagens, aliás, saíram da Bíblia. Mas, enfim, vamos ver como essa história vai acabar. Tenho fé na precisão alemã (aquela testa toda não pode ser à toa). :P

Por enquanto, fiquem com a sabedoria do roteiro de Dark.




terça-feira, 26 de maio de 2020

A Estrangeira


O título desse texto poderia ser "desencontro". Concordo com Vinicius de Moraes quando falava que a vida é a arte dos encontros embora haja tantos desencontros. Nas minhas relações pessoais, meu sobrenome é desencontro. Por onde eu vou, por mais que eu tenha carinho pelas pessoas, a coisa não se encaixa, eu me sinto estrangeira. Já chego sabendo que daqui a pouco vou embora.
Mas tudo bem. Big girls don´t cry porque entendem que a vida é esse eterno pegar e deixar passageiros de estação em estação, que as pessoas têm data de validade na vida da gente, que elas têm inclusive o direito de irem embora e que isso pode ser total problema delas e não uma responsabilidade da gente. Quem já não fez de tudo para alguém ficar e a pessoa nem tchum? Pois é. Acho até que essa foi a minha parte nesses desencontros: não saber oferecer o que as pessoas queriam de mim, no caso em que elas queriam algo de mim. Oferecia o meu melhor e levava rasteira no final (sim, algumas pessoas foram ingratas, coração duro, mas isso é problema delas). Ofereci errado, baseado no que eu queria receber, e não rolou conexão. Sabe aquele marido que cuida de você pagando as contas, dando as coisas e achando que está fazendo a melhor das ofertas, mas que não te dá o que você mais precisa, que é um abraço, um carinho? A vida da gente é cheia desses desencontros, é disso que eu tô falando. É preciso saber viver, como canta Robertão. É preciso saber ler as pessoas. É preciso ter sobretudo autoestima para se retirar e se bastar depois disso.
É nisso que eu ando investindo ultimamente. Autoconhecimento, autoestima, autorrealização. Ando me perguntando muito onde eu me autorrealizo. Nem acho que sei muito sobre isso, mas vamos em busca até encontrar. 
Teclado e tela branca do blog, me ajuda a pensar. Vamos lá: acho que meu eixo é o conhecimento, é aprender. Eu acho que gosto tanto de ler, de curso e de viagem por causa disso, por causa do acesso ao diferente, ao diverso e ao humano. Eu quero uma vida de baixa pressão, conforto e aprendizado. É o que eu quero da vida. Eu ando direcionando a terapia para esse lado profissional, que é de onde virá as condições materiais para eu ter essa vida. Eu quero envelhecer com tranquilidade, pelo menos a material. Quero ser uma dessas velhas do Barra que ficam batendo papo com as colegas sem se importar com a conta do restaurante. Acho que meu caminho no médio prazo vai ser o concurso público e no longo prazo a terapia. Ou talvez o Direito. Sinceramente, não quero saber do caminho, só quero ficar bem, leve (mas não no nível Reginazista Duarte, pelo amor de Deus!).

