terça-feira, 28 de julho de 2015

O drama de (não) pertencer

Arranjei problema pra mim. Mais precisamente há quatro horas atrás, quando, por acaso, passava na televisão "Divergente", filme inspirado no primeiro livro da trilogia da americana Veronica Roth - a miserável só tem 27 anos.
Já tinha ouvido falar do filme, mas deixei pra lá achando que se tratava de mais um "Jogos Vorazes", que eu vi e achei mó sem graça.
O que me pegou no filme foi o lado filosófico do seu argumento. Take a look:

Numa Chicago futurista, a sociedade se divide em cinco facções – Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição – e não pertencer a nenhuma facção é como ser invisível. Beatrice cresceu na Abnegação, mas o teste de aptidão por que passam todos os jovens aos 16 anos, numa grande cerimônia de iniciação que determina a que grupo querem se unir para passar o resto de suas vidas, revela que ela é, na verdade, uma divergente, não respondendo às simulações conforme o previsto.
A jovem deve então decidir entre ficar com sua família ou ser quem ela realmente é.
E acaba fazendo uma escolha que surpreende a todos, inclusive a ela mesma, e que terá desdobramentos sobre sua vida, seu coração e até mesmo sobre a sociedade supostamente ideal em que vive.

Eu fiquei refletindo, claro, sobre qual facção seria a minha. Definitivamente, não seria vizinha de Beatrice na Audácia, apesar de detestar certo tipo de covardia. Sabe como é, sou que nem aquela música do Belchior, quando morre um medo, vou buscar outro lá no Piauí. (Meu medo se chama bom senso e, por ser tão benéfico muitas vezes, tá difícil de abandonar o lado B disso.)
A Abnegação ficaria em quarto. Eu até sou boa em dar, mas também quero receber. A Erudição viria em terceiro - na verdade, estou confusa porque a Abnegação também poderia estar nessa posição. Gosto de aprender, mas geralmente muita cultura tem a ver com uma certa perversidade e egoísmo. E, no fundo, não acredito que isso faça alguém melhor do que os demais. Adoraria a Amizade e tenho aptidão para isso, mas um quê de agressividade em mim talvez me fizesse inadequada. Não estaria disposta a me anular em prol do grupo. Teria que checar o "ponto de corte" dessa turma. Acabaria, acho, me ajustando melhor à Franqueza.
O drama inicial de Beatrice é o drama de todos nós ao entramos na vida adulta: deixar coisas que amamos para trás em prol do cumprimento da nossa jornada. Ser diferente do nosso grupo de origem cria uma distância insuperável mesmo, que o amor não é suficiente para derrubar. Aliás, ao contrário do que cantam por aí, o amor não é suficiente para um monte de coisas na vida, ele sozinho.
Depois, existe ainda o problema de pertencer a dois mundos e não ser reconhecido por nenhum deles direito. De fato, o problema dela é mais profundo: como divergente, ela poderia estar em qualquer facção; não é naturalmente pertencente a nenhuma. Beatrice apenas escolheu a Audácia por ser o oposto do que vivenciou na Abnegação, acredito. É um drama bem contemporâneo o dela, e nisso a autora foi muito feliz. Num mundo globalizado, como o atual, transitar sobre diversas identidades é confuso e angustiante, sem dúvida. As pessoas têm medo de você quando não é possível te encaixar numa definição.
E, há, ao final de tudo isso, a pergunta para a qual não há resposta 100% satisfatória: Por que o mundo é tão problemático assim? Acho que a autora, provavelmente, concordaria que o problema é a falta de respeito pela diferença, por aquilo que, por conta da nossa própria natureza, não conseguiremos nunca apreender e aceitar, de fato, e, portanto, conviver. Frequentemente achamos que a dignidade está no nosso jeito de viver, apenas.
Mas o mundo divergente cansa muito, viu? Não me agradou a ideia de rivalidade entre as facções, mas penso que adoraria viver num distrito de gente com a mesma índole que a minha, onde o ladrão não pudesse me encontrar (risos).

