Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
segunda-feira, 8 de junho de 2020
Paulina
Sabe aquele filme que te leva para um lado, depois te joga para o outro e, no final, você fica com a mente fervendo? É Paulina, filme argentino de 2015, uma adaptação de La Patota, filme dos anos 1960.
A protagonista é uma advogada brilhante, filha de um juiz de Buenos Aires, que escolhe dar aulas sobre política numa escola bem pobre do interior da Argentina. Lá, ela passa por uma situação punk, mas, ao contrário das expectativas, ela continua no mesmo lugar, fazendo tudo como se nada tivesse acontecido. Assim é a personagem central: às vezes você a entende, em outras tem vontade de dar um chacoalhão nela.
Paulina toca em várias discussões: violência contra mulher, a truculência do sistema policial-jurídico, que, como diz a protagonista, quando se trata de pobres, não quer saber de buscar justiça, mas de culpados. É uma personagem de convicções muito fortes, de tal forma que determinadas escolhas em nome de uma ideologia parecem anulá-la como ser humano, enquanto individualidade. Como eu disse, desperta admiração e também indignação.
O ponto mais interessante da protagonista é justamente esse: a capacidade de mesmo diante de uma situação muito desfavorável a ela manter um senso crítico sobre o que a sua figura representa socialmente. Mas isso às vezes escorrega na culpa por ter privilégios sociais, por ter nascido branca, rica e inteligente, o que de certa forma tira a sinceridade da luta dela e de certo modo também a dignidade das próprias pessoas que ela quer ajudar/poupar. Como adverte uma mulher local: ela sente pena e ninguém gosta de ser olhado assim, situação que faz é despertar ódio e não ligação. Esse é um erro de gente de esquerda: paternalizar demais os subalternizados socialmente, como se a pobreza lhes tirasse a agência, a capacidade de escolher, de agir por conta própria, enfim, quase como se fossem sem alma. Esquerdista falando de pobre é quase Caminha falando dos índios (risos). A esquerda bota essa turma pequena demais enquanto que a direita coloca grande demais, no sentido de achar que a força do indivíduo sozinha é capaz de superar estruturas opressoras seculares, como se o contexto social não quisesse dizer nada e todos tivéssemos as mesmas condições para o sucesso.
Dolores Fonzi merece palmas. Eu já a vi em outros filmes, então sabia que era boa atriz, mas essa personagem era difícil. E eu gosto da aparência dela, que é bonita, mas não é alinhada: o cabelo é meio desgrenhado, ela tem uma verruga nos lábios, ela usa pouca maquiagem. A cara mesmo de Paulina.
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