Eu tenho visto que a eutanásia está em questão em Portugal. Não li sobre isso ainda, mas achei massa. Acredito que as pessoas devem ter o direito de decidir sobre tudo, inclusive sobre quando e como morrer. Pena que num fim de mundo como o Brasil isso nunca vai ser discutido, regulamentado.
Eu fico pensando em Fernanda, que está com câncer metastático, e eu, apesar de não saber o que se passa com ela, acredito que mais do que a perspectiva de ter uma vida mais breve, a dor é que deve ser a verdadeira tortura dela. Eu não saberia conviver com dor física por quase uma década. Não sei o que ela tem a perder, mas, no meu caso, eu preferiria morrer, pediria uma morte digna, sem tanto sofrimento. Aliás, a irmã caçula dela, que passou anos também lidando com o câncer, pediu pra morrer. Eu entendo. As pessoas deveriam largar de hipocrisia e também entender. Mas é que eu acho que aceitar a vontade dos outros de morrer mexe com as frágeis certezas delas sobre querer viver ou sobre outros entes queridos quererem viver.
Eu não tenho medo de morrer, eu tenho medo do como, de sentir dor, de ser torturante.
Confesso que não saberia o que dizer a alguém que cansou de viver. Eu saberia, acho, demover alguém que está querendo morrer por causa de terceiros, até porque isso é muita estupidez, mas não por estar cansado da própria vida. Poderia dizer: "Aguarda mais um pouquinho, espere pra ver se as coisas melhoram", mas não ousaria contestar o seu cansaço. Quem calça o sapato é quem sabe onde o calo aperta.
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