domingo, 24 de maio de 2020

Amor à flor da pele


Depois de muito tempo, assisti "Amor à flor da pele". Muito tempo mesmo, 20 anos depois que entrou em cartaz. Filme bom, lírico. O final (lá vem spoiler) é que dá pano pra manga.
Os dois não terminam juntos e ficam farejando um ao outro no ar, mas sem tomar a atitude. Engraçado que dias antes, uns dois mais ou menos, uma ouvinte ligou para um programa de rádio que eu escuto falando que estava de caso com um ex com quem ela não pôde se envolver na juventude por causa do pai (o ex também estava casado). O apresentador foi na jugular: ela estava revivendo isso por frustração do que não pôde ser, não por amor (ela não fez nenhuma menção do tipo na fala dela, ela destacou, no lugar, a frustração do passado), até porque, anos depois, esse homem já é outra pessoa, acrescentou ele.
É isso aí.
Eu não duvido do amor de ninguém, embora algumas situações, como essa aí, são pura teimosia em resgatar o irresgatável. Mas cada vez mais, tendo a achar que (fora em contextos de catástrofes sociais) você não faz o que não quer. Ou até queria, mas não tanto assim. Às vezes o medo é maior. Em outras ocasiões a acomodação é maior. Enfim, tem de tudo. Deixe os mortos enterrarem os seus mortos, o passado morto ficar com as suas histórias mortas.
Vou dar um exemplo do que estou dizendo: "As pontes de Madison". Francesca não amava Robert mais do que amava ficar com a própria família ou, talvez, mais do que temia a culpa de abandonar eles. Não interessa, o fato é que Robert não era a prioridade. E como toda escolha, algo se perdeu. Ela teria perdido também se tivesse ido. Em suma, acho que a gente faz o que precisava e conseguia fazer. Deixem o passado no passado. Se for pra resgatar antigos contatos, que seja no agora e não continuando algo que já foi. É ilusão e das improdutivas.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

A criança como elo de ligação

Neste final de semana de novo apareceu o caso de uma mulher relacionando o ato de ter um filho a um objetivo de relacionamento/ligação. Ao contrário do caso anterior, em que a colega usou a gravidez para sair de uma relação abusiva, para se religar a própria vida, neste caso a pessoa preferiu não ter filho porque via que o relacionamento era abusivo, mas ficou magoada quando o ex se casou de novo e engravidou outra mulher, e ela sentiu como se não ter concretizado a paternidade com ela fosse uma recusa pessoal.
Isso não é raro. Há muitas mulheres que para ressuscitar uma relação falida, estreitar uma que não vai pra canto nenhum ou mesmo se religar à própria vida o fazem por meio de um filho, de uma gravidez. Foi o que imediatamente eu pensei quando li sobre a segunda gravidez de Ticiana Villas Boas com o dono da JBS. Ela havia descoberto pela mídia que o marido a enganava e a traía, se separou, mas, quando o ex marido saiu da cadeia, ela resolveu reatar o casamento. O que ela fez logo em seguida, imediatamente? Engravidou. É uma forma de justificar ficar com esse homem depois de tudo. "Não é qualquer homem, é o pai de meus dois filhos. Temos uma família." Eu mesma vim ao mundo assim, para que meus pais justificassem continuar o casamento, já que um bebê precisa de pais juntos; uma criança de quatro e outra de oito anos (minhas irmãs mais velhas) nem tanto assim.
E isso muitas vezes nem acontece deliberadamente, não. Só 4% das nossas decisões, do que sabemos é a nível consciente e somos basicamente comandados pelo inconsciente.
Eu não sou muito simpática a isso, não. O motivo é que geralmente você joga na criança a culpa pelo fracasso: "Ah, eu só fiquei nesse casamento por você", "Ah, eu aguentei esse emprego por você". Se for uma aposta parceira na religação com a vida, do tipo "Você me dá um novo início, uma alavanca pra eu voltar a gostar de viver e eu, com respeito a quem você é, vou te ajudar na sua caminhada", ok. Mas dificilmente alguém que pensa num filho como meio de ligação vai ter essa maturidade, essa sanidade psicoespiritual. Geralmente essa mulher vai estar ligada na energia do medo e não na do amor.
Minha oração para que as crianças que chegaram ao mundo assim consigam ajuda e discernimento.

Ah, sim, por meio da constelação a colega viu que essa ideia de ter filho com o ex não tinha nada a ver. Se limpou desse fantasma e agora vai poder ser feliz de um modo genuíno, sem usar o futuro filho como muleta para o que não cabe a ele consertar ou sequer sustentar.

sábado, 16 de maio de 2020

Precisamos falar de Bert Hellinger (ou não)



O próximo módulo do curso é sobre Constelação Familiar. Por causa disso, estou lendo o livro de Bert Hellinger, "A simetria oculta do amor".
Bert é um ex padre que viveu na África e pegou de tribos de lá e de outros lugares a base da Constelação. Ele não criou nada, sistematizou apenas. As três leis dessa prática são:

1) Necessidade de pertencer a um clã ou grupo. Quando alguém é excluído, essa lei é quebrada e alguém, posteriormente, no sistema vai assumir essa história;
2) Equilíbrio entre o dar e o receber. Por isso que, num casamento, se alguém dá demais provavelmente vai ser trocado por alguém "menor", mas com o/a qual se tem uma relação mais equilibrada;
3) A necessidade de hierarquia dentro de um grupo. Quem veio antes tem prioridade. Por isso, o casamento tem prioridade em cima dos filhos, que vieram depois. Quando isso não é posto assim, os filhos se enfraquecem.

A CF trabalha com a ideia de honrar pai e mãe, o que significa respeitar, entender e aceitar. Não precisa amar, mas entender que cada um faz o que pode e agradecer pela vida dada por essa dupla de pessoas. Pra mim pareceu até óbvio que a sua vida ande quando isso acontece: pra conseguir honrar, é preciso gostar da vida, gostando da vida, você vai conseguir pelo menos ser grata a quem te deu a vida. É mais ou menos viver segundo essa frase da foto acima.

Mas Hellinger diz umas coisas que são bem difíceis de digerir, como o incesto acontecer porque a criança abusada faz isso ao genitor traído por amor. Ele também rebaixa pessoas sem filhos e homossexuais por não reproduzirem.

Ele também fala umas coisas que dão pano pra manga. Por exemplo, se alguém é ferido na relação, convém que a parte ferida revide, mas sempre um pouco abaixo, para que se reequilibre o dar e o receber. Outra afirmação dele sobre relacionamentos, que eu achei bem interessante, é a de que o ciumento inconscientemente quer que o outro vá embora. Eu acho que faz sentido. 


