domingo, 29 de novembro de 2020

Sobre bonecas e o cuidado

 


Meu bonde dos sobrinhos sagitarianos 2/3: Luísa, minha guapetona, faz 6 anos!

Fofa, inteligente, ladina, uma figura. E herdeira das minhas bonecas. Até hoje não enjoou de ser mãe das bonecas, já não tenho nem mais opção de boneca para dar de presente. Vamos ver se depois da alfabetização ela vira o disco. 

Muita gente implica com bonecas e carrinhos. Na boa, se a criança quer, o que o adulto tem que se meter? E isso vale também para a "inversão" de brincadeiras. Luísa gosta de bonecas e de crianças pequenas. É dela. Na verdade, temos que tomar cuidado para, sob o pretexto de estar questionando os papeis de gênero, estarmos, até sem perceber, desqualificando as qualidades ditas femininas.

É raro uma mulher que nunca quis ter as prerrogativas da condição masculina, desde as biológicas (não menstruar) até as sociais (poder viajar sozinha ou sair de noite sem morrer de medo). Um dia, há muiiiitos anos, me queixando de ser mulher a uma amiga, tomei um sermão dela, que disse amar ser mulher e também as qualidades atribuídas ao feminino. Na visão dela, o problema não era isso, mas a lógica escrota do mundo. Bingo (e scheeelp)! 

O cuidado, que se exercita quando se brinca de boneca, é uma coisa importante. Digo mais, cuidar é uma das profissões do futuro. O problema não é as meninas aprenderem isso; é aprenderem só isso e a exercerem o cuidado a qualquer custo. E, principalmente, é preocupante o cuidado não ser ensinado aos homens. Para eles serem cuidados sem cuidar alguém pagou ou está pagando esta conta. Vejamos: repare quando um parente adoece. A família pode ter dez pessoas, mas vai sobrar para as mulheres. Mais frequentemente para uma só mulher, eleita pelo bando de folgados por ser solteira/viúva ou sem filhos ou a mais pobre - e que não vai receber um "Obrigado" porque sem essas coisas todas não é vista nem como pessoa. Quando essa criatura não existe na família, apela-se a uma mulher pobre que vai fazer, geralmente, o que a família inteira não faz, a um preço bem abaixo do justo. 

Um homem na mesma condição dificilmente vai ser cogitado para a função de cuidador, a não ser que seja gay, o que recai, na leitura da sociedade, novamente na categoria do feminino. E o cuidado, quando fica em cima de uma pessoa só, às vezes até adoece o cuidador. Em casos pontuais, a sobrecarga mata. Dividido igualmente, cada um fazendo um pedacinho, o justo, não fica pesado pra ninguém.

Não precisamos nem chegar ao hospital, não. No dia a dia, quantas mulheres criam sozinhas seus filhos? Zero constrangimento ou penalidade para o homem que não cuida da prole. E a sociedade naturaliza isso, dá tapinha nas costas da "pãe", embora ninguém queira muito saber da mulher nesta situação. Boa parte dos empreendedores brasileiros, por exemplo, são mulheres que se veem acuadas pelo mercado de trabalho e vão trabalhar por conta própria para poderem passar o olho na cria durante o dia. Ser "pãe" é perversidade da sociedade, sacanagem dos homens, não é coisa de super mulher, não. Essa categoria não existe.  

E está aí outra lição a ser aprendida pelas mulheres: o autocuidado. Antes de cuidar dos outros, é preciso cuidar de si mesma. Como dar o que não se tem? Como no avião, primeiro a gente bota a própria máscara, depois ajuda os outros.  

(Que Lu cuide e se cuide!)

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