quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Soul

 


"Soul" é o lançamento da Disney/Pixar. Dessa vez, o estúdio resolveu mexer com as emoções do espectador discutindo questões como propósito de vida (Joe Gardner) e sentido da vida (22). (contém spoilers daqui por diante)


Joe é um músico de jazz que acredita que tudo na vida dele vai mudar quando ficar famoso. Mas ele morre antes da sua grande chance. Do outro lado da vida, no "grande além", ele conhece 22, uma alma que faz qualquer negócio para não viver na Terra, na sua interpretação um lugar horroroso. Algumas das grandes almas que no planeta viveram, inclusive, já tentaram fazer 22 mudar de ideia, mas sem sucesso. A alminha fujona alega que onde ela está já tem uma rotina, é tudo conhecido, e apesar dela nunca ter pisado na Terra, ela não quer nem tentar. 


Até que um dia, ela e Joe, que não aceita ter morrido, voltam à Terra por acidente. Nessa passagem pela vida de Joe, ao retornar para "o grande além", os dois estão com as suas expectativas positivamente quebradas: Joe aprende que o sucesso não o define e que mais do que "chegar lá", bacana era o caminho; 22 aprende que há sabores, sons, toques e sentimentos que só estando na Terra para experimentar - e apenas isso faz a vida por lá valer a pena. 


Na minha perspectiva, "Soul" é um filme sobre o poder da experiência e o valor das pequenas coisas da vida. Joe precisou "chegar lá" para ver que nada mudou, que não há momento mágico, mas que encantadora pode ser a vida. 22 só foi capaz de gostar da vida quando foi para a vida de fato. Não houve simulação, testemunho ou mentoria capaz de fazê-la sentir o que ela se maravilhou de viver na prática. 


Definitivamente não é um filme para crianças. Aliás, sou curiosa para saber como uma criança vê esse tipo de discussão suscitada pelo filme.




Pra que serve a culpa?

 


Depois do texto de ontem, fiquei pensando em como não cumprir as metas traçadas nos gera culpa e baixa a nossa autoestima. Por isso ressaltei que é importante estabelecer metas reais, ter paciência e aceitar quando não deu para fazer tudo, valorizando que o que foi feito também foi bom - é melhor fazer algo do que nada. Ou, no caso de desistência, aceitar que não foi possível cumprir com aquilo naquele momento. Às vezes a gente não está preparado para sustentar uma ação, mesmo sabendo que ela é necessária, e tudo bem. Fica para depois. Mais importante que a velocidade é a direção.

A gente vive numa sociedade que adora atribuir culpas. O problema da culpa é que ela não serve para nada e ainda acorrenta a pessoa ao passado, dificultando bastante o seu caminhar - que energia há em quem se consome de dor? É ilusão achar que voltando ao passado faria diferente. Seu eu de lá não é o de agora; é desleal essa comparação. Sua escolha seria a mesma porque era o que você sabia fazer naquela época. Fora que a culpa funciona como uma gangorra, com alguém por cima e outro alguém por baixo. Não é à toa que as pessoas tendem a lidar com isso de forma tão radical: ou se atribuindo culpa demais ou negando todas. 

Acredito que o melhor caminho é trocar a culpa pela responsabilidade. Nessa última, você é chamado a tomar o seu quinhão na história, mas aprendendo com o erro e sem perder a dignidade como acontece na culpa. 

Bert Hellinger, o organizador da Constelação Familiar, afirma uma coisa muito interessante sobre o adultério, caso clássico de vítimas e culpados. Ele observa que o desabafo/revelação do adúltero seguido de um pedido de perdão faz o traído se sentir abusado, porque ao fazer isso, quem traiu fica passivo esperando que o traído resolva a situação. Ou seja, aquele que nada tem a ver com a coisa recebe, de uma hora para a outra, a responsabilidade de que tudo fique bem. Hellinger diz: 

"Seria melhor se ele dissesse: ´Fui injusto com você. Eu arco com as consequências. Sinto muito pela dor que lhe causei". Por meio dessas afirmações ele fica equilibrado em si mesmo e pode agir imediatamente. E o companheiro é respeitado". 

Perfeito! O problema é que nós temos problemas com situações como essa justamente, suspeito, porque foram mal administradas lá atrás, na infância. É a nossa criança ferida que aparece nessas circunstâncias, tanto de um lado como de outro. Raramente é o adulto quem toma a frente. Mas isso é assunto para um outro post.   

PS.: texto número 1000 deste blog! 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A hora da virada


Tem pouco tempo que aprendi a viver no tripé objetivos-planos-prioridades. E que o bom muitas vezes é melhor que o ótimo. Em um ano como 2020, foi difícil viver de acordo com esse tripé, mas foi essencial exercitar esse lema. Estamos a poucas horas de 2021 e, apesar do tempo ser uma convenção, muita gente gosta de usar a mudança de calendário para refazer os planos. Eu já fiz os meus. Bem enxutos, de acordo com o que eu realmente acredito que sou capaz de tocar dadas as condições limitadas da pandemia. Sim, é preciso aceitar que esse período, por melhor que alguém o administre, vem produzindo prejuízos físicos e psicológicos e que precisamos nos ajustar a isso e, principalmente, nos acolher; não é hora de puxar a corda demais sob o risco de arrebenta-la.

Mudar não é fácil, e isso não é novidade para ninguém - quem já fez a tal lista de Ano Novo e depois checou o que foi feito sabe disso bem. Isso porque o cérebro não entende contextos, mas considera os resultados, e se ele entende que você chegou vivo fazendo o que você faz, ele vai tentar te sabotar na mudança de hábito ao melhor estilo "não se mexe em time que está ganhando".

A meu ver, o grande problema é que quando a gente consegue finalmente força para mudar, já está tão esgotado com a situação que quer se livrar dela quase que por decreto. E minha experiência, não só pessoal, mas observando amigos nesse movimento, me diz uma coisa: metas mais humildes e uma boa dose de paciência são recursos preciosos. Afinal, não foi da noite para o dia que a situação que você quer finalizar se estabeleceu, não é? Outro pulo do gato é pensar no agora, resolver o dia. Se você focar lá na frente, vai ficar ansioso e provavelmente desanimará. É preciso também respeitar os limites - o lance do bom ser melhor que o ótimo, lembra? Se só é possível, pelo motivo que for, poupar 50 reais por mês, isso já é melhor que nada.

E você, já fez o seu planejamento? Planejar faz a gente pensar mais claramente em como atingir os nossos objetivos. Mas lembre-se também que não tem coisa mais previsível que o imprevisto. É preciso ser flexível quanto às mudanças de rota. Está aí uma boa meta para 2021 e qualquer outro ano.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Viver é afinar o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro

É natural do ser humano achar que "o inferno são os outros". E há quem diga que é difícil se curar estando no mesmo ecossistema que te adoeceu. Mas gente adulta sabe que nem sempre querer é poder (não a curto prazo pelo menos) e, enquanto isso, o jeito é aprender a jogar o jogo. E quando não é possível mudar o que existe lá fora, o melhor a fazer é aperfeiçoar e ajustar o que está dentro. 

Lembro de uma colega que uma vez postou um texto chateada com uma criança, no ringue de patinação, que corrigiu a filha dela no modo de patinar, o que fez a garotinha se chatear e desistir. Eu argumentei com ela, no inbox, que talvez fosse mais eficiente trabalhar esse tipo de fato junto à filha do que culpar a outra garota. Gente assim aparecerá na vida dela o tempo todo, aparece na de todos nós.

Primeira coisa a ser considerada: nem sempre o outro é vilão. Às vezes a pessoa está apenas operando tomando ela mesma como parâmetro, ainda mais uma criança que não tem essa sofisticação toda. Aconteceu algo semelhante comigo e com minha irmã na infância. Ela sempre foi bastante competitiva e eu bem menos. Quando comecei a dançar na academia que ela dançava há anos, ela ficava no meu pé, me corrigindo pra eu fazer o movimento perfeitamente. Mas eu não queria estar na primeira fila como ela, eu só queria dançar. Ela me tirou por ela. Na cabeça dela, estava me fazendo um bem. As pessoas só reconhecem o que conhecem, o que está no repertório delas.  

A segunda coisa é que resolve mais aprender a lidar com os nossos sentimentos e mundo interno do que ficar chorando toda vez que as pessoas ferem as nossas expectativas. A intensidade desse incômodo vai variar conforme a nossa autoestima. Quem sabe o que é e o que quer dificilmente se abalará com as opiniões de terceiros a ponto de se desequilibrar, se descompor. Até porque é raro a pessoa estar realmente falando da gente num mundo em que ninguém presta sequer atenção em si mesmo, que dirá nos outros. Quase sempre são projeções. Em suma, se alguém fala algo de você e aquilo não bate com a sua verdade interna, problema dele/a, a projeção é dele/a; se aquilo te abala as estruturas, o problema é seu, é porque há alguma coisa desajustada aí dentro que a crítica da pessoa foi em cheio, e neste caso vale mais se ocupar disso do que da maledicência do/a outro/a. 

