Quando era criança, existiam basicamente dois tipos de mães: as que trabalhavam e as que eram donas-de-casa. As primeiras formavam um grupo menor, até por ser recente, mas não menos expressivo na sociedade.
O engraçado é que as duas turmas não se estranhavam como agora. Estar em casa ou trabalhar eram opções de vida. Não, não. Minto: as mães que trabalhavam eram um pouquinho mal-vistas, sim. O respeito que se tinha pela mãe trabalhadora era mais por dever que por apreço, propriamente. Além do "abandono" aos filhos, essas mulheres eram, não raramente, também sinônimo de escolhas amorosas ruins: ou se casaram mal ou "se perderam" com um qualquer. Naquela época, os homens de classe média ganhavam bem, então das três, uma: ou o marido da mãe trabalhadora não ganhava o suficiente para sustentar a família; ou ela era mãe solteira e tinha que correr atrás do dinheiro sozinha; ou ela era apenas uma (jovem) metida a moderna que entregava os filhos nas mãos da empregada em nome do capricho de ter uma carreira.
Lembro de um loirinho, vizinho de quadra, filho único de uma mãe solteira. O garoto passava a tarde inteira a nos espiar brincando, pela grade da janela. A cena por vezes nos causava mal-estar. Para a quadra inteira, no fundo, a mãe daquela criança era uma desalmada. As mães em tempo integral faziam comentários à boca pequena: "Tadinho! Fica preso que nem um passarinho na gaiola. Pra que pôr filho no mundo, meu Deus?", lamentavam.
No íntimo, as mães trabalhadoras também tinham as críticas delas às donas-de-casa. Na infância, já presenciei insinuações - discretas, é verdade - de que essas seriam mulheres acomodadas na vida e submissas aos maridos. Mas ninguém ousava falar isso abertamente, até porque as que olhavam torto para elas eram filhas de mulheres iguais, e isso garantia algum respeito pela condição de mãe em tempo integral.
Imune a essa rixa velada, somente as professoras. Talvez porque, apesar de trabalharem fora de casa, assumissem ainda assim uma função maternal, tipicamente feminina.
Esse quadro mudou bastante nos últimos 20 anos. Hoje em dia, é difícil convencer uma mulher a cuidar dos filhos em casa. Mais difícil ainda é convencer as pessoas em volta dela quando esse desejo surge na mulher que se tornou mãe.
Em um mundo que exige cada vez mais produtividade, é duro explicar à sociedade o desejo de "parar" - sim, com aspas, porque filho também é uma produção e das mais importantes e trabalhosas. É complexo, nessa sociedade que prega o individualismo, explicar aos outros que alguém seja tão importante para você quanto você mesmo. Isso só emociona as pessoas quando está no papel ou quando é dito da boca para fora. Se posto em prática, ganha os rótulos da preguiça e da submissão.
Talvez esse conflito feminino não existisse se vivêssemos em um sistema mais humano.
Na Suécia, por exemplo, o pai pode tirar dois anos de licença para curtir a cria, sem retaliações no mercado de trabalho. Isso não ocorre de jeito algum no Brasil. Mas será que, se assim fosse, o brasileiro usaria essa licença para cuidar dos filhos? A própria Suécia demorou até convencer os seus homens e mulheres da importância dos cuidados paternos nos primeiros anos de vida da criança. A persistência do Estado gerou bons frutos, e hoje é comum ver naquele país os homens em cenas com os filhos que até há pouco tempo eram exclusivamente privativas das mulheres. O que antes era encarado com uma inferiorização, hoje é visto como o direito legítimo de estabelecer um vínculo com o bebê e uma tarefa de suma importância na vida de homens e mulheres.
Penso que todo mundo, antes de ter um filho, deveria se perguntar se por este ser humano que vai botar no mundo seria capaz de ficar até dois anos sem esquentar o traseiro em uma cadeira de escritório - mesmo que isso estivesse fora dos planos. Sim, ter filhos é renunciar a um pedaço da sua liberdade, mas parece que uma parte das pessoas anda desavisada disso ultimamente.
Essa renúncia é maior no caso das mães que optam por estender a assistência aos pequenos depois dos quatro meses de licença. Uma boa dose de ansiedade deve acompanhar tal decisão, que, em alguns momentos, pode se tornar uma escolha difícil de administrar internamente. Cuidar de uma criança é um trabalho braçal, repetitivo e por vezes monótono. Creio que, frequentemente, a mãe deve achar que está levando uma vida mais pobre que a das mães que trabalham. Isso sem contar a ansiedade em relação ao futuro, ao que pode acontecer quando as crianças crescerem e você tiver que "voltar ao mundo real". Não penso que essa seja uma decisão simples e confortável como muitos a consideram. É muito idealismo na veia.
Confesso que gostaria de ficar integralmente com os meus filhos no primeiro ano de vida deles e que acharia perfeito se pudesse, ainda, trabalhar um turno só (ou menos de 8 horas) até que o mais velho completasse sete anos. Ficaria muito mais sossegada se pudesse garantir que saberiam gritar por socorro, ler a embalagem dos produtos da despensa ou ligar para os bombeiros, antes de voltar a assumir uma jornada integral de trabalho (risos). Com quatro meses de vida, dá uma pena danada de deixar um bichinho indefeso desses nas mãos dos outros. Mas sei que, a não ser que case com um homem que ganhe muito dinheiro ou arranje um emprego privilegiado, isso não vai ocorrer. Nessas horas, me consolo pensando em um grupo que está numa situação zilhões de vezes pior: as mulheres de baixa-renda, que muitas vezes largam os próprios filhos para cuidar das crianças dos outros (esse quadro só não é mais deprimente porque as abençoadas avós salvam a pátria dos netos abandonados em nome da necessidade).
Um amigo meu - pessoa muito inteligente cuja opinião considero bastante - é professor do ginásio em um conceituado colégio particular do Rio de Janeiro. Ele, outro dia, me contou algo que já desconfiava acontecer nas escolas brasileiras: os alunos chegam ao colégio com uma pobre base familiar (pais ausentes, que não têm paciência para educar os filhos e basicamente se preocupam em proporcionar conforto material a prole) e muito sabichões devido a internet. A escola, diante disso, fica de mãos e pés atados. Enfim, a juventude de hoje está absolutamente entregue a própria sorte, à deriva em um mar de informações e de pressões do seu grupo etário. Que sociedade vamos formar desse jeito?
Além do fator sociedade, existe ainda o afetivo. As pessoas esquecem de um detalhe fundamental nessa história toda: são nesses primeiros sete anos que as conquistas mais importantes da criança acontecem. Nunca mais esses momentos vão se repetir.
O que me deixa quase tão triste quanto saber que vou ser mais uma mãe trabalhadora a largar os pimpolhos em casa, é saber que, mesmo que pudesse abrir mão de trabalhar (tanto) durante a infância dos meus filhos, seria discriminada por essa escolha. Adquirimos direitos que nos tiraram outros direitos, mas estamos na ilusão de que não perdemos nada. Isso é perigoso. Precisamos rever o que realmente vale a pena na vida de um ser humano; e mais: precisamos investigar esse conceito contemporâneo de liberdade, que a muitos tem deixado aprisionados e infelizes. Precisamos garantir que efetivamente as pessoas tenham o direito de escolha.
* Mothern - mãe moderna