terça-feira, 10 de março de 2020

Rabiosa

Nós, brasileiros, somos um povo cheio de raiva. E raiva tem a ver com frustração, com decepção, com a sensação de injustiça. Por mais que sejamos problemáticos em nossas condutas, temos motivos para ter raiva, pois este é um país que toma infinitamente muito mais do que entrega. Só o medo que a gente tem da violência já inviabiliza a existência saudável no Brasil.

É o ônibus lotado, é o calor que faz passar mal, é a rua sem asfalto, é o salário curto (isso quando não se está desempregado), a Saúde que não funciona, a insegurança total e absoluta, a dificuldade até de obter o benefício quando doente. Há motivos, e ninguém pode negar.

Só a raiva, acho, explica elegerem Crivelas e Bolsonaros da vida. E a raiva, em dado momento, é irracional e tóxica.

O brasileiro se fode tanto que tem raiva de quem recebe qualquer ajuda. O brasileiro só admite ajuda mediante humilhação. "Quem quer comer faz qualquer coisa e consegue o dinheiro", disse o cidadão de bem que dirigia o Uber outro dia.

A raiva, tóxica, faz a gente esquecer, a despeito das fraudes que, infelizmente, sempre acontecem, que o Bolsa Família é necessário para tirar alguns indivíduos, que vivem quase como animais, desse patamar.

Temos raiva e com razão, mas através dela, ao invés de construirmos a reviravolta, investimos na mesquinhez como esporte nacional.

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