Acabei de ler uma matéria muito boa, muito foda da Piauí. Aliás, no Brasil, na minha opinião, só essa revista arranca elogios. A gente tem o Intercept, o Nexo e a Pública, mas é diferente. A Piauí, além de ser um projeto brasileiro, de apurar muito bem as histórias, sabe contá-las, sabe apresentar um personagem.
Tá certo que nada se faz sozinho, portanto é leviano dizer que a revista é boa porque só tem repórteres geniais. Dá pra ver que existe uma certa estrutura e também trabalho de equipe ali. Coisa bem feita dificilmente sai de apenas duas mãos. Uma coisa que me ressinto, aliás, no jornalismo baiano é isso: a solidão na rotina produtiva e falta de orientação da reportagem, que se vira nos 30 diariamente. Bem, mas voltando à Piauí, é fato que ela conta com bons repórteres.
O caso é que esse tipo de gente corresponde a 5% da gama de jornalistas do mercado. Mas e aí? Vale a pena ser jornalista mesmo não pertencendo à nata? Sempre me perguntei isso, percebendo que uma boa parte da galera de assessoria meio que fica de olho comprido na redação, imaginando que deve ser melhor, mais emocionante. E é, mas é apenas a outra face de uma mesma cilada.
Sinceramente, depois de 17 anos nesse mercado, eu fico cada vez mais convicta de que sucesso depende mais de temperamento e relacionamento do que de talento. Qualquer carreira bem sucedida vai depender do nível de obsessão em construí-la e de ter os contatos certos. Só isso elimina uns 80% dos candidatos ao estrelato, para dizer o mínimo. As pessoas, sabiamente, privilegiam outras partes da vida que, muitos dizem por aí, é uma só. A parte do puxa saquismo e das amizades convenientes é mais fácil, tem muita gente com esse perfil por aí, infelizmente, e isso corresponde a pelo menos 15% dos que continuam no páreo rumo à glória.
Mas então por que tanta gente tenta e persiste, já que na primeira década - eu espero - a maioria saca que não vai ser o próximo Caco Barcellos, o próximo Bob Fernandes? Porque além da identificação, que eu não vou falar sobre isso aqui porque é uma coisa óbvia, existe a projeção.
Eu tiro por mim. Não me identifico com o Jornalismo, mas, pensando analiticamente, talvez tenha parado nisso por uma questão de projeção. O jornalista é atento, é rápido e é desinibido, três coisas que nunca fui. Mas gostaria de melhorar isso e acho que essa carreira me ajudou bastante, apesar de, claro, não ter feito milagres porque não se muda a essência. Mas eu só me toquei disso quando, encontrando pela primeira vez em 15 anos com um ex colega de faculdade, ele pontuou que eu estava muito mudada, que não se ouvia a minha voz na Facom e que agora estava mais falante.
Ou seja, nem tudo na vida vai servir para lhe dar confirmação das suas habilidades. Algumas coisas simplesmente vão ter a função de lhe tirar da sua zona de conforto e lhe desafiar.
Eu, de minha parte, se pudesse, teria umas cinco carreiras em uma vida só, mas isso dependeria de ter um vigor, uma estrutura financeira e um tempo que eu não tenho. Mas adoro aprender. Adoro, adoro, adoro. Sou curiosa. Essa é, talvez, a minha única identificação com o jornalismo.