Eu me identifico muito com o cinema argentino. Se a nossa televisão é superior a dos hermanos, o inverso acontece no cinema. E eu acho que, a despeito do que dizem do ego gigantesco dos nossos vizinhos, eles são mais simples. O mal do cinema brasileiro, a meu ver, são três: pretensão eterna de ser profundo e intelectualizado; roteiros que dificilmente são redondinhos; direção de atores que ainda falha muito. Tudo ao contrário do que vejo nos filmes argentinos. Sou fã confessa do cinema dos hermanos.
E eu amo o cinema afetivo de Juan José Campanella. Até porque eu amo cinema argentino. Até porque eu amo Ricardo Darín. Até porque Hollywood e o Oscar amam os dois, portanto não estou sendo nada original, né?
Em dez anos, ele produziu cinco filmes que falam de histórias banais (acho que a exceção é "O Segredo dos Seus Olhos"), mas com personagens bem construídos, próximos do público, e, por isso, são histórias que nos tocam, pois falam com elegância e humor de momentos possíveis na vida do espectador, pelo menos na maioria das vidas.
Acho que só não assisti "Las Comadrejas", que é recente. Mas os filmes dele fazem uma linha do tempo muito bacana. O primeiro, de 1999, é "O mesmo amor, a mesma chuva" (foto), que conta as idas e vindas de um casal, entre os anos 80 e 90. Nada de mais, mas uma graça de história. O final é muito fofo. Se você não se apaixonou aí, vai se apaixonar por "O filho da noiva" (foto), mais uma vez estrelado por Darín (que é o ator de Campanella, juntamente com Soledad Villamil e Eduardo Blanco), que é a história do casamento de um senhorzinho e de sua esposa de anos com alzheimer (Darín é o tal filho do título); o noivo quer realizar o sonho da noiva de casar na igreja, que no passado ela deixou passar em branco respeitando o fato dele não ser da mesma religião dela, ainda que ela, nos dias atuais, nem vá se dar conta de que estão realizando o sonho dela. Depois, em 2004, veio "Luna de Avellaneda", que é o menos legal de todos, mas bom de assistir; você se afeiçoa aos personagens. E por fim o consagrado "O Segredo dos Seus Olhos", que, além de trama policial, traz uma história de amor das boas com a mesma dupla de "O mesmo amor, a mesma chuva". O que todos esses filmes têm em comum? Bons personagens, tipos carismáticos. É isso: Campanella sabe criar "tipos", como se diz em espanhol!
Como bom canceriano, ele fala da importância dos afetos: da lealdade das amizades, da cumplicidade de casal, do amparo entre pais e filhos. Eu sempre achei que nada é mais político do que o próprio cotidiano. Se bem feito, não fica nada a dever aos "filmes de machos" que geralmente ganham as grandes premiações.
Fica a dica. :)


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