quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

This is us







A primeira vez que ouvi falar dessa série foi no Facebook. Alguém comparou-a às novelas de Manoel Carlos. Sem querer rebaixar a produção nacional, mas, na boa, nem em mil anos MC chegaria nesse nível. Até porque há certas diferenças culturais. Entre os autores brasileiros, acho que a Lícia Manzo, de "A vida da gente", é a mais próxima do texto de "This is us".

Resolvi experimentar pra ver e me apaixonei. Por que resolvi ver? Porque além de me interessar por relações interpessoais, por questões de família, eu amo Milo Ventimiglia há 20 anos. Eu conheci ele ainda adolescente, quando protagonizava um seriado teen que parou na primeira temporada, chamado "Opposite sex". Uns parenteses aqui: esse seriado realizou uma das cenas românticas teen preferidas da vida. O personagem de Milo é um garoto comum da escola, nem loser nem winner, que, se não me engano, se mudou pra aquela cidade nova e está em processo de se encaixar ali. Ele faz amizade com uma menina que é toda perdida, nem de longe a mais bonita, mas alegre e sensível. Uma graça. Um belo dia, ele a acompanha em alguma festa onde vai estar um cara mais velho tocando, por quem ela está apaixonada. E o sujeito trata os adolescentes muito mal, deixa o povo olhando de um cercadinho. Na hora em que Milo vê a amiga ali, decepcionada por causa de um bonitão babaca, ele fica indignado, querendo tirar ela de lá, querendo dar um consolo, e daí ele percebe que se apaixonou por ela e se pergunta por que alguém que não tem nada de especial desperta nele tanto carinho. A cena é uma graça, de um romantismo crível e delicado.

Depois assisti Milo como o Jessie de "Gilmore Girls", todo rebelde, nenhum porte de galã dos anos 50, porém munido de charme masculino. Aí vem "This is us" e ele acaba de matar mamãe interpretando o marido e o pai dos sonhos. <3

Por causa dele eu comecei a assistir a série, que é fofa sem deixar de ser realista. Jack é o meu preferido, mas eu gosto de quase todos os personagens.

Jack teve uma vida familiar de merda, mas conseguiu construir uma família massa. Eu gosto muito de ver isso: gente que, pela dureza da vida, tinha tudo para não dar amor, mas, por essência, seguiu pelo caminho do afeto. A cola de tudo isso era a esposa, uma fofa, que ele amava profundamente. Aliás, Mandy Moore me surpreendeu como atriz. E o roteiro da série é bom, então a mãe, apesar de ter muito da mulher ideal, é um ser humano com suas dores, dúvidas e fracassos. Adoro Rebecca. Ela não é a típica mulher que joga toda culpa no marido; ela olha para ele. Contrariando a máxima de Contardo Calligaris, de que as pessoas se casam para ter em quem jogar a culpa pelas suas frustrações, da vez em que Rebecca tentou fazer isso, ela depois refletiu e viu que Jack também sacrificou sonhos em prol da família. E ele também reconhece a importância dela para que aquele lar seja o que é. Na verdade, como ele mesmo admitiu uma vez, a vida dele só ficou boa quando conheceu ela. Isso é amor: você não tem a pessoa perfeita, mas você admira, presta atenção e entende essa pessoa, nunca desiste de mantê-la como companheiro de trincheira.

A história é a seguinte: filhos de lares complicados, Jack e Rebecca se conhecem e logo se casam. Ela quer ser cantora e ele tem talento para a construção/arquitetura. Em determinado momento, ele pede a ela por filhos e, enfim, apaixonados até a raiz do cabelo, esperam trigêmeos (é sempre assim: Rebecca, como a linha de frente da família, claro, tem dúvidas, e Jack empurra a coisa pra frente dando segurança a ela). Os filhos são Kevin, que é um ator cheio de inseguranças, Kate, que é meio perdida também, mas, ao contrário do irmão, tem como acréscimo ser o oposto do padrão de beleza, e tem o Randall, filho adotivo, negro, que é ansioso, obcecado por controle e perfeição, mas, bem sucedido, é o único entre os irmãos com a família margarina (amo o núcleo de Randall!).

Todos da família são profundamente influenciados pelo amor incondicional de Jack, mas por isso mesmo a ausência dele deixa buracos que contribuem para o mal-estar de todos no presente, quando os filhos já tem 36 anos, mesma idade do pai quando eles nasceram. Jack era obstinado em manter aquelas pessoas bem. Ele não depreciou ou largou nenhum filho por mais que os meninos fossem difíceis desde pequenos. Como disse o médico, era a pessoa que teimava em fazer do limão uma grande limonada. Tem uma fala de Kate, que era a preferida do pai, em que ela conta que toda vez que chovia, escangalhava a janela do quarto dela e entrava água no quarto. E toda vez, sem reclamar, com toda paciência, ele consertava a janela para que não molhasse mais a filha. Convenhamos que na vida adulta achar alguém assim é achar agulha no palheiro. Jack tinha mesmo que fazer muita falta. Um legado de amor desses é pra glorificar de pé. E, veja, não custa nada gostar das pessoas e mesmo assim anda difícil pra caramba.

Uma das cenas mais lindas da série, para mim, é essa primeira. Nesse episódio, os meninos deram problemas do início ao fim, nesse dia que era pra ser divertido, mas, no final, Jack conseguiu fazer todo mundo se aconchegar no peito dele - e ele apoiado no colo de Rebecca. Melhor metáfora dos Pearsons não há.

O grande destaque de "This is Us" está no texto, que todo episódio vai trazer algo pra nos fazer chorar. É batata. Você quer ser como os personagens, mas, ao mesmo tempo, se identifica bastante com as fraquezas deles. Caramba, nas primeiras cenas de Kevin, dele como ator, eu tive vontade de arrancar ele dali. É isso, é uma série sobre empatia. Quando você acha que entende um deles, lá vem um flash-back (e ultimamente um flash-forward) pra acrescentar mais um dado que ressignifica aquele personagem na trama.

Não tem muito como explicar uma série sobre personagens. É uma questão de envolvimento emocional, de achar carisma naquelas figuras. Mas eu acho que "This is Us" traz, acima de tudo, boas reflexões sobre os nossos relacionamentos, sobre a vida da infância à velhice. Eu recomendo muito.





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