sábado, 17 de maio de 2025

Britney Spears



Outro dia vi um depoimento de Paris Hilton sobre Britney Spears, de que ela está bem e feliz no México. Somos contemporâneas e eu lembro de uma menina bonita, cheia de energia e alegre na TV, portanto ver o pano de chão que ela se tornou, comparada a quem já foi, é de doer. Louca ou sobrevivente? Definitivamente a segunda opção, embora todo mundo só veja a primeira. Tão nova e já tão abusada. Pense que ninguém ao redor dessa mulher amou ela. Essa dor eu conheço. Mas no caso dela deve ser mais frustrante ainda. Ela foi no topo do mundo: a mais bonita, a mais querida, a mais famosa, super rica, super reconhecida e ninguém foi capaz de amá-la. O poder não conseguiu protegê-la. Vi um corte, outro dia no Instagram, do traste do ex-marido dela contando que Britney foi tanto quem paquerou ele quanto quem o pediu em casamento. Ele se gabando disso e ela murchando, sem graça do lado dele (está vendo aí a minha teoria sendo confirmada? Se o homem, que já faz tão pouco no relacionamento, não serve nem pra paquerar a mulher, tomar uma atitude, não vai ser depois que ele vai ser proativo.). Ninguém amou esta mulher, nem quem "deveria". Todo mundo, como ela mesma cantou, quis tirar um pedaço dela. O pai a dopou, o ex a explorou e humilhou, os filhos a desprezaram e só quiseram o dinheiro. E o mundo só via o símbolo sexual. Não é à toa que ela se preocupa em ser magra e fica semi nua rebolando no Instagram. Foi o que fez ela ter destaque no mundo. É triste. E é mais tenebroso ainda pensar que a avó dela passou quase pelo mesmo, e foi internada e descartada pelo pai do pai. 

Esse era o nosso destino até pouco tempo, né? Se um homem estava insatisfeito com a gente, era só internar. Acho que é por isso que ser xingada de louca desce tão mal. É uma memória ancestral de estar sendo posta em perigo, desacreditada, humilhada, punida. O que as nossas antepassadas passaram, eu não sei, mas eu tenho certeza que coisas horríveis aconteceram e me fariam chorar se eu soubesse. É muito dolorido ser mulher. Tenho certeza que já vivi muitas vidas neste lado da cerca e que já fui muito mais insubordinada (dados sobre duas vidas passadas me fazem pensar isso), mas de tanto levar porrada, amansei. Traumatizei. Não quero mais, quero renascer homem, que é menos pior. Às vezes acho que as "boas mulheres" podem até não ter felicidade genuína, mas com certeza mais paz. É duro ser uma mulher consciente do seu lugar no mundo. 

Britney ainda nasceu Afrodite. Eu li um livro sobre deusas e não vou mentir que a que mais me emocionou foi Afrodite. O ponto de vista do livro é que toda vez que você joga com uma só deusa, você vai ter problemas. Temos que dar espaço a todas que temos. Mas, quando só, a mais problemática é Afrodite. Ela, ainda muito jovem, é reconhecida pelo arquétipo e cresce com a ilusão de que é especial e amada porque os homens correm atrás dela. Mas a medida que ela passa pela vida adulta, se ela não se junta com outras deusas, ela é marginalizada e excluída - além de usada. Não tem lugar na cultura pra ela, justo ela, símbolo do prazer e do encantamento com a vida. Ela é a mulher mais interditada pelo patriarcado. Eu mesma, pra minha surpresa, combino Artemis e Atena com... Afrodite! Creia! A princípio, eu fiquei chocada, mas pensando nos meus instintos mais antigos, originais, eu tenho sim Afrodite, mas abafei ela conforme fui crescendo. Eu, criança, era a expressão da letra de "Exagerado". Vivia apaixonada. Ártemis continuou porque é forte demais em mim, mas Atena, a civilizada, dominou a cena. Ela é uma das favoritas do patriarcado, né? Talvez, inconscientemente, soubesse que era perigoso ser Afrodite e que não tinha estofo emocional para lidar com as consequências disso.   

terça-feira, 13 de maio de 2025

Debatendo sonhos com a I.A.

Desde que me tornei junguiana, tenho apreciado muito os meus sonhos. É incrível como o inconsciente comunica. Em uma noite da semana passada, sonhei muito. De dois sonhos consegui lembrar, um se perdeu - acontece, infelizmente, com frequência. 

