domingo, 1 de maio de 2016

Sobre a dor

Qualquer ser humano com um par de neurônios e algumas décadas de existência já é capaz de entender que a vida não é justa.
Ontem, na pós, uma colega nascida e criada na periferia, primeira geração de sua família a se formar, fez um discurso inflamado sobre o círculo vicioso que é a pobreza. Por fim, emocionada, confessou que sempre será carimbada, pela sociedade, como uma mulher da periferia.
A declaração chocou alguns colegas, que nunca haviam feito essa associação a respeito dela. A professora, com uma história parecida de superação e um dos raros casos na academia de pesquisadores que metem a mão na massa para fazer essa corrente do bem ir adiante, fez um discurso anti vitimismo. A moça abaixou a cabeça em claro sinal de discordância.
Traumatizada por episódios de discriminação, ela deve ter perdido a noção da realidade. Se é inegável que para filhos de analfabetos é muito difícil tomar os instrumentos da mudança, por outro lado não é impossível - ela mesma é a prova.
Chego em casa e vou assistir, mais uma vez, "Comer, rezar e amar", um filme sobre a dor do tédio, do vazio.
Não saberia dizer qual das dores é a maior, a da falta ou a do tédio. Na primeira, dói a indiferença do outro; na segunda, mata sentir a própria indiferença.
É muita miséria para um planeta só.