Quem me conhece sabe que eu tenho uns buracos familiares. Fico até com vergonha, mas no fundo sei que quase todo mundo tem família como a minha, mas ninguém fala. Eu falo. Aliás, eu me exponho demais, mas não tenho paciência pra hipocrisia. Também desconfio que muitas das minhas dores não bateram iguais nas minhas irmãs. É que o trauma não depende exatamente do que aconteceu, mas de quem recebeu o que aconteceu. Um incêndio numa casa pode paralisar uma pessoa e traumatizá-la e outra pode passar pelo mesmo evento e seguir a vida normalmente. Geralmente traumatiza quem não teve condição de reagir e não entende isso, e se culpa. Se você pensar que eu sou a caçula e a mais família de todos eles, talvez aí esteja a resposta da charada.
Sempre tive dúvidas sobre ter filho ou não sobretudo porque não queria passar de novo o que passei com minha família. Sei lá, acho que tenho uma certa crença no nosso sangue ruim, de que vão nascer pessoas iguais as que já não me dou e que são mais velhas que eu nessa família.
E eis que recebo más notícias de Felipe.
Anda aprontando. Até aí, tudo bem, se esse "aprontando" fosse rompendo com as expectativas dos pais de forma saudável, para viver seu processo de individuação. Segundo Jung, o processo de individuação é sair da expectativa dos outros e se encontrar com as suas próprias. Quem não buga na infância e na adolescência dá tilt depois. Fato. Mas esse processo dele está vindo, pelo que soube, com raspas de perversidade, e isso é tudo que não pode acontecer. Qualquer pai ou mãe obteve sucesso se criou alguém ético, uma boa pessoa. Falei isso, aliás, anos atrás me referindo ao filho de um casal amigo que não se deu bem na vida, mas é boa pessoa.
Isso me disparou o gatilho da maldição familiar. Eu não sei se vou continuar gostando dos meus sobrinhos se eles se tornarem pessoas de índole ruim. Estou aqui pra ajudar, mas para isso eles precisam querer se melhorar, se ajudar. E pra ser ruim não precisa ser marginal, não. Humilhar gratuitamente os outros está incluso nesse pacote. Ser uma pessoa sem empatia já tá no script. Um macho escroto desses aí que a gente encontra a rodo pelo caminho, sabe?
Mas vamos orar. Ainda tem muita água pra rolar nessa ponte.
Eu que não quero arriscar. Filhos, nesta vida, melhor não tê-los pelo visto.