***
Por Jordan Campos

Existem três situações nas relações familiares e sentimentais que devem ser entendidas, resolvidas e colocadas em seu devido lugar, quer você queira ou não. Muitas vezes encontro pessoas que se queixam de que suas vidas não andam, que as coisas "não acontecem", que se sentem como se fossem amaldiçoadas, e no fundo destes achismos todos, encontramos estas situações abaixo, como "fio elétrico" das queixas e infortúnios atuais. Vamos compreendê-las:

1.     Problemas de exclusão – Quando você, seu pai, mãe ou alguém muito próximo nos laços de sangue se sente excluído, expulso e é julgado assim, esta energia reverbera de maneira tóxica e "escolhe" o mais frágil do sistema familiar e "encosta" nele. A pessoa tem uma sensação de não pertencimento, de não aceitação e passa a atrair relações em que os seus parceiros terminam de uma hora para outra; relações em que são traídas de forma rítmica, abortos espontâneos, dificuldade em engravidar e tudo o que convém à "exclusão".

2.     Problemas de hierarquia – Pais existem antes dos filhos e netos depois. É necessário que cada qual esteja na frequência da sua função, mesmo que alguém tenha morrido ou não tenha conseguido fazer seu papel. Essa coisa moderna de "Pãe", mães que são pai e mãe ao mesmo tempo, acaba em problema para os dois lados. Você precisa ser apenas mãe de seus filhos ou apenas filho de seus pais; jamais tomar o lugar deles ou fazer funções que não os cabe. Aqui cabe aquele velho ditado: cada macaco no seu galho. Se falta alguém na família, deve-se deixar o espaço vazio. Hierarquias não são substituíveis.

3.     Problemas com dar e receber – Em toda a relação familiar deve existir um equilíbrio entre o dar e receber. Mulheres que dão demais, por exemplo, que se agigantam na relação, fazem seus parceiros homens procurarem outras mulheres "inferiores" em casos extraconjugais, para sentir que também podem dar o que não podem na outra relação. Isso vale para os super-homens e supermulheres. Causam no parceiro a sensação de impotência e pequenez, e isso acaba sempre com "traições". O equilíbrio é essencial para bons relacionamentos.

sábado, 2 de maio de 2020

As caixinhas e o que é opinião e o que é posicionamento

Há semanas na vida da gente que parecem episódio de seriado, apresentam a discussão de um tema. Tenho a ligeira impressão de que já comentei isso aqui, mas, enfim, nada vai ser inédito mesmo a essa altura da vida e do blog.
Na terça, um amigo me confessou que estava muito chateado com uma amiga que já não estava tão amiga com ele, e argumentou que continuava o mesmo, não sabia o que havia ocorrido entre eles. Nesses casos, na minha opinião, existem dois cenários: ou a pessoa mudou e aquele laço não faz sentido mais; ou é da geração "fada sensata". Explico: as pessoas hoje só toleram quem pensa exatamente dentro da sua cartilha. Conheço vários grupos de amigos em que um é a cópia do outro. Assim tá fácil, né? Você está elogiando você mesmo, se relacionando com você mesmo. Na verdade, nem com você mesmo, mas com a projeção do que gostaria de ser. Amar é achar graça até nos defeitos. Tinha, mas acabou. Não é mais a onda dos relacionamentos de hoje.
Eu, pessoalmente, já me encolhi muito para caber nas caixinhas idealizadas pelos outros, achando que correria o risco de perder aquele afeto (grande afeto!...). Hoje em dia, tô mais aqui pra isso, não. Prefiro meus estudos, meus filmes, meus cada vez mais raros amigos.
Posicionamento
Mas eis que o diabo atenta e hoje a discussão, com outras amigas, foi sobre o filho do cão, o chefe da familícia. Uma amiga que quer passar o pano pra outra amiga que votou em Bolsonaro fica naquele discurso de "não quero julgar". Velho, ela poderia ser diferente de mim em vários quesitos e isso não me importunaria, mas ser a favor da única candidatura que, explicitamente e descaradamente, feriu os direitos humanos não é questão de opinião. Ainda mais que ele não tinha projeto. Qual era o motivo senão identificação? Opinião é gostar de sorvete de coco ou de chocolate. Apertar 17 é posicionamento ideológico, banalização do mal, e, enfim, só o fato de não se chocar com o Inominável diz algo sobre a pessoa. Assim como os influenciadores que você segue, as pessoas de quem é amigo/a, e etc, suas escolhas entregam seus valores. É direito seu escolher, mas é minha prerrogativa ter uma opinião, porque as minhas escolhas, as escolhas dos outros, falam por nós, não são neutras.
Votar na Familícia não é opinião, não é erro, foi opção gerada por identificação. Fato.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Triplo viral - ou como eu parei de me preocupar e passei a amar a bomba

Em tempos de coronavírus, aqui no Brasil temos que lidar com mais dois vírus: o Bolsovírus (político) e o egovírus (social).
Confesso que estou, excepcionalmente, em uma situação privilegiada em meio à pandemia. Estou empregada (não é mérito meu; foi sorte), mas independente disso, teria minhas economias (isso é mérito meu, que aprendi depois de tantas dificuldades laborais durante a vida). Eu sei que sem isso eu estaria dormindo mal, comendo mal, angustiada, mas nem que eu estivesse numa situação financeira complicada, eu preferiria a economia à vida. A morte é a única coisa para a qual não se tem remédio. A frase é chavão, mas desconheço verdade maior que essa.
E veja o que é a hipocrisia dessa classe média que fica dizendo que "sem economia não há vidas". 😕 Essa mesma turma que diz que tem que abrir o comércio (e isso implica no risco de vida para os funcionários e, consequentemente, para as famílias deles), é a mesma turma que não quer mandar seus filhos para a escola quando as aulas voltarem. O famoso pimenta no ** dos outros é refresco.
Eu não tenho condições nem de continuar me chateando com isso. Hace falta fuerzas. Péssima época para ser alfabetizada em português.
Vou cuidar da minha vida, que eu ganho mais. A alma mesquinha do brasileiro é uma prova cármica pesada demais para tempos de coronavírus.