domingo, 24 de maio de 2020

Glória Perez e a horda de super frustrados do bolsonarismo

Eu admito: gostava de Gloria Perez. Não pelas novelas, mas pela mulher mesmo. Não pela carreira, mas por ter continuado aparentemente bem depois de ter perdido dois de seus três filhos. Achava ela uma mulher da porra, quase sobrenatural, até vir o bolsonarismo arrastando algumas reputações com ele, entre elas a de Glória.
Acho que ela colou em Bolsonaro por acúmulo de frustração. Eu não vou entrar no mérito do que deve ser a dor de perder um filho, ainda mais um filho perfeito de saúde, jovem pra cacete (22 anos!) e que foi assassinado por alguém que era amigo. Eu achava ela (e quem sobrevive a isso) sobrenatural por levar a vida adiante de forma relativamente boa, produtiva, alegre. Mas ela sempre deixou transparecer a frustração dela com a impunidade da morte da filha, e daí, quando apareceu Bolsonaro falando em fazer e acontecer com bandido, ela abraçou, como se diz na Bahia, "di cum força" esse movimento bizarro. Claro que isso não justifica, mas creio que explica, até porque sei de outros pais de vítimas da violência que abominam Bolsonaro (como o pai daquela menina Liana). Mas eu reconheço um padrão no bolsonarismo: são pessoas muito frustradas, amargas até a raiz do cabelo. Nem sempre são pessoas ruins, algumas até são boas pessoas, mas sempre são pessoas frustradas pra caramba. A irmã de um amigo meu é um caso desse: gente boa, do tipo que te recebe super bem na casa dela, mas bolsonarista doente. Por quê? Porque ela é frustrada por não ser rica, por não ser casada, por não ter filho, por não ser valorizada. Ela é do tipo que no fundo acha que por ser branca deveria estar em uma posição melhor, desfrutando, não sendo vendedora de uma loja em que ela atende Xuxa, mas mal consegue pagar as contas básicas do mês, que dirá desfrutar a vida como ela quer.
Eu acho que Glória já teve preocupação social, mas deixou a frustração subir à cabeça, perdeu o juízo e virou puro rancor na velhice (ela é da idade de meus pais mais ou menos, já deve ter 70 anos).
E eu acho que a velhice, se a pessoa não trabalha certas questões que ficaram soltas ao longo da vida, deixa algumas pessoas amargas, envelhecendo mal realmente. A velhice vai amplificar o que você tem de bom e o que você tem de ruim. Você sabe quem viveu bem pela qualidade da fase idosa. Essa é uma fase em que você perde muita coisa: saúde, poder, trabalho, amigos e parentes. Se você não ressignifica certas perdas, a tendência é ficar um velho amargo, punitivista, preconceituoso, apegado a um passado idealizado. Esse é o meu palpite sobre Glória Perez e os 20% do núcleo duro do bolsonarismo que têm acima de 60 anos.

Amor à flor da pele


Depois de muito tempo, assisti "Amor à flor da pele". Muito tempo mesmo, 20 anos depois que entrou em cartaz. Filme bom, lírico. O final (lá vem spoiler) é que dá pano pra manga.
Os dois não terminam juntos e ficam farejando um ao outro no ar, mas sem tomar a atitude. Engraçado que dias antes, uns dois mais ou menos, uma ouvinte ligou para um programa de rádio que eu escuto falando que estava de caso com um ex com quem ela não pôde se envolver na juventude por causa do pai (o ex também estava casado). O apresentador foi na jugular: ela estava revivendo isso por frustração do que não pôde ser, não por amor (ela não fez nenhuma menção do tipo na fala dela, ela destacou, no lugar, a frustração do passado), até porque, anos depois, esse homem já é outra pessoa, acrescentou ele.
É isso aí.
Eu não duvido do amor de ninguém, embora algumas situações, como essa aí, são pura teimosia em resgatar o irresgatável. Mas cada vez mais, tendo a achar que (fora em contextos de catástrofes sociais) você não faz o que não quer. Ou até queria, mas não tanto assim. Às vezes o medo é maior. Em outras ocasiões a acomodação é maior. Enfim, tem de tudo. Deixe os mortos enterrarem os seus mortos, o passado morto ficar com as suas histórias mortas.
Vou dar um exemplo do que estou dizendo: "As pontes de Madison". Francesca não amava Robert mais do que amava ficar com a própria família ou, talvez, mais do que temia a culpa de abandonar eles. Não interessa, o fato é que Robert não era a prioridade. E como toda escolha, algo se perdeu. Ela teria perdido também se tivesse ido. Em suma, acho que a gente faz o que precisava e conseguia fazer. Deixem o passado no passado. Se for pra resgatar antigos contatos, que seja no agora e não continuando algo que já foi. É ilusão e das improdutivas.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

