Sou rata de YouTube e sigo alguns canais de brasileiros que moram fora e de gringos que moram no Brasil. Tem jeito não: tenho rodinhas na alma, o mundo é minha nação. Uma conversa entre franceses ontem me chamou atenção para um tema: o número de travestis no Brasil. Sei lá, de cada 10 na Europa, 8 são brasileiras. Me espanta o baixo número de travestis europeias. Daí que a gente vê que é uma questão local e não apenas da condição de gênero e sexualidade das pessoas. Para um menino gay afeminado no Brasil só deve sobrar isso como alternativa de sobrevivência. Talvez europeus e americanos nessa mesma condição tenham oportunidades mais variadas de trabalho.
A travesti, coitada, é um pot-pourri das opressões: são afeminadas em um país profundamente machista, que rechaça o feminino, ainda mais a traição de um homem de nascimento à masculinidade; geralmente são negras e da periferia. Enfim, juntam gênero, sexualidade, raça e classe num pacote só. E como as oportunidades para seres periféricos já são poucas e com a autoestima sendo esfrangalhada desde criança (quando não sofrem violência desde a infância, no colégio e no bairro), o que muitas vezes sobra pra pessoa é trabalhar com beleza ou vender sexo, momento em que recebe algumas migalhas de atenção. Não vamos esquecer que o sexo também serve para isso: para se sentir desejada e de alguma forma valorizada e às vezes até é uma das poucas oportunidades de estar no comando - Cleópatra que o diga. Não é à toa que, no Brasil, travesti tem expectativa média de vida de 35 anos. Poucas histórias são como as de Dani. Ariana, né, more? Nem o cão pode com essa raça. Mas ali foi a satanariana brigando para viver, na força do ódio. Mas ela não esqueceu o que ela viveu. Alguns relatos são de partir a alma de verdade. 98% das pessoas que conheço não sobreviveriam, assim como muitas travestis não sobrevivem mesmo. Eu imagino que fora a violência, a taxa de suicídio deve ser enorme entre essa população. Não é fácil viver - e num país que já te atrapalha tanto como o Brasil - sendo tratada como uma aberração.
E a pior, hoje me dou conta, é o racismo. Essa porra (desculpa o palavrão, mas eu sou baiana, tô revoltada e o blog é meu!) mata as pessoas aos poucos, tira a autoestima, as adoece física e psicologicamente, quando não mata à queima roupa. O racismo nunca foi o meu marco de opressão, embora tenha experimentado isso na minha vida embora nunca frontalmente. Venho de uma saga de mulheres com relacionamentos ruins, infelizes, então a questão de gênero sempre foi mais forte na minha vida, inclusive nas (faltas de) oportunidades e dores. Há dores que eu só experimentei porque sou mulher no Brasil.
Claro que se eu tivesse a aparência da Marina Ruy Barbosa ou da Bruna Marquezine - para falar de uma mulher que não tem aparência europeia, mas não é lida como negra - minha vida seria muito mais fácil, inclusive a amorosa (em parte, porque eu sei que é deixar de ser mula para ser bicho de estimação; o machismo é um jogo que a gente nunca ganha). Mas eu tenho uma passabilidade nessa questão de raça. Se me esforçasse como Renata para embranquecer, nem seria uma questão marcante na minha identidade, não na maioria dos círculos. Minha questão como mulher é que nem sou a "troféu", de quem o homem vai suportar muita coisa até em alguns casos (porque algumas delas têm o dom da chatice, da nojentice, reúnem o pior do estereótipo da feminilidade tóxica) apenas pelo símbolo que ela representa para a sociedade, nem sou a mulher dócil, simpática. Explico: eu tenho senso crítico, sou franca e não sou sedutora; não sou de ir atrás de ninguém. Em uma cultura de subserviência feminina, como a do Brasil, não "ser dada" é um problema e tanto para uma mulher, ainda mais se for das que não agregam ao camarote. O homem fica com ressentimento, achando que você não valoriza. Eu sou eu o tempo todo e as pessoas não estão acostumadas com isso. Nunca aprendi a jogar o jogo - e essa minha afirmação não é um autoelogio; é uma constatação, com todos os problemas e virtudes que não jogar traz.
Tenho amigas ótimas que não conseguem ter um relacionamento duradouro justamente porque são ótimas mesmo sozinhas. Não são muitas, não; infelizmente as conto nos dedos. Tem um monte de mulheres que se acham ótimas só porque são esteticamente bem cuidadas e ganham bem; falo de mulheres feministas na prática, alegres, engajadas na própria vida, esclarecidas e solidárias a outras minorias. Uma das minhas amigas que é assim é da umbanda. Uma vez, a pomba gira deu a real a ela: disse que todos os ex terminaram com ela ainda gostando muito dela, por medo de não estarem sendo correspondidos, pois, afinal, ela não demonstrava dependência. E eu acho que rola também uma certa inveja dessa independência, dessa autoestima a mais. Isso só me lembra a frase que ouvi de um homem uma vez: "A única coisa que um homem tolera que a mulher seja mais que ele de boa é ser mais bonita"... Olha o que é o ser humano (isso é universal, tanto faz homem ou mulher): a pessoa prefere estar com alguém de quem gosta menos ou nem gosta e que oferece menos do que com alguém de quem gosta muito, que admira, mas que não mostra dependência emocional, não dá a segurança do controle sobre o outro. Olha com que tipo de espírito as pessoas entram nos relacionamentos. Olha o que a masculinidade tóxica produz, fazendo homens acreditarem que devem estar sempre por cima e as mulheres sempre aceitando isso. Olha a nossa pobreza afetiva. :/
Meu mal, como disse Juan Del Diablo, foi achar que todos os seres humanos são iguais. Aliás, o de muita gente. Dizem isso pra gente na infância e alguns piscianos ou ingênuos mesmo acreditam, bichinhos. Hoje eu já sei que não, mas já me iludi bastante me achando igual em ambientes elitistas e tomando na cara, da forma mais dura - da parte de pessoas pelas quais tinha afeto ou em circunstâncias que me eram caras -, quando essa diferença vinha à tona. E o pior: por que eu mesma achava que devia estar naqueles lugares e entre aquelas pessoas que, no final das contas, vi que não acrescentavam nada para o que eu realmente queria? A gente é tão martelado com determinados modelos de felicidade que a gente se encaminha pra eles automaticamente, sem nem perguntar se aquilo é o que nos preenche realmente.
Que as pessoas, aqui e acolá, marquem posições, eu ainda consigo entender porque gente não é gente. Mas já as instituições... Bem, o mal é que as instituições são feitas de gente. E nem adianta sonhar com as máquinas não, pois elas também são programadas por pessoas, algumas explicitamente preconceituosas. Só o meteoro pra dar jeito nesse caos.