Enfim, vou ter que ler essa série. Já vi tudo.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O sentimentalismo nosso de cada dia

Há umas duas semanas, o professor Albergaria faleceu. Tudo indica que foi suicídio. Uma amiga em comum ficou p. da vida com a versão do Correio da Bahia de que ele era depressivo. Amigos negam isso veementemente. Ele apenas quis dar fim a um sofrimento para o qual não via saída - embora a tivesse buscado bastante.
A morte é uma merda, mais para quem fica do que para quem vai, eu suspeito. Mas é perfeitamente compreensível que alguém que sofre e não vê sentido em levar uma vida indigna, dê fim ao seu sofrimento. Continuar só por continuar? É masoquismo. Mas, como disse uma amiga em comum, só gente muito inteligente entende esse tipo de decisão; o mundo, hipocritamente sentimental, não está preparado ainda.

Não se pode servir a Deus e a mamom

Não mesmo. Como dizem agora lá no Rio de Janeiro, dá ruim.
Hoje eu vi.
Por mais que, enfim, a vida tenha mesmo dessas coisas, não dá para ser íntimo de quem é íntimo de gente que você odeia (com razão).
É como ser bissexual. Nem os heteros, nem os homos vão dar credibilidade.
É como ser Leo Messi na seleção argentina.
É como ação de responsabilidade social feita por banco.
É como produto light: nem é bom de verdade, nem é "magrinho".

Pouco amor não é amor, como dizia o outro. Não, servir a dois opostos realmente não dá.

sábado, 18 de julho de 2015

PecaD´us

Latino, que já havia se convertido evangélico, está mais apegado à fé depois da escandalosa separação da esposa. 
É, estou começando a achar que Deus mora no pecado. Judas nunca amou tanto Jesus quanto após ter lhe entregado aos seus inimigos por algumas moedas.
Talvez seja uma ofensa a Deus fazer poucas transgressões. Vai ver, mesmo, que a natureza da alma é ser imoral.

Somos todas Angel?! Quem dera!...

Continuando na pegada no post anterior, eu volto a dizer que é muito ruim ter a visão das coisas do mundo. Não recomendo a ninguém. Tem que ter sangue de barata para suportar.
Ontem, recebi um jato de realidade no trabalho. Se pudesse, não atuava nunca mais nessa profissão, na iniciativa privada. Tomei pavor.
Eu tenho rusgas com a profissão desde a Facom, quando via coisas que não eram certas e ninguém dizia nada - aliás, ai de quem ousasse. É muito ego pra pouco taco. Tanto lá quanto no campo profissional, constato uma coisa: as mulheres são cobradas o dobro que os homens; eles não escutam metade do que dizem pra gente. E mais: vergonhosamente, mulheres em cargos de chefia são mais escrotas com outras mulheres. Deve ser porque até hoje nunca vi uma chefe segura de si. Todas morrem de medo de serem demitidas. E esperam que as subalternas tenham a mesma covardia.
Mas, ok, eu sou suspeita pra falar, vão dizer alguns. No entanto, eu não estou só. Hoje, conversando com uma amiga jornalista, uma das pessoas mais competentes e apaixonadas pela profissão que conheço, ela concordou comigo em gênero, número e grau. Aos 30 e tantos anos, tudo que ela quer, agora, é arranjar um marido rico. Ok, há brincadeira, humor, nessa afirmação dela, mas há muito cansaço. É a pessoa no limite, querendo que surja algo ou alguém que lhe resolva a vida. E não foi por falta de mérito, vale destacar.
Não tem igualdade não, gente. E nem tão cedo vai ter. Ando meio desesperada, desiludida, pois percebo que o mundo vai ser sempre essa porcaria, apenas com uma embalagem um pouco mais sofisticada, graças à Ciência e à Tecnologia.
Eu não sei, não. Meu problema é que fui criada para um mundo que não existe. Não tem mais emprego sério, que te dê estrutura, como na época de meu pai. Não existe mais compromisso entre homem e mulher, como na época de minha mãe. E, definitivamente, não existe ainda a igualdade entre os sexos que a nossa geração apostava que ia encontrar na vida adulta. E nem eu sei brincar de não humana, de que não é comigo, de que eu não tenho sentimentos. Não tenho esse "gene".
Enquanto as mulheres forem tratadas assim, nossa melhor saída vai ser a prostituição, formal ou informal. Mesmo em profissões com um mercado melhor, como a medicina, é difícil ser mulher (poucas estão na cirurgia, na neurologia, enfim, nas especialidades mais prestigiadas). Se negra, então...
Um amigo me contou, arrasado, o real motivo do fim do namoro dele: a ex preferiu o conforto que um cara, com idade de ser pai dela, poderia lhe dar. Ok, ela foi burra porque trocou um cara estruturado - embora com renda inferior ao coroa - e que era louco por ela, que a valorizava como pessoa, por alguns bens materiais. Mas, por outro lado, nem todo mundo tem fé suficiente para resistir por anos a fio.
Ela é qualificada, tem duas graduações, mas nada prestigiadas. E é uma mulher bonita, porém mestiça, dos traços caucasianos e pele escura. Em qualquer seleção, entre ela e uma branca bonita (e até com menos preparação), adivinha quem ganharia a vaga?
Ao mesmo tempo, ela não é estudiosa para conseguir, por exemplo, passar em um concurso público.
Meu amigo faria tudo pela ex, mas também não escolheu uma profissão de prestígio, que paga salários na casa dos cinco dígitos. Eles demorariam anos para chegar onde ela queria.
Dizem que, para ser mulher, você tem que se vestir bem, ter um cabelo arrumado, ser top, princesa. Só que isso custa caro, amigos. Essa persuasão somada a séculos de golpes na autoestima pode levar muitas mulheres ao caminho errado (pra entender um pouco mais o que eu digo, favor ler isso: http://mundoafro.atarde.uol.com.br/balaio-de-ideias-manifesto-por-uma-vida-afetiva-digna/). Eu ainda acho que ela foi burra, mas, de mulher para mulher, entendo o cansaço dela e o fato dela ter se vendido (e "admiro" o estômago dela, que até então não curtia coroa e tá encarando um cabra de 65 anos).
E vamos combinar: quem tá melhor, a gente ou Carla Perez? Estudamos, desenvolvemos o cérebro, pagamos cada coisa que consumimos e não saímos do beabá; sofremos pra ganhar o dinheiro dos alfinetes. Carla Perez usou o corpo até não poder mais e, além de uma bela conta bancária e apartamento, ainda descolou um marido que a valoriza e ainda leva pra passear em Londres.
Enfim, do jeito que a coisa ainda está, Angel - a lolita da novela das 23h - é que é sortuda! Minha sobrinha, Luluzinha, vai ganhar uma passagem é pra Mato Grosso, aos 15 anos, pra arrumar algum namoradinho filho de fazendeiro. Ser independente é pra mulher burra e masoquista - e tenho dito. Ô, se arrependimento matasse!... Queria voltar no tempo 15 anos. Viraria rata de academia, investiria é no corpo.