domingo, 26 de abril de 2020

O cinema afetivo de Campanella



Se eu fosse estudante de cinema, eu iria para Buenos Aires estudar. Acho que o único lugar que justifica você ir, além da Argentina, porque é o grande mercado, é Los Angeles, Estados Unidos.
Eu me identifico muito com o cinema argentino. Se a nossa televisão é superior a dos hermanos, o inverso acontece no cinema. E eu acho que, a despeito do que dizem do ego gigantesco dos nossos vizinhos, eles são mais simples. O mal do cinema brasileiro, a meu ver, são três: pretensão eterna de ser profundo e intelectualizado; roteiros que dificilmente são redondinhos; direção de atores que ainda falha muito. Tudo ao contrário do que vejo nos filmes argentinos. Sou fã confessa do cinema dos hermanos. 
E eu amo o cinema afetivo de Juan José Campanella. Até porque eu amo cinema argentino. Até porque eu amo Ricardo Darín. Até porque Hollywood e o Oscar amam os dois, portanto não estou sendo nada original, né?
Em dez anos, ele produziu cinco filmes que falam de histórias banais (acho que a exceção é "O Segredo dos Seus Olhos"), mas com personagens bem construídos, próximos do público, e, por isso, são histórias que nos tocam, pois falam com elegância e humor de momentos possíveis na vida do espectador, pelo menos na maioria das vidas.
Acho que só não assisti "Las Comadrejas", que é recente. Mas os filmes dele fazem uma linha do tempo muito bacana. O primeiro, de 1999, é "O mesmo amor, a mesma chuva" (foto), que conta as idas e vindas de um casal, entre os anos 80 e 90. Nada de mais, mas uma graça de história. O final é muito fofo. Se você não se apaixonou aí, vai se apaixonar por "O filho da noiva" (foto), mais uma vez estrelado por Darín (que é o ator de Campanella, juntamente com Soledad Villamil e Eduardo Blanco), que é a história do casamento de um senhorzinho e de sua esposa de anos com alzheimer (Darín é o tal filho do título); o noivo quer realizar o sonho da noiva de casar na igreja, que no passado ela deixou passar em branco respeitando o fato dele não ser da mesma religião dela, ainda que ela, nos dias atuais, nem vá se dar conta de que estão realizando o sonho dela. Depois, em 2004, veio "Luna de Avellaneda", que é o menos legal de todos, mas bom de assistir; você se afeiçoa aos personagens. E por fim o consagrado "O Segredo dos Seus Olhos", que, além de trama policial, traz uma história de amor das boas com a mesma dupla de "O mesmo amor, a mesma chuva". O que todos esses filmes têm em comum? Bons personagens, tipos carismáticos. É isso: Campanella sabe criar "tipos", como se diz em espanhol!
Como bom canceriano, ele fala da importância dos afetos: da lealdade das amizades, da cumplicidade de casal, do amparo entre pais e filhos. Eu sempre achei que nada é mais político do que o próprio cotidiano. Se bem feito, não fica nada a dever aos "filmes de machos" que geralmente ganham as grandes premiações. 
Fica a dica. :)  

quarta-feira, 22 de abril de 2020

TTS



Faz dois meses que comecei uma formação em psicoterapia. Há muito tempo tinha vontade de experimentar esse caminho - desde a Facom -, e já que estou mesmo no limite com o jornalismo, resolvi me jogar. Fiz meu cálculo e decidi que, mesmo na pior das hipóteses, vou me melhorar.
Ainda estou no início da experiência, mas tive alguns aprendizados interessantes até agora.

O primeiro módulo foi uma grande introdução, em que se explicou o conceito de transpessoalidade. Foi interessante ter conhecimento de que as influências podem vir de várias zonas da vida da gente, inclusive dos antepassados. Também gostei muito de uma frase, que tô levando para a vida: a gente só reconhece o que conhece.

Tem gente que é ruim mesmo, mas a grande maioria não consegue compreender porque não conhece, então não vai conseguir reconhecer. Como um amigo meu, super bom coração, que foi distribuir uns pães comigo e se chocou com a violência das pessoas pra ter pão. Ele não reconhece o que é ter fome e viver na rua. Veja, pra pessoa crescer o olho por um pão, é porque a vida é pra lá de desgraçada. Isso serve pra outras coisas como racismo, diferença de gênero.

No segundo módulo, de PNL, foi interessante para aprender como acessar experiências não assimiladas e ressignificá-las. Também gostei da parte de linguagem corporal. Algumas coisas vou observar na vida, hehe.

O último módulo, agora, foi de iridologia. Nosso olho entrega a nossa vida. Impressionante.

Mas uma segunda ideia que eu aprendi lá e achei genial (e é muito simples) é: toda situação que te emociona revela uma ferida da criança interior. Só curando ela primeiro para o adulto poder assumir as rédeas da situação. Fez sentido. Isso explica tanta gente em relacionamento abusivo. O adulto não reage porque é a criança que está se relacionando.

Olha, ser humano é babado.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

A saga humana


Fora a natureza, a única coisa que me emociona de estar nesse planeta é estar participando da saga humana. Soa piegas pra burro, mas acho bonito pensar que cada um que veio antes de mim botou um tijolo para esse mundo que conheço hoje. Há muita coisa ruim feita pela humanidade, mas muita coisa boa também foi construída. O mundo sempre foi injusto e já foi muito mais arbitrário que hoje. Graças a gente que topou até morrer, vivemos o que vivemos hoje, em relativa segurança em boa parte do mundo. O que me deixa triste é que os de hoje não seriam capazes do mesmo tipo de abnegação nem para defender os seus.

Acho que é por isso que eu gosto tanto de História e de ficção histórica e sonhava, quando criança, com a máquina do tempo. Me dá um aperto quando vejo/leio que mulheres eram propriedades de homens, que negros eram propriedades de branco, que pessoas sem muita noção de para onde iriam chegaram a um "novo mundo", que operários chegavam a trabalhar 14 horas e morriam antes dos 50, incluindo aí crianças.

E por isso me irrita muito que gente arrogante e mimada não consiga aquietar a raba no sofá de casa, gritando que estão ferindo o direito de ir e vir, mesmo com tudo disponível, enquanto pobres, quase sempre pretos, estão por aí arriscando a vida por uns trocados.

Péssima época para me reintegrar à saga humana, viu? Lucy (foto), tua raça não anda valendo o que come, moça.

domingo, 12 de abril de 2020

Babu e a fake news do "Querer, poder e conseguir"

Eu não assisto BBB, mas quando você frequenta o Twitter, impossível não saber o que rola por lá.
Há três personagens negros nessa fase final: Telma, a negra bem resolvida e bem sucedida; Flay, a que tem passabilidade e muita raiva no coração; e Babu, o ator cuja carreira foi desfavorecida pelo racismo e que passa muitas dificuldades materiais.

Detesto Flay porque, a parte de qualquer sofrimento que ela tenha passado, ela é gente ruim na essência, dá pra sentir isso. Torço por Telma. Tenho o pé atrás com Babu. Ps.: Ranço de Manu. 

Por quê? Porque ele me remete a um fenômeno de pessoas negras, especialmente de homens negros, que querem compensar o racismo sofrido sustentando uma vida que eles não têm cacife para sustentar, cuja inconsequência impõe consequências às pessoas da família. 

Babu reclama que os filhos chegam quase a passar fome. Algumas pessoas do público se aproveitam disso para questionar o fato de um dos filhos dele estudar em colégio de luxo (é bolsa integral, oras. quem não proporcionaria uma chance dessas aos filhos?). É aquela gente que acha que preto e pobre tem que ser humilhado o tempo todo. Todo mundo deve ter coisas boas, mas se puder. A minha bronca com Babu é ele não se adequar às possibilidades e querer forçar um sonho que compromete pessoas além dele, algumas delas menores de idade. 

