Com um mês e dez dias de atraso, posto aqui minha pequena homenagem ao eterno rei do rock, Elvis Presley. "The King" é um affair antigo, dos tempos da Sessão da Tarde* (risos). Não só a beleza, o charme e o raro talento vocal me impressionam em Elvis. Ele foi - e até hoje ninguém desmentiu isso - o último dos simplórios
e o primeiro dos grandes no show business mundial.
Sempre tive uma queda pelos "fracos e oprimidos", e Elvis me remete um pouco a um dos meus personagens favoritos da literatura, o Zé do Burro de
, de Dias Gomes. O Zé só queria pagar uma promessa e um circo inteiro de gente aproveitadora se formou em torno dele. Elvis só queria cantar...
O menino é o pai do homem - A vida do rei do rock se divide em antes e depois da morte da mãe, Gladys Love Presley, em agosto de 1958. Para entender a profundidade e a extensão dessa perda, é preciso saber que a mãe era o eixo da vida de Elvis, e isso desde o berço. Na infância do cantor, um apenas podia contar com o outro.
Elvis Aaron Presley*** nasceu em 08 de janeiro**** de 1935, no Mississipi. Seu irmão gêmeo, Jessie Garon, não sobreviveu. Dois anos mais tarde, o pai, Vernon Elvis Presley, foi preso por estelionato e, como não bastasse, a família foi despejada de onde morava, sendo obrigada a se mudar para a casa dos avós paternos de Elvis. Na tentativa de sanar as carências afetivas e materiais, Gladys acabou superprotegendo o filho único. A forte dependência permaneceria até (e após) a morte da matriarca.
Primeiros passos - O pai sai da prisão quatro anos mais tarde, e dá a Elvis o seu primeiro violão, por volta dos 11 anos de idade.
A família se muda para Memphis, Tennessee, em 1948. É lá que os Presleys se estabelecem definitivamente. Nessa cidade está a famosa mansão de Elvis, Graceland, visitada por milhares de fãs após a sua morte.
Até os 18 anos, quando gravou seu primeiro single num estúdio - na verdade era um presente de aniversário para dona Gladys***** - e, a partir daí, teve o seu talento descoberto pelo dono do estabelecimento, Elvis viveu de modo muito simples. Como todo adolescente americano, ganhava um dinheiro extra fazendo alguns bicos modestos como lanterninha de cinema e motorista de caminhão******.
O mais negro dos brancos - Nascido e criado na negra, pobre, religiosa e racista região Sul dos Estados Unidos, Elvis foi sempre orientado pelos pais para ser respeitoso com todas as pessoas, quer fossem negras, homossexuais, pobres, etc. Essa educação inusitada para a época criou um jovem bastante "esquisito": uma bela aparência de branco, um visual de negro, um entusiasmo pela música popular digno de um "transviado" e as boas maneiras de um coroinha de igreja.
Seu primeiro chefe e sua primeira namorada disseram que, à primeira vista, tiveram medo de Elvis por conta do visual black, mas contaram que ele derrubava a resistência de qualquer um assim que começava a falar e mostrava ser um sujeito muito bem educado.
Aquelas costeletas e roupas berrantes, das quais hoje em dia todo mundo debocha, causavam, no conservador Tennessee dos anos 40/50, um estranhamento mais ou menos como o que a "branquitude" de Michael Jackson causa em nós, hoje em dia - claro, guardada as devidas proporções, que empatar em esquisitice com MJ, ninguém empata. Pouca gente sabe, mas Elvis, inclusive, tingia os cabelos de preto, pois eram, na verdade, loiros - não se sabe se para parecer negro, mas, em todo caso, não gostava de ser loiro. E como toda ação é um ato político, podemos dizer que, mesmo sem querer, Elvis foi o primeiro artista a levantar a bandeira da igualdade racial - e isso desde quando nem sonhava em cantar profissionalmente.
Nasce uma estrela - O dia 05 de julho de 1954 é o marco zero da elvismania e do rock. É quando ele grava, num dos braços da Sun Records, em Memphis, That´s all right, mama. Ganhou fama levando o som negro à América branca. Não sem causar polêmicas em ambos os lados. Os negros se ressentiam de ter sido necessário um branco fazer sucesso usando o que já era sensação nos guetos para que sua música (e cultura) estourasse. Os brancos menosprezaram a origem pobre do cantor, o consideraram um "caipira sulista", e aqueles mais moralistas diziam que os movimentos com a pelvis eram coisa do demônio. Elvis se ressentia profundamente dessas críticas. Sobre ser "indecente", ele se defendia dizendo que nunca faria na TV algo que tivesse vergonha de fazer na frente da sua própria mãe*******.