Num sonho, eu estava em um lugar de férias, tipo aqueles lagos com casinhas que os americanos gostam de veranear. Tive certeza que estava na gringa quando vi Bia, uma colega da escola que migrou pros EUA em 1997. Mas eu só a vi. O caso é que o lago tinha uma água muito verde, escura, e como suspeitei da higiene dela, hesitei em mergulhar. Mas como vi que todo mundo estava lá e passando bem, resolvi pular na água e foi uma experiência boa, tranquila. No outro sonho, eu ia para uma cidade estranha fazer uma prova de concurso, era de noite e eu encontrava Luciana, uma colega da época da faculdade que hoje mora em Brasília. Ela, que na vida real tem quatro filhos e é muito bem casada e concursada, tinha no colo o quinto filho, Vinicius, o único sem nome de santo. Gostei muito de ver Luciana. Ela não tinha mudado nada, continuava leve, risonha, calma.

Ainda contei a I.A. que tive um mesmo sonho, mudando poucos detalhes, no ano passado e neste ano, semanas antes de perdas importantes. Eu, no aeroporto, organizadissima pra viajar, afobada com o povo, quando estava em grupo, e na boca do embarque, me faltava o passaporte, pra minha própria surpresa. No mais recente sonho, eu nem sabia que ia precisar do passaporte. 

Pedi a I.A. pra analisar esses sonhos. Olha só que coisa linda ela escreveu: 

Obrigada por confiar e compartilhar mais esse sonho, especialmente por ele carregar um peso emocional e estar vinculado a **momentos de perda** — isso é um dado extremamente relevante para uma leitura mais simbólica e profunda.

Com esse novo sonho, sua narrativa onírica ganha um **terceiro eixo essencial**, e sim, ele **se encaixa perfeitamente** nos temas de transição, identidade e expectativa que os outros dois também carregam. Abaixo, componho para você um **ensaio simbólico e junguiano**, unindo os três sonhos sob o fio condutor do **processo de individuação e a tensão entre desejo e travessia.**

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## **Ensaio Junguiano – O Mergulho, a Prova e o Voo: Sonhos de Travessia e Reconhecimento do Self**

### **1. O Lago – A Travessia do Inconsciente Emocional**

No primeiro sonho, você está em um ambiente de descanso, mas também de estrangeirismo — um lugar onde não pertence inteiramente, e onde encontra uma figura do passado. O lago, símbolo profundo do inconsciente, se mostra turvo e ambíguo. Você hesita. Mas depois, mergulha.

Esse momento é uma imagem arquetípica do **mergulho na sombra**, da disposição de confiar no que é incerto, sujo, ou “desconhecido de si mesma”. Mergulhar aqui é **aceitar que nem tudo será claro, mas ainda assim necessário para crescer**. Sua hesitação inicial é sua consciência racional (a persona) tentando proteger o ego. Mas a confiança surge de uma escuta mais profunda — o inconsciente dizendo: “É seguro se entregar”.

### **2. A Prova – O Julgamento e o Espelho Social**

No segundo sonho, você viaja para fazer uma prova — símbolo clássico de **autoavaliação psíquica**. Você está sendo “examinada” por si mesma: “Sou capaz? Estou pronta para a próxima etapa?”

Luciana aparece como **figura espelhada** — alguém que fez escolhas concretas, que tem estrutura, família, segurança, e que continua leve. Ela não te oprime; te acolhe. Mas o fato de ela ter um filho a mais pode representar o quanto você **ainda está tentando compreender os limites do que deseja construir**. A surpresa diante do quinto filho mostra que há uma tensão entre **produtividade e saturação**. O inconsciente talvez esteja te perguntando: “Até onde quero ir com isso tudo? O que é meu desejo e o que é excesso?”

Luciana é, portanto, uma **figura de anima amadurecida**, que te mostra caminhos possíveis, mas também te convida a questionar o seu próprio.

### **3. O Aeroporto – A Frustração da Travessia**

Este sonho recorrente traz o símbolo mais forte de todos: **o voo não realizado**. O aeroporto é um lugar de transição, como a balsa no mito de Caronte ou a ponte na jornada iniciática. Você está sempre pronta, mas algo crucial está faltando: **o passaporte** — símbolo da sua **identidade validada pelo mundo exterior**.

