domingo, 12 de abril de 2020

Babu e a fake news do "Querer, poder e conseguir"

Eu não assisto BBB, mas quando você frequenta o Twitter, impossível não saber o que rola por lá.
Há três personagens negros nessa fase final: Telma, a negra bem resolvida e bem sucedida; Flay, a que tem passabilidade e muita raiva no coração; e Babu, o ator cuja carreira foi desfavorecida pelo racismo e que passa muitas dificuldades materiais.

Detesto Flay porque, a parte de qualquer sofrimento que ela tenha passado, ela é gente ruim na essência, dá pra sentir isso. Torço por Telma. Tenho o pé atrás com Babu. Ps.: Ranço de Manu. 

Por quê? Porque ele me remete a um fenômeno de pessoas negras, especialmente de homens negros, que querem compensar o racismo sofrido sustentando uma vida que eles não têm cacife para sustentar, cuja inconsequência impõe consequências às pessoas da família. 

Babu reclama que os filhos chegam quase a passar fome. Algumas pessoas do público se aproveitam disso para questionar o fato de um dos filhos dele estudar em colégio de luxo (é bolsa integral, oras. quem não proporcionaria uma chance dessas aos filhos?). É aquela gente que acha que preto e pobre tem que ser humilhado o tempo todo. Todo mundo deve ter coisas boas, mas se puder. A minha bronca com Babu é ele não se adequar às possibilidades e querer forçar um sonho que compromete pessoas além dele, algumas delas menores de idade. 

Eu não tenho dúvida que a aparência negra de Babu tirou muitas oportunidades dele. E nem o negro gostosinho ele é. Babu é gordo, o que já é "problema", independentemente da cor, e piora no caso de um homem negro. Mas acontece que certas carreiras são máquinas de moer gente de todos os tipos, especialmente aquelas de grupos já marginalizados. Uma coisa é você apostar num destino desse tendo respaldo da família ou sacrificando só a si. Quando você não tem nenhuma condição e ainda arrasta os outros, me desculpe, eu acho egoísmo. É esse egoísmo que me irrita em Babu. E por trás disso não está só a dor do racismo, mas a teimosia do macho que não sabe perder. Às vezes, na vida, a gente perde. Fazer o quê? Quem não tiver as suas frustrações que atire a primeira pedra. Esqueçam Xuxa: querer nem sempre é poder e muito menos certeza de conseguir. Ser uma pessoa boa ou esforçada não te livra de uma vida ruim e não te garante recompensa, só faz bem ao seu espírito mesmo.

Vou puxar aqui a minha própria história. Eu sou filha de uma família de classe média média (pai bancário e mãe dona de casa). Escolhi uma profissão elitista e que paga pouco, quando não impõe períodos de desemprego. Tirando uns dois ou três, meus colegas de curso são do meu padrão familiar pra cima. São pessoas que ganharam carro dos pais (eu não), alguns ganharam o apartamento da família (eu nunca), se estiverem desempregados, mamys leva pra NY (hahaha!), enfim, são pessoas que podem se sustentar nessa carreira instável à beça porque mesmo quando elas perdem profissionalmente, elas não perdem quase nada em padrão de vida. Há ainda aqueles que são casados com gente rica, que acabam também não perdendo quase nada mesmo estando desempregados, que vão dirigir um 4x4 mesmo quando estão sem emprego há um ano. Eu passei um tempão me iludindo que eu era como essas pessoas, porque meu pai é servidor aposentado. O pai de uma amiga minha da faculdade é bancário aposentado, a mãe dela é dona de casa, são pais de três filhas também e deram muito mais suporte a elas. Portanto meu pai poderia - e nossa vida teria tido muito mais possibilidades se ele tivesse feito isso -, mas meu pai não tem o mesmo zelo pelos filhos que os pais de meus amigos. Um dia, até, minha terapeuta esfregou isso na minha cara. Não adianta eu me pensar como um deles que eu não tenho o mesmo respaldo familiar deles. E digo: eu só pude me sustentar 20 anos nessa barca furada porque não tenho filho. Aliás, eu agradecia por isso o tempo todo em 2016, quando saí do jornal e depois da TV e começava a se desdobrar a crise econômica. 

Dar comida e saúde a um incapaz, até onde minha compreensão vai, tem que vir na frente de qualquer sonho. A gente tem que sonhar, mas com os dois pés na realidade, se adequando ao que temos no momento, alternando fases da vida. É razoável pensar assim, não? Harrison Ford pensava assim, e só largou a carpintaria quando entrou no elenco de Star Wars. Uma moça branca padrão da minha época de Facom, mas de origem pobre, tentou a carreira de atriz em SP, viu que não ia rolar, e abraçou o jornalismo mesmo em sua terra natal. Wagner Moura foi repórter enquanto não emplacava carreira de ator - e olha que ele era um moço de classe média, não ia ficar sem eira e nem beira, sem teto e comida. Babu não. Eu entendo a frustração dele diante do racismo. Esses exemplos mesmo que eu dei, agora, provam também que praticamente só quem consegue chegar lá são os brancos. Mas Deus não oferece SAC. A gente tem que ajeitar as coisas aqui embaixo mesmo. Por que provar aos outros que pode é mais importante que o bem estar de si mesmo e dos filhos? Eu não consigo simpatizar com isso, eu não apoio quem joga pra conta dos outros as suas frustrações e teimosias pessoais. E, no caso de Babu, ainda me dá agonia a torcida, formada de gente que é acrítica a ele e o apoia tentando uma redenção dos sofrimentos causados pelo racismo através da vitória dele. Sou mais Telma, mas negro bem resolvido não dá ibope no Brasil. 


EDIT: Conversei com um amigo sobre Babu, que repercutiu mal nas redes após declarar que o prêmio de R$ 150 mil serviria para pagar as dívidas e torrar. Meu amigo acha que não é só questão de se compensar, mas de ganhar humanidade, ainda que de uma forma que, no fundo, é falsa. Ambos concordamos nisso. Meu amigo também acha que é meio complicado, que tem que tomar cuidado com o discurso moralizante, do tipo "todos devem conseguir agir corretamente". Eu entendo e me preocupo de estar pesando a mão, mas, por outro lado, eu fico pensando se não tem um monte de gente se apegando às questões sociais para justificar um comportamento mimado, pra não precisar amadurecer. A gente não veio do nada, mas ninguém nasceu Gabriela, pô. Infelizmente, tem gente se escondendo por trás de questões sérias. Nisso também concordamos. 

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