Autoconhecimento ajuda muito nesse sentido. Aprender a separar o que é seu do que é dos outros é o pulo do gato, o início do fim dessa espécie de sofrimento, que, claro, nunca vai ser zerado já que somos seres sociais, mas pode ser bastante minimizado, de modo que o protagonismo da sua vida seja seu. Parece pouco, mas esse é o passo fundamental na vida de um ser humano, na minha opinião: identificar quais são seus reais valores e desejos e separar isso da projeção que as pessoas fazem sobre ele/a. Como isso não é fácil nem rápido e frequentemente anda junto com tomar consciência de lados nossos que preferiríamos abafar, torna-se mais fácil jogar a culpa no que está fora do que se ver e se autorresponsabilizar. Eu concordo com a cantora (Leila Pinheiro): viver é afinar o instrumento DE DENTRO PRA FORA, de fora pra dentro.  

sábado, 12 de dezembro de 2020

Deve ser ruim ser um homem velho (no Brasil)

 


Essa é a história clássica em muitas famílias brasileiras: na falta de um companheiro (às vezes há até um homem de corpo presente, mas que emocionalmente ou energeticamente não está lá), uma mulher idosa retira a energia para manter-se viva de seus filhos e netos. Como não é um movimento natural, mas uma busca tentando compensar uma falta, dá merda, e por mais que a amem, os filhos se sentem sobrecarregados. 

Mas não vim falar disso. Vim falar da diferença com a qual geralmente homens e mulheres chegam à velhice. Elas chegam muito mais espertas que eles. E eu tenho uma hipótese para isso: ao envelhecer, as mulheres perdem muito menos do que os homens. De cara, velhice implica na perda de poder, físico e social, já que com ela vem a queda da potência sexual e a aposentadoria. Trabalho e sexo definem muito a identidade masculina. As mulheres se definem pelas relações pessoais. Como mesmo as mulheres que trabalham geralmente cultivam laços familiares, afetivos, elas têm esse apoio mesmo perdendo potência física.

Descobri isso com seu Jajá, o dono de uma das empresas em que eu trabalhei. Eu tinha 26 anos e estava com ele na biblioteca da empresa, e ele me confidenciou que envelhecer era ruim, que esse negócio de "melhor idade" é balela. Imagine o que foi para um homem que criou uma empresa que empregava mais de cem pessoas, de repente, ser deixado de lado e passar a ser tratado como café com leite. As pessoas fingiam que se importavam com a opinião dele, mas ele sentia que era carta fora do baralho. Para quem construiu a autoestima em cima do poder, deve doer e muito. 

Quando não perde a vitalidade, o homem velho perde a noção. E não digo nem de querer namorar, se divertir, etc, que isso é saudável em qualquer idade. Mas muitos regridem à época da vida em que foram mais felizes (e poderosos), se envolvendo com garotinhas nada a ver, na vã tentativa de se sentirem mais longe da morte. 

Além de todas as vantagens econômicas e sociais, deve ser bacana envelhecer em um país em que você é estimulado a se ver como gente e não como objeto de consumo que também vive a consumir o outro, com prazo de validade. No Brasil a gente descobre que é ser humano acima de tudo tarde demais (quando descobre). A favor desse país, só clima, pelo visto.  

A vez da minha vida

 



Terminei hoje esse livro aí, "A vez da minha vida", da irlandesa Cecelia Ahern. Ela é mais conhecida por aqui pelo livro que deu origem ao filme "P.S. Eu te amo". Comecei a leitura por indicação do meu terapeuta, que "intuitivamente" achou que a história poderia me render insights. Eu aceitei pra não fazer desfeita, já que ainda estou atolada de coisas que dependem de muita leitura, mas conheço esse tipo de literatura gringa e sei que são livros grossos porém facinhos de ler. E assim foi. Gostei viu? Vou explicar por quê.
Resumidamente, o livro conta a história de Lucy, uma mulher de 29 anos, de família rica, que tinha a "vida perfeita" até 3 anos atrás, mas um término fez a autoestima dela e tudo mais descer ladeira abaixo. Como nem ela mesma está segurando a onda da própria realidade e todo mundo ao redor dela parece estar indo magnificamente bem, ela, para não ter que ficar falando de si, começa a mentir. Mas Lucy mente tanto que nada na vida dela fica isento de mentira. Um dia, com um pé na depressão já, ela recebe correspondência da própria vida dela querendo uma reunião. Não preciso dizer que ela reluta em acreditar no convite, nega estar tão f**ida na vida e que Vida consegue, enfim, do auge da sua irritação (e perebas) causadas pelas últimas de Lucy, se encontrar com ela e, aos poucos, ir ajeitando a bagunça. 

[spoiler abaixo, para o caso de alguém ler isso...]

Entendi porque meu terapeuta me indicou essa história. Assim como eu, Lucy começou a história escondendo uma culpa muito grande por ter "fracassado" na vida adulta. Aos poucos, conforme o livro vai evoluindo, ela descobre que não fracassou, que na verdade não tinha a obrigação de se encaixar nas expectativas de ninguém - ela se sentia um fracasso especialmente aos olhos do pai, um intransigente de pai e mãe. Demorou um bom tempo até ela entender que ela não tinha culpa, que algumas coisas, como o fim do relacionamento com Blake, não dependiam dela e que ela não tinha motivo para se esconder e sentir vergonha de si. A culpa era tanta que ela não conseguia enxergar o afeto que as pessoas ao redor sentiam por ela. Basicamente a vida de Lucy só começou a andar quando ela aceitou o passado e começou a se ligar no presente, movimento que demorou boa parte do livro - até chegar essa parte, você fica cumplice de todos os chiliques de Vida com as bobagens que Lucy faz. 
Sobretudo, Lucy, que começou a história dando o perdido em Vida, terminou o livro 100% em aliança, amor e gratidão por ele. 
Ela havia se autoabandonado e, quando é assim, você começa a depender exclusivamente da opinião, do feedback dos outros sobre você. Qualquer vento menino, como canta Fábio Junior, leva pra outro lugar. A pessoa perde a noção de "quanto vale o show" e aceita qualquer esmola. Então, quando o namorado, que ela e todos julgavam perfeito, foi embora, levou junto todo o senso de autovalor dela. Esse ex, aliás, é a cópia do pai dela, uma prova de que o que você não resolve, encontra como destino. Interessante que ela só vai pra um outro tipo de relacionamento quando ela resolve isso do pai internamente.
Na verdade, como indica o título, a jornada de Lucy foi sobre isso: parar de viver para os outros e dar valor a própria vida, se encantar com Vida, ficar parceira dele. 
Há um trecho que é bem engraçado. Entre dois homens, Lucy tem que escolher entre um que quer saber dela, mas ignora completamente Vida e outro que é ignorado por ela, mas que adora Vida. Hummm, com quem será que Lucy deve ficar?
Não vou contar. Leiam. É literatura fast-food, mas vale a pena: Ahern escreve bem, a história é divertida, traz uma mensagem positiva, enfim, uma boa Sessão da Tarde.

domingo, 29 de novembro de 2020

Sobre bonecas e o cuidado

 


Meu bonde dos sobrinhos sagitarianos 2/3: Luísa, minha guapetona, faz 6 anos!

Fofa, inteligente, ladina, uma figura. E herdeira das minhas bonecas. Até hoje não enjoou de ser mãe das bonecas, já não tenho nem mais opção de boneca para dar de presente. Vamos ver se depois da alfabetização ela vira o disco. 

Muita gente implica com bonecas e carrinhos. Na boa, se a criança quer, o que o adulto tem que se meter? E isso vale também para a "inversão" de brincadeiras. Luísa gosta de bonecas e de crianças pequenas. É dela. Na verdade, temos que tomar cuidado para, sob o pretexto de estar questionando os papeis de gênero, estarmos, até sem perceber, desqualificando as qualidades ditas femininas.

É raro uma mulher que nunca quis ter as prerrogativas da condição masculina, desde as biológicas (não menstruar) até as sociais (poder viajar sozinha ou sair de noite sem morrer de medo). Um dia, há muiiiitos anos, me queixando de ser mulher a uma amiga, tomei um sermão dela, que disse amar ser mulher e também as qualidades atribuídas ao feminino. Na visão dela, o problema não era isso, mas a lógica escrota do mundo. Bingo (e scheeelp)! 

O cuidado, que se exercita quando se brinca de boneca, é uma coisa importante. Digo mais, cuidar é uma das profissões do futuro. O problema não é as meninas aprenderem isso; é aprenderem só isso e a exercerem o cuidado a qualquer custo. E, principalmente, é preocupante o cuidado não ser ensinado aos homens. Para eles serem cuidados sem cuidar alguém pagou ou está pagando esta conta. Vejamos: repare quando um parente adoece. A família pode ter dez pessoas, mas vai sobrar para as mulheres. Mais frequentemente para uma só mulher, eleita pelo bando de folgados por ser solteira/viúva ou sem filhos ou a mais pobre - e que não vai receber um "Obrigado" porque sem essas coisas todas não é vista nem como pessoa. Quando essa criatura não existe na família, apela-se a uma mulher pobre que vai fazer, geralmente, o que a família inteira não faz, a um preço bem abaixo do justo. 

Um homem na mesma condição dificilmente vai ser cogitado para a função de cuidador, a não ser que seja gay, o que recai, na leitura da sociedade, novamente na categoria do feminino. E o cuidado, quando fica em cima de uma pessoa só, às vezes até adoece o cuidador. Em casos pontuais, a sobrecarga mata. Dividido igualmente, cada um fazendo um pedacinho, o justo, não fica pesado pra ninguém.