Mama isn´t right - Dona Gladys faleceu em 1958, poucos anos após ver o filho virar febre nacional. Aconteceu de um modo que, se não fosse triste, seria até patético: ela teve complicações por conta das pílulas para emagrecer que vinha tomando. Na sua cabeça provinciana, mãe de famoso não podia ser gorda, e, para não fazer o filho "passar vergonha", ela se afundou em dietas e medicamentos malucos (imagine a composição dessas bombas naquela época!...).
Depois da morte de Gladys, Elvis nunca mais foi o mesmo, vivendo uma lenta e constante depressão, que foi se agravando com o uso de drogas e a pressão do sucesso, imposta, em parte, pelos sangue-sugas que o cercavam, entre eles uma parte da conhecida Máfia de Memphis - é aquela história de se sentir só mesmo rodeado por uma multidão, muito comum entre os famosos. E depressão não tratada, dá em suicídio. É um engano achar que pessoas inteligentes podem se cuidar sozinhas. A história está aí para provar que muito pelo contrário...
Daí em diante, a trajetória é bem conhecida (foi para o exército, casou-se, Lisa Marie Presley nasceu, gravou um especial pra tv que entrou para a História e etc...). Ela tem, infelizmente, um final triste, culminando na morte do astro por overdose, em 16 de agosto de 1977. Detalhe: Elvis foi encontrado no banheiro pela "mãe negra", sua cozinheira, e Lisa Marie estava no andar de baixo. Foi ela quem avisou à primeira pessoa, a namorada de Elvis à época, que o pai havia morrido. Depois perguntam por que esse povo cresce problemático...
Elvis, the voice - Hoje em dia muita gente se baseia na caricatura da fase conturbada para menosprezá-lo, exaltando, em contrapartida, os Beatles. Ok, o grupo inglês tinha melhores letras e arranjos - Elvis gravou vários sucessos da música pop do séc. 20, mais do que a maioria tem conhecimento, mas gravou também muita porcaria -, no entanto, nem todos eles juntos possuíam o talento vocal de E.P. Ele era versátil em estilos (cantou rock, r&b, blues, country, gospel e romântico). Além disso, se interessava por instrumentos (tocava guitarra, violão, baixo e piano).
Pouca gente sabe, mas, segundo especialistas em canto, o alcance da voz de Elvis era fenomenal, especialmente se for considerado que nunca teve aulas de técnica vocal na vida. Sua voz conseguia atingir 3 oitavas e, por vezes, alcançava o registro vocal de tenores e baixos - ele era barítono. De acordo com quem é da área, uma das notas mais difíceis de se atingir é o "dó acima do dó central", e ele várias vezes fez isso. Outra coisa que pouca gente consegue e Elvis fazia muito bem era estender a voz sem desafinar.
Enfim, pense num cara que saiu do nada, da pobreza absoluta, e que se destacou dançando, cantando, tocando, atuando e compondo - e nem tinha genes africanos para nascer sabendo tudo isso. hehe...
Uma questão de integridade - Elvis nunca posou de "moderninho" para agradar: começou chacoalhando os quadris como fazia em sua igreja local, vestia-se do jeito que lhe agradava se vestir (mesmo sendo ridicularizado por isso, até hoje), não escondia sua fé em Deus e por isso mesmo nunca teve medo de ser chamado de brega porque gostava de cantar gospel.
Morreu incompreendido e virou um mito ridicularizado********, como todo aquele que ousa ser ele mesmo colocando a autenticidade à frente das expectativas dos outros. Isso, pra mim pelo menos, é que é ser rebelde. Ninguém depois dele fez mais ou melhor. Como os próprios americanos dizem, "Before anyone did anything, Elvis did everything" ("Antes de qualquer um ter feito qualquer coisa, Elvis fez tudo"). Talvez se ele tivesse tido consciência do que estava fazendo, não o teria feito tão bem. Ele foi o Zé do Burro da música do século 20. Tudo começou porque Elvis só queria cantar.