Eu não tenho dúvida que a aparência negra de Babu tirou muitas oportunidades dele. E nem o negro gostosinho ele é. Babu é gordo, o que já é "problema", independentemente da cor, e piora no caso de um homem negro. Mas acontece que certas carreiras são máquinas de moer gente de todos os tipos, especialmente aquelas de grupos já marginalizados. Uma coisa é você apostar num destino desse tendo respaldo da família ou sacrificando só a si. Quando você não tem nenhuma condição e ainda arrasta os outros, me desculpe, eu acho egoísmo. É esse egoísmo que me irrita em Babu. E por trás disso não está só a dor do racismo, mas a teimosia do macho que não sabe perder. Às vezes, na vida, a gente perde. Fazer o quê? Quem não tiver as suas frustrações que atire a primeira pedra. Esqueçam Xuxa: querer nem sempre é poder e muito menos certeza de conseguir. Ser uma pessoa boa ou esforçada não te livra de uma vida ruim e não te garante recompensa, só faz bem ao seu espírito mesmo.

Vou puxar aqui a minha própria história. Eu sou filha de uma família de classe média média (pai bancário e mãe dona de casa). Escolhi uma profissão elitista e que paga pouco, quando não impõe períodos de desemprego. Tirando uns dois ou três, meus colegas de curso são do meu padrão familiar pra cima. São pessoas que ganharam carro dos pais (eu não), alguns ganharam o apartamento da família (eu nunca), se estiverem desempregados, mamys leva pra NY (hahaha!), enfim, são pessoas que podem se sustentar nessa carreira instável à beça porque mesmo quando elas perdem profissionalmente, elas não perdem quase nada em padrão de vida. Há ainda aqueles que são casados com gente rica, que acabam também não perdendo quase nada mesmo estando desempregados, que vão dirigir um 4x4 mesmo quando estão sem emprego há um ano. Eu passei um tempão me iludindo que eu era como essas pessoas, porque meu pai é servidor aposentado. O pai de uma amiga minha da faculdade é bancário aposentado, a mãe dela é dona de casa, são pais de três filhas também e deram muito mais suporte a elas. Portanto meu pai poderia - e nossa vida teria tido muito mais possibilidades se ele tivesse feito isso -, mas meu pai não tem o mesmo zelo pelos filhos que os pais de meus amigos. Um dia, até, minha terapeuta esfregou isso na minha cara. Não adianta eu me pensar como um deles que eu não tenho o mesmo respaldo familiar deles. E digo: eu só pude me sustentar 20 anos nessa barca furada porque não tenho filho. Aliás, eu agradecia por isso o tempo todo em 2016, quando saí do jornal e depois da TV e começava a se desdobrar a crise econômica. 

Dar comida e saúde a um incapaz, até onde minha compreensão vai, tem que vir na frente de qualquer sonho. A gente tem que sonhar, mas com os dois pés na realidade, se adequando ao que temos no momento, alternando fases da vida. É razoável pensar assim, não? Harrison Ford pensava assim, e só largou a carpintaria quando entrou no elenco de Star Wars. Uma moça branca padrão da minha época de Facom, mas de origem pobre, tentou a carreira de atriz em SP, viu que não ia rolar, e abraçou o jornalismo mesmo em sua terra natal. Wagner Moura foi repórter enquanto não emplacava carreira de ator - e olha que ele era um moço de classe média, não ia ficar sem eira e nem beira, sem teto e comida. Babu não. Eu entendo a frustração dele diante do racismo. Esses exemplos mesmo que eu dei, agora, provam também que praticamente só quem consegue chegar lá são os brancos. Mas Deus não oferece SAC. A gente tem que ajeitar as coisas aqui embaixo mesmo. Por que provar aos outros que pode é mais importante que o bem estar de si mesmo e dos filhos? Eu não consigo simpatizar com isso, eu não apoio quem joga pra conta dos outros as suas frustrações e teimosias pessoais. E, no caso de Babu, ainda me dá agonia a torcida, formada de gente que é acrítica a ele e o apoia tentando uma redenção dos sofrimentos causados pelo racismo através da vitória dele. Sou mais Telma, mas negro bem resolvido não dá ibope no Brasil. 


EDIT: Conversei com um amigo sobre Babu, que repercutiu mal nas redes após declarar que o prêmio de R$ 150 mil serviria para pagar as dívidas e torrar. Meu amigo acha que não é só questão de se compensar, mas de ganhar humanidade, ainda que de uma forma que, no fundo, é falsa. Ambos concordamos nisso. Meu amigo também acha que é meio complicado, que tem que tomar cuidado com o discurso moralizante, do tipo "todos devem conseguir agir corretamente". Eu entendo e me preocupo de estar pesando a mão, mas, por outro lado, eu fico pensando se não tem um monte de gente se apegando às questões sociais para justificar um comportamento mimado, pra não precisar amadurecer. A gente não veio do nada, mas ninguém nasceu Gabriela, pô. Infelizmente, tem gente se escondendo por trás de questões sérias. Nisso também concordamos. 

terça-feira, 17 de março de 2020

This is Lu



Luísa me liga no dia do meu aniversário. Claro que ela não sabe que é meu aniversário, a mãe é que pôs ela no telefone, mas ela sabe o que é um aniversário de todo modo. Ela me pergunta se vai ter festa, e eu digo que não. Pergunta, então, se vai ter bolo e eu nego. Por fim, ela me dá os parabéns, responde um par de perguntas minhas e se pica meio desapontada.

This is Lu.

Ladina que só ela. Mas titia ama mesmo assim, hehe. Eu saquei Luísa com dois meses de idade e aprendi uma coisa sobre o amor: amar é achar graça até nos defeitos. Acreditem, isso é possível.

Luísa fez cena comigo quando ela mal se movia, com dois meses, me castigando por ter desaparecido alguns dias. Esse tipo de coisa que os bebês fazem me intriga. Como é que sabe que a gente é família, que a gente faz parte de um grupo que não é equivalente a qualquer pessoa, a todo mundo? Só pode ser algo epigenético-espiritual mesmo.

Antes de aprender a andar, ela já dava as dela. Aprontona, quando era retirada do local do crime, gritava "Aiiiii!". Ela sacou que o "ai" fazia a pessoa largar ela. Quando aprendeu a falar, aprendeu também a comer o mundo. Não podia ver ninguém comendo que maliciosamente chegava perguntando o que era aquilo, só pra pessoa oferecer um pouquinho e ela beliscar.

A lista é extensa. Luísa sabe como se dar bem. Sabe até demais e às vezes até passa do ponto. Eu me preocupo com isso, mas é mais fácil trabalhar esses excessos do que a falta de energia. E ela tem energia vital, ela está na vida, ligada, imprimindo movimento. Dessa parte dela eu sou fã. Também aprecio a inteligência.

