Textos semi-verídicos sobre temas quase desinteressantes [e raramente revisados - sorry!].
terça-feira, 16 de junho de 2020
Perdidos no espaço
Eu estou lendo um livro sobre terapia de vidas passadas, de um especialista holandês. Ele fala que quando entra um trauma ou algo do tipo, um pedaço seu é "ejetado". O vazio, a solidão seria falta de si mesmo, dessa parte perdida por aí.
Hoje estava conversando com um amigo sobre uma amiga em comum que sofre muito, embora seja uma boa pessoa. Vive com problemas de depressão. Negra, de família pobre, lésbica. E gente delicada não sabe se defender direito e se for inteligente piorou, porque ainda por cima vai sacar a situação. Eu acho que boa parte dela foi ejetada.
Daí, mais tarde, lembrei de uma aluna de jornalismo muito inteligente, mas a rainha da ausência de corpo presente, eterno ar de entediada. Ia chamar de preguiçosa quando lembrei das linhas gerais dela: negra, da periferia, lésbica, militante, gorda.
E como elas penso em um monte de gente que faz parte de minorias, que enfrentaram violência na vida, com dificuldade de estar presente, com eterno ar de Escrava Isaura, caminhando meia boca pela vida. Um cansaço de alma que não passa. Feridas de guerra que, inconscientes, não vão cicatrizar.
quinta-feira, 11 de junho de 2020
Survivor
Sobrevivente:
1.
que ou o que permanece vivo ou continua a existir, depois de determinada experiência de risco.
2.
que ou quem resiste aos embates, circunstâncias, dificuldades da vida.
Sim, eu sou uma sobrevivente. Quem tá de fora talvez não tenha essa consciência, mas juntando a minha natureza com a minha história de vida, e eu acho um milagre eu ainda estar aqui. Nunca vou esquecer de um tratamento de cromoterapia que eu fiz em 2013. Quando a terapeuta foi checar os meus chacras, só o básico estava forte e trabalhando intensamente para compensar os outros, o que fez ela exclamar: "É o animal brigando para viver". E era isso mesmo e é isso até agora.
Claro que isso deixa sequelas e no meio do processo eu perdi minha espontaneidade (o que levou junto meu lado afetuoso e, eu sei que pra algumas pessoas seria difícil acreditar, sou uma pessoa muito carinhosa), um pedaço da minha alegria e um tanto do meu senso de humor, boa parte da minha confiança nos outros e, por enquanto, perdi a vontade de me juntar. Mas, como disse o poeta, "quem quer passar além do Borjador, tem que passar além da dor". O caso é que eu sobrevivi e estou cada dia melhor que ontem, embora a lista de trabalho a fazer ainda seja imensa.
Portanto, meus queridos, como canta Queen Bey:
I'm a survivor (what), I'm not gon' give up (what)I'm not gon' stop (what), I'm gon' work harder (what)I'm a survivor (what), I'm gonna make it (what)I will survive (what), keep on survivin' (what)
segunda-feira, 8 de junho de 2020
Paulina
Sabe aquele filme que te leva para um lado, depois te joga para o outro e, no final, você fica com a mente fervendo? É Paulina, filme argentino de 2015, uma adaptação de La Patota, filme dos anos 1960.
A protagonista é uma advogada brilhante, filha de um juiz de Buenos Aires, que escolhe dar aulas sobre política numa escola bem pobre do interior da Argentina. Lá, ela passa por uma situação punk, mas, ao contrário das expectativas, ela continua no mesmo lugar, fazendo tudo como se nada tivesse acontecido. Assim é a personagem central: às vezes você a entende, em outras tem vontade de dar um chacoalhão nela.
Paulina toca em várias discussões: violência contra mulher, a truculência do sistema policial-jurídico, que, como diz a protagonista, quando se trata de pobres, não quer saber de buscar justiça, mas de culpados. É uma personagem de convicções muito fortes, de tal forma que determinadas escolhas em nome de uma ideologia parecem anulá-la como ser humano, enquanto individualidade. Como eu disse, desperta admiração e também indignação.