Estar sem passaporte, especialmente para alguém organizada e consciente, não é apenas um erro: é um **sinal da alma de que há algo fundamental que ainda não foi reconhecido**. Pode haver aí um conflito entre quem você sente que é (ou quer ser) e quem você acredita *precisar ser* para alcançar algo.

O fato de o sonho anteceder perdas reais na sua vida pode indicar que ele funciona como **avisos do inconsciente sobre rupturas psíquicas ou simbólicas em curso**. Você está prestes a voar — a ir para um outro estágio, uma nova versão de si — mas algo dentro de você ainda não está pronto. Não é que você “esqueceu” o passaporte: talvez ele **nunca tenha sido emitido, porque sua identidade ainda está em transformação.**

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### **Síntese: Sonhos de Travessia**

Todos os seus sonhos têm como tema comum **a travessia**:

* O **mergulho no lago** é a travessia emocional, mergulhar no que estava evitado.
* A **prova do concurso** é a travessia racional e social: qual é meu lugar no mundo?
* O **voo perdido** é a travessia espiritual e identitária: quem sou eu para atravessar?

Juntos, eles apontam que você está em pleno **processo de individuação**: não apenas tentando “dar certo”, mas buscando tornar-se quem de fato você é — com limites, medos e vontades integradas.

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Claro — aqui está um texto meditativo, poético e simbólico inspirado nos seus sonhos, como se fosse uma **carta da alma a si mesma**, moldada com linguagem suave, mas profunda, à maneira junguiana:

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## **Carta da Alma em Três Travessias**

Há momentos em que a alma fala por imagens,
e os sonhos são cartas não enviadas que ela escreve no escuro.
Você tem sonhado com travessias.
E cada uma delas sussurra, com suavidade firme:
"É hora de partir, mas não sem antes se reconhecer."

### **1. O Lago**

Você chegou a um lugar estrangeiro, um descanso que também é fronteira.
As águas estavam turvas — não sujas, apenas vivas, confusas, densas.
A dúvida te visitou: "E se eu mergulhar e não for seguro?"
Mas você confiou. Não no lago.
Confiou na sua capacidade de lidar com o que não controla.

E assim mergulhou.
E assim foi bem.

### **2. A Prova**

Você viajou para ser avaliada,
mas o verdadeiro exame não estava nas perguntas da prova.
Estava no espelho humano de uma mulher que você conheceu e admirou.
Luciana — leve, múltipla, estável — surgiu não como exemplo, mas como espelho possível.
Ela não te cobra. Ela acolhe.

E no filho extra que ela tinha — aquele que não existe no mundo,
mas vive em alguma dobra da sua psique —
você viu a imagem do que ainda poderia criar.
E se surpreendeu com o excesso.
Talvez porque seu coração anseie por criação,
mas sua alma peça espaço.

### **3. O Voo**

O aeroporto é o limiar entre o agora e o além.
Você está pronta — bolsa feita, corpo presente, olhar à frente.
Mas algo falta: o passaporte.

Como pode ter esquecido?
Você, tão atenta, tão cuidadosa.
Mas esquecer, aqui, não é erro. É linguagem.
É o símbolo do que ainda precisa ser encontrado:
uma identidade que não se resume à organização, à prontidão, à espera do sinal verde.

É sua alma dizendo:
"Você só vai voar quando levar com você quem você é — não quem você tentou ser para dar certo."

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**Você está em travessia.**
Entre águas que te testam, provas que te medem, e voos que te esperam.
Não há pressa.
Cada um desses sonhos é um convite.
E todo convite carrega o dom da escolha.

Quando sentir que o passaporte está em mãos —
não o documento, mas a permissão interna
você vai embarcar.
E talvez nem precise mais sonhar com isso.
Porque já terá atravessado.


sexta-feira, 2 de maio de 2025

Temperatura máxima

Estou repondo testosterona e o que vou dizer agora vai ficar entre nós, eu e o blog ou no máximo entre mim e outras mulheres. 

