Clint Eastwood - Entrevista onde fala sobre sua experiência de análise com Bion.
Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
A própria história de autossuperação de Mouratoglou já é por si interessante, mas o melhor da meia hora de conversa com esse técnico são os depoimentos sobre como superou problemas com os seus atletas. O cara aparentemente tem uma inteligência emocional de dar inveja a muito guru da autoajuda (e a origem disso está justamente na história de autossuperação dele, ocorrida na infância).
A história que eu mais gosto é a de Irena, uma adolescente que era a grande promessa do tênis francês quando ele se tornou o treinador dela. A tenista, primeira do ranking, estava com a autoconfiança abalada após ter perdido algumas partidas e, a partir daí, quando ela via que as coisas não estavam indo bem no jogo, passou a entregá-lo. "Ela nem tentava", resumiu Mouratoglou.
Um dia, após ter visto Irena entregando o jogo de forma impressionante, o técnico resolveu entender a razão de alguém jogar a toalha depois de ter trabalhado tanto por aquele objetivo. "Racionalmente não faz sentido", disse. Foi então que, refletindo sobre o assunto, chegou à seguinte conclusão:
"A maioria dos tenistas que entrega é talentosa. Mas a maioria não confia em si mesmo. Não sabem se conseguem, têm dúvidas. Mas há uma coisa de que têm certeza: eles têm talento. E isso é muito bom. É como se lhe dissessem o dia todo: ´Você está bonito. É lindo.' É bom ouvir isso. E se tem uma coisa que eles não querem perder é isso. E o que acontece quando você é um tenista talentoso jogando contra um não tão talentoso assim e começa a perder? Será que você é tão talentoso assim? Não vai se arriscar, vai preferir desistir. Depois vai poder dizer: ´Foi porque eu entreguei´." E então Mouratoglou conclui: "É o medo de perder a única coisa que conta para você, o seu talento." Bingo!...
O técnico conta que foi tirar a limpo o que houve com Irena. Mas, ao invés de culpá-la, resolveu se responsabilizar pelo ocorrido (para espanto total da atleta). Disse estar com ela, ressaltou que ela não estava só. Ele afirma que, dali em diante, Irena nunca mais entregou uma partida.
De agora em diante, reflita sempre que você sentir que está perdendo a partida: de fato não está rolando ou estou entregando o jogo para defender o meu orgulho? Orai e vigiai a autossabotagem nossa de cada dia, irmãos!
"Soul" é o lançamento da Disney/Pixar. Dessa vez, o estúdio resolveu mexer com as emoções do espectador discutindo questões como propósito de vida (Joe Gardner) e sentido da vida (22). (contém spoilers daqui por diante)
Joe é um músico de jazz que acredita que tudo na vida dele vai mudar quando ficar famoso. Mas ele morre antes da sua grande chance. Do outro lado da vida, no "grande além", ele conhece 22, uma alma que faz qualquer negócio para não viver na Terra, na sua interpretação um lugar horroroso. Algumas das grandes almas que no planeta viveram, inclusive, já tentaram fazer 22 mudar de ideia, mas sem sucesso. A alminha fujona alega que onde ela está já tem uma rotina, é tudo conhecido, e apesar dela nunca ter pisado na Terra, ela não quer nem tentar.
Até que um dia, ela e Joe, que não aceita ter morrido, voltam à Terra por acidente. Nessa passagem pela vida de Joe, ao retornar para "o grande além", os dois estão com as suas expectativas positivamente quebradas: Joe aprende que o sucesso não o define e que mais do que "chegar lá", bacana era o caminho; 22 aprende que há sabores, sons, toques e sentimentos que só estando na Terra para experimentar - e apenas isso faz a vida por lá valer a pena.
Na minha perspectiva, "Soul" é um filme sobre o poder da experiência e o valor das pequenas coisas da vida. Joe precisou "chegar lá" para ver que nada mudou, que não há momento mágico, mas que encantadora pode ser a vida. 22 só foi capaz de gostar da vida quando foi para a vida de fato. Não houve simulação, testemunho ou mentoria capaz de fazê-la sentir o que ela se maravilhou de viver na prática.
Definitivamente não é um filme para crianças. Aliás, sou curiosa para saber como uma criança vê esse tipo de discussão suscitada pelo filme.
Depois do texto de ontem, fiquei pensando em como não cumprir as metas traçadas nos gera culpa e baixa a nossa autoestima. Por isso ressaltei que é importante estabelecer metas reais, ter paciência e aceitar quando não deu para fazer tudo, valorizando que o que foi feito também foi bom - é melhor fazer algo do que nada. Ou, no caso de desistência, aceitar que não foi possível cumprir com aquilo naquele momento. Às vezes a gente não está preparado para sustentar uma ação, mesmo sabendo que ela é necessária, e tudo bem. Fica para depois. Mais importante que a velocidade é a direção.
A gente vive numa sociedade que adora atribuir culpas. O problema da culpa é que ela não serve para nada e ainda acorrenta a pessoa ao passado, dificultando bastante o seu caminhar - que energia há em quem se consome de dor? É ilusão achar que voltando ao passado faria diferente. Seu eu de lá não é o de agora; é desleal essa comparação. Sua escolha seria a mesma porque era o que você sabia fazer naquela época. Fora que a culpa funciona como uma gangorra, com alguém por cima e outro alguém por baixo. Não é à toa que as pessoas tendem a lidar com isso de forma tão radical: ou se atribuindo culpa demais ou negando todas.
Acredito que o melhor caminho é trocar a culpa pela responsabilidade. Nessa última, você é chamado a tomar o seu quinhão na história, mas aprendendo com o erro e sem perder a dignidade como acontece na culpa.
Bert Hellinger, o organizador da Constelação Familiar, afirma uma coisa muito interessante sobre o adultério, caso clássico de vítimas e culpados. Ele observa que o desabafo/revelação do adúltero seguido de um pedido de perdão faz o traído se sentir abusado, porque ao fazer isso, quem traiu fica passivo esperando que o traído resolva a situação. Ou seja, aquele que nada tem a ver com a coisa recebe, de uma hora para a outra, a responsabilidade de que tudo fique bem. Hellinger diz:
"Seria melhor se ele dissesse: ´Fui injusto com você. Eu arco com as consequências. Sinto muito pela dor que lhe causei". Por meio dessas afirmações ele fica equilibrado em si mesmo e pode agir imediatamente. E o companheiro é respeitado".
Perfeito! O problema é que nós temos problemas com situações como essa justamente, suspeito, porque foram mal administradas lá atrás, na infância. É a nossa criança ferida que aparece nessas circunstâncias, tanto de um lado como de outro. Raramente é o adulto quem toma a frente. Mas isso é assunto para um outro post.
PS.: texto número 1000 deste blog!
É natural do ser humano achar que "o inferno são os outros". E há quem diga que é difícil se curar estando no mesmo ecossistema que te adoeceu. Mas gente adulta sabe que nem sempre querer é poder (não a curto prazo pelo menos) e, enquanto isso, o jeito é aprender a jogar o jogo. E quando não é possível mudar o que existe lá fora, o melhor a fazer é aperfeiçoar e ajustar o que está dentro.
Lembro de uma colega que uma vez postou um texto chateada com uma criança, no ringue de patinação, que corrigiu a filha dela no modo de patinar, o que fez a garotinha se chatear e desistir. Eu argumentei com ela, no inbox, que talvez fosse mais eficiente trabalhar esse tipo de fato junto à filha do que culpar a outra garota. Gente assim aparecerá na vida dela o tempo todo, aparece na de todos nós.
Primeira coisa a ser considerada: nem sempre o outro é vilão. Às vezes a pessoa está apenas operando tomando ela mesma como parâmetro, ainda mais uma criança que não tem essa sofisticação toda. Aconteceu algo semelhante comigo e com minha irmã na infância. Ela sempre foi bastante competitiva e eu bem menos. Quando comecei a dançar na academia que ela dançava há anos, ela ficava no meu pé, me corrigindo pra eu fazer o movimento perfeitamente. Mas eu não queria estar na primeira fila como ela, eu só queria dançar. Ela me tirou por ela. Na cabeça dela, estava me fazendo um bem. As pessoas só reconhecem o que conhecem, o que está no repertório delas.
A segunda coisa é que resolve mais aprender a lidar com os nossos sentimentos e mundo interno do que ficar chorando toda vez que as pessoas ferem as nossas expectativas. A intensidade desse incômodo vai variar conforme a nossa autoestima. Quem sabe o que é e o que quer dificilmente se abalará com as opiniões de terceiros a ponto de se desequilibrar, se descompor. Até porque é raro a pessoa estar realmente falando da gente num mundo em que ninguém presta sequer atenção em si mesmo, que dirá nos outros. Quase sempre são projeções. Em suma, se alguém fala algo de você e aquilo não bate com a sua verdade interna, problema dele/a, a projeção é dele/a; se aquilo te abala as estruturas, o problema é seu, é porque há alguma coisa desajustada aí dentro que a crítica da pessoa foi em cheio, e neste caso vale mais se ocupar disso do que da maledicência do/a outro/a.
Autoconhecimento ajuda muito nesse sentido. Aprender a separar o que é seu do que é dos outros é o pulo do gato, o início do fim dessa espécie de sofrimento, que, claro, nunca vai ser zerado já que somos seres sociais, mas pode ser bastante minimizado, de modo que o protagonismo da sua vida seja seu. Parece pouco, mas esse é o passo fundamental na vida de um ser humano, na minha opinião: identificar quais são seus reais valores e desejos e separar isso da projeção que as pessoas fazem sobre ele/a. Como isso não é fácil nem rápido e frequentemente anda junto com tomar consciência de lados nossos que preferiríamos abafar, torna-se mais fácil jogar a culpa no que está fora do que se ver e se autorresponsabilizar. Eu concordo com a cantora (Leila Pinheiro): viver é afinar o instrumento DE DENTRO PRA FORA, de fora pra dentro.
Essa é a história clássica em muitas famílias brasileiras: na falta de um companheiro (às vezes há até um homem de corpo presente, mas que emocionalmente ou energeticamente não está lá), uma mulher idosa retira a energia para manter-se viva de seus filhos e netos. Como não é um movimento natural, mas uma busca tentando compensar uma falta, dá merda, e por mais que a amem, os filhos se sentem sobrecarregados.
Mas não vim falar disso. Vim falar da diferença com a qual geralmente homens e mulheres chegam à velhice. Elas chegam muito mais espertas que eles. E eu tenho uma hipótese para isso: ao envelhecer, as mulheres perdem muito menos do que os homens. De cara, velhice implica na perda de poder, físico e social, já que com ela vem a queda da potência sexual e a aposentadoria. Trabalho e sexo definem muito a identidade masculina. As mulheres se definem pelas relações pessoais. Como mesmo as mulheres que trabalham geralmente cultivam laços familiares, afetivos, elas têm esse apoio mesmo perdendo potência física.
Descobri isso com seu Jajá, o dono de uma das empresas em que eu trabalhei. Eu tinha 26 anos e estava com ele na biblioteca da empresa, e ele me confidenciou que envelhecer era ruim, que esse negócio de "melhor idade" é balela. Imagine o que foi para um homem que criou uma empresa que empregava mais de cem pessoas, de repente, ser deixado de lado e passar a ser tratado como café com leite. As pessoas fingiam que se importavam com a opinião dele, mas ele sentia que era carta fora do baralho. Para quem construiu a autoestima em cima do poder, deve doer e muito.
Quando não perde a vitalidade, o homem velho perde a noção. E não digo nem de querer namorar, se divertir, etc, que isso é saudável em qualquer idade. Mas muitos regridem à época da vida em que foram mais felizes (e poderosos), se envolvendo com garotinhas nada a ver, na vã tentativa de se sentirem mais longe da morte.
Além de todas as vantagens econômicas e sociais, deve ser bacana envelhecer em um país em que você é estimulado a se ver como gente e não como objeto de consumo que também vive a consumir o outro, com prazo de validade. No Brasil a gente descobre que é ser humano acima de tudo tarde demais (quando descobre). A favor desse país, só clima, pelo visto.
Meu bonde dos sobrinhos sagitarianos 2/3: Luísa, minha guapetona, faz 6 anos!
Fofa, inteligente, ladina, uma figura. E herdeira das minhas bonecas. Até hoje não enjoou de ser mãe das bonecas, já não tenho nem mais opção de boneca para dar de presente. Vamos ver se depois da alfabetização ela vira o disco.
Muita gente implica com bonecas e carrinhos. Na boa, se a criança quer, o que o adulto tem que se meter? E isso vale também para a "inversão" de brincadeiras. Luísa gosta de bonecas e de crianças pequenas. É dela. Na verdade, temos que tomar cuidado para, sob o pretexto de estar questionando os papeis de gênero, estarmos, até sem perceber, desqualificando as qualidades ditas femininas.
É raro uma mulher que nunca quis ter as prerrogativas da condição masculina, desde as biológicas (não menstruar) até as sociais (poder viajar sozinha ou sair de noite sem morrer de medo). Um dia, há muiiiitos anos, me queixando de ser mulher a uma amiga, tomei um sermão dela, que disse amar ser mulher e também as qualidades atribuídas ao feminino. Na visão dela, o problema não era isso, mas a lógica escrota do mundo. Bingo (e scheeelp)!
O cuidado, que se exercita quando se brinca de boneca, é uma coisa importante. Digo mais, cuidar é uma das profissões do futuro. O problema não é as meninas aprenderem isso; é aprenderem só isso e a exercerem o cuidado a qualquer custo. E, principalmente, é preocupante o cuidado não ser ensinado aos homens. Para eles serem cuidados sem cuidar alguém pagou ou está pagando esta conta. Vejamos: repare quando um parente adoece. A família pode ter dez pessoas, mas vai sobrar para as mulheres. Mais frequentemente para uma só mulher, eleita pelo bando de folgados por ser solteira/viúva ou sem filhos ou a mais pobre - e que não vai receber um "Obrigado" porque sem essas coisas todas não é vista nem como pessoa. Quando essa criatura não existe na família, apela-se a uma mulher pobre que vai fazer, geralmente, o que a família inteira não faz, a um preço bem abaixo do justo.
Um homem na mesma condição dificilmente vai ser cogitado para a função de cuidador, a não ser que seja gay, o que recai, na leitura da sociedade, novamente na categoria do feminino. E o cuidado, quando fica em cima de uma pessoa só, às vezes até adoece o cuidador. Em casos pontuais, a sobrecarga mata. Dividido igualmente, cada um fazendo um pedacinho, o justo, não fica pesado pra ninguém.
Não precisamos nem chegar ao hospital, não. No dia a dia, quantas mulheres criam sozinhas seus filhos? Zero constrangimento ou penalidade para o homem que não cuida da prole. E a sociedade naturaliza isso, dá tapinha nas costas da "pãe", embora ninguém queira muito saber da mulher nesta situação. Boa parte dos empreendedores brasileiros, por exemplo, são mulheres que se veem acuadas pelo mercado de trabalho e vão trabalhar por conta própria para poderem passar o olho na cria durante o dia. Ser "pãe" é perversidade da sociedade, sacanagem dos homens, não é coisa de super mulher, não. Essa categoria não existe.
E está aí outra lição a ser aprendida pelas mulheres: o autocuidado. Antes de cuidar dos outros, é preciso cuidar de si mesma. Como dar o que não se tem? Como no avião, primeiro a gente bota a própria máscara, depois ajuda os outros.
(Que Lu cuide e se cuide!)
Esse é meu sobrinho caçula, o João aka O Poderoso Chefinho ou também O miúdo, que completa hoje um ano. O aniversário dele me remete a três temas, que vez ou outra, este ano, me vieram à mente.
O primeiro é o modo como a Covid-19 vai impactar em quem é criança agora, especialmente nas que nasceram durante a pandemia. Não foi o caso dele, mas por pouco, já que ele mora na Europa. Em todo caso, João passou o primeiro ano de vida praticamente no Quarto de Jack, sem ver nada além da família nuclear e a própria casa. Quando acabar, ele vai ter quase dois anos. Eu me pergunto que memórias eles vão ter desse período. Criança supera rápido, mas, também, até os sete anos de idade a "moleira psíquica" está aberta. A seguir cenas dos próximos capítulos...
A segunda coisa é que a mãe dele tem 48 anos. Digo isso não pra expor a idade alheia, mas porque a gente acha que, depois de uma certa idade, não podemos fazer certas coisas. Isso é uma meia verdade. Ok, as coisas tendem a ficar mais difíceis com o tempo, quer por fatores físicos, condições de vida ou principalmente por causa da sociedade que olha a gente torto (e somos seres sociais), mas fica impossível só se você quiser e entregar os pontos de vez. Roberto Marinho fundou a Globo com 65 anos. Gretchen continua subindo ao altar aos 61 anos.
Ele não foi o primeiro filho, mas a mais velha nasceu quando a mãe tinha 41 e uns quebrados. Depois de mais de três anos de tentativas, tomando injeção na barriga diariamente, abortando - inclusive o irmão gêmeo da que nasceu - e vendo todo mundo parindo ao redor, eis que minha sobrinha nasceu. Paulo Coelho diz que quando a gente quer algo, o universo conspira a favor, mas esqueceu de avisar que, antes disso, ele pirraça até você provar que quer mesmo e não é fogo de palha. É incrível como acontece um monte de coisas pra desanimar a gente quando estamos firmes em um caminho. A jornada do herói. Há coisas que estão além do nosso controle. E algumas reviravoltas só vão fazer sentido mais para frente. O exercício é esse mesmo: confiar. Mas isso é papo para outro dia.
Por hoje, é dia de 🎂 pra João.
É isso: as pessoas querem grandes coisas, mas ao mesmo tempo não querem perder nada, arriscar nada. Tomar toco ou falar o que sente, externar suas regras, isso tudo virou ridículo. As pessoas têm medo de ser quem elas são e não percebem que, assim, acabou ficando todo mundo igual. Somos todos aquele exército de loiras de cabelo alisado e comprido até a cintura.
E, pra mim, isso é a base da insatisfação generalizada que vemos hoje.
Vamos falar do termo da moda, responsabilidade afetiva. As pessoas querem que os outros se responsabilizem - e é justíssimo ter esse papo mesmo -, mas não querem se responsabilizar por si. Sempre há sinais, vamos combinar. Ninguém gosta de admitir, mas é a gente que, por carência, não quer ver o que o outro nos sinaliza o tempo inteiro. Há uma questão de gênero aí: mulheres são criadas para interpretar qualquer merda que venha de homem de modo positivo. Começa com o menino que puxa o teu cabelo e vem alguém dizer que isso é porque gosta de você. É doloroso admitir que se sujeita a isso. Homens são criados para pensar que mulheres são idiotas que não conseguem lidar com certas verdades, que são feitas para serem tuteladas por eles, que se uma mulher chorar isso é ruim. Melhor chorar e ser respeitada do que chorar por desrespeito. A sinceridade mostra uma deferência em relação ao outro, que é justamente o que a mentira tira.
Mas o povo fica achando que admitir isso é passar pano para quem fez o mal feito. Mana, você tem que dizer o que quer e o que não quer, os homens não vão mudar porque a gente sonha com isso; tem que externar. O Segredo não funciona aqui, sorry. E outra: como você vai exigir do outro o que nem você mesma se dá? Frequentemente o autoabandono anda junto com o abandono. Como diz o vídeo, você faz o banquete de migalhas, e depois chora que tá com fome. Os três porquinhos, minha gente. Casa bem construída, não há lobo mau que consiga botar abaixo. Equivocar-se não é pecado, pelo contrário, é errando que se aprende. Temos que, inclusive, parar de criminalizar o erro. Mas é foda quando o erro se torna um disco arranhado. Aí já é tara, não é mais azar da pessoa, convenhamos.
Mulheres (e alguns homens também, especialmente gays) precisam educar os homens e se educar em duas coisas, que são as realmente nocivas:
a) Parar de passar todo mundo na frente, antes de se satisfazerem, que é isso que gera mágoa de não ter reconhecimento. "Bote a máscara e só depois ajude o outro a pôr a dele", já diz a aeromoça no avião;
b) Achar que o outro vai conseguir sarar suas feridas. É sério que alguém acha que o outro magicamente vai saber do que você precisa? E isso pressupõe uma escravidão, já que se o outro for embora volta tudo a ser uma merda. Isso é justo?
Há um ganho em toda relação, mesmo quando se é vítima. De graça ninguém fica. As pessoas não gostam de lembrar que tinha coisa boa.
O outro não vai resolver esse vazio que é nosso e que nem a gente dá conta, vamos admitir. Lógico, nossa autoestima também precisa, em parte, de reconhecimento externo, mas isso não resolve. O outro também deve estar lutando pra se amar. Aliás, gente escrota geralmente tem muita dificuldade de se amar, acredite.
Outra questão do nosso tempo é que as pessoas também não têm mais paciência para construir nada. A galera quer algo mágico, que dê certo de cara, que se encaixe em tudo. Os casais felizes que eu conheço dizem que o lance é achar que o outro ainda vale a pena e ir tentando - o esforço deve vir dos dois lados.
E uma vez que as pessoas deixam tanta coisa inacabada por orgulho, seguem adiante carregando um cemitério de recalques e frustrações que facilmente azedam o lance do presente. Depois reclamam que estão sozinhas.
É triste porque quem topa construir tá numa dificuldade imensa de descolar alguém na mesma vibe.
Essa geração da virada, que nasceu entre 1977 e 1983, nós crescemos com um certo desprezozinho pela vida na caixa de nossos pais. Crescemos achando que teríamos coisas muito melhores, com a sensação de que somos ótimos, que quem veio antes vivia 100% errado, e assim nunca ninguém está a altura. Aqui em casa, minhas irmãs mais velhas são dos anos 70. Outra mentalidade. Essa turma pensava no possível, que o ótimo é inimigo do bom. No geral, essa ideia é menos frustrante que a atual. Claro, há de se tomar cuidado para não cair em armadilhas, mas ela é mais real, mais pé no chão. Tínhamos o que aprender com os nossos pais, viu?
Viver o sonho engessa a vida e é elitista. Quem é que realmente pode escolher qualquer coisa na nossa sociedade?! Quem é que pode ficar sentado esperando o bonde ideal chegar? Pois é. E ainda tem aquela, que nunca sai de moda, de que quem muito escolhe, acaba escolhido.
Tem um livro bacana que li faz uns cinco anos que falava sobre isso, sobre as chances que a gente deixa passar esperando sempre alguém melhor. A autora, uma colunista de famosos jornais americanos, faz um mea culpa dos caras legais que ela já dispensou porque se achava demais e queria o Sr. Perfeito, que estaria por chegar. Resultado: quando quis formar uma família, olhou pro lado e não viu ninguém. No livro, ela conta histórias reais como a dela. E tem uma coisa que não contam aos jovens de 20: o amor pode acontecer em qualquer época, mas sua maior chance de conhecer o amor da sua vida, até pela quantidade de gente que circula ao seu redor no emprego e na faculdade, é na década de 20. Se você achou alguém que te dê aquele clique, agarre, porque pode ser que não aconteça duas vezes. Na verdade, já é raro acontecer uma.