O ponto mais interessante da protagonista é justamente esse: a capacidade de mesmo diante de uma situação muito desfavorável a ela manter um senso crítico sobre o que a sua figura representa socialmente. Mas isso às vezes escorrega na culpa por ter privilégios sociais, por ter nascido branca, rica e inteligente, o que de certa forma tira a sinceridade da luta dela e de certo modo também a dignidade das próprias pessoas que ela quer ajudar/poupar. Como adverte uma mulher local: ela sente pena e ninguém gosta de ser olhado assim, situação que faz é despertar ódio e não ligação. Esse é um erro de gente de esquerda: paternalizar demais os subalternizados socialmente, como se a pobreza lhes tirasse a agência, a capacidade de escolher, de agir por conta própria, enfim, quase como se fossem sem alma. Esquerdista falando de pobre é quase Caminha falando dos índios (risos). A esquerda bota essa turma pequena demais enquanto que a direita coloca grande demais, no sentido de achar que a força do indivíduo sozinha é capaz de superar estruturas opressoras seculares, como se o contexto social não quisesse dizer nada e todos tivéssemos as mesmas condições para o sucesso.
Dolores Fonzi merece palmas. Eu já a vi em outros filmes, então sabia que era boa atriz, mas essa personagem era difícil. E eu gosto da aparência dela, que é bonita, mas não é alinhada: o cabelo é meio desgrenhado, ela tem uma verruga nos lábios, ela usa pouca maquiagem. A cara mesmo de Paulina.
sexta-feira, 5 de junho de 2020
The raw truth
A gente tem muito a tendência de ser perfeito/a, né? Da classe média para cima, então, só tem candidato/a a alecrim dourado (valores elitistas explicam). Eu já fui desse clube, mas estou mudando a direção.
Na verdade, perfeição é coisa de quem tem baixa auto estima. Pronto, falei! Imagine se Jesus tivesse querido ser perfeito para a sociedade da época dele? Ele não seguiu as regras, ele quebrou as regras; ele elevou as regras ao seguir as regras dele.
Muita gente sofrendo não por si mesmo, mas porque não cumpriu as expectativas dos outros. E tem gente que, mesmo íntima, é cruel com os seus afetos. Ninguém deveria fazer isso em uma família, em um relacionamento. Até porque muitas vezes essa exigência com os outros é baixa autoestima nossa.
Na verdade, perfeição é coisa de quem tem baixa auto estima. Pronto, falei! Imagine se Jesus tivesse querido ser perfeito para a sociedade da época dele? Ele não seguiu as regras, ele quebrou as regras; ele elevou as regras ao seguir as regras dele.
Muita gente sofrendo não por si mesmo, mas porque não cumpriu as expectativas dos outros. E tem gente que, mesmo íntima, é cruel com os seus afetos. Ninguém deveria fazer isso em uma família, em um relacionamento. Até porque muitas vezes essa exigência com os outros é baixa autoestima nossa.
Como sabiamente diz José Medrado, o "sim" que você dá aos outros é o "não" que você se dá. Deveríamos nos tocar disso.
Uma amiga minha, que tem essa mania de passar os outros na frente dela, comentava comigo da barra enfrentada por uma amiga em comum que lida há anos com o câncer. As pessoas olham para vidas "imperfeitas" com medo e desprezo. Em parte entendo, porque o medo de sofrer é altamente compreensível. O problema é o modo como se olha para quem passa por um sofrimento. Sinceramente, na abundância é fácil ser grande; quero ver é pisar no fogo e conseguir chegar inteiro do outro lado. A gente se ilude em perseguir o posto de "band leader", mas a gente está aqui para enfrentar o que vier; o que a gente tem é o dia. O grande objetivo disso tudo é ser melhor que ontem. E digo mais, nem tudo que você precisa resolver, vai resolver nessa vida. É fazer o que puder, o melhor que puder pra viver (e morrer) em paz.
Uma amiga minha, que tem essa mania de passar os outros na frente dela, comentava comigo da barra enfrentada por uma amiga em comum que lida há anos com o câncer. As pessoas olham para vidas "imperfeitas" com medo e desprezo. Em parte entendo, porque o medo de sofrer é altamente compreensível. O problema é o modo como se olha para quem passa por um sofrimento. Sinceramente, na abundância é fácil ser grande; quero ver é pisar no fogo e conseguir chegar inteiro do outro lado. A gente se ilude em perseguir o posto de "band leader", mas a gente está aqui para enfrentar o que vier; o que a gente tem é o dia. O grande objetivo disso tudo é ser melhor que ontem. E digo mais, nem tudo que você precisa resolver, vai resolver nessa vida. É fazer o que puder, o melhor que puder pra viver (e morrer) em paz.