Não precisamos nem chegar ao hospital, não. No dia a dia, quantas mulheres criam sozinhas seus filhos? Zero constrangimento ou penalidade para o homem que não cuida da prole. E a sociedade naturaliza isso, dá tapinha nas costas da "pãe", embora ninguém queira muito saber da mulher nesta situação. Boa parte dos empreendedores brasileiros, por exemplo, são mulheres que se veem acuadas pelo mercado de trabalho e vão trabalhar por conta própria para poderem passar o olho na cria durante o dia. Ser "pãe" é perversidade da sociedade, sacanagem dos homens, não é coisa de super mulher, não. Essa categoria não existe.  

E está aí outra lição a ser aprendida pelas mulheres: o autocuidado. Antes de cuidar dos outros, é preciso cuidar de si mesma. Como dar o que não se tem? Como no avião, primeiro a gente bota a própria máscara, depois ajuda os outros.  

(Que Lu cuide e se cuide!)

João, 1 ano

 


Esse é meu sobrinho caçula, o João aka O Poderoso Chefinho ou também O miúdo, que completa hoje um ano. O aniversário dele me remete a três temas, que vez ou outra, este ano, me vieram à mente. 

O primeiro é o modo como a Covid-19 vai impactar em quem é criança agora, especialmente nas que nasceram durante a pandemia. Não foi o caso dele, mas por pouco, já que ele mora na Europa. Em todo caso, João passou o primeiro ano de vida praticamente no Quarto de Jack, sem ver nada além da família nuclear e a própria casa. Quando acabar, ele vai ter quase dois anos. Eu me pergunto que memórias eles vão ter desse período. Criança supera rápido, mas, também, até os sete anos de idade a "moleira psíquica" está aberta. A seguir cenas dos próximos capítulos...

A segunda coisa é que a mãe dele tem 48 anos. Digo isso não pra expor a idade alheia, mas porque a gente acha que, depois de uma certa idade, não podemos fazer certas coisas. Isso é uma meia verdade. Ok, as coisas tendem a ficar mais difíceis com o tempo, quer por fatores físicos, condições de vida ou principalmente por causa da sociedade que olha a gente torto (e somos seres sociais), mas fica impossível só se você quiser e entregar os pontos de vez. Roberto Marinho fundou a Globo com 65 anos. Gretchen continua subindo ao altar aos 61 anos.    

Ele não foi o primeiro filho, mas a mais velha nasceu quando a mãe tinha 41 e uns quebrados. Depois de mais de três anos de tentativas, tomando injeção na barriga diariamente, abortando - inclusive o irmão gêmeo da que nasceu - e vendo todo mundo parindo ao redor, eis que minha sobrinha nasceu. Paulo Coelho diz que quando a gente quer algo, o universo conspira a favor, mas esqueceu de avisar que, antes disso, ele pirraça até você provar que quer mesmo e não é fogo de palha. É incrível como  acontece um monte de coisas pra desanimar a gente quando estamos firmes em um caminho. A jornada do herói. Há coisas que estão além do nosso controle. E algumas reviravoltas só vão fazer sentido mais para frente. O exercício é esse mesmo: confiar. Mas isso é papo para outro dia. 

Por hoje, é dia de 🎂 pra João. 

sábado, 14 de novembro de 2020

A mulher (e o homem) desiludida

 


Eu sou youtubeira, não é segredo. E brincando mais uma vez de piolho nas redes sociais, achei um canal maravilhoso, o Soltos. É um casal de amigos, ambos na casa dos 30 e tantos, ela hetero e ele gay, falando sobre relacionamentos. Mas esse é só o gancho, pois o canal toca em questões mais universais como valores culturais que nos atrapalham como um todo e baixa autoestima, então mesmo padres podem encontrar vídeos interessantes dos Soltos. Amei um recente, "Pare de aceitar migalhas e se valorize". No vídeo, além de criticarem a mania do povo de se apegar a migalhas para seguir com o que não existe, eles sentam a língua na mania do pessoal de achar que o outro tem que adivinhar, que existe glória sem luta, neste caso, sem que se diga o que se quer e o que não se quer.

É isso: as pessoas querem grandes coisas, mas ao mesmo tempo não querem perder nada, arriscar nada.  Tomar toco ou falar o que sente, externar suas regras, isso tudo virou ridículo. As pessoas têm medo de ser quem elas são e não percebem que, assim, acabou ficando todo mundo igual. Somos todos aquele exército de loiras de cabelo alisado e comprido até a cintura. 

 E, pra mim, isso é a base da insatisfação generalizada que vemos hoje.

Vamos falar do termo da moda, responsabilidade afetiva. As pessoas querem que os outros se responsabilizem - e é justíssimo ter esse papo mesmo -, mas não querem se responsabilizar por si.  Sempre há sinais, vamos combinar. Ninguém gosta de admitir, mas é a gente que, por carência, não quer ver o que o outro nos sinaliza o tempo inteiro. Há uma questão de gênero aí: mulheres são criadas para interpretar qualquer merda que venha de homem de modo positivo. Começa com o menino que puxa o teu cabelo e vem alguém dizer que isso é porque gosta de você. É doloroso admitir que se sujeita a isso. Homens são criados para pensar que mulheres são idiotas que não conseguem lidar com certas verdades, que são feitas para serem tuteladas por eles, que se uma mulher chorar isso é ruim. Melhor chorar e ser respeitada do que chorar por desrespeito. A sinceridade mostra uma deferência em relação ao outro, que é justamente o que a mentira tira.  

Mas o povo fica achando que admitir isso é passar pano para quem fez o mal feito. Mana, você tem que dizer o que quer e o que não quer, os homens não vão mudar porque a gente sonha com isso; tem que externar. O Segredo não funciona aqui, sorry. E outra: como você vai exigir do outro o que nem você mesma se dá? Frequentemente o autoabandono anda junto com o abandono. Como diz o vídeo, você faz o banquete de migalhas, e depois chora que tá com fome. Os três porquinhos, minha gente. Casa bem construída, não há lobo mau que consiga botar abaixo. Equivocar-se não é pecado, pelo contrário, é errando que se aprende. Temos que, inclusive, parar de criminalizar o erro. Mas é foda quando o erro se torna um disco arranhado. Aí já é tara, não é mais azar da pessoa, convenhamos. 

Mulheres (e alguns homens também, especialmente gays) precisam educar os homens e se educar em duas coisas, que são as realmente nocivas:

a) Parar de passar todo mundo na frente, antes de se satisfazerem, que é isso que gera mágoa de não ter reconhecimento. "Bote a máscara e só depois ajude o outro a pôr a dele", já diz a aeromoça no avião;

b) Achar que o outro vai conseguir sarar suas feridas. É sério que alguém acha que o outro magicamente vai saber do que você precisa? E isso pressupõe uma escravidão, já que se o outro for embora volta tudo a ser uma merda. Isso é justo?

Há um ganho em toda relação, mesmo quando se é vítima. De graça ninguém fica. As pessoas não gostam de lembrar que tinha coisa boa. 

O outro não vai resolver esse vazio que é nosso e que nem a gente dá conta, vamos admitir. Lógico, nossa autoestima também precisa, em parte, de reconhecimento externo, mas isso não resolve. O outro também deve estar lutando pra se amar. Aliás, gente escrota geralmente tem muita dificuldade de se amar, acredite.  

Outra questão do nosso tempo é que as pessoas também não têm mais paciência para construir nada. A galera quer algo mágico, que dê certo de cara, que se encaixe em tudo. Os casais felizes que eu conheço dizem que o lance é achar que o outro ainda vale a pena e ir tentando - o esforço deve vir dos dois lados

E uma vez que as pessoas deixam tanta coisa inacabada por orgulho, seguem adiante carregando um cemitério de recalques e frustrações que facilmente azedam o lance do presente. Depois reclamam que estão sozinhas.

É triste porque quem topa construir tá numa dificuldade imensa de descolar alguém na mesma vibe.

Essa geração da virada, que nasceu entre 1977 e 1983, nós crescemos com um certo desprezozinho pela vida na caixa de nossos pais. Crescemos achando que teríamos coisas muito melhores, com a sensação de que somos ótimos, que quem veio antes vivia 100% errado, e assim nunca ninguém está a altura. Aqui em casa, minhas irmãs mais velhas são dos anos 70. Outra mentalidade. Essa turma pensava no possível, que o ótimo é inimigo do bom. No geral, essa ideia é menos frustrante que a atual. Claro, há de se tomar cuidado para não cair em armadilhas, mas ela é mais real, mais pé no chão. Tínhamos o que aprender com os nossos pais, viu?

Viver o sonho engessa a vida e é elitista. Quem é que realmente pode escolher qualquer coisa na nossa sociedade?! Quem é que pode ficar sentado esperando o bonde ideal chegar? Pois é. E ainda tem aquela, que nunca sai de moda, de que quem muito escolhe, acaba escolhido. 

Tem um livro bacana que li faz uns cinco anos que falava sobre isso, sobre as chances que a gente deixa passar esperando sempre alguém melhor. A autora, uma colunista de famosos jornais americanos, faz um mea culpa dos caras legais que ela já dispensou porque se achava demais e queria o Sr. Perfeito, que estaria por chegar. Resultado: quando quis formar uma família, olhou pro lado e não viu ninguém. No livro, ela conta histórias reais como a dela. E tem uma coisa que não contam aos jovens de 20: o amor pode acontecer em qualquer época, mas sua maior chance de conhecer o amor da sua vida, até pela quantidade de gente que circula ao seu redor no emprego e na faculdade, é na década de 20. Se você achou alguém que te dê aquele clique, agarre, porque pode ser que não aconteça duas vezes. Na verdade, já é raro acontecer uma.

