Essa é a história clássica em muitas famílias brasileiras: na falta de um companheiro (às vezes há até um homem de corpo presente, mas que emocionalmente ou energeticamente não está lá), uma mulher idosa retira a energia para manter-se viva de seus filhos e netos. Como não é um movimento natural, mas uma busca tentando compensar uma falta, dá merda, e por mais que a amem, os filhos se sentem sobrecarregados.
Mas não vim falar disso. Vim falar da diferença com a qual geralmente homens e mulheres chegam à velhice. Elas chegam muito mais espertas que eles. E eu tenho uma hipótese para isso: ao envelhecer, as mulheres perdem muito menos do que os homens. De cara, velhice implica na perda de poder, físico e social, já que com ela vem a queda da potência sexual e a aposentadoria. Trabalho e sexo definem muito a identidade masculina. As mulheres se definem pelas relações pessoais. Como mesmo as mulheres que trabalham geralmente cultivam laços familiares, afetivos, elas têm esse apoio mesmo perdendo potência física.
Descobri isso com seu Jajá, o dono de uma das empresas em que eu trabalhei. Eu tinha 26 anos e estava com ele na biblioteca da empresa, e ele me confidenciou que envelhecer era ruim, que esse negócio de "melhor idade" é balela. Imagine o que foi para um homem que criou uma empresa que empregava mais de cem pessoas, de repente, ser deixado de lado e passar a ser tratado como café com leite. As pessoas fingiam que se importavam com a opinião dele, mas ele sentia que era carta fora do baralho. Para quem construiu a autoestima em cima do poder, deve doer e muito.
Quando não perde a vitalidade, o homem velho perde a noção. E não digo nem de querer namorar, se divertir, etc, que isso é saudável em qualquer idade. Mas muitos regridem à época da vida em que foram mais felizes (e poderosos), se envolvendo com garotinhas nada a ver, na vã tentativa de se sentirem mais longe da morte.
Além de todas as vantagens econômicas e sociais, deve ser bacana envelhecer em um país em que você é estimulado a se ver como gente e não como objeto de consumo que também vive a consumir o outro, com prazo de validade. No Brasil a gente descobre que é ser humano acima de tudo tarde demais (quando descobre). A favor desse país, só clima, pelo visto.

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