Essa amiga com câncer em questão se tornou alguém visivelmente melhor espiritualmente ao passar pela doença. Vale dizer que antes disso ela já estava na trilha. Se ela for embora deste mundo amanhã, além de ter tido uma boa vida, com amigos e cheia de experiências bacanas, ela soube usar os eventos da trajetória dela para se engrandecer. Gostem ou não, isso é a vida. A gente está aqui para transcender nossos limites. Ponto.
Equilíbrio
Adoraria ser independente financeiramente de forma folgada. Na falta disso, eu adoraria ser herdeira ou sustentada (mas ainda prefiro independência, para poder sair quando puder). Buscar dinheiro é um grande aperto de mente e às vezes te faz fazer concessões nada agradáveis, ainda mais num país escravocrata como o Brasil.
Não sou contra a mulher ser dona de casa sustentada pelo marido, não, desde que isso seja de comum acordo. Só acho que pode ser uma armadilha, haja vista que, por melhor que seja o caráter dos envolvidos, no coração não se manda.
Uma amiga minha, que estudou terapia sistêmica de família, estava me explicando isso de um ponto de vista terapêutico, dizendo que o ideal é que a energia do dinheiro entre igual dos dois lados. Do contrário, é bem possível que, ao estar com alguém que o/a sustente, esteja procurando um pai ou uma mãe.
Entre os orientais é comum que eles sejam donos de um mesmo negócio, buscando esse equilíbrio. Olhos puxados, visão larga.
Mas existe outro desequilíbrio, que é o de expectativas. Homens entram no casamento para ter família; as mulheres para ter romance. Como a expectativa do homem é objetiva, é muito comum que ele negligencie a subjetiva da mulher. Que, por sua vez, acaba às vezes jogando essa vontade de ligação para os filhos (olha o problema!). Minha amiga observa que falta amizade entre os casais, que as pessoas não são orientadas por seus familiares a procurar por isso numa relação e que, na experiência dela de casada e de terapeuta, sem isso vai por água abaixo - e eu observo que sem isso, se continua, alguém trabalha por dois e ressentido.
Acho que fica evidente que o ideal é entrar nas relações já resolvido, sem necessitar de nada, só mesmo do amor do outro, sem esse lance de metade da laranja.
domingo, 31 de maio de 2020
"O começo é o fim e o fim é o começo"
Sim, ainda estou na vibe de "Dark" 😎. Mas hoje, vendo um filme francês, ouvi de um dos personagens (foto) uma coisa que sempre achei: o motivo que te faz tomar abuso de uma pessoa geralmente é o mesmo que te atraiu.
Mas o filme também pontua algo interessante: ela se livra dele, mas demora dez anos até isso acontecer, entre idas e vindas. E ela é uma mulher com toda a condição de viver sem ele, tanto financeiramente quanto socialmente. É que certas decisões envolvem processos, mexem com sentimentos muito profundos e difíceis, que você não vai resolver por decreto. Aliás, é até capaz de dar mais merda se o corte vier fora do tempo, abruptamente.
A pessoa que era muito racional com o tempo nos irrita pela falta de coração e espontaneidade; quem era "na dele", enche o saco pela indiferença; quem tem opiniões fortes começa a aborrecer pelo autoritarismo, e por aí vai. Mas por que a gente comete esse tipo de inconsistência de julgamento? No filme, o personagem, se sentindo rejeitado pela mulher, alega que assim ela nunca vai construir nada. Mas e se a base é falsa, tem como construir algo de fato? Só se for a casa fajuta do porquinho, pra Lobo Mau derrubar com um sopro. Casa bem construída, como nos ensina a história dos Três Porquinhos, o Lobo morre de falta de ar, mas não consegue derrubar. Não que a consistência nos salve do fim, até porque não ter fim não é selo de sucesso de uma experiência. A consistência nos salva da desilusão, da descoberta de que o que víamos nunca existiu.
Nesse filme mesmo, o cara era um extrovertido e, por detrás do charme dessa característica, havia manipulação e violência. E por que uma pessoa inteligente, como a protagonista do filme, muitas vezes se presta a não enxergar isso (sim, porque está ali, não ver é uma escolha)? Porque convém, porque somos carentes, porque andamos pelo mundo e nos relacionamos com o pires na mão. Porque não achamos graça em nós mesmos, na nossa vida e precisamos que o outro performe para botar um sal nisso.
Hoje eu acho que um pouco de aventura não faz mal a ninguém, pelo contrário, mas é importante saber onde está se metendo. Esse, pra mim, é o pulo do gato. Na minha própria experiência, o que machuca não é o fim, mas a desilusão de descobrir que o que você adorava não existia, era invenção da tua carência, era projeção.