A criança como elo de ligação

Neste final de semana de novo apareceu o caso de uma mulher relacionando o ato de ter um filho a um objetivo de relacionamento/ligação. Ao contrário do caso anterior, em que a colega usou a gravidez para sair de uma relação abusiva, para se religar a própria vida, neste caso a pessoa preferiu não ter filho porque via que o relacionamento era abusivo, mas ficou magoada quando o ex se casou de novo e engravidou outra mulher, e ela sentiu como se não ter concretizado a paternidade com ela fosse uma recusa pessoal.
Isso não é raro. Há muitas mulheres que para ressuscitar uma relação falida, estreitar uma que não vai pra canto nenhum ou mesmo se religar à própria vida o fazem por meio de um filho, de uma gravidez. Foi o que imediatamente eu pensei quando li sobre a segunda gravidez de Ticiana Villas Boas com o dono da JBS. Ela havia descoberto pela mídia que o marido a enganava e a traía, se separou, mas, quando o ex marido saiu da cadeia, ela resolveu reatar o casamento. O que ela fez logo em seguida, imediatamente? Engravidou. É uma forma de justificar ficar com esse homem depois de tudo. "Não é qualquer homem, é o pai de meus dois filhos. Temos uma família." Eu mesma vim ao mundo assim, para que meus pais justificassem continuar o casamento, já que um bebê precisa de pais juntos; uma criança de quatro e outra de oito anos (minhas irmãs mais velhas) nem tanto assim.
E isso muitas vezes nem acontece deliberadamente, não. Só 4% das nossas decisões, do que sabemos é a nível consciente e somos basicamente comandados pelo inconsciente.
Eu não sou muito simpática a isso, não. O motivo é que geralmente você joga na criança a culpa pelo fracasso: "Ah, eu só fiquei nesse casamento por você", "Ah, eu aguentei esse emprego por você". Se for uma aposta parceira na religação com a vida, do tipo "Você me dá um novo início, uma alavanca pra eu voltar a gostar de viver e eu, com respeito a quem você é, vou te ajudar na sua caminhada", ok. Mas dificilmente alguém que pensa num filho como meio de ligação vai ter essa maturidade, essa sanidade psicoespiritual. Geralmente essa mulher vai estar ligada na energia do medo e não na do amor.
Minha oração para que as crianças que chegaram ao mundo assim consigam ajuda e discernimento.

Ah, sim, por meio da constelação a colega viu que essa ideia de ter filho com o ex não tinha nada a ver. Se limpou desse fantasma e agora vai poder ser feliz de um modo genuíno, sem usar o futuro filho como muleta para o que não cabe a ele consertar ou sequer sustentar.

sábado, 16 de maio de 2020

Precisamos falar de Bert Hellinger (ou não)



O próximo módulo do curso é sobre Constelação Familiar. Por causa disso, estou lendo o livro de Bert Hellinger, "A simetria oculta do amor".
Bert é um ex padre que viveu na África e pegou de tribos de lá e de outros lugares a base da Constelação. Ele não criou nada, sistematizou apenas. As três leis dessa prática são:

1) Necessidade de pertencer a um clã ou grupo. Quando alguém é excluído, essa lei é quebrada e alguém, posteriormente, no sistema vai assumir essa história;
2) Equilíbrio entre o dar e o receber. Por isso que, num casamento, se alguém dá demais provavelmente vai ser trocado por alguém "menor", mas com o/a qual se tem uma relação mais equilibrada;
3) A necessidade de hierarquia dentro de um grupo. Quem veio antes tem prioridade. Por isso, o casamento tem prioridade em cima dos filhos, que vieram depois. Quando isso não é posto assim, os filhos se enfraquecem.

A CF trabalha com a ideia de honrar pai e mãe, o que significa respeitar, entender e aceitar. Não precisa amar, mas entender que cada um faz o que pode e agradecer pela vida dada por essa dupla de pessoas. Pra mim pareceu até óbvio que a sua vida ande quando isso acontece: pra conseguir honrar, é preciso gostar da vida, gostando da vida, você vai conseguir pelo menos ser grata a quem te deu a vida. É mais ou menos viver segundo essa frase da foto acima.

Mas Hellinger diz umas coisas que são bem difíceis de digerir, como o incesto acontecer porque a criança abusada faz isso ao genitor traído por amor. Ele também rebaixa pessoas sem filhos e homossexuais por não reproduzirem.

Ele também fala umas coisas que dão pano pra manga. Por exemplo, se alguém é ferido na relação, convém que a parte ferida revide, mas sempre um pouco abaixo, para que se reequilibre o dar e o receber. Outra afirmação dele sobre relacionamentos, que eu achei bem interessante, é a de que o ciumento inconscientemente quer que o outro vá embora. Eu acho que faz sentido. 