* Ao contrário do que a maioria pensa, Elvis era considerado pelas pessoas da indústria cinematográfica, à época, um ator de talento. Aliás, ter que pegar o lixão dos scripts de Hollywood foi uma das frustrações profissionais dele. O máximo que chegou perto de um bom filme foi com "Nasce uma estrela", onde dividiria a cena com a também cantora e atriz Barbra Streissand. Pra variar, deu errado. O problema da carreira de Elvis no cinema foi ter se tornado, como dizem os americanos, larger than life (maior que a vida). Aqueles filmes que nem estrelando Jesus Cristo dariam bilheteria, eram despejados em Elvis, considerado um Midas do entretenimento, uma máquina de fazer dinheiro - o pobre estava atado por um daqueles contratos "lê-rê-lê-rê" dos estúdios daquele tempo. O cantor também não tinha tempo para se aprofundar nos estudos, como muitos de sua geração fizeram. Pois é, nem o rei pôde tudo...
** Na própria formação dos Beatles, poucos anos depois, já dá para perceber a "perda da inocência" das estrelas dos show bizz. Sabe aquele visual mauricinho do grupo? Pois é, pura jogada de marketing do empresário. Ao ser perguntado se estaria disposto a abdicar das jaquetas pretas para ser lançado usando terninho e cabelo de cuia, John Lennon teria respondido ao empresário: "Pra ser famoso e ganhar dinheiro, se você quiser, me visto até de macaco". Os Beatles, aliás, reverenciavam Elvis, e Ringo se gabou de ser o único Beatle a ter jogado futebol com o ídolo.
***A família paterna tem origem irlandesa-escocesa; a da mãe é americana (Smith). A grafia original de Presley é Pressley, sendo o primeiro o resultado da americanização do segundo. Aliás, chego a conclusão de que todos os caras lindos dos EUA têm um pé na Escócia e/ou na Irlanda: John-John Kennedy, Mel Gibson, Elvis, Robert Redford, Ryan O´Neal etc.
**** 08 de janeiro é aniversário de outro mito do rock, David Bowie.
***** Na infância participava, eventualmente, de concursos, onde podia ganhar de brinde doces ou ingressos para o cinema. Nos dias de hoje, um garoto com metade da voz dele já seria explorado pela família desde pequeno - e teria plena consciência das suas possibilidades de estrelato.
****** Anos mais tarde, já um ícone, ele deu um caminhão novinho em folha para um amigo caminhoneiro. Com uma condição: de que o sujeito o deixasse dar uma volta no veículo. Para o espanto de quem viu a cena, a alegria de Elvis em relembrar os tempos de estrada foi enorme, uma alegria que não se via nele há tempos.
Conhecido por ser um cara generoso e até esbanjador, não era incomum que desse esse tipo de presente às pessoas. Morreu com 1 dólar na poupança e 1 milhão na conta corrente, o que, segundo o seu meio-irmão por parte de pai, expressa bem a relação de Elvis com o dinheiro.
Como não ligava a mínima pra isso, foi trapaceado à beça em vida, sem se dar conta. Depois da sua morte, Priscila Presley tomou a frente dos negócios e "moralizou" as finanças de Elvis, lutando para que a filha herdasse mais que o sobrenome.
******* Uma das coisas mais bacanas, pelo menos no Elvis do comecinho, é esse balançar meio desajeitado - e por isso espontâneo - de cadeiras. É meio malicioso, mas ao mesmo tempo lembra um daqueles transes que vemos em alguém em oração ou cantando no coro da igreja e há também nisso um quê de "dança no quarto com o som nas alturas e ninguém me vendo". Enfim, o balançar de Elvis é a imagem da pessoa dominada pelo corpo enquanto está fazendo algo que realmente mexe com ela.
Elvis é "ridículo" porque é genuíno. Maria Bethania canta que "cartas de amor são ridículas. E se não fossem ridículas, não seriam cartas de amor". Pois eu digo que pessoas de verdade são ridículas. E se não fossem ridículas, não seriam pessoas de verdade. Eu adoro pessoas essencialmente e extremamente ridículas! Entre os meus famosos e ridículos favoritos estão Nelson Rodrigues, Gerald Thomas, Barbara Heliodora (que é ridícula por ainda dar importância às pragas que Gerald lhe joga), Ibrahim Sued, Leão Lobo, Hebe, Woody Allen, Almodóvar, Marlon Brando, Paulo Francis e por aí vai, que a lista é grande.
******** Seus covers têm uma boa parcela de culpa nisso!
LEGENDAS:
1 Elvis nos anos 70, já um mito do rock.
2 A neta de Elvis, Danielle Riley, filha de Lisa Marie. A adolescente, que é modelo, dizem, canta bem mas tem medo de arriscar algo nesta carreira sendo neta de quem é.
3 Elvis se apresenta com o Hound Dog (cão de caça).
4 Com pose de galã, no início da carreira.
Fontes: Wikipedia, E! e Google