Enfim, é o difícil equilíbrio de não aceitar qualquer coisa e ficar amargurado e ficar parado na estação, igualmente se sentindo amargurado. É preciso ter muita conexão consigo mesmo, reconhecer os próprios valores, prestar atenção no corpo, que nunca mente, e saber valorizar os encontros, já que a regra são desencontros. Mas nós não temos paciência, aliás, só com quem não quer saber da gente. Com a gente mesmo, 0% de paciência e compaixão.  


sábado, 7 de novembro de 2020

O Gambito da Rainha


É mais uma história de superação com todos os clichês hollywoodianos. Acho que os diferenciais são: 1) o magnetismo da Anya Taylor Joy que faz Beth, a protagonista e 2) a protagonista não tem aqueles conflitos clichês com as pessoas, o babado é mais dela com ela mesma (e isso é universal, porque desse conflito ninguém escapa).

Pessoalmente, me chamaram atenção dois aspectos da história: 1) a quantidade de abandonos que ela sofreu ao longo da vida; 2) não sei dizer se a personagem conseguiu lidar com isso, já que é um tipo bem mental, racional, de gente que não se abala com facilidade. Há um diálogo mais pro final no qual é indicado que ela é movida pela raiva. Pois bem, o que mais gostei nela foi a capacidade de seguir em frente. Abandono e solidão assustam pra caramba, imagine uma menina que cresceu nos anos 1950. Ela não se sentiu indefesa e seguiu em frente. Em parte o xadrez foi muito importante enquanto motor, mas mesmo assim, Beth mostrou foi resiliência. Tinha potencial para dar muito mais merda do que deu. O final foi como uma espécie de reconciliação com o passado, com as pessoas de um modo geral, já que no inicio da vida fizeram mal a ela. 

Enfim, é aquela história: a vida é como andar de bicicleta, e se parar, cai.


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Orientais 1 x 0 Ocidentais

 


Tá na Netflix um documentário sobre essa banda pop coreana. Sei zero sobre o k-pop, apesar de adorar música pop. Sei lá, é meio racista, mas eu acho o povo asiático meio estranho. 

O doc mostra meninas simples que encaram o trabalho na banda como mais um trabalho. Não sei se é realidade ou roteiro, mas as meninas me impressionaram pela falta de crise existencial e espírito de grupo. 

Se por um lado é difícil gostar delas individualmente porque todas elas parecem a mesma pessoa só que com cabelos de cores diferentes e há uma falta de charme nesse processo industrial coreano de fabricação de estrelas pops, por outro, é bom ver gente madura, que sabe ser feliz com as suas escolhas, que prefere trabalhar em grupo que ficar na nóia de quem brilha mais que quem. 

Um amigo meu falou pra mim que há uns casos de depressão e até suicídio no k-pop. Repito, não conheço esse universo, mas eu fiquei com a impressão de que nós, ocidentais, somos individualistas demais, autocentrados demais e isso, como passa do ponto, nos adoece. 

Corta pra epidemia de coronavirus. Enquanto o ocidente tá em desespero porque não consegue colocar uma máscara e praticar o distanciamento, no oriente está tudo sob controle na medida do possivel. 

É, acho que temos algo mais a aprender com eles além de yoga e meditação.

domingo, 1 de novembro de 2020

A lei da percepção


Sempre achei a Lei da Atração inverossímil, estranha. Ora, se todo mundo conseguisse acessá-la, não haveria abundância pra todo mundo. Foi então que na minha formação TTS, aprendi que, na verdade, o que existe é a "lei da percepção". Sabe quando você compra um carro de uma marca e percebe que muita gente tem aquele mesmo modelo? Ou mulher grávida que tem a sensação de que todas resolveram ficar grávidas na mesma época que ela? Pois é, uma vez que você afina o seu SAR para perceber determinadas realidades vão ser elas que você vai encontrar e perceber.

 SAR é o sistema de ativação reticular.

Então, na verdade, você, ao mudar suas crenças, não atrai nada. O que acontece é que você começa a afinar essa crença com o seu SAR e passa a perceber mais daquilo que faz parte do seu sistema de crenças. Se você acredita que é atraente, além de enviar mensagens de confiança através da sua linguagem corporal, você vai captar feedbacks positivos e oportunidades de se mostrar atraente. O mesmo quando você se acha feio.

Enfim, afie seu SAR. Parece fácil, mas já aviso que não é. Mas é possível. Vamos tentando.

PS.:  Mas a tal lei da atração, de pensar no que vc quer atrair, cria um efeito positivo no corpo e esse efeito ajuda o próprio corpo a trabalhar melhor naquele objetivo, melhorando, inclusive, o foco.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Nós de família

Quem me conhece sabe que eu tenho uns buracos familiares. Fico até com vergonha, mas no fundo sei que quase todo mundo tem família como a minha, mas ninguém fala. Eu falo. Aliás, eu me exponho demais, mas não tenho paciência pra hipocrisia. Também desconfio que muitas das minhas dores não bateram iguais nas minhas irmãs. É que o trauma não depende exatamente do que aconteceu, mas de quem recebeu o que aconteceu. Um incêndio numa casa pode paralisar uma pessoa e traumatizá-la e outra pode passar pelo mesmo evento e seguir a vida normalmente. Geralmente traumatiza quem não teve condição de reagir e não entende isso, e se culpa. Se você pensar que eu sou a caçula e a mais família de todos eles, talvez aí esteja a resposta da charada.

Sempre tive dúvidas sobre ter filho ou não sobretudo porque não queria passar de novo o que passei com minha família. Sei lá, acho que tenho uma certa crença no nosso sangue ruim, de que vão nascer pessoas iguais as que já não me dou e que são mais velhas que eu nessa família. 

E eis que recebo más notícias de Felipe. 

Anda aprontando. Até aí, tudo bem, se esse "aprontando" fosse rompendo com as expectativas dos pais de forma saudável, para viver seu processo de individuação. Segundo Jung, o processo de individuação é sair da expectativa dos outros e se encontrar com as suas próprias. Quem não buga na infância e na adolescência dá tilt depois. Fato. Mas esse processo dele está vindo, pelo que soube, com raspas de perversidade, e isso é tudo que não pode acontecer. Qualquer pai ou mãe obteve sucesso se criou alguém ético, uma boa pessoa. Falei isso, aliás, anos atrás me referindo ao filho de um casal amigo que não se deu bem na vida, mas é boa pessoa. 

Isso me disparou o gatilho da maldição familiar. Eu não sei se vou continuar gostando dos meus sobrinhos se eles se tornarem pessoas de índole ruim. Estou aqui pra ajudar, mas para isso eles precisam querer se melhorar, se ajudar. E pra ser ruim não precisa ser marginal, não. Humilhar gratuitamente os outros está incluso nesse pacote. Ser uma pessoa sem empatia já tá no script. Um macho escroto desses aí que a gente encontra a rodo pelo caminho, sabe?  

Mas vamos orar. Ainda tem muita água pra rolar nessa ponte.

Eu que não quero arriscar. Filhos, nesta vida, melhor não tê-los pelo visto.  

domingo, 18 de outubro de 2020

"It´s my party and I cry if I want it...

 


... you would cry too if it happened to you."

Essa música me lembra uma cena de "O Pestinha", quando uma menina nojentinha, a aniversariante, chora ao ver sua festa sendo estragada. 

Corta para o Brasil da semana passada. Divórcio de famosos. Ele, pateticamente, acordou a esposa às 3h da madrugada para dizer que não dava mais certo. O Brasil inteiro dizendo que foi um absurdo, que casamento não se desfaz assim, que ele não deu chance pra ela resgatar a relação. Eu compreendo a dor da rejeição e a covardia do término à queima roupa, mas duvido que essa criatura não tenha dado sinais anteriores (ou foi a carência da esposa que não permitiu vê-los?) e ainda acho que, se não for pra ficar de boa vontade, melhor que se pique mesmo. Antes tarde do que mais tarde. Porque o ser humano anda tão escroto que é capaz de marcar território pra não ver o outro indo em frente enquanto mantém a vida dupla ocultamente. Não consigo compreender essa mania de gente casada de achar que casou, tem que ser pra sempre a qualquer custo. Gente, todo mundo vai embora, quer por vontade ou por morte. Toda separação é uma dor porque é o fim de um sonho, mas eu me sentiria mal de manter uma pessoa do meu lado a base do "você tem que". Você quer a relação, o parceiro ou o símbolo da relação?

Só que quando você pondera isso, parece que você está passando pano pra quem se picou (e quase todo mundo, ainda mais homens, faz isso muito mal, de forma traumática pro outro). Não tem nada a ver. O fato de admitir que as pessoas, via de regra, emitem sinais antes de partir não anula o fato dessa criatura que foi ter sido escrota. E achar que é melhor mesmo que se pique não anula a falta de cuidado no final do relacionamento. Por isso mesmo, vá com Deus (ou com o diabo). E vamos falar o português do Brasil: mesmo que o outro vá tocando harpa e avisando com seis meses de antecedência, vai doer do mesmo jeito; o que muda é ainda ter preservado seu status de gente que mereceu ser ao menos bem tratada, ter passado por menos uma humilhação. Poucas pessoas, pensando aqui entre os meus conhecidos, encarariam um fim com relativa tranquilidade caso esse fosse feito com respeito. Quase todos iam odiar o ex do mesmo jeito.   

