segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Você é aquilo que ninguém (quer) vê

Ontem, excepcionalmente, estava desabafando com um amigo. O tipo de coisa que dá sempre um frio na barriga de fazer, porque, afinal, gente não é gente. Mas, enfim, eu também sei quem eu sou, então qualquer ataque eu sei filtrar o que é verdade e o que não é. Eu sei que a gente não tem uma visão neutra e 100% verdadeira sobre a gente, mas, por outro lado, a gente sabe o que viveu e sentiu e é impressionante a má vontade que as pessoas têm de reconhecer as dores dos outros. Parece que no fundo há uma competição. Ninguém quer dar o braço a torcer que o outro foi mais corajoso, mais forte ou simplesmente é mais amoroso de superar certas coisas difíceis. O que mais dói geralmente não é exibido.

Saindo de mim, que sou suspeita, eu tenho um amigo que é um exemplo disso. Trata-se de uma das pessoas mais racionais que eu conheço. E das mais inteligentes também. Bichinho só se fode. Ele não é apreciado pelas virtudes porque simplesmente não é o simpaticão do rolê. As pessoas lembram dele quando precisam de algo, não para oferecer algo a ele. As pessoas não andam com você porque é gente boa, as pessoas andam com você somente se elas querem ser igual a você. 

Pois bem, eu, sempre que converso com essa criatura, vejo como ele racionaliza tudo que acontece ao redor dele e com ele. Às vezes é tão racional que chega choca. Mas ele, pra mim, é a prova de que nem a mente mais racional consegue segurar a barra que é existir às vezes. Eu vejo sintomas do que a solidão e o azar na vida causaram nele.

Ele está cada vez mais isolado. Sai pouco, cada vez menos tolera gente. Quando a gente viajou juntos, em determinado momento eu saquei que ele estava incomodado em ter uma pessoa o tempo todo junto com ele. Os revezes da vida fuderam o emocional dele. Há ali uma depressão de fraca a moderada, porém perene. Ele não procura ajuda. Eis aí o lado ruim de ser racional demais. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário