segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Nós de família

Quem me conhece sabe que eu tenho uns buracos familiares. Fico até com vergonha, mas no fundo sei que quase todo mundo tem família como a minha, mas ninguém fala. Eu falo. Aliás, eu me exponho demais, mas não tenho paciência pra hipocrisia. Também desconfio que muitas das minhas dores não bateram iguais nas minhas irmãs. É que o trauma não depende exatamente do que aconteceu, mas de quem recebeu o que aconteceu. Um incêndio numa casa pode paralisar uma pessoa e traumatizá-la e outra pode passar pelo mesmo evento e seguir a vida normalmente. Geralmente traumatiza quem não teve condição de reagir e não entende isso, e se culpa. Se você pensar que eu sou a caçula e a mais família de todos eles, talvez aí esteja a resposta da charada.

Sempre tive dúvidas sobre ter filho ou não sobretudo porque não queria passar de novo o que passei com minha família. Sei lá, acho que tenho uma certa crença no nosso sangue ruim, de que vão nascer pessoas iguais as que já não me dou e que são mais velhas que eu nessa família. 

E eis que recebo más notícias de Felipe. 

Anda aprontando. Até aí, tudo bem, se esse "aprontando" fosse rompendo com as expectativas dos pais de forma saudável, para viver seu processo de individuação. Segundo Jung, o processo de individuação é sair da expectativa dos outros e se encontrar com as suas próprias. Quem não buga na infância e na adolescência dá tilt depois. Fato. Mas esse processo dele está vindo, pelo que soube, com raspas de perversidade, e isso é tudo que não pode acontecer. Qualquer pai ou mãe obteve sucesso se criou alguém ético, uma boa pessoa. Falei isso, aliás, anos atrás me referindo ao filho de um casal amigo que não se deu bem na vida, mas é boa pessoa. 

Isso me disparou o gatilho da maldição familiar. Eu não sei se vou continuar gostando dos meus sobrinhos se eles se tornarem pessoas de índole ruim. Estou aqui pra ajudar, mas para isso eles precisam querer se melhorar, se ajudar. E pra ser ruim não precisa ser marginal, não. Humilhar gratuitamente os outros está incluso nesse pacote. Ser uma pessoa sem empatia já tá no script. Um macho escroto desses aí que a gente encontra a rodo pelo caminho, sabe?  

Mas vamos orar. Ainda tem muita água pra rolar nessa ponte.

Eu que não quero arriscar. Filhos, nesta vida, melhor não tê-los pelo visto.  

domingo, 18 de outubro de 2020

"It´s my party and I cry if I want it...

 


... you would cry too if it happened to you."

Essa música me lembra uma cena de "O Pestinha", quando uma menina nojentinha, a aniversariante, chora ao ver sua festa sendo estragada. 

Corta para o Brasil da semana passada. Divórcio de famosos. Ele, pateticamente, acordou a esposa às 3h da madrugada para dizer que não dava mais certo. O Brasil inteiro dizendo que foi um absurdo, que casamento não se desfaz assim, que ele não deu chance pra ela resgatar a relação. Eu compreendo a dor da rejeição e a covardia do término à queima roupa, mas duvido que essa criatura não tenha dado sinais anteriores (ou foi a carência da esposa que não permitiu vê-los?) e ainda acho que, se não for pra ficar de boa vontade, melhor que se pique mesmo. Antes tarde do que mais tarde. Porque o ser humano anda tão escroto que é capaz de marcar território pra não ver o outro indo em frente enquanto mantém a vida dupla ocultamente. Não consigo compreender essa mania de gente casada de achar que casou, tem que ser pra sempre a qualquer custo. Gente, todo mundo vai embora, quer por vontade ou por morte. Toda separação é uma dor porque é o fim de um sonho, mas eu me sentiria mal de manter uma pessoa do meu lado a base do "você tem que". Você quer a relação, o parceiro ou o símbolo da relação?

Só que quando você pondera isso, parece que você está passando pano pra quem se picou (e quase todo mundo, ainda mais homens, faz isso muito mal, de forma traumática pro outro). Não tem nada a ver. O fato de admitir que as pessoas, via de regra, emitem sinais antes de partir não anula o fato dessa criatura que foi ter sido escrota. E achar que é melhor mesmo que se pique não anula a falta de cuidado no final do relacionamento. Por isso mesmo, vá com Deus (ou com o diabo). E vamos falar o português do Brasil: mesmo que o outro vá tocando harpa e avisando com seis meses de antecedência, vai doer do mesmo jeito; o que muda é ainda ter preservado seu status de gente que mereceu ser ao menos bem tratada, ter passado por menos uma humilhação. Poucas pessoas, pensando aqui entre os meus conhecidos, encarariam um fim com relativa tranquilidade caso esse fosse feito com respeito. Quase todos iam odiar o ex do mesmo jeito.   

No meu mundo ideal as pessoas agiriam com cordialidade e cuidado, mas não é esse o mundo que temos. Eu acho que todo mundo merece ao menos uma satisfação, mesmo que seja pra lavar roupa suja. Já disse coisas feias ao romper com pessoas, mas disse a verdade, a pessoa soube porque me piquei. Mas essa sou eu. Já quebrei muito a cabeça tentando imaginar o que tinha feito de errado, porque A ou Z se picaram do nada. Hoje não faço mais isso nem fodendo. Lido com o real. Aceito, mesmo que não concorde, mesmo que não tenha a menor ideia do motivo. Não interessa a razão, eu trabalho com o que a pessoa me deu. E se ela quis ir embora, ora, é porque não quis ficar. Esse é o fato e que nenhum motivo vai mudar, a não ser que seja o Super Man e ele tenha te deixado pra ir salvar o mundo. Melhor que vá. Eu respeito muito mais quem não desperdiça meu investimento e se manda do que quem fica de má vontade, resmungando, te fazendo sentir errada.