Enfim, é o difícil equilíbrio de não aceitar qualquer coisa e ficar amargurado e ficar parado na estação, igualmente se sentindo amargurado. É preciso ter muita conexão consigo mesmo, reconhecer os próprios valores, prestar atenção no corpo, que nunca mente, e saber valorizar os encontros, já que a regra são desencontros. Mas nós não temos paciência, aliás, só com quem não quer saber da gente. Com a gente mesmo, 0% de paciência e compaixão.
Pessoalmente, me chamaram atenção dois aspectos da história: 1) a quantidade de abandonos que ela sofreu ao longo da vida; 2) não sei dizer se a personagem conseguiu lidar com isso, já que é um tipo bem mental, racional, de gente que não se abala com facilidade. Há um diálogo mais pro final no qual é indicado que ela é movida pela raiva. Pois bem, o que mais gostei nela foi a capacidade de seguir em frente. Abandono e solidão assustam pra caramba, imagine uma menina que cresceu nos anos 1950. Ela não se sentiu indefesa e seguiu em frente. Em parte o xadrez foi muito importante enquanto motor, mas mesmo assim, Beth mostrou foi resiliência. Tinha potencial para dar muito mais merda do que deu. O final foi como uma espécie de reconciliação com o passado, com as pessoas de um modo geral, já que no inicio da vida fizeram mal a ela.
Enfim, é aquela história: a vida é como andar de bicicleta, e se parar, cai.
Tá na Netflix um documentário sobre essa banda pop coreana. Sei zero sobre o k-pop, apesar de adorar música pop. Sei lá, é meio racista, mas eu acho o povo asiático meio estranho.
O doc mostra meninas simples que encaram o trabalho na banda como mais um trabalho. Não sei se é realidade ou roteiro, mas as meninas me impressionaram pela falta de crise existencial e espírito de grupo.
Se por um lado é difícil gostar delas individualmente porque todas elas parecem a mesma pessoa só que com cabelos de cores diferentes e há uma falta de charme nesse processo industrial coreano de fabricação de estrelas pops, por outro, é bom ver gente madura, que sabe ser feliz com as suas escolhas, que prefere trabalhar em grupo que ficar na nóia de quem brilha mais que quem.
Um amigo meu falou pra mim que há uns casos de depressão e até suicídio no k-pop. Repito, não conheço esse universo, mas eu fiquei com a impressão de que nós, ocidentais, somos individualistas demais, autocentrados demais e isso, como passa do ponto, nos adoece.
Corta pra epidemia de coronavirus. Enquanto o ocidente tá em desespero porque não consegue colocar uma máscara e praticar o distanciamento, no oriente está tudo sob controle na medida do possivel.
É, acho que temos algo mais a aprender com eles além de yoga e meditação.
SAR é o sistema de ativação reticular.
Então, na verdade, você, ao mudar suas crenças, não atrai nada. O que acontece é que você começa a afinar essa crença com o seu SAR e passa a perceber mais daquilo que faz parte do seu sistema de crenças. Se você acredita que é atraente, além de enviar mensagens de confiança através da sua linguagem corporal, você vai captar feedbacks positivos e oportunidades de se mostrar atraente. O mesmo quando você se acha feio.
Enfim, afie seu SAR. Parece fácil, mas já aviso que não é. Mas é possível. Vamos tentando.
PS.: Mas a tal lei da atração, de pensar no que vc quer atrair, cria um efeito positivo no corpo e esse efeito ajuda o próprio corpo a trabalhar melhor naquele objetivo, melhorando, inclusive, o foco.
Quem me conhece sabe que eu tenho uns buracos familiares. Fico até com vergonha, mas no fundo sei que quase todo mundo tem família como a minha, mas ninguém fala. Eu falo. Aliás, eu me exponho demais, mas não tenho paciência pra hipocrisia. Também desconfio que muitas das minhas dores não bateram iguais nas minhas irmãs. É que o trauma não depende exatamente do que aconteceu, mas de quem recebeu o que aconteceu. Um incêndio numa casa pode paralisar uma pessoa e traumatizá-la e outra pode passar pelo mesmo evento e seguir a vida normalmente. Geralmente traumatiza quem não teve condição de reagir e não entende isso, e se culpa. Se você pensar que eu sou a caçula e a mais família de todos eles, talvez aí esteja a resposta da charada.
Sempre tive dúvidas sobre ter filho ou não sobretudo porque não queria passar de novo o que passei com minha família. Sei lá, acho que tenho uma certa crença no nosso sangue ruim, de que vão nascer pessoas iguais as que já não me dou e que são mais velhas que eu nessa família.
