Sempre me impressiona (ou não) a facilidade com que as pessoas "cancelam" as outras. Hoje, falando sobre um caso, um amigo veio com aquela tradicional pergunta: "Será que você não tem muitas expectativas sobre os outros?". Não. Até um passado recente, sim, mas não mais. De tanto tomar na cara, aprendi e aprendo cada dia mais a contar comigo. Conversando com outra amiga, ela fez a provocação contrária. Ela acha que as pessoas é que estão exigindo demais de seus amigos e parceiros. Saiu do roteiro traçado, exclui-se a criatura da vida, e acontece que as pessoas não são iguais. Essa conta não fecha.
Além disso, eu acho que você tem que aprender, como diz uma colega minha, a "cair em cima de si mesmo". O que é isso? É não esperar que os outros vão se responsabilizar ou saber consertar/lidar o que você mesmo não consegue. E as pessoas exigem do outro uma infalibilidade, uma perfeição que nem elas sustentam em suas próprias vidas.
Mas, minha gente, por outro lado, certas coisas fazem parte do "contrato" e sem elas não se pode falar de amizade, de família e de relacionamento amoroso, por mais que os tempos sejam líquidos e as responsabilidades individuais. Você tem alguns deveres e direitos. Ponto. Vamos pensar nas relações trabalhistas, onde há traços específicos que as caracterizam para a justiça. É por aí. Em qualquer relação, desde a mais banal, ninguém é livre totalmente. Quem quer fazer tudo que lhe dá na telha, vai ter que viver sozinho. Conviver é "viver com", é ceder, não tem pra onde escapar.
Eu tive uma amiga de anos, de viajar, de frequentar a casa, que em determinado momento eu percebi que não era minha amiga, que havia uma amizade unilateral (coleguismo não é amizade, sorry). Ela não fazia as coisas comigo por gosto, mas "batendo o ponto". E quando o que estava em jogo era a diversão dela, ufff... Uma vez senti que ela ficou com raiva de mim por ter passado mal durante um voo. No entanto, eu me sentia má quando reclamava de coisas sérias que ela fazia contra a nossa amizade. A condição base para o contrato de amizade não estava sendo cumprida e, quando era, era na base da obrigação, no tédio. Quando a pessoa tá nessa vibe, ela parou de olhar pra você, ela já te desumanizou e é daí que toda a confusão acontece. Minha parte equivocada nessa história foi esperar dela algo que há muito tempo ela sinalizava, aqui e acolá, que ela não era. Um belo dia, de saco cheio por causa de mais uma desconsideração dela, eu fui falar o que eu achava, e ela nunca mais falou comigo, porque, em tempos de cancelamento, se saiu do roteiro, se questionou, o povo prefere cair fora do que admitir que errou, do que lidar com as coisas. Talvez fosse essa a deixa que ela estava esperando. Nunca saberei. Aliás, as pessoas se ofendem demais, mas nunca pedem desculpas quando pisam na bola. Ego demais, inflexibilidade, falta de autocrítica, mimo... tá difícil. Outra conta que não fecha.
Ainda sobre esse caso, algo paradoxal me aconteceu nesse episódio: uma das amizades mais importantes, quando se foi, me causou a menor dor dos últimos tempos. E eu não acho que tem a ver com ter sido algo que foi erodindo gradualmente, mas com uma mudança de paradigma meu. Àquela altura eu já conseguia separar os outros de mim, eu já conseguia entender que alguém pode não gostar de mim e isso ter a ver só com ela e não comigo. Isso tem a ver com o que eu escrevi nos dois primeiros parágrafos, que é você ter noção do que cabe ao outro e do que cabe a você em qualquer relação. Aprendi, tarde demais na vida (mas melhor que nunca!), que por mais que eu tente, se o outro não quiser, se não trabalhar também, não vai rolar.
Outra coisa que eu aprendi foi a não barganhar. Você expôs suas questões, fez sua parte e a pessoa não fez nada? Antigamente eu ficava argumentando com a pessoa, hoje eu aceito. Justa ou injusta, foi uma decisão e, diante de uma decisão do outro, a gente só pode aceitar e seguir em frente. Quem te quer na vida facilita os processos. Quem dificulta... o meio é a mensagem.
Eu me acho tolerante pra caramba. Defeitos todos nós temos, mas eu acho que tenho uma paciência com as pisadas de bola dos outros e com as características complicadas de cada um que eu não vejo muito por aí, não. Pelo menos eu não recebo de volta na mesma proporção. Desenvolvi um critério para manter e tirar pessoas da minha vida que acho justo (sim, eu preciso achar justo, eu não consigo "cancelar" alguém só por birra, tenho que ter uma fundamentação). Eu me pergunto: É uma boa pessoa? Essa pessoa gosta de mim (e nisso está embutida a consideração pela minha pessoa: me aceitar, ter vontade de estar comigo, dar demonstrações de carinho)? Se "não" para uma delas, posso puxar meu carro. Pode ser a melhor pessoa da face da Terra, mas eu me pico. Satisfeitas essas duas condições, dá pra ficar, mesmo que seja uma pessoa com problemas. Por enquanto eu ainda tenho paciência pra maluco do bem.

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