Um dos dias mais estranhos na vida de quem é "boa pessoa" é descobrir que fazer tudo certo e ser bom não te poupa de nada e não te traz recompensa. A única é a de você com você mesma. Se Luísa crescer sem se sentir assim, não vou mentir a ela que ela precisa ser boa pessoa porque a vida será boa com ela. Mas espero que se essa não for a natureza dela, que ela ao menos seja responsável.




terça-feira, 10 de março de 2020

Rabiosa

Nós, brasileiros, somos um povo cheio de raiva. E raiva tem a ver com frustração, com decepção, com a sensação de injustiça. Por mais que sejamos problemáticos em nossas condutas, temos motivos para ter raiva, pois este é um país que toma infinitamente muito mais do que entrega. Só o medo que a gente tem da violência já inviabiliza a existência saudável no Brasil.

É o ônibus lotado, é o calor que faz passar mal, é a rua sem asfalto, é o salário curto (isso quando não se está desempregado), a Saúde que não funciona, a insegurança total e absoluta, a dificuldade até de obter o benefício quando doente. Há motivos, e ninguém pode negar.

Só a raiva, acho, explica elegerem Crivelas e Bolsonaros da vida. E a raiva, em dado momento, é irracional e tóxica.

O brasileiro se fode tanto que tem raiva de quem recebe qualquer ajuda. O brasileiro só admite ajuda mediante humilhação. "Quem quer comer faz qualquer coisa e consegue o dinheiro", disse o cidadão de bem que dirigia o Uber outro dia.

A raiva, tóxica, faz a gente esquecer, a despeito das fraudes que, infelizmente, sempre acontecem, que o Bolsa Família é necessário para tirar alguns indivíduos, que vivem quase como animais, desse patamar.

Temos raiva e com razão, mas através dela, ao invés de construirmos a reviravolta, investimos na mesquinhez como esporte nacional.

domingo, 8 de março de 2020

Dialógos da depressão

1: O que você costuma fazer quando está na merda, querendo sair correndo por aí e berrar?
2: Eu bebo e assisto Gossip Girl. Às vezes só bebo mesmo.
1: Gossip Girl presta?
2: Essa é uma pergunta difícil.
1: Olhei agora. Menino, isso é rich people problems.
2: Sim.
(pausa)
1: É isso que faz passar a sua raiva da vida?
2: Sim. 😅
1: Masoquista.
2: Ah, é porque é tão distante de mim que eu nem penso que é o mesmo mundo.
1: Entendi. É tipo Star Wars só que em Manhattan.

Siga a sua paixão

Essa semana um colega me enviou um TEDx muito bom sobre profissão, o tipo de material que eu queria ter tido acesso aos 20 anos e teria me ajudado um montão. É o seguinte: uma mulher, ex-produtora de Marta Stewart, um dia perde o emprego e a partir daí ela reanalisa essa questão de carreira, de seguir a sua paixão. Ela sugere que em vez de procurar uma paixão, que se procure por algo que faça sentido, que a pessoa ache importante fazer.
Ela pontua umas coisas interessantes sobre essa frase que se tornou um mantra:
1) Paixões mudam ao longo da vida;
2) Você descobre coisas interessantes sobre você quando está fazendo outras coisas, você descobre habilidades e interesses que não imaginava;
3) A vida acontece enquanto você está fazendo; não é algo que você constrói e depois vive;
4) Paixões implicam em grande tempo de espera e até por isso esse lema é elitista.



Fora que, assim como as paixões amorosas, haverá quem vai passar pela vida sem tê-las. E tudo bem. Mas a cultura fala "Faça o que você ama e nunca mais vai ter que trabalhar". Por favor, se ligue: fazer o que você ama é às vezes a deixa nociva para se preocupar em dobro e se anular como indivíduo. Conheço gente assim.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Eject

Eu tenho visto que a eutanásia está em questão em Portugal. Não li sobre isso ainda, mas achei massa. Acredito que as pessoas devem ter o direito de decidir sobre tudo, inclusive sobre quando e como morrer. Pena que num fim de mundo como o Brasil isso nunca vai ser discutido, regulamentado.

Eu fico pensando em Fernanda, que está com câncer metastático, e eu, apesar de não saber o que se passa com ela, acredito que mais do que a perspectiva de ter uma vida mais breve, a dor é que deve ser a verdadeira tortura dela. Eu não saberia conviver com dor física por quase uma década. Não sei o que ela tem a perder, mas, no meu caso, eu preferiria morrer, pediria uma morte digna, sem tanto sofrimento. Aliás, a irmã caçula dela, que passou anos também lidando com o câncer, pediu pra morrer. Eu entendo. As pessoas deveriam largar de hipocrisia e também entender. Mas é que eu acho que aceitar a vontade dos outros de morrer mexe com as frágeis certezas delas sobre querer viver ou sobre outros entes queridos quererem viver.

Eu não tenho medo de morrer, eu tenho medo do como, de sentir dor, de ser torturante.

Confesso que não saberia o que dizer a alguém que cansou de viver. Eu saberia, acho, demover alguém que está querendo morrer por causa de terceiros, até porque isso é muita estupidez, mas não por estar cansado da própria vida. Poderia dizer: "Aguarda mais um pouquinho, espere pra ver se as coisas melhoram", mas não ousaria contestar o seu cansaço. Quem calça o sapato é quem sabe onde o calo aperta.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

This is us







A primeira vez que ouvi falar dessa série foi no Facebook. Alguém comparou-a às novelas de Manoel Carlos. Sem querer rebaixar a produção nacional, mas, na boa, nem em mil anos MC chegaria nesse nível. Até porque há certas diferenças culturais. Entre os autores brasileiros, acho que a Lícia Manzo, de "A vida da gente", é a mais próxima do texto de "This is us".

Resolvi experimentar pra ver e me apaixonei. Por que resolvi ver? Porque além de me interessar por relações interpessoais, por questões de família, eu amo Milo Ventimiglia há 20 anos. Eu conheci ele ainda adolescente, quando protagonizava um seriado teen que parou na primeira temporada, chamado "Opposite sex". Uns parenteses aqui: esse seriado realizou uma das cenas românticas teen preferidas da vida. O personagem de Milo é um garoto comum da escola, nem loser nem winner, que, se não me engano, se mudou pra aquela cidade nova e está em processo de se encaixar ali. Ele faz amizade com uma menina que é toda perdida, nem de longe a mais bonita, mas alegre e sensível. Uma graça. Um belo dia, ele a acompanha em alguma festa onde vai estar um cara mais velho tocando, por quem ela está apaixonada. E o sujeito trata os adolescentes muito mal, deixa o povo olhando de um cercadinho. Na hora em que Milo vê a amiga ali, decepcionada por causa de um bonitão babaca, ele fica indignado, querendo tirar ela de lá, querendo dar um consolo, e daí ele percebe que se apaixonou por ela e se pergunta por que alguém que não tem nada de especial desperta nele tanto carinho. A cena é uma graça, de um romantismo crível e delicado.

Depois assisti Milo como o Jessie de "Gilmore Girls", todo rebelde, nenhum porte de galã dos anos 50, porém munido de charme masculino. Aí vem "This is us" e ele acaba de matar mamãe interpretando o marido e o pai dos sonhos. <3

Por causa dele eu comecei a assistir a série, que é fofa sem deixar de ser realista. Jack é o meu preferido, mas eu gosto de quase todos os personagens.