No meu mundo ideal as pessoas agiriam com cordialidade e cuidado, mas não é esse o mundo que temos. Eu acho que todo mundo merece ao menos uma satisfação, mesmo que seja pra lavar roupa suja. Já disse coisas feias ao romper com pessoas, mas disse a verdade, a pessoa soube porque me piquei. Mas essa sou eu. Já quebrei muito a cabeça tentando imaginar o que tinha feito de errado, porque A ou Z se picaram do nada. Hoje não faço mais isso nem fodendo. Lido com o real. Aceito, mesmo que não concorde, mesmo que não tenha a menor ideia do motivo. Não interessa a razão, eu trabalho com o que a pessoa me deu. E se ela quis ir embora, ora, é porque não quis ficar. Esse é o fato e que nenhum motivo vai mudar, a não ser que seja o Super Man e ele tenha te deixado pra ir salvar o mundo. Melhor que vá. Eu respeito muito mais quem não desperdiça meu investimento e se manda do que quem fica de má vontade, resmungando, te fazendo sentir errada.

Na boa, não entendo a cabeça do brasileiro. Vamos parar com essa hipocrisia de todo mundo junto. Às vezes eu acho que até pra continuar gostando o ideal é separar mesmo. Na minha experiência, é justamente essa falta de timing, a mania de levar as situações ao limite que tornam os afetos irrecuperáveis.   


sábado, 17 de outubro de 2020

Discípula de Mutley

Eu me considero uma pessoa, no geral, boa, fofa e etc e tal. Mas se tem uma coisa que nunca aprendi e acho que vou sair dessa encarnação devendo é conseguir manter o nível, a fineza quando perco o respeito pela pessoa. É melhor até eu sair de perto mesmo porque, como diz o ditado, "quando eu sou má, sou melhor ainda".

Não seguro a língua. Sou cruel, eu sei (e às vezes genial nas tiradas, não vou mentir). É quase um espirro, é muito rápido; é pura reatividade. O caso é que tenho ética, depois me dá ressaca moral. As duas coisas na mesma pessoa não dá, né?

Crianças, não tentem isso em casa. Pode não parecer, mas é arriscado. 


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Normal People


Eu jurava que tinha escrito sobre "Normal People" aqui, mas, abrindo o blog agora, vi que não. Como assim, Bial? 😱

Bem, assisti a série por recomendação de um youtuber (sim, eu sigo canais que falam de séries e outros canais sobre diversos temas no YouTube). Vi num tapa, até porque é curtinha, o que acho que é a tendência atual das séries. O povo percebeu que, com a enxurrada de séries, convém que elas sejam breves pra garantir que serão consumidas.

No caso de Normal People, além disso, tem o lance de ser baseada em um livro e a autora não se interessou por prolongar a história, tanto que só vai ter uma temporada mesmo. 

Eu gostei pra caramba porque é uma história que poderia acontecer com qualquer um de nós. Ouvi alguém comentando que o título faz alusão à saúde mental dos protagonistas, que sofrem períodos de depressão e autodestruição durante o desenrolar da história. 

A história se passa do final do ensino médio até mais ou menos o final da faculdade. Connel e Marianne cresceram na mesma cidade do interior da Irlanda, mas são opostos. Em comum, só a inteligência e a solidão. Apesar de terem convivido na escola quase a vida inteira, só no final dela eles se encontram por puro acaso... e se encaixam perfeitamente. Ela tinha dinheiro, mas não tinha o restante. Ele tinha o restante, mas não tinha dinheiro. Mas, embora ele fosse "o" popular, só com ela ele conseguia conversar de fato. Aquela coisa que o poetinha dizia, sobre a vida ser a arte dos encontros. Any doubt? 

Durante a trama, as vidas deles vão se separando e se reencontrando. Eles erram o tempo todo um com o outro - ele muito mais com ela do que o inverso -, mas são erros "perdoáveis" que falam mais de deficiências emocionais e questões de falta de autoestima próprias dos dois do que de falta de amor ao outro. Sim, tem amor ali, mas tem muita falta de autoestima em cada um e por isso, também, além de amor, há muita dependência emocional. O final da série, acho, é uma indicação de que esse padrão foi rompido, de que algo mais maduro vai brotar dali.

O que gosto nos dois é que, apesar da dependência emocional, eles não correm muito atrás do outro - e desconfio que isso reflete um traço dessa geração mais nova, nascida nos anos 1990, de não insistir no que tá difícil e fluir com a corrente 👏. Mesmo de coração partido, eles querem, no fundo, que o outro fique bem, e eu acho que é essa a parte que nos faz torcer pelo casal. E acho, também, que no fundo um tem muita certeza do afeto do outro, do lugar que tem na vida do outro, especialmente Connel. Mas se por um lado há amizade entre eles, há, também, muita confusão desnecessária por pura falta de comunicação, por mania de inferir sem perguntar antes. Bem normal people mesmo. 😕

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Atriz da estrada

 


Desde que essa pandemia começou a apertar, me deu uma vontade louuuuca de viajar. De preferência, pro outro lado do mundo. Tô morrendo de saudade da Europa, mas serviria qualquer lugar agradável longe do Brasil. E digo mais: não estranhe se eu ficar por lá.

Acontece que outro dia, vendo um documentário sobre o trabalho de Jim Carrey em "O Mundo de Andy", fiquei maravilhada com a capacidade dele de sair de si e ser outra pessoa, aquele personagem, por algum tempo. Eu nunca quis fazer teatro porque não acho que o tipo de persona exigido por esse meio combina comigo - embora, se tivesse um filho, faria questão de que tivesse aulas de teatro, que vêm bem a calhar no mundo de hoje que depende que você saiba se vender e rodar máscaras como nunca antes -, mas acho que numa próxima vida pode ser. Acredito que deve ser uma delícia poder ter férias de si mesma.

E foi conversando sobre isso com um amigo que ouvi dele uma frase genial, de que essa é a mesma sensação de viajar para o exterior. Bingo! É isso mesmo. Quando eu chego em uma cultura que não é a minha, em que eu sou desobrigada de relações, de expectativas, de códigos, eu posso descobrir aquele lugar e descobrir coisas novas sobre mim naquela terra estranha. É como poder tirar férias de si e ser outra pessoa. É libertador.

Troco, nessa vida, ser atriz por ser viajante. Com fé em mim e em Deus, vou rodar muito esse globo. 


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Ansiedade

 Desde a adolescência, eu tenho episódios de falta de energia, que eu achava que eram de depressão. Mas nunca o remédio receitado fazia efeito. Eu achava que era uma dessas pessoas imune a remédios - sim, elas existem. Qual foi a minha surpresa, após 15 anos peregrinando, ser diagnosticada com ansiedade e tomar, enfim, um remédio que fazia efeito?

Ansiedade é igualmente uma merda, a diferença é que não te paralisa. Quer dizer, há momentos, no pico da ansiedade, que o corpo te apaga, parecendo uma depressão. Eu não tenho falta de energia. É que de tanto gastar energia com o que me causa a ansiedade, o corpo se esgota.

E havia pistas disso. Por exemplo, eu brigo para dormir e brigo para levantar. Me meto em mil coisas ao mesmo tempo. Não tenho muita paciência para esperar. Cabeça sempre no futuro. Como não iria ficar cansada?

Agora é aquilo: tive sorte. Mas e quem não tem e fica a vida sem o tratamento certo? E no meu caso, o tratamento foi pontual. E quem tem um problema crônico?



quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Mordida de amor

 Piscianamente, só hoje fui me conter na sabedoria dessa música, depois de 30 anos. Óbvio: se  você não conclui, não fecha, jamais dirá adeus. 


Quando faz amor se olha no espelho
Será que você gosta mesmo de mim?
Vai me dizer que era prá sempre
Isso é amor ou uma doce mentira?

Uh, Baby!

Mas quando está só
Se morde de amor
Rolando na cama
E chama o meu nome...

Eu não quero tocar em você, oh baby!
E fazer seu jogo vai me deixar louco
Sei que você pensa o amor é do seu jeito
Coração quebrado e orgulho inteiro

Amar assim é jamais dizer adeus
Já não é mais a grande surpresa
Viver assim a se morder de amor

(Refrão)

Amar assim jamais dizer adeus
Já não é mais

Amar assim é jamais dizer adeus
Já não é mais a grande surpresa
Viver assim a se morder de amor

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Ganhos secundários

 É triste admitir (porém elucidante), mas por trás de uma situação aprisionante sempre há ganhos por debaixo. Ou melhor, os chamados ganhos secundários. 

De graça, amores, ninguém fica. Alguma besteirinha boa rola nessa história. Claro, não estou falando aqui das situações de violência.

Você não quer sair do emprego que te massacra emocionalmente todo dia. Ganho secundário: estabilidade, salário e benefícios.

Você é maltratada pelo marido, que te põe pra baixo dia sim, dia não, mas não larga o indivíduo. Ganho secundário: o status de casada e "antes mal acompanhada do que só". Quem maltrata, afinal, não ignora.

