domingo, 31 de maio de 2020

"O começo é o fim e o fim é o começo"

Sim, ainda estou na vibe de "Dark" 😎. Mas hoje, vendo um filme francês, ouvi de um dos personagens (foto) uma coisa que sempre achei: o motivo que te faz tomar abuso de uma pessoa geralmente é o mesmo que te atraiu.


A pessoa que era muito racional com o tempo nos irrita pela falta de coração e espontaneidade; quem era "na dele", enche o saco pela indiferença; quem tem opiniões fortes começa a aborrecer pelo autoritarismo, e por aí vai. Mas por que a gente comete esse tipo de inconsistência de julgamento? No filme, o personagem, se sentindo rejeitado pela mulher, alega que assim ela nunca vai construir nada. Mas e se a base é falsa, tem como construir algo de fato? Só se for a casa fajuta do porquinho, pra Lobo Mau derrubar com um sopro. Casa bem construída, como nos ensina a história dos Três Porquinhos, o Lobo morre de falta de ar, mas não consegue derrubar. Não que a consistência nos salve do fim, até porque não ter fim não é selo de sucesso de uma experiência. A consistência nos salva da desilusão, da descoberta de que o que víamos nunca existiu.

Nesse filme mesmo, o cara era um extrovertido e, por detrás do charme dessa característica, havia manipulação e violência. E por que uma pessoa inteligente, como a protagonista do filme, muitas vezes se presta a não enxergar isso (sim, porque está ali, não ver é uma escolha)? Porque convém, porque somos carentes, porque andamos pelo mundo e nos relacionamos com o pires na mão. Porque não achamos graça em nós mesmos, na nossa vida e precisamos que o outro performe para botar um sal nisso. 

Hoje eu acho que um pouco de aventura não faz mal a ninguém, pelo contrário, mas é importante saber onde está se metendo. Esse, pra mim, é o pulo do gato. Na minha própria experiência, o que machuca não é o fim, mas a desilusão de descobrir que o que você adorava não existia, era invenção da tua carência, era projeção. 

Sabe aquela história de ir a uma festa ou ir ao mercado e fazer uma boquinha antes para não agir por desespero, e ou comer demais e passar vergonha na festa ou comprar bobagem no mercado? Pois é, a mesma coisa vale para os afetos. Quando a gente tá nutrido consigo mesmo, de barriga cheia com a própria vida, a chance de passar mal ou ter prejuízo é menor.    

Mas o filme também pontua algo interessante: ela se livra dele, mas demora dez anos até isso acontecer, entre idas e vindas. E ela é uma mulher com toda a condição de viver sem ele, tanto financeiramente quanto socialmente. É que certas decisões envolvem processos, mexem com sentimentos muito profundos e difíceis, que você não vai resolver por decreto. Aliás, é até capaz de dar mais merda se o corte vier fora do tempo, abruptamente. 

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