Jack teve uma vida familiar de merda, mas conseguiu construir uma família massa. Eu gosto muito de ver isso: gente que, pela dureza da vida, tinha tudo para não dar amor, mas, por essência, seguiu pelo caminho do afeto. A cola de tudo isso era a esposa, uma fofa, que ele amava profundamente. Aliás, Mandy Moore me surpreendeu como atriz. E o roteiro da série é bom, então a mãe, apesar de ter muito da mulher ideal, é um ser humano com suas dores, dúvidas e fracassos. Adoro Rebecca. Ela não é a típica mulher que joga toda culpa no marido; ela olha para ele. Contrariando a máxima de Contardo Calligaris, de que as pessoas se casam para ter em quem jogar a culpa pelas suas frustrações, da vez em que Rebecca tentou fazer isso, ela depois refletiu e viu que Jack também sacrificou sonhos em prol da família. E ele também reconhece a importância dela para que aquele lar seja o que é. Na verdade, como ele mesmo admitiu uma vez, a vida dele só ficou boa quando conheceu ela. Isso é amor: você não tem a pessoa perfeita, mas você admira, presta atenção e entende essa pessoa, nunca desiste de mantê-la como companheiro de trincheira.

A história é a seguinte: filhos de lares complicados, Jack e Rebecca se conhecem e logo se casam. Ela quer ser cantora e ele tem talento para a construção/arquitetura. Em determinado momento, ele pede a ela por filhos e, enfim, apaixonados até a raiz do cabelo, esperam trigêmeos (é sempre assim: Rebecca, como a linha de frente da família, claro, tem dúvidas, e Jack empurra a coisa pra frente dando segurança a ela). Os filhos são Kevin, que é um ator cheio de inseguranças, Kate, que é meio perdida também, mas, ao contrário do irmão, tem como acréscimo ser o oposto do padrão de beleza, e tem o Randall, filho adotivo, negro, que é ansioso, obcecado por controle e perfeição, mas, bem sucedido, é o único entre os irmãos com a família margarina (amo o núcleo de Randall!).

Todos da família são profundamente influenciados pelo amor incondicional de Jack, mas por isso mesmo a ausência dele deixa buracos que contribuem para o mal-estar de todos no presente, quando os filhos já tem 36 anos, mesma idade do pai quando eles nasceram. Jack era obstinado em manter aquelas pessoas bem. Ele não depreciou ou largou nenhum filho por mais que os meninos fossem difíceis desde pequenos. Como disse o médico, era a pessoa que teimava em fazer do limão uma grande limonada. Tem uma fala de Kate, que era a preferida do pai, em que ela conta que toda vez que chovia, escangalhava a janela do quarto dela e entrava água no quarto. E toda vez, sem reclamar, com toda paciência, ele consertava a janela para que não molhasse mais a filha. Convenhamos que na vida adulta achar alguém assim é achar agulha no palheiro. Jack tinha mesmo que fazer muita falta. Um legado de amor desses é pra glorificar de pé. E, veja, não custa nada gostar das pessoas e mesmo assim anda difícil pra caramba.

Uma das cenas mais lindas da série, para mim, é essa primeira. Nesse episódio, os meninos deram problemas do início ao fim, nesse dia que era pra ser divertido, mas, no final, Jack conseguiu fazer todo mundo se aconchegar no peito dele - e ele apoiado no colo de Rebecca. Melhor metáfora dos Pearsons não há.

O grande destaque de "This is Us" está no texto, que todo episódio vai trazer algo pra nos fazer chorar. É batata. Você quer ser como os personagens, mas, ao mesmo tempo, se identifica bastante com as fraquezas deles. Caramba, nas primeiras cenas de Kevin, dele como ator, eu tive vontade de arrancar ele dali. É isso, é uma série sobre empatia. Quando você acha que entende um deles, lá vem um flash-back (e ultimamente um flash-forward) pra acrescentar mais um dado que ressignifica aquele personagem na trama.

Não tem muito como explicar uma série sobre personagens. É uma questão de envolvimento emocional, de achar carisma naquelas figuras. Mas eu acho que "This is Us" traz, acima de tudo, boas reflexões sobre os nossos relacionamentos, sobre a vida da infância à velhice. Eu recomendo muito.





Você tem fome de quê?

Eu tô muito gorda, no nível de estar perdendo roupas já. Estou fazendo dieta. Na verdade, como não tenho muita paciência para ficar passando fome, tô cortando açúcar, industrializados e tal. E percebi que realmente o açúcar tem um papel na minha química, no meu humor. Eu fico triste sem as minhas guloseimas.

Há muito tempo tenho a teoria de que "a seco" ninguém encara essa vida. Há quem compre, quem jogue, quem ande freneticamente atrás de sexo e até quem se entretenha evitando tudo isso, se esforçando demais para ter o controle de tudo. A comida é, talvez, um dos prazeres mais democráticos. Em minha viagem de agora, para a Paraíba, vi um menino de rua pedindo guloseimas e sendo atendido pelas pessoas. Até ele pode se deliciar de vez em quando. A felicidade de um bom churros pode não ser duradoura, mas é intensa enquanto dura. <3

Quem tem fome de vida e tá de prato vazio geralmente descamba para a comida. O padrão que eu percebo (repito: que eu percebo, pois não fiz pesquisa, nem sou psiquiátrica ou psicóloga) no álcool é de gente que quer fugir de conflito, que quer se acalmar. Álcool é como uma anestesia para as dores da vida. O guloso quer afeto, quer prazer e, não tendo isso, vai se consolar com a acolhedora, saborosa e disponível comida. Tem até um termo para certas comidas, "confort food", que são comidas acolhedoras, que geralmente trazem uma memória afetiva.


A personagem da foto acima é Kate de "This is us" (em breve escrevo sobre isso). Ao contrário dos irmãos, ela não tem um conflito interno gerado a partir da família. Os pais foram ótimos com ela, mas todos nós carregamos uma alma e a dela é frágil. A vida é dura e pode ser duplamente dura para quem não aprende a ser forte. Talvez ela tenha endeusado as pessoas da família e, não se achando à altura, tenha dado início ao processo de esconder-se atrás da gordura, de buscar afeto na comida. 

Eu sempre digo que as pessoas não têm um problema porque são gordas, mas se tornam gordas porque têm um problema emocional. Não se deixa de ser gordo só com bariátrica, reeducação alimentar e academia. Ninguém engorda porque tem fome, mas porque desconta algo, uma carência de algo, na comida. Por isso que pressionar a pessoa a perder peso não funciona, pelo contrário. Isso só serve para a pessoa se afundar ainda mais. 

Uma amiga minha que é psicóloga faz acompanhamento de gente que fez bariátrica. Ela diz que é muito comum a pessoa trocar uma dependência por outra, geralmente por bebida ou sexo. 