E eis que recebo más notícias de Felipe.
Anda aprontando. Até aí, tudo bem, se esse "aprontando" fosse rompendo com as expectativas dos pais de forma saudável, para viver seu processo de individuação. Segundo Jung, o processo de individuação é sair da expectativa dos outros e se encontrar com as suas próprias. Quem não buga na infância e na adolescência dá tilt depois. Fato. Mas esse processo dele está vindo, pelo que soube, com raspas de perversidade, e isso é tudo que não pode acontecer. Qualquer pai ou mãe obteve sucesso se criou alguém ético, uma boa pessoa. Falei isso, aliás, anos atrás me referindo ao filho de um casal amigo que não se deu bem na vida, mas é boa pessoa.
Isso me disparou o gatilho da maldição familiar. Eu não sei se vou continuar gostando dos meus sobrinhos se eles se tornarem pessoas de índole ruim. Estou aqui pra ajudar, mas para isso eles precisam querer se melhorar, se ajudar. E pra ser ruim não precisa ser marginal, não. Humilhar gratuitamente os outros está incluso nesse pacote. Ser uma pessoa sem empatia já tá no script. Um macho escroto desses aí que a gente encontra a rodo pelo caminho, sabe?
Mas vamos orar. Ainda tem muita água pra rolar nessa ponte.
Eu que não quero arriscar. Filhos, nesta vida, melhor não tê-los pelo visto.
Essa música me lembra uma cena de "O Pestinha", quando uma menina nojentinha, a aniversariante, chora ao ver sua festa sendo estragada.
Corta para o Brasil da semana passada. Divórcio de famosos. Ele, pateticamente, acordou a esposa às 3h da madrugada para dizer que não dava mais certo. O Brasil inteiro dizendo que foi um absurdo, que casamento não se desfaz assim, que ele não deu chance pra ela resgatar a relação. Eu compreendo a dor da rejeição e a covardia do término à queima roupa, mas duvido que essa criatura não tenha dado sinais anteriores (ou foi a carência da esposa que não permitiu vê-los?) e ainda acho que, se não for pra ficar de boa vontade, melhor que se pique mesmo. Antes tarde do que mais tarde. Porque o ser humano anda tão escroto que é capaz de marcar território pra não ver o outro indo em frente enquanto mantém a vida dupla ocultamente. Não consigo compreender essa mania de gente casada de achar que casou, tem que ser pra sempre a qualquer custo. Gente, todo mundo vai embora, quer por vontade ou por morte. Toda separação é uma dor porque é o fim de um sonho, mas eu me sentiria mal de manter uma pessoa do meu lado a base do "você tem que". Você quer a relação, o parceiro ou o símbolo da relação?
Só que quando você pondera isso, parece que você está passando pano pra quem se picou (e quase todo mundo, ainda mais homens, faz isso muito mal, de forma traumática pro outro). Não tem nada a ver. O fato de admitir que as pessoas, via de regra, emitem sinais antes de partir não anula o fato dessa criatura que foi ter sido escrota. E achar que é melhor mesmo que se pique não anula a falta de cuidado no final do relacionamento. Por isso mesmo, vá com Deus (ou com o diabo). E vamos falar o português do Brasil: mesmo que o outro vá tocando harpa e avisando com seis meses de antecedência, vai doer do mesmo jeito; o que muda é ainda ter preservado seu status de gente que mereceu ser ao menos bem tratada, ter passado por menos uma humilhação. Poucas pessoas, pensando aqui entre os meus conhecidos, encarariam um fim com relativa tranquilidade caso esse fosse feito com respeito. Quase todos iam odiar o ex do mesmo jeito.
No meu mundo ideal as pessoas agiriam com cordialidade e cuidado, mas não é esse o mundo que temos. Eu acho que todo mundo merece ao menos uma satisfação, mesmo que seja pra lavar roupa suja. Já disse coisas feias ao romper com pessoas, mas disse a verdade, a pessoa soube porque me piquei. Mas essa sou eu. Já quebrei muito a cabeça tentando imaginar o que tinha feito de errado, porque A ou Z se picaram do nada. Hoje não faço mais isso nem fodendo. Lido com o real. Aceito, mesmo que não concorde, mesmo que não tenha a menor ideia do motivo. Não interessa a razão, eu trabalho com o que a pessoa me deu. E se ela quis ir embora, ora, é porque não quis ficar. Esse é o fato e que nenhum motivo vai mudar, a não ser que seja o Super Man e ele tenha te deixado pra ir salvar o mundo. Melhor que vá. Eu respeito muito mais quem não desperdiça meu investimento e se manda do que quem fica de má vontade, resmungando, te fazendo sentir errada.