Não acorda, não, Adormecida Bela!

Se você não nasceu "Rainha Má", jogue suas mãos para os céus. E nem pense no beijo do príncipe. Evite! É cilada acordar, Bino.
Todo mundo conhece alguém que não acorda pra vida, que acha que tudo é cor de rosa. Deve ser massa ser assim. Agora só não pode acordar. Tem que orar para permanecer assim até o final da vida.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Brancahood

Eu quero ser branca. Vou parar de tomar sol. Vou clarear as madeixas. Farei, ainda, uma plástica para afinar o nariz.
E por um único motivo: pra ter o direito de ser escrota e apenas ser classificada, quando muito, como tolinha. Serei uma inofensiva, porque eu não acreditarei no meu próprio preconceito, no fundo, apesar de cuspi-lo sem cerimônia. Eu não saberei direito o que estou dizendo, entende? Falarei tudo da boca pra fora. Serei muito branca para ser má.
Dois pesos, duas medidas. Fato.
E isso me lembra um discurso ótimo de uma negra americana. Segue.


Em 1851, Sojourner Truth, ex-escrava que tornou-se oradora, fez seu famoso discurso intitulado “E eu não sou uma mulher?” na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio. Dentre alguns questionamentos, ela diz: “Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas quando atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem - quando tinha o que comer - e também agüentei as chicotadas! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher?”

O filme repetido

A humanidade nunca vai mudar. A não ser que algum cientista consiga eliminar do DNA humano a ânsia por privilégios. Mudam-se as eras, mudam-se os motivos, mas é isso que continua a promover a guerra. Ver o outro como igual, além de exigir o esforço da empatia, traz a frustração da perda do privilégio de ser "melhor". O ego humano, quase nunca equilibrado, precisa disso pra se manter de pé. Igualdade, penso, é tarefa para a ciência.