domingo, 27 de dezembro de 2020

Viver é afinar o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro

É natural do ser humano achar que "o inferno são os outros". E há quem diga que é difícil se curar estando no mesmo ecossistema que te adoeceu. Mas gente adulta sabe que nem sempre querer é poder (não a curto prazo pelo menos) e, enquanto isso, o jeito é aprender a jogar o jogo. E quando não é possível mudar o que existe lá fora, o melhor a fazer é aperfeiçoar e ajustar o que está dentro. 

Lembro de uma colega que uma vez postou um texto chateada com uma criança, no ringue de patinação, que corrigiu a filha dela no modo de patinar, o que fez a garotinha se chatear e desistir. Eu argumentei com ela, no inbox, que talvez fosse mais eficiente trabalhar esse tipo de fato junto à filha do que culpar a outra garota. Gente assim aparecerá na vida dela o tempo todo, aparece na de todos nós.

Primeira coisa a ser considerada: nem sempre o outro é vilão. Às vezes a pessoa está apenas operando tomando ela mesma como parâmetro, ainda mais uma criança que não tem essa sofisticação toda. Aconteceu algo semelhante comigo e com minha irmã na infância. Ela sempre foi bastante competitiva e eu bem menos. Quando comecei a dançar na academia que ela dançava há anos, ela ficava no meu pé, me corrigindo pra eu fazer o movimento perfeitamente. Mas eu não queria estar na primeira fila como ela, eu só queria dançar. Ela me tirou por ela. Na cabeça dela, estava me fazendo um bem. As pessoas só reconhecem o que conhecem, o que está no repertório delas.  

A segunda coisa é que resolve mais aprender a lidar com os nossos sentimentos e mundo interno do que ficar chorando toda vez que as pessoas ferem as nossas expectativas. A intensidade desse incômodo vai variar conforme a nossa autoestima. Quem sabe o que é e o que quer dificilmente se abalará com as opiniões de terceiros a ponto de se desequilibrar, se descompor. Até porque é raro a pessoa estar realmente falando da gente num mundo em que ninguém presta sequer atenção em si mesmo, que dirá nos outros. Quase sempre são projeções. Em suma, se alguém fala algo de você e aquilo não bate com a sua verdade interna, problema dele/a, a projeção é dele/a; se aquilo te abala as estruturas, o problema é seu, é porque há alguma coisa desajustada aí dentro que a crítica da pessoa foi em cheio, e neste caso vale mais se ocupar disso do que da maledicência do/a outro/a. 

Autoconhecimento ajuda muito nesse sentido. Aprender a separar o que é seu do que é dos outros é o pulo do gato, o início do fim dessa espécie de sofrimento, que, claro, nunca vai ser zerado já que somos seres sociais, mas pode ser bastante minimizado, de modo que o protagonismo da sua vida seja seu. Parece pouco, mas esse é o passo fundamental na vida de um ser humano, na minha opinião: identificar quais são seus reais valores e desejos e separar isso da projeção que as pessoas fazem sobre ele/a. Como isso não é fácil nem rápido e frequentemente anda junto com tomar consciência de lados nossos que preferiríamos abafar, torna-se mais fácil jogar a culpa no que está fora do que se ver e se autorresponsabilizar. Eu concordo com a cantora (Leila Pinheiro): viver é afinar o instrumento DE DENTRO PRA FORA, de fora pra dentro.  

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