Na boa, não entendo a cabeça do brasileiro. Vamos parar com essa hipocrisia de todo mundo junto. Às vezes eu acho que até pra continuar gostando o ideal é separar mesmo. Na minha experiência, é justamente essa falta de timing, a mania de levar as situações ao limite que tornam os afetos irrecuperáveis.   


sábado, 17 de outubro de 2020

Discípula de Mutley

Eu me considero uma pessoa, no geral, boa, fofa e etc e tal. Mas se tem uma coisa que nunca aprendi e acho que vou sair dessa encarnação devendo é conseguir manter o nível, a fineza quando perco o respeito pela pessoa. É melhor até eu sair de perto mesmo porque, como diz o ditado, "quando eu sou má, sou melhor ainda".

Não seguro a língua. Sou cruel, eu sei (e às vezes genial nas tiradas, não vou mentir). É quase um espirro, é muito rápido; é pura reatividade. O caso é que tenho ética, depois me dá ressaca moral. As duas coisas na mesma pessoa não dá, né?

Crianças, não tentem isso em casa. Pode não parecer, mas é arriscado. 


sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Normal People


Eu jurava que tinha escrito sobre "Normal People" aqui, mas, abrindo o blog agora, vi que não. Como assim, Bial? 😱

Bem, assisti a série por recomendação de um youtuber (sim, eu sigo canais que falam de séries e outros canais sobre diversos temas no YouTube). Vi num tapa, até porque é curtinha, o que acho que é a tendência atual das séries. O povo percebeu que, com a enxurrada de séries, convém que elas sejam breves pra garantir que serão consumidas.

No caso de Normal People, além disso, tem o lance de ser baseada em um livro e a autora não se interessou por prolongar a história, tanto que só vai ter uma temporada mesmo. 

Eu gostei pra caramba porque é uma história que poderia acontecer com qualquer um de nós. Ouvi alguém comentando que o título faz alusão à saúde mental dos protagonistas, que sofrem períodos de depressão e autodestruição durante o desenrolar da história. 

A história se passa do final do ensino médio até mais ou menos o final da faculdade. Connel e Marianne cresceram na mesma cidade do interior da Irlanda, mas são opostos. Em comum, só a inteligência e a solidão. Apesar de terem convivido na escola quase a vida inteira, só no final dela eles se encontram por puro acaso... e se encaixam perfeitamente. Ela tinha dinheiro, mas não tinha o restante. Ele tinha o restante, mas não tinha dinheiro. Mas, embora ele fosse "o" popular, só com ela ele conseguia conversar de fato. Aquela coisa que o poetinha dizia, sobre a vida ser a arte dos encontros. Any doubt? 

Durante a trama, as vidas deles vão se separando e se reencontrando. Eles erram o tempo todo um com o outro - ele muito mais com ela do que o inverso -, mas são erros "perdoáveis" que falam mais de deficiências emocionais e questões de falta de autoestima próprias dos dois do que de falta de amor ao outro. Sim, tem amor ali, mas tem muita falta de autoestima em cada um e por isso, também, além de amor, há muita dependência emocional. O final da série, acho, é uma indicação de que esse padrão foi rompido, de que algo mais maduro vai brotar dali.

O que gosto nos dois é que, apesar da dependência emocional, eles não correm muito atrás do outro - e desconfio que isso reflete um traço dessa geração mais nova, nascida nos anos 1990, de não insistir no que tá difícil e fluir com a corrente 👏. Mesmo de coração partido, eles querem, no fundo, que o outro fique bem, e eu acho que é essa a parte que nos faz torcer pelo casal. E acho, também, que no fundo um tem muita certeza do afeto do outro, do lugar que tem na vida do outro, especialmente Connel. Mas se por um lado há amizade entre eles, há, também, muita confusão desnecessária por pura falta de comunicação, por mania de inferir sem perguntar antes. Bem normal people mesmo. 😕

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Atriz da estrada

 


Desde que essa pandemia começou a apertar, me deu uma vontade louuuuca de viajar. De preferência, pro outro lado do mundo. Tô morrendo de saudade da Europa, mas serviria qualquer lugar agradável longe do Brasil. E digo mais: não estranhe se eu ficar por lá.

Acontece que outro dia, vendo um documentário sobre o trabalho de Jim Carrey em "O Mundo de Andy", fiquei maravilhada com a capacidade dele de sair de si e ser outra pessoa, aquele personagem, por algum tempo. Eu nunca quis fazer teatro porque não acho que o tipo de persona exigido por esse meio combina comigo - embora, se tivesse um filho, faria questão de que tivesse aulas de teatro, que vêm bem a calhar no mundo de hoje que depende que você saiba se vender e rodar máscaras como nunca antes -, mas acho que numa próxima vida pode ser. Acredito que deve ser uma delícia poder ter férias de si mesma.

E foi conversando sobre isso com um amigo que ouvi dele uma frase genial, de que essa é a mesma sensação de viajar para o exterior. Bingo! É isso mesmo. Quando eu chego em uma cultura que não é a minha, em que eu sou desobrigada de relações, de expectativas, de códigos, eu posso descobrir aquele lugar e descobrir coisas novas sobre mim naquela terra estranha. É como poder tirar férias de si e ser outra pessoa. É libertador.

Troco, nessa vida, ser atriz por ser viajante. Com fé em mim e em Deus, vou rodar muito esse globo.