Ted (foto) nunca logrou ficar com Robin antes de ficar viúvo, que já falou na cara dele que não o amava. Suspeito que, no final, ela ficou com ele como prêmio de consolação, já que ela tinha feito tudo que queria e não havia dado certo com ninguém. Por que Ted se sujeitou a isso? Amor? Não creio. É que essa fantasia virou estruturante da vida dele, e sem isso seria um tédio. 

Por isso, quando estivermos presos em situações que nos maltratam, convém investigar que ganhos secundários há na situação. Só assim pra desmontar a permanência.


domingo, 9 de agosto de 2020

Inútil

 Sejamos inúteis um para o outro como um recém-nascido é no colo dos seus pais. 

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Donde estás corazón?


É, meus caros, tenho que admitir, após 25 anos de luta contra, que onde o coração não está, eu não consigo permanecer bem nem que a vaca tussa. Sim, sou dessas. Me lenhei. Não tem razão que comande 100% minhas emoções. Já evoluí muito, mas... Vai ver que é por causa do meu tipo psicológico, sentimento/sensação. Eu tenho bom senso, até gosto da rotina, do conhecido, mas desde que eu extraía algo subjetivo também disso tudo. Só pelo dinheiro, não rola. Eu seria uma péssima prostituta.

Mas mais preocupante que essa constatação está outra: a de que eu não sei onde está meu coração, só onde ele não está.

E que Deus me ajude a cumprir essa jornada.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Fersami




Fernanda Santana Miranda aka fersami (pelo menos no e-mail que eu ajudei a criar nos anos 2000 e que ela usava até a última vez que nos encontramos, hehe) faleceu no último domingo, depois de oito anos de uma batalha cheia de dignidade, generosidade e sabedoria contra o câncer que teimava ocupar seu jovem corpo de 40 anos. Não lamentei que tivesse partido; até eu, que estava de fora, estava exausta de "câncer vai, câncer volta", imagine ela. Na verdade, lamentei anos antes, quando soube da metástase. Fernanda era muito jovem, muito dinâmica, cheia de vida, amigos e interesses.  Eu lembro dela assim, como nessas fotos, e era assim que ela estava antes da doença. Mesmo desgastada pelos tratamentos, ela tinha uma aparência corada, bonita, mas eu quero lembrar dela assim.
Como disse, senti alívio com a notícia, acompanhado de um sentimento natural de tristeza. Na verdade, eu chorei a morte de Fernanda em 2014, antes do diagnóstico de metástase, quando o câncer voltou. Tinha ido na casa de uma amiga de meu cunhado, que joga cartas, e acabei perguntando por Fernanda, e a mulher me disse que ela não ia escapar. Fui pro jornal, meu emprego na época, chorando muito, tentando cobrir os olhos com os óculos escuros. Parecia cena de filme de Paul Thomas Anderson, daquelas em que sobe o som e o personagem se acaba no drama. E confesso que não chorei só pela má sorte dela. Eu e ela temos a mesma idade, ela 17 dias mais nova que eu. Chorei ao descobrir a minha própria mortalidade. Gente de 30 anos não costuma saber que pode morrer. Com Fernanda eu vi a minha própria morte. Vejo hoje as meninas, Mariana e Ceyse, chorando e sei que não é só saudade, mas a perda da própria inocência, a certeza de que o que nasce, morre também - e bem poderia ser qualquer um de nós já que pôde ser Fernanda. A gente nunca chora pelos outros sem chorar a si mesmo em alguma medida.
Plot point
Nem sempre Fernanda foi uma pessoa legal, embora nunca tenha sido detestável. Mas ela era do grupinho que se achava descolado, da escola, e às vezes era meio metidinha (delas, a única que consegui realmente gostar depois de adulta foi justo ela). No entanto, sempre foi educada. Lembro-me de uma atividade da escola, em que mandamos bilhetes secretos para colegas, e ela elogiou minha inteligência de um modo muito sincero e bacana. Depois que foi morar fora, mudou, amadureceu e deixou essa versão Garotas Malvadas para trás definitivamente. Se ela fosse essa pessoa aos 12 anos, teríamos sido grandes amigas. Ou talvez ela já fosse e eu não via. 
Fernanda tinha uma personalidade que admiro no sentido de ser audaciosa na atitude individual e suave na abordagem dos outros. Acho que por sempre valorizar os outros, teve tantos amigos. Áries com ascendente em Libra. Era muito ligada à cultura, ao aprendizado. Nisso eu me identificava com ela. 
Vi que Fernanda tinha se tornado outra pessoa quando assumiu ser lésbica. Conhecendo ela desde priscas eras, senti que ela evoluiu porque sempre a vi como alguém que se preocupa com a opinião dos outros (se bem que ela andava com artistas, um meio em que a homossexualidade é natural). E principalmente aceitou com muita docilidade os revezes, tanto na vida amorosa (foi abandonada de forma escrota quando descobriu que tinha metástase) quanto na saúde. Nisso, ela se mostrou mais evoluída que 99% dos meus conhecidos, inclusive essa que aqui escreve. Eu não seria tão sábia e desapegada quanto Fernanda foi. Bato palmas para quem ela se tornou. Onde muitos esmorecem, ela se agigantou. Lamento que tenha sido pelo caminho da dor, mas Fernanda passou pela escola da vida e com louvor. Fico com as palavras do amigo dela, Alexey:

E foi assim que a gente se conheceu: por causa do câncer, em 2014. O meu, bem menos grave que o dela. Descobertos na mesma época. Deram-lhe um mau prognostico, mas Fernanda teimou: “pelo menos quarenta anos eu vou fazer”. E fez, este ano. Se dissermos que foram seis anos sem sofrimento, estaremos mentindo. Mas foram seis anos heróicos, nos quais Fernanda ajudou uma quantidade descomunal de mulheres com o mesmo problema. Ajudou-as como profissional, como mulher, como paciente oncológica. Dedicou-se profundamente a ajudar a quem, como ela, sofria. Uma vez, me disse que isso dirimia as dores físicas que sentia. Ao dedicar-se aos outros, esquecia-se do próprio padecimento. Talvez seja este, o segredo.
Neste ínterim, aconteceram milagres médicos: os tumores sumiram. Voltaram. Sumiram. Voltaram. Mas Fernanda nunca, jamais sumiu. Ela até pode ter nos deixado hoje, mas sumir é impossivel.
Foi-se suave, e como queria: sem dor, e ao lado da mãe.
Adeus, minha amiga querida. Não sei se existe vida após a morte, mas sei que existe vida antes da morte. Nem todo mundo tem vida antes de morrer.
Você teve.  (Alexey Dodsworth Magnavita)

domingo, 5 de julho de 2020

A soma de todas as opressões (e depressões)




Sou rata de YouTube e sigo alguns canais de brasileiros que moram fora e de gringos que moram no Brasil. Tem jeito não: tenho rodinhas na alma, o mundo é minha nação. Uma conversa entre franceses ontem me chamou atenção para um tema: o número de travestis no Brasil. Sei lá, de cada 10 na Europa, 8 são brasileiras. Me espanta o baixo número de travestis europeias. Daí que a gente vê que é uma questão local e não apenas da condição de gênero e sexualidade das pessoas. Para um menino gay afeminado no Brasil só deve sobrar isso como alternativa de sobrevivência. Talvez europeus e americanos nessa mesma condição tenham oportunidades mais variadas de trabalho. 

A travesti, coitada, é um pot-pourri das opressões: são afeminadas em um país profundamente machista, que rechaça o feminino, ainda mais a traição de um homem de nascimento à masculinidade; geralmente são negras e da periferia. Enfim, juntam gênero, sexualidade, raça e classe num pacote só. E como as oportunidades para seres periféricos já são poucas e com a autoestima sendo esfrangalhada desde criança (quando não sofrem violência desde a infância, no colégio e no bairro), o que muitas vezes sobra pra pessoa é trabalhar com beleza ou vender sexo, momento em que recebe algumas migalhas de atenção. Não vamos esquecer que o sexo também serve para isso: para se sentir desejada e de alguma forma valorizada e às vezes até é uma das poucas oportunidades de estar no comando - Cleópatra que o diga. Não é à toa que, no Brasil, travesti tem expectativa média de vida de 35 anos. Poucas histórias são como as de Dani. Ariana, né, more? Nem o cão pode com essa raça. Mas ali foi a satanariana brigando para viver, na força do ódio. Mas ela não esqueceu o que ela viveu. Alguns relatos são de partir a alma de verdade. 98% das pessoas que conheço não sobreviveriam, assim como muitas travestis não sobrevivem mesmo. Eu imagino que fora a violência, a taxa de suicídio deve ser enorme entre essa população. Não é fácil viver - e num país que já te atrapalha tanto como o Brasil - sendo tratada como uma aberração. 

Eu me pergunto como um continente tão belo, com uma cultura tão foda e gente tão diversa e bonita pode ser tão cruel como é a América. Que maldição é essa que a gente traz desde os nossos antepassados? Quando isso vai parar? O colonialismo, que produziu o racismo, foi a pior coisa da história da humanidade, porque é estrutural e inconsciente muitas vezes. Tô quase passando um zap pra Cláudia pra ver se ela soluciona isso, se é que ela não desapareceu do mundo original. 

