sábado, 14 de novembro de 2020

A mulher (e o homem) desiludida

 


Eu sou youtubeira, não é segredo. E brincando mais uma vez de piolho nas redes sociais, achei um canal maravilhoso, o Soltos. É um casal de amigos, ambos na casa dos 30 e tantos, ela hetero e ele gay, falando sobre relacionamentos. Mas esse é só o gancho, pois o canal toca em questões mais universais como valores culturais que nos atrapalham como um todo e baixa autoestima, então mesmo padres podem encontrar vídeos interessantes dos Soltos. Amei um recente, "Pare de aceitar migalhas e se valorize". No vídeo, além de criticarem a mania do povo de se apegar a migalhas para seguir com o que não existe, eles sentam a língua na mania do pessoal de achar que o outro tem que adivinhar, que existe glória sem luta, neste caso, sem que se diga o que se quer e o que não se quer.

É isso: as pessoas querem grandes coisas, mas ao mesmo tempo não querem perder nada, arriscar nada.  Tomar toco ou falar o que sente, externar suas regras, isso tudo virou ridículo. As pessoas têm medo de ser quem elas são e não percebem que, assim, acabou ficando todo mundo igual. Somos todos aquele exército de loiras de cabelo alisado e comprido até a cintura. 

 E, pra mim, isso é a base da insatisfação generalizada que vemos hoje.

Vamos falar do termo da moda, responsabilidade afetiva. As pessoas querem que os outros se responsabilizem - e é justíssimo ter esse papo mesmo -, mas não querem se responsabilizar por si.  Sempre há sinais, vamos combinar. Ninguém gosta de admitir, mas é a gente que, por carência, não quer ver o que o outro nos sinaliza o tempo inteiro. Há uma questão de gênero aí: mulheres são criadas para interpretar qualquer merda que venha de homem de modo positivo. Começa com o menino que puxa o teu cabelo e vem alguém dizer que isso é porque gosta de você. É doloroso admitir que se sujeita a isso. Homens são criados para pensar que mulheres são idiotas que não conseguem lidar com certas verdades, que são feitas para serem tuteladas por eles, que se uma mulher chorar isso é ruim. Melhor chorar e ser respeitada do que chorar por desrespeito. A sinceridade mostra uma deferência em relação ao outro, que é justamente o que a mentira tira.  

Mas o povo fica achando que admitir isso é passar pano para quem fez o mal feito. Mana, você tem que dizer o que quer e o que não quer, os homens não vão mudar porque a gente sonha com isso; tem que externar. O Segredo não funciona aqui, sorry. E outra: como você vai exigir do outro o que nem você mesma se dá? Frequentemente o autoabandono anda junto com o abandono. Como diz o vídeo, você faz o banquete de migalhas, e depois chora que tá com fome. Os três porquinhos, minha gente. Casa bem construída, não há lobo mau que consiga botar abaixo. Equivocar-se não é pecado, pelo contrário, é errando que se aprende. Temos que, inclusive, parar de criminalizar o erro. Mas é foda quando o erro se torna um disco arranhado. Aí já é tara, não é mais azar da pessoa, convenhamos. 

Mulheres (e alguns homens também, especialmente gays) precisam educar os homens e se educar em duas coisas, que são as realmente nocivas:

a) Parar de passar todo mundo na frente, antes de se satisfazerem, que é isso que gera mágoa de não ter reconhecimento. "Bote a máscara e só depois ajude o outro a pôr a dele", já diz a aeromoça no avião;

b) Achar que o outro vai conseguir sarar suas feridas. É sério que alguém acha que o outro magicamente vai saber do que você precisa? E isso pressupõe uma escravidão, já que se o outro for embora volta tudo a ser uma merda. Isso é justo?

Há um ganho em toda relação, mesmo quando se é vítima. De graça ninguém fica. As pessoas não gostam de lembrar que tinha coisa boa. 

O outro não vai resolver esse vazio que é nosso e que nem a gente dá conta, vamos admitir. Lógico, nossa autoestima também precisa, em parte, de reconhecimento externo, mas isso não resolve. O outro também deve estar lutando pra se amar. Aliás, gente escrota geralmente tem muita dificuldade de se amar, acredite.  

Outra questão do nosso tempo é que as pessoas também não têm mais paciência para construir nada. A galera quer algo mágico, que dê certo de cara, que se encaixe em tudo. Os casais felizes que eu conheço dizem que o lance é achar que o outro ainda vale a pena e ir tentando - o esforço deve vir dos dois lados

E uma vez que as pessoas deixam tanta coisa inacabada por orgulho, seguem adiante carregando um cemitério de recalques e frustrações que facilmente azedam o lance do presente. Depois reclamam que estão sozinhas.

É triste porque quem topa construir tá numa dificuldade imensa de descolar alguém na mesma vibe.

Essa geração da virada, que nasceu entre 1977 e 1983, nós crescemos com um certo desprezozinho pela vida na caixa de nossos pais. Crescemos achando que teríamos coisas muito melhores, com a sensação de que somos ótimos, que quem veio antes vivia 100% errado, e assim nunca ninguém está a altura. Aqui em casa, minhas irmãs mais velhas são dos anos 70. Outra mentalidade. Essa turma pensava no possível, que o ótimo é inimigo do bom. No geral, essa ideia é menos frustrante que a atual. Claro, há de se tomar cuidado para não cair em armadilhas, mas ela é mais real, mais pé no chão. Tínhamos o que aprender com os nossos pais, viu?

Viver o sonho engessa a vida e é elitista. Quem é que realmente pode escolher qualquer coisa na nossa sociedade?! Quem é que pode ficar sentado esperando o bonde ideal chegar? Pois é. E ainda tem aquela, que nunca sai de moda, de que quem muito escolhe, acaba escolhido. 

Tem um livro bacana que li faz uns cinco anos que falava sobre isso, sobre as chances que a gente deixa passar esperando sempre alguém melhor. A autora, uma colunista de famosos jornais americanos, faz um mea culpa dos caras legais que ela já dispensou porque se achava demais e queria o Sr. Perfeito, que estaria por chegar. Resultado: quando quis formar uma família, olhou pro lado e não viu ninguém. No livro, ela conta histórias reais como a dela. E tem uma coisa que não contam aos jovens de 20: o amor pode acontecer em qualquer época, mas sua maior chance de conhecer o amor da sua vida, até pela quantidade de gente que circula ao seu redor no emprego e na faculdade, é na década de 20. Se você achou alguém que te dê aquele clique, agarre, porque pode ser que não aconteça duas vezes. Na verdade, já é raro acontecer uma.

Enfim, é o difícil equilíbrio de não aceitar qualquer coisa e ficar amargurado e ficar parado na estação, igualmente se sentindo amargurado. É preciso ter muita conexão consigo mesmo, reconhecer os próprios valores, prestar atenção no corpo, que nunca mente, e saber valorizar os encontros, já que a regra são desencontros. Mas nós não temos paciência, aliás, só com quem não quer saber da gente. Com a gente mesmo, 0% de paciência e compaixão.  


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