Ou seja, folks, a vida é complicada pra caralho. Até Brad Pitt, a quem teoricamente nada falta, disse isso e não sou eu, pobre mortal, Maria Ninguém, que vou discordar. 


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Fraude do Gugu



Nunca gostei de Gugu. Nem dele, nem do Huck. Ambos lucram com a miséria alheia, mas fazem beicinho de quem tá comovido, tá ajudando de coração. Gugu era mais fake ainda do que o marido de Angélica. Menos mal que, dizem, era generoso com as pessoas ao redor. Levo isso em conta ao formar minha opinião.

Então não me surpreendi quando veio o testamento e ele simplesmente ignorou a mãe dos filhos dele. Óbvio que ela não tem direito a metade do que é dele, porque ele já tinha tudo isso quando constituíram família. União estável não é essa festa toda que o povo acha; tem critério na coisa. Claro, todo mundo sabia que Gugu era gay. Eu, criança, me lembro de ter lido em uma Contigo! da vida uma matéria sobre o rompimento dele com Silvinha, ajudante de palco do Viva a Noite, e ela dizendo que ele só alisava, insinuando mesmo que não havia sexo. Com uma mulher normal, que gosta de sexo, ele nunca conseguiria levar essa farsa adiante. E Rose Miriam parece ser obcecada por ele, o que alguns conhecidos do casal confirmaram. A pata perfeita. Não importa se rolou muito dinheiro, mas se prestar ao que ela se prestou, subjetivamente, e colocando na conta que era uma mulher jovem e longe de ser uma pobre coitada, foi pesado. Por isso que adoeceu, porque se anulou demais, provavelmente esperando um reconhecimento dele que nunca veio, cuja pancada final foi o testamento.

Sim, porque eu acho que em duas coisas ele foi inegavelmente sacana. A primeira foi ter dado a curadoria das meninas à irmã. Poderia ser compartilhada, mas não tratar a criatura como se nada tivesse a ver com os próprios filhos. A segunda foi não ter garantido uma renda vitalícia. Ela foi o armário dele por 20 anos, ele a sustentava (porque se não queria fazer isso pra sempre, que deixasse claro desde o começo) e ele inclusive ganhou dinheiro com essa imagem de homem de família. Para o produto Gugu, Rose e os filhos foram um plus, não tenha dúvida. Ela foi mais importante para ele, economicamente, do que os sobrinhos que ele fez de herdeiros. Achei muito feio a família dele falando dela como se fosse uma completa estranha, como se ao ser mãe dos meninos de Gugu não fizesse parte da família de alguma maneira.

Gugu tinha que ser coerente no testamento com o que fez parecer em vida - 25 anos de capas de Caras estão aí pra não deixar mentir (vide essas fotos aí de cima). Sempre comparo o caso de Gugu com o de Michael Jackson. Na prática, foram bem semelhantes, mas MJ sempre jogou limpo, sempre situou a Debora no lugar dela de barriga de aluguel para ter filhos.

Dizem os advogados que Gugu deixou pra ela uma casa de 6 mi em São Paulo e que ela tem um investimento de meio milhão de dólares nos EUA. Primeiro que o imóvel não garante a ela uma renda compatível com a que ela tinha com Gugu e vitalícia. Segundo, esse investimento foi com o intuito de garantir o Green Card, e não sei se renderia o suficiente para mantê-la mensalmente. Se ele deixou uma pensão para a própria mãe, por que a mãe dos filhos dele não receberia? Não vai ser aos 57 anos que ela vai conseguir se reposicionar no mercado para ter o padrão de vida a qual está acostumada há 20 anos.

Eu penso assim: se eu fosse milionária, não tivesse nada com o pai dos meus filhos, mas se ele tivesse sido um bom pai e sempre disponível para mim, enfim, se tivesse sido meu funcionário como a Rose foi com o Gugu, criando os filhos (e ainda que tenha sido um negócio, envolvia afetividade e uma vivência de família), eu faria questão de deixar essa pessoa bem. Deixaria uma boa pensão vitalícia e uma casa, compatível com o que a pessoa tinha quando eu era viva. Pode não ter sido nada meu, mas será de meus filhos, de meus netos. Filho amanhã casa, vira a cabeça por causa de namorada, etc, é injusto deixar a pessoa passando o pires assim. Eu acho que a pessoa que vai criar meus filhos e netos é tão importante como os de sangue.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Aprendizados

Sempre gostei de aprender. Desde quando comecei a trabalhar, há quase 20 anos, nunca deixei de aprender/conhecer alguma coisa nova, pelo menos, todo ano. Fiz uma retrospectiva aqui.




2000 Primeiro estágio. Primeira matéria publicada.
2001 Curso de italiano e de audiovisual. Grupo de pesquisa. Primeira vez como repórter no jornal da faculdade. Tentei aprender webdesign, mas não deu certo.
2002 Empresa Junior, primeira experiência com o audiovisual. Primeiro contato com a psicologia.
2003 Primeira viagem sozinha. Conheci Olinda, Recife e Porto de Galinhas. Conheci Minas Gerais. Fui ao meu primeiro congresso de Comunicação. Primeira vez publicada no jornal A TARDE.
2004 Aprendi a dirigir, tirei carteira. Aulas de forró?
2005 Astrologia. Tive algumas poucas lições de espanhol num curso em Brasília.
2006 Violão (to be continued) e blog. Aprendi a diagramar. Primeira vez trabalhando em campanha política.
2007 Comecei de fato as aulas de espanhol. Pilates.
2008 Primeira vez no São João do interior da Bahia. Primeira experiência em campanha política no interior.
2009 Primeira vez trabalhando de carteira assinada. Primeira vez fazendo terapia.
2010 Primeira vez em jornal. Primeira vez no Sul, em Santa Catarina.
2011 Primeira vez em São Paulo e em Itacaré. Primeira vez fora do país, na França e em Portugal. Comecei a aprender francês. Dança do ventre.
2012 Tia pela primeira vez. Constelação familiar pela primeira vez. Hidrobike.
2013 Fui na Espanha e na Itália.
2014 Entrei na pós-graduação. Conheci o interior do Mato Grosso.
2015 Fui ao México.
2016 Aprendi tarô. Conheci Aracaju. Primeira vez trabalhando em TV. Primeira vez em um evento esportivo mundial.
2017 Mestrado, aprendi sobre gênero. Primeira experiência na umbanda.
2018 Morar sozinha. Dissertação. Primeira vez dando aula.
2019 Curso de Direito. Primeira vez na Argentina. Aprendi Reiki.
2020 Curso para virar terapeuta. Curso de edição (a ver...). Conheci a Paraíba. Aprendi a fazer assessoria de imprensa de fato. Primeiro trabalho de voluntariado. :)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Emotional Education

Sempre me impressiona (ou não) a facilidade com que as pessoas "cancelam" as outras. Hoje, falando sobre um caso, um amigo veio com aquela tradicional pergunta: "Será que você não tem muitas expectativas sobre os outros?". Não. Até um passado recente, sim, mas não mais. De tanto tomar na cara, aprendi e aprendo cada dia mais a contar comigo. Conversando com outra amiga, ela fez a provocação contrária. Ela acha que as pessoas é que estão exigindo demais de seus amigos e parceiros. Saiu do roteiro traçado, exclui-se a criatura da vida, e acontece que as pessoas não são iguais. Essa conta não fecha.