E a pior, hoje me dou conta, é o racismo. Essa porra (desculpa o palavrão, mas eu sou baiana, tô revoltada e o blog é meu!) mata as pessoas aos poucos, tira a autoestima, as adoece física e psicologicamente, quando não mata à queima roupa. O racismo nunca foi o meu marco de opressão, embora tenha experimentado isso na minha vida embora nunca frontalmente. Venho de uma saga de mulheres com relacionamentos ruins, infelizes, então a questão de gênero sempre foi mais forte na minha vida, inclusive nas (faltas de) oportunidades e dores. Há dores que eu só experimentei porque sou mulher no Brasil. 

Claro que se eu tivesse a aparência da Marina Ruy Barbosa ou da Bruna Marquezine - para falar de uma mulher que não tem aparência europeia, mas não é lida como negra - minha vida seria muito mais fácil, inclusive a amorosa (em parte, porque eu sei que é deixar de ser mula para ser bicho de estimação; o machismo é um jogo que a gente nunca ganha). Mas eu tenho uma passabilidade nessa questão de raça. Se me esforçasse como Renata para embranquecer, nem seria uma questão marcante na minha identidade, não na maioria dos círculos. Minha questão como mulher é que nem sou a "troféu", de quem o homem vai suportar muita coisa até em alguns casos (porque algumas delas têm o dom da chatice, da nojentice, reúnem o pior do estereótipo da feminilidade tóxica) apenas pelo símbolo que ela representa para a sociedade, nem sou a mulher dócil, simpática. Explico: eu tenho senso crítico, sou franca e não sou sedutora; não sou de ir atrás de ninguém. Em uma cultura de subserviência feminina, como a do Brasil, não "ser dada" é um problema e tanto para uma mulher, ainda mais se for das que não agregam ao camarote. O homem fica com ressentimento, achando que você não valoriza. Eu sou eu o tempo todo e as pessoas não estão acostumadas com isso. Nunca aprendi a jogar o jogo - e essa minha afirmação não é um autoelogio; é uma constatação, com todos os problemas e virtudes que não jogar traz. 

Tenho amigas ótimas que não conseguem ter um relacionamento duradouro justamente porque são ótimas mesmo sozinhas. Não são muitas, não; infelizmente as conto nos dedos. Tem um monte de mulheres que se acham ótimas só porque são esteticamente bem cuidadas e ganham bem; falo de mulheres feministas na prática, alegres, engajadas na própria vida, esclarecidas e solidárias a outras minorias. Uma das minhas amigas que é assim é da umbanda. Uma vez, a pomba gira deu a real a ela: disse que todos os ex terminaram com ela ainda gostando muito dela, por medo de não estarem sendo correspondidos, pois, afinal, ela não demonstrava dependência. E eu acho que rola também uma certa inveja dessa independência, dessa autoestima a mais. Isso só me lembra a frase que ouvi de um homem uma vez: "A única coisa que um homem tolera que a mulher seja mais que ele de boa é ser mais bonita"... Olha o que é o ser humano (isso é universal, tanto faz homem ou mulher): a pessoa prefere estar com alguém de quem gosta menos ou nem gosta e que oferece menos do que com alguém de quem gosta muito, que admira, mas que não mostra dependência emocional, não dá a segurança do controle sobre o outro. Olha com que tipo de espírito as pessoas entram nos relacionamentos. Olha o que a masculinidade tóxica produz, fazendo homens acreditarem que devem estar sempre por cima e as mulheres sempre aceitando isso. Olha a nossa pobreza afetiva. :/ 

Meu mal, como disse Juan Del Diablo, foi achar que todos os seres humanos são iguais. Aliás, o de muita gente. Dizem isso pra gente na infância e alguns piscianos ou ingênuos mesmo acreditam, bichinhos. Hoje eu já sei que não, mas já me iludi bastante me achando igual em ambientes elitistas e tomando na cara, da forma mais dura - da parte de pessoas pelas quais tinha afeto ou em circunstâncias que me eram caras -, quando essa diferença vinha à tona. E o pior: por que eu mesma achava que devia estar naqueles lugares e entre aquelas pessoas que, no final das contas, vi que não acrescentavam nada para o que eu realmente queria? A gente é tão martelado com determinados modelos de felicidade que a gente se encaminha pra eles automaticamente, sem nem perguntar se aquilo é o que nos preenche realmente. 

Que as pessoas, aqui e acolá, marquem posições, eu ainda consigo entender porque gente não é gente. Mas já as instituições... Bem, o mal é que as instituições são feitas de gente. E nem adianta sonhar com as máquinas não, pois elas também são programadas por pessoas, algumas explicitamente preconceituosas. Só o meteoro pra dar jeito nesse caos. 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Qual é o meu conceito de felicidade e o que me faz bem nessa vida? (Tchan, tchan, tchan, tchan...)


Primeiro que eu não acredito em felicidade mas em alegria, ou seja, não acredito em um estado, mas em uma atitude diante da existência. Tem gente que, como dizia Freud, nasce com uma natureza mais favorável, que sabe fazer do limão a limonada.

Eu nem deveria estar escrevendo isso aqui, mas é onde eu releio o que escrevo e, ademais, ninguém lê. E, a propósito, mesmo que alguém lesse, é a minha verdade e ninguém precisa pensar igual a mim.

Não peguemos emprestado os conceitos dos outros. Isso distrai e deprime, e o pior, sem razão de ser, sem necessidade. É como um cego definhando porque deseja um livro que não é escrito em braile.

Vamos lá, vou fazer esse exercício agora, na linha Faustão de "quem sabe faz ao vivo".

Eu entendo por "felicidade" bem-estar e afeto. A essa altura eu já percebi que meu barato maior não está em ser a mais popular, a mais rica, a mais famosa, enfim, todos esses clichês. Aprendi até muito tarde na vida que quem não é feliz comendo pão com café não vai ser feliz com nada. Acho que o difícil mesmo é dar sentido ao ordinário, aprender a ser apesar e acima de tudo, porque tudo pode nos ser tirado. E aí? Quem sou eu sem meu emprego, meu marido, minha fortuna, minha juventude, meus amigos e meu filho que não fazem mais parte da minha realidade? Meu barato é ter qualidade de vida. Eu nunca ia querer ser Lady Gaga simplesmente porque, embora eu adore música, canto, nunca seria feliz em uma rotina que me transforme em máquina de trabalhar. E não me venha com essa palestra de "quando você acha um propósito". Meu propósito, de preferência, tem que caber em um turno de trabalho. No restante, eu quero viver a gosto, sem compromisso. Get a life, don´t be a workaholic. A maioria de nós não é Picasso, Steven Spielberg, Bill Gates ou Mandela que nasceu para dar algo significativo à humanidade. Nossa missão aqui é desenvolvermos a nós mesmos.

Por isso, gosto de viver fragmentada entre vários interesses e aprendizados. Acho que é por isso que gosto tanto de ler, assistir, fazer cursos, bater papo e viajar.
Eu gosto de fazer no meu tempo, sem pressa. Eu, cansada, erro até o meu nome.
Eu gosto de ter autonomia. A essa altura, eu percebi que definitivamente preciso disso. Não aguento administrar gente, não tenho saco para executar ordem burra.

E gosto de afeto, mas de intimidade. Esse negócio de grandes grupos, eu passo. Gosto de poucos, mas íntimos. Gente com quem eu me sinto à vontade, que me aprecia, que me acompanha, que me ama de verdade. Porque tem gente que gosta de sua companhia, mas só faz aquele extra quem te estima de verdade. Não quero ser útil para ninguém. A gente passa a vida inteira querendo se fazer amável até o dia em que a gente descobre que o amor acontece mesmo quando você é "inútil" pra quem te ama, só por ser.

Eu gosto dos pequenos prazeres, do conhecimento, da realização, da autonomia e da intimidade. Isso me energiza.

And you?



terça-feira, 30 de junho de 2020

O final de Dark (contém spoilers)

Que aperto de mente, meus caros! Que cansaço! Que final agridoce! 


E Jonas mais lindo que nunca, apesar de não tomar banho há 33 anos! <3 Aliás, achei o elenco masculino, dessa vez, bem melhor (o adulto). Mas achei alguns personagens novos chatos, porém os antigos (com exceção da Martha histérica) valeram a pena continuar. Menção de honra para Claudia, la reina! Sempre acreditei em você, Claudjenha, hehe.

Dark revelou, nesta temporada, não só alguns mistérios, mas realmente a que veio: é uma série interessada em ciência, embora o fio da meada seja as famílias de Winden. Os showrunners nos mostraram dramas familiares na primeira temporada, arrependimentos e esperanças antigos na segunda e um artigo científico de física na terceira, hehe (é modo de dizer, porque quem entende de Física disse que os roteiristas se apropriaram dos conceitos fazendo uma ficção em cima deles). Foi uma temporada densa, com alguns buracos na história, mas satisfatória. Gostei mais das outras temporadas, mas valeu a espera. 

Eu gostei de Dark, apesar de uma falha aqui e acolá e de achar que a série tinha potencial para ser melhor. No fundo, quanto a Dark, a pergunta não é o que mas como. Se você parar pra pensar, a história é simples, mas os autores embaralham tanto as coisas, que ficou a impressão de que era algo muito complexo.

O final foi agridoce: para salvar o mundo que eles queriam preservar a todo custo (Jonas até virar Adam), tiveram que aceitar desaparecer e que os seus afetos também desaparecessem, ou seja, desapegar do mais profundo desejo para que as coisas seguissem seu curso natural. 

Definitivamente, se eu encontrar uma máquina do tempo, eu quebro toda, hehe.