***
Por Jordan Campos

Existem três situações nas relações familiares e sentimentais que devem ser entendidas, resolvidas e colocadas em seu devido lugar, quer você queira ou não. Muitas vezes encontro pessoas que se queixam de que suas vidas não andam, que as coisas "não acontecem", que se sentem como se fossem amaldiçoadas, e no fundo destes achismos todos, encontramos estas situações abaixo, como "fio elétrico" das queixas e infortúnios atuais. Vamos compreendê-las:

1.     Problemas de exclusão – Quando você, seu pai, mãe ou alguém muito próximo nos laços de sangue se sente excluído, expulso e é julgado assim, esta energia reverbera de maneira tóxica e "escolhe" o mais frágil do sistema familiar e "encosta" nele. A pessoa tem uma sensação de não pertencimento, de não aceitação e passa a atrair relações em que os seus parceiros terminam de uma hora para outra; relações em que são traídas de forma rítmica, abortos espontâneos, dificuldade em engravidar e tudo o que convém à "exclusão".

2.     Problemas de hierarquia – Pais existem antes dos filhos e netos depois. É necessário que cada qual esteja na frequência da sua função, mesmo que alguém tenha morrido ou não tenha conseguido fazer seu papel. Essa coisa moderna de "Pãe", mães que são pai e mãe ao mesmo tempo, acaba em problema para os dois lados. Você precisa ser apenas mãe de seus filhos ou apenas filho de seus pais; jamais tomar o lugar deles ou fazer funções que não os cabe. Aqui cabe aquele velho ditado: cada macaco no seu galho. Se falta alguém na família, deve-se deixar o espaço vazio. Hierarquias não são substituíveis.

3.     Problemas com dar e receber – Em toda a relação familiar deve existir um equilíbrio entre o dar e receber. Mulheres que dão demais, por exemplo, que se agigantam na relação, fazem seus parceiros homens procurarem outras mulheres "inferiores" em casos extraconjugais, para sentir que também podem dar o que não podem na outra relação. Isso vale para os super-homens e supermulheres. Causam no parceiro a sensação de impotência e pequenez, e isso acaba sempre com "traições". O equilíbrio é essencial para bons relacionamentos.

sábado, 2 de maio de 2020

As caixinhas e o que é opinião e o que é posicionamento

Há semanas na vida da gente que parecem episódio de seriado, apresentam a discussão de um tema. Tenho a ligeira impressão de que já comentei isso aqui, mas, enfim, nada vai ser inédito mesmo a essa altura da vida e do blog.
Na terça, um amigo me confessou que estava muito chateado com uma amiga que já não estava tão amiga com ele, e argumentou que continuava o mesmo, não sabia o que havia ocorrido entre eles. Nesses casos, na minha opinião, existem dois cenários: ou a pessoa mudou e aquele laço não faz sentido mais; ou é da geração "fada sensata". Explico: as pessoas hoje só toleram quem pensa exatamente dentro da sua cartilha. Conheço vários grupos de amigos em que um é a cópia do outro. Assim tá fácil, né? Você está elogiando você mesmo, se relacionando com você mesmo. Na verdade, nem com você mesmo, mas com a projeção do que gostaria de ser. Amar é achar graça até nos defeitos. Tinha, mas acabou. Não é mais a onda dos relacionamentos de hoje.
Eu, pessoalmente, já me encolhi muito para caber nas caixinhas idealizadas pelos outros, achando que correria o risco de perder aquele afeto (grande afeto!...). Hoje em dia, tô mais aqui pra isso, não. Prefiro meus estudos, meus filmes, meus cada vez mais raros amigos.
Posicionamento
Mas eis que o diabo atenta e hoje a discussão, com outras amigas, foi sobre o filho do cão, o chefe da familícia. Uma amiga que quer passar o pano pra outra amiga que votou em Bolsonaro fica naquele discurso de "não quero julgar". Velho, ela poderia ser diferente de mim em vários quesitos e isso não me importunaria, mas ser a favor da única candidatura que, explicitamente e descaradamente, feriu os direitos humanos não é questão de opinião. Ainda mais que ele não tinha projeto. Qual era o motivo senão identificação? Opinião é gostar de sorvete de coco ou de chocolate. Apertar 17 é posicionamento ideológico, banalização do mal, e, enfim, só o fato de não se chocar com o Inominável diz algo sobre a pessoa. Assim como os influenciadores que você segue, as pessoas de quem é amigo/a, e etc, suas escolhas entregam seus valores. É direito seu escolher, mas é minha prerrogativa ter uma opinião, porque as minhas escolhas, as escolhas dos outros, falam por nós, não são neutras.
Votar na Familícia não é opinião, não é erro, foi opção gerada por identificação. Fato.