Além disso, eu acho que você tem que aprender, como diz uma colega minha, a "cair em cima de si mesmo". O que é isso? É não esperar que os outros vão se responsabilizar ou saber consertar/lidar o que você mesmo não consegue. E as pessoas exigem do outro uma infalibilidade, uma perfeição que nem elas sustentam em suas próprias vidas. 

Mas, minha gente, por outro lado, certas coisas fazem parte do "contrato" e sem elas não se pode falar de amizade, de família e de relacionamento amoroso, por mais que os tempos sejam líquidos e as responsabilidades individuais. Você tem alguns deveres e direitos. Ponto. Vamos pensar nas relações trabalhistas, onde há traços específicos que as caracterizam para a justiça. É por aí. Em qualquer relação, desde a mais banal, ninguém é livre totalmente. Quem quer fazer tudo que lhe dá na telha, vai ter que viver sozinho. Conviver é "viver com", é ceder, não tem pra onde escapar.

Eu tive uma amiga de anos, de viajar, de frequentar a casa, que em determinado momento eu percebi que não era minha amiga, que havia uma amizade unilateral (coleguismo não é amizade, sorry). Ela não fazia as coisas comigo por gosto, mas "batendo o ponto". E quando o que estava em jogo era a diversão dela, ufff... Uma vez senti que ela ficou com raiva de mim por ter passado mal durante um voo. No entanto, eu me sentia má quando reclamava de coisas sérias que ela fazia contra a nossa amizade. A condição base para o contrato de amizade não estava sendo cumprida e, quando era, era na base da obrigação, no tédio. Quando a pessoa tá nessa vibe, ela parou de olhar pra você, ela já te desumanizou e é daí que toda a confusão acontece. Minha parte equivocada nessa história foi esperar dela algo que há muito tempo ela sinalizava, aqui e acolá, que ela não era. Um belo dia, de saco cheio por causa de mais uma desconsideração dela, eu fui falar o que eu achava, e ela nunca mais falou comigo, porque, em tempos de cancelamento, se saiu do roteiro, se questionou, o povo prefere cair fora do que admitir que errou, do que lidar com as coisas. Talvez fosse essa a deixa que ela estava esperando. Nunca saberei. Aliás, as pessoas se ofendem demais, mas nunca pedem desculpas quando pisam na bola. Ego demais, inflexibilidade, falta de autocrítica, mimo... tá difícil. Outra conta que não fecha.

Ainda sobre esse caso, algo paradoxal me aconteceu nesse episódio: uma das amizades mais importantes, quando se foi, me causou a menor dor dos últimos tempos. E eu não acho que tem a ver com ter sido algo que foi erodindo gradualmente, mas com uma mudança de paradigma meu. Àquela altura eu já conseguia separar os outros de mim, eu já conseguia entender que alguém pode não gostar de mim e isso ter a ver só com ela e não comigo. Isso tem a ver com o que eu escrevi nos dois primeiros parágrafos, que é você ter noção do que cabe ao outro e do que cabe a você em qualquer relação. Aprendi, tarde demais na vida (mas melhor que nunca!), que por mais que eu tente, se o outro não quiser, se não trabalhar também, não vai rolar.

Outra coisa que eu aprendi foi a não barganhar. Você expôs suas questões, fez sua parte e a pessoa não fez nada? Antigamente eu ficava argumentando com a pessoa, hoje eu aceito. Justa ou injusta, foi uma decisão e, diante de uma decisão do outro, a gente só pode aceitar e seguir em frente. Quem te quer na vida facilita os processos. Quem dificulta... o meio é a mensagem.

Eu me acho tolerante pra caramba. Defeitos todos nós temos, mas eu acho que tenho uma paciência com as pisadas de bola dos outros e com as características complicadas de cada um que eu não vejo muito por aí, não. Pelo menos eu não recebo de volta na mesma proporção. Desenvolvi um critério para manter e tirar pessoas da minha vida que acho justo (sim, eu preciso achar justo, eu não consigo "cancelar" alguém só por birra, tenho que ter uma fundamentação). Eu me pergunto: É uma boa pessoa? Essa pessoa gosta de mim (e nisso está embutida a consideração pela minha pessoa: me aceitar, ter vontade de estar comigo, dar demonstrações de carinho)? Se "não" para uma delas, posso puxar meu carro. Pode ser a melhor pessoa da face da Terra, mas eu me pico. Satisfeitas essas duas condições, dá pra ficar, mesmo que seja uma pessoa com problemas. Por enquanto eu ainda tenho paciência pra maluco do bem.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Você é aquilo que ninguém (quer) vê

Ontem, excepcionalmente, estava desabafando com um amigo. O tipo de coisa que dá sempre um frio na barriga de fazer, porque, afinal, gente não é gente. Mas, enfim, eu também sei quem eu sou, então qualquer ataque eu sei filtrar o que é verdade e o que não é. Eu sei que a gente não tem uma visão neutra e 100% verdadeira sobre a gente, mas, por outro lado, a gente sabe o que viveu e sentiu e é impressionante a má vontade que as pessoas têm de reconhecer as dores dos outros. Parece que no fundo há uma competição. Ninguém quer dar o braço a torcer que o outro foi mais corajoso, mais forte ou simplesmente é mais amoroso de superar certas coisas difíceis. O que mais dói geralmente não é exibido.

Saindo de mim, que sou suspeita, eu tenho um amigo que é um exemplo disso. Trata-se de uma das pessoas mais racionais que eu conheço. E das mais inteligentes também. Bichinho só se fode. Ele não é apreciado pelas virtudes porque simplesmente não é o simpaticão do rolê. As pessoas lembram dele quando precisam de algo, não para oferecer algo a ele. As pessoas não andam com você porque é gente boa, as pessoas andam com você somente se elas querem ser igual a você. 

Pois bem, eu, sempre que converso com essa criatura, vejo como ele racionaliza tudo que acontece ao redor dele e com ele. Às vezes é tão racional que chega choca. Mas ele, pra mim, é a prova de que nem a mente mais racional consegue segurar a barra que é existir às vezes. Eu vejo sintomas do que a solidão e o azar na vida causaram nele.

Ele está cada vez mais isolado. Sai pouco, cada vez menos tolera gente. Quando a gente viajou juntos, em determinado momento eu saquei que ele estava incomodado em ter uma pessoa o tempo todo junto com ele. Os revezes da vida fuderam o emocional dele. Há ali uma depressão de fraca a moderada, porém perene. Ele não procura ajuda. Eis aí o lado ruim de ser racional demais.