Sabe aquela história de ir a uma festa ou ir ao mercado e fazer uma boquinha antes para não agir por desespero, e ou comer demais e passar vergonha na festa ou comprar bobagem no mercado? Pois é, a mesma coisa vale para os afetos. Quando a gente tá nutrido consigo mesmo, de barriga cheia com a própria vida, a chance de passar mal ou ter prejuízo é menor.
Perdidos na Noite
Nunca deu muito certo me deixar perdida, no ar. Velho, como repórter mesmo, sempre notei a diferença entre quando recebia uma pauta de verdade e entendia o que eu ia fazer e quando eu ficava perdida sem sequer saber o que queriam de mim e por onde começar a apuração. O nervosismo me bloqueia, me faz errar, ao contrário de quando eu estou segura e executo muito bem a tarefa. É uma diferença gritante, tanto quanto entre estar muito cansada e descansada e fazer algo. Tem gente que não perde a qualidade quando varia de contexto, eu perco e muito, e é por isso que eu fico puta quando me colocam nesse tipo de esparrela, porque eu sei que vai me custar muito energeticamente e não vai resultar.
Querer não é exatamente poder. O ser humano tem seus limites. Todos podem conseguir algum resultado, mas dificilmente com a mesma qualidade e nunca do mesmo modo. Acho incrível esse desrespeito ao funcionamento das pessoas, porque isso interfere mesmo. Mas ninguém quer saber do outro, né, minha gente? Ainda estamos no arcaico modelo "manda quem pode, obedece quem tem juízo".
Eu já consigo aceitar, me trabalhar quanto ao fato de que a vida é a arte do improviso, no sentido de que você vai fazer um plano e alguma circunstância vai aparecer te propondo algo diferente. Eu não consigo aceitar é ficar completamente sem direção e ser jogada para lá e para cá. Deus, na boa, não dá. Send me informações, please!
quinta-feira, 28 de maio de 2020
Dark
Olha que menino bonito! É tão bom olhar para gente bem diagramada, simétrica, bem talhada, né?
É a única pessoa bonita da série, ele e a versão dele de 50 anos. O restante... Ufff! A beleza da Europa ficou no Mediterrâneo. O povo da Alemanha tem uma cara de século 19, uma aparência antiga e meio mal acabada: testão, cabelo lambido, narigão (agora vejo que Xuxa é bem Meneghel mesmo), sem boca, corpo grande e às vezes desengonçado.
Mas saindo das futilidades fúteis, vamos para as futilidades úteis, para a série, no caso "Dark", essa produção alemã da Netflix, que, putz!, é muito boa e deu um nó na minha cabeça.
Estou com preguiça de resumir a série, mas em linhas bem gerais fala de viagem no tempo, num período de um século, de pessoas de quatro famílias de uma cidadezinha tipo Chernobyl, criada em torno de uma usina nuclear, no interior da Alemanha. Além dessa ideia de viagem no tempo (de, na verdade, passado, presente e futuro acontecerem ao mesmo tempo), a série traz várias questões filosóficas, sobre Deus ser o mesmo que o tempo, de termos livre arbítrio ou não, etc. Dá para perceber que existe um lastro teórico, uma bibliografia, uma discussão na base da história, além da série reunir um elenco competente e uma direção de produção americana. No final da segunda temporada, até inseriram a questão do multiverso e mundos paralelos na pauta. Luxo!...
Amei que parte da história se passa nos anos 80. Só de ver as cenas, me dá saudade. Talvez seja por ter sido a década da minha infância, aliás, também a dos autores da história. Cara, por falar em anos 80, eu era exotérica desde pequenininha, viu? Naquela época, dizia que Atlântida tinha existido quando vi um filme que se passava lá e meu maior desejo era justamente a máquina do tempo; sempre fui apaixonada por História. Mas não sei se ia ser jogo, não. E nem sei para que certamente nos serviria essa experiência. Acho que seria tão ou mais complicado do que fazer regressão a vidas passadas (tvp).
Alguns avanços humanos são mais pirotecnia que qualquer outra coisa.
"Dark" tem vários personagens que não conseguem se desligar do passado e mesmo aqueles que sabem o que vai acontecer no futuro, bem, parece que essa informação não serve para muita coisa no sentido de dar um sentido maior a tudo que se viveu. Não diria nem que Adam, o aparentemente mais tranquilo, está em paz com o seu passado. Do contrário, por que estaria motivado a terminar com a humanidade?
Olhar as coisas na perspectiva do que aconteceu, da origem