Na boa, não entendo a cabeça do brasileiro. Vamos parar com essa hipocrisia de todo mundo junto. Às vezes eu acho que até pra continuar gostando o ideal é separar mesmo. Na minha experiência, é justamente essa falta de timing, a mania de levar as situações ao limite que tornam os afetos irrecuperáveis.
Eu me considero uma pessoa, no geral, boa, fofa e etc e tal. Mas se tem uma coisa que nunca aprendi e acho que vou sair dessa encarnação devendo é conseguir manter o nível, a fineza quando perco o respeito pela pessoa. É melhor até eu sair de perto mesmo porque, como diz o ditado, "quando eu sou má, sou melhor ainda".
Não seguro a língua. Sou cruel, eu sei (e às vezes genial nas tiradas, não vou mentir). É quase um espirro, é muito rápido; é pura reatividade. O caso é que tenho ética, depois me dá ressaca moral. As duas coisas na mesma pessoa não dá, né?
Crianças, não tentem isso em casa. Pode não parecer, mas é arriscado.
Bem, assisti a série por recomendação de um youtuber (sim, eu sigo canais que falam de séries e outros canais sobre diversos temas no YouTube). Vi num tapa, até porque é curtinha, o que acho que é a tendência atual das séries. O povo percebeu que, com a enxurrada de séries, convém que elas sejam breves pra garantir que serão consumidas.
No caso de Normal People, além disso, tem o lance de ser baseada em um livro e a autora não se interessou por prolongar a história, tanto que só vai ter uma temporada mesmo.
Eu gostei pra caramba porque é uma história que poderia acontecer com qualquer um de nós. Ouvi alguém comentando que o título faz alusão à saúde mental dos protagonistas, que sofrem períodos de depressão e autodestruição durante o desenrolar da história.
A história se passa do final do ensino médio até mais ou menos o final da faculdade. Connel e Marianne cresceram na mesma cidade do interior da Irlanda, mas são opostos. Em comum, só a inteligência e a solidão. Apesar de terem convivido na escola quase a vida inteira, só no final dela eles se encontram por puro acaso... e se encaixam perfeitamente. Ela tinha dinheiro, mas não tinha o restante. Ele tinha o restante, mas não tinha dinheiro. Mas, embora ele fosse "o" popular, só com ela ele conseguia conversar de fato. Aquela coisa que o poetinha dizia, sobre a vida ser a arte dos encontros. Any doubt?
Durante a trama, as vidas deles vão se separando e se reencontrando. Eles erram o tempo todo um com o outro - ele muito mais com ela do que o inverso -, mas são erros "perdoáveis" que falam mais de deficiências emocionais e questões de falta de autoestima próprias dos dois do que de falta de amor ao outro. Sim, tem amor ali, mas tem muita falta de autoestima em cada um e por isso, também, além de amor, há muita dependência emocional. O final da série, acho, é uma indicação de que esse padrão foi rompido, de que algo mais maduro vai brotar dali.
O que gosto nos dois é que, apesar da dependência emocional, eles não correm muito atrás do outro - e desconfio que isso reflete um traço dessa geração mais nova, nascida nos anos 1990, de não insistir no que tá difícil e fluir com a corrente 👏. Mesmo de coração partido, eles querem, no fundo, que o outro fique bem, e eu acho que é essa a parte que nos faz torcer pelo casal. E acho, também, que no fundo um tem muita certeza do afeto do outro, do lugar que tem na vida do outro, especialmente Connel. Mas se por um lado há amizade entre eles, há, também, muita confusão desnecessária por pura falta de comunicação, por mania de inferir sem perguntar antes. Bem normal people mesmo. 😕
Acontece que outro dia, vendo um documentário sobre o trabalho de Jim Carrey em "O Mundo de Andy", fiquei maravilhada com a capacidade dele de sair de si e ser outra pessoa, aquele personagem, por algum tempo. Eu nunca quis fazer teatro porque não acho que o tipo de persona exigido por esse meio combina comigo - embora, se tivesse um filho, faria questão de que tivesse aulas de teatro, que vêm bem a calhar no mundo de hoje que depende que você saiba se vender e rodar máscaras como nunca antes -, mas acho que numa próxima vida pode ser. Acredito que deve ser uma delícia poder ter férias de si mesma.
E foi conversando sobre isso com um amigo que ouvi dele uma frase genial, de que essa é a mesma sensação de viajar para o exterior. Bingo! É isso mesmo. Quando eu chego em uma cultura que não é a minha, em que eu sou desobrigada de relações, de expectativas, de códigos, eu posso descobrir aquele lugar e descobrir coisas novas sobre mim naquela terra estranha. É como poder tirar férias de si e ser outra pessoa. É libertador.
Troco, nessa vida, ser atriz por ser viajante. Com fé em mim e em Deus, vou rodar muito esse globo.