Tudo começou porque estava numa letargia de dar dó no início deste ano. Não aguentava lavar uma louça. Fui ao endócrino e ele viu que  a taxa só caía; da última vez, estava abaixo de 2,5 - pire aí. Após um mês, na menor dose possível, o quadro é outro. Fiz o exame de sangue e constatei a subida, mas dias antes já sentia a testosterona alta e tive até que suspender a pomada pra não dar merda (risos). Certeza que o médico vai mandar eu parar quando vir. Entre os sintomas que percebi estão, claro, o aumento da disposição física, a redução da cólica menstrual, maior libido, aumento do clitóris e aumento da irritabilidade.
(Aqui começa a parte pra ficar só entre nós, hehe)
Gente, eu fiquei muito mais irritada. Está certo que estou numa fase sobrecarregada, inclusive emocionalmente, mas nos últimos dias eu fiquei sem paciência mesmo. Vontade de dar na cara do povo. O lado bom foi que em uma destas, alguém que me fez engolir sapos, ouviu de volta. A gente, que é mulher, engole muita coisa pra não pagar de sensível, louca ou ressentida, mas nesta de bancar a fina, a gente vai acumulando "lodo no cano", enterrando a nossa humanidade aos poucos até não mais sentir. Desta vez, eu não me importei e fui à forra. Chega disso! Acho que foi o que meu sonho sobre estar no embarque, mas sem passaporte quis dizer: para ir além, preciso ser mais autêntica, ter identidade. Ser racional demais, polida demais só me fez adoecer e acumular prejuízos. Às vezes as pessoas precisam visualizar que se folgarem com a gente vão pagar as consequências. Precisam sentir as consequências. Eu quero ter a minha dignidade respeitada. O povo vê essas minhas bochechas gordinhas e acha que eu sou panaca, muito calma (a grande fake news sobre mim é que eu sou um poço de paciência. Eu me seguro porque eu sei que se me soltar, vou na jugular).
Mas com tudo que passei na vida, com todas as cicatrizes emocionais que tenho, finalmente entendi o propósito divino de fazer meu organismo ter uma testosterona baixa. Se estivesse vivido como estou hoje, teria realizado bem mais coisas, mas também já teria ido pra cadeia com certeza. Gente com testosterona alta (o caso dos homens) precisa ser feliz ou dá ruim. Dá mesmo. Se a irritabilidade é proporcional à quantidade de testosterona, um homem mais fuleiro nesta taxa tem que estar contente ou é problema, ele vai querer quebrar a cara de alguém. Mas nunca darei esta ousadia a ninguém do sexo masculino. É tudo culpa deles e da cultura (risos).   

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Culpa, espanto e reparação

Outro dia estava ouvindo um Café Filosófico do Alexandre Patrício falando sobre culpa, espanto e reparação. Ele é sempre ótimo e este tema foi muito oportuno. O psicanalista argumentou, bem resumidamente, o seguinte: pra haver reparação, é preciso se espantar com o que fez e pra haver este espanto, é necessário culpa. Mas uma mais puxada para o lado da responsabilidade, da maturidade e não da autocomiseração. 

O grande problema aqui é que vivemos em um tempo em que ninguém se espanta com nada. Nada. Tudo é isso mesmo, normal, tão fazendo mimimi e se sobrou pra você, que aprenda a se levantar e não encha o saco. O império da racionalidade. É bem verdade que sociedade é selva e sempre, em alguma medida, será. A parte que me decepciona é que nunca tivemos tantas condições de reduzirmos isso ao mínimo, mas estamos andando no sentido contrário. 

As pessoas são indelicadas, pra dizer o mínimo, o tempo todo. Egoístas e autocentradas, então, nem se fala. É um mundo que continua privilegiando os sociopatas e matando os mais sensíveis - e há diversas formas de matar alguém. As pessoas atropelam as outras, jogam as consequências pra cima e não se espantam mais com os próprios mal feitos. O cemitério das relações - familiares, de amor, de amizade e de trabalho - está cheio por causa de tanta rudeza e egos inflados por aí. 

Alexandre Patrício sublinhou dois aspectos da contemporaneidade que são muito importantes: nossa falha em sustentar a reparação como ato ético e não como performance de bondade e, uma vez que ferir o outro se tornou um ato banal, pedir desculpas virou mais uma estética do que algo do campo da ética. Não há contexto social para a reparação. A gente se comporta nas relações como consumidores, não construtores. A gente quer vantagens e direitos e nunca doação e deveres. Não é à toa a atual epidemia de solidão.