Me despeço da série e desse texto com uma frase usada na entrada da terceira temporada: 
"O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer."
(Schopenhauer)







terça-feira, 16 de junho de 2020

Perdidos no espaço



Eu estou lendo um livro sobre terapia de vidas passadas, de um especialista holandês. Ele fala que quando entra um trauma ou algo do tipo, um pedaço seu é "ejetado". O vazio, a solidão seria falta de si mesmo, dessa parte perdida por aí.
Hoje estava conversando com um amigo sobre uma amiga em comum que sofre muito, embora seja uma boa pessoa. Vive com problemas de depressão. Negra, de família pobre, lésbica. E gente delicada não sabe se defender direito e se for inteligente piorou, porque ainda por cima vai sacar a situação. Eu acho que boa parte dela foi ejetada.
Daí, mais tarde, lembrei de uma aluna de jornalismo muito inteligente, mas a rainha da ausência de corpo presente, eterno ar de entediada. Ia chamar de preguiçosa quando lembrei das linhas gerais dela: negra, da periferia, lésbica, militante, gorda.
E como elas penso em um monte de gente que faz parte de minorias, que enfrentaram violência na vida, com dificuldade de estar presente, com eterno ar de Escrava Isaura, caminhando meia boca pela vida. Um cansaço de alma que não passa. Feridas de guerra que, inconscientes, não vão cicatrizar.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Survivor


Sobrevivente:
1.
que ou o que permanece vivo ou continua a existir, depois de determinada experiência de risco.
2.
que ou quem resiste aos embates, circunstâncias, dificuldades da vida.

Sim, eu sou uma sobrevivente. Quem tá de fora talvez não tenha essa consciência, mas juntando a minha natureza com a minha história de vida, e eu acho um milagre eu ainda estar aqui. Nunca vou esquecer de um tratamento de cromoterapia que eu fiz em 2013. Quando a terapeuta foi checar os meus chacras, só o básico estava forte e trabalhando intensamente para compensar os outros, o que fez ela exclamar: "É o animal brigando para viver". E era isso mesmo e é isso até agora.
Claro que isso deixa sequelas e no meio do processo eu perdi minha espontaneidade (o que levou junto meu lado afetuoso e, eu sei que pra algumas pessoas seria difícil acreditar, sou uma pessoa muito carinhosa), um pedaço da minha alegria e um tanto do meu senso de humor, boa parte da minha confiança nos outros e, por enquanto, perdi a vontade de me juntar. Mas, como disse o poeta, "quem quer passar além do Borjador, tem que passar além da dor". O caso é que eu sobrevivi e estou cada dia melhor que ontem, embora a lista de trabalho a fazer ainda seja imensa. 
Portanto, meus queridos, como canta Queen Bey:
I'm a survivor (what), I'm not gon' give up (what)I'm not gon' stop (what), I'm gon' work harder (what)I'm a survivor (what), I'm gonna make it (what)I will survive (what), keep on survivin' (what)

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Paulina




Sabe aquele filme que te leva para um lado, depois te joga para o outro e, no final, você fica com a mente fervendo? É Paulina, filme argentino de 2015, uma adaptação de La Patota, filme dos anos 1960.

A protagonista é uma advogada brilhante, filha de um juiz de Buenos Aires, que escolhe dar aulas sobre política numa escola bem pobre do interior da Argentina. Lá, ela passa por uma situação punk, mas, ao contrário das expectativas, ela continua no mesmo lugar, fazendo tudo como se nada tivesse acontecido. Assim é a personagem central: às vezes você a entende, em outras tem vontade de dar um chacoalhão nela.

Paulina toca em várias discussões: violência contra mulher, a truculência do sistema policial-jurídico, que, como diz a protagonista, quando se trata de pobres, não quer saber de buscar justiça, mas de culpados. É uma personagem de convicções muito fortes, de tal forma que determinadas escolhas em nome de uma ideologia parecem anulá-la como ser humano, enquanto individualidade. Como eu disse, desperta admiração e também indignação.

O ponto mais interessante da protagonista é justamente esse: a capacidade de mesmo diante de uma situação muito desfavorável a ela manter um senso crítico sobre o que a sua figura representa socialmente. Mas isso às vezes escorrega na culpa por ter privilégios sociais, por ter nascido branca, rica e inteligente, o que de certa forma tira a sinceridade da luta dela e de certo modo também a dignidade das próprias pessoas que ela quer ajudar/poupar. Como adverte uma mulher local: ela sente pena e ninguém gosta de ser olhado assim, situação que faz é despertar ódio e não ligação. Esse é um erro de gente de esquerda: paternalizar demais os subalternizados socialmente, como se a pobreza lhes tirasse a agência, a capacidade de escolher, de agir por conta própria, enfim, quase como se fossem sem alma. Esquerdista falando de pobre é quase Caminha falando dos índios (risos). A esquerda bota essa turma pequena demais enquanto que a direita coloca grande demais, no sentido de achar que a força do indivíduo sozinha é capaz de superar estruturas opressoras seculares, como se o contexto social não quisesse dizer nada e todos tivéssemos as mesmas condições para o sucesso. 

Dolores Fonzi merece palmas. Eu já a vi em outros filmes, então sabia que era boa atriz, mas essa personagem era difícil. E eu gosto da aparência dela, que é bonita, mas não é alinhada: o cabelo é meio desgrenhado, ela tem uma verruga nos lábios, ela usa pouca maquiagem. A cara mesmo de Paulina.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

The raw truth

A gente tem muito a tendência de ser perfeito/a, né? Da classe média para cima, então, só tem candidato/a a alecrim dourado (valores elitistas explicam). Eu já fui desse clube, mas estou mudando a direção.

Na verdade, perfeição é coisa de quem tem baixa auto estima. Pronto, falei! Imagine se Jesus tivesse querido ser perfeito para a sociedade da época dele? Ele não seguiu as regras, ele quebrou as regras; ele elevou as regras ao seguir as regras dele.

Muita gente sofrendo não por si mesmo, mas porque não cumpriu as expectativas dos outros. E tem gente que, mesmo íntima, é cruel com os seus afetos. Ninguém deveria fazer isso em uma família, em um relacionamento. Até porque muitas vezes essa exigência com os outros é baixa autoestima nossa. 

Como sabiamente diz José Medrado, o "sim" que você dá aos outros é o "não" que você se dá. Deveríamos nos tocar disso.

Uma amiga minha, que tem essa mania de passar os outros na frente dela, comentava comigo da barra enfrentada por uma amiga em comum que lida há anos com o câncer. As pessoas olham para vidas "imperfeitas" com medo e desprezo. Em parte entendo, porque o medo de sofrer é altamente compreensível. O problema é o modo como se olha para quem passa por um sofrimento. Sinceramente, na abundância é fácil ser grande; quero ver é pisar no fogo e conseguir chegar inteiro do outro lado. A gente se ilude em perseguir o posto de "band leader", mas a gente está aqui para enfrentar o que vier; o que a gente tem é o dia. O grande objetivo disso tudo é ser melhor que ontem. E digo mais, nem tudo que você precisa resolver, vai resolver nessa vida. É fazer o que puder, o melhor que puder pra viver (e morrer) em paz. 

Essa amiga com câncer em questão se tornou alguém visivelmente melhor espiritualmente ao passar pela doença. Vale dizer que antes disso ela já estava na trilha. Se ela for embora deste mundo amanhã, além de ter tido uma boa vida, com amigos e cheia de experiências bacanas, ela soube usar os eventos da trajetória dela para se engrandecer. Gostem ou não, isso é a vida. A gente está aqui para transcender nossos limites. Ponto.

Equilíbrio



Adoraria ser independente financeiramente de forma folgada. Na falta disso, eu adoraria ser herdeira ou sustentada (mas ainda prefiro independência, para poder sair quando puder). Buscar dinheiro é um grande aperto de mente e às vezes te faz fazer concessões nada agradáveis, ainda mais num país escravocrata como o Brasil.

Não sou contra a mulher ser dona de casa sustentada pelo marido, não, desde que isso seja de comum acordo. Só acho que pode ser uma armadilha, haja vista que, por melhor que seja o caráter dos envolvidos, no coração não se manda.

Uma amiga minha, que estudou terapia sistêmica de família, estava me explicando isso de um ponto de vista terapêutico, dizendo que o ideal é que a energia do dinheiro entre igual dos dois lados. Do contrário, é bem possível que, ao estar com alguém que o/a sustente, esteja procurando um pai ou uma mãe.

Entre os orientais é comum que eles sejam donos de um mesmo negócio, buscando esse equilíbrio. Olhos puxados, visão larga.

Mas existe outro desequilíbrio, que é o de expectativas. Homens entram no casamento para ter família; as mulheres para ter romance. Como a expectativa do homem é objetiva, é muito comum que ele negligencie a subjetiva da mulher. Que, por sua vez, acaba às vezes jogando essa vontade de ligação para os filhos (olha o problema!). Minha amiga observa que falta amizade entre os casais, que as pessoas não são orientadas por seus familiares a procurar por isso numa relação e que, na experiência dela de casada e de terapeuta, sem isso vai por água abaixo - e eu observo que sem isso, se continua, alguém trabalha por dois e ressentido.

Acho que fica evidente que o ideal é entrar nas relações já resolvido, sem necessitar de nada, só mesmo do amor do outro, sem esse lance de metade da laranja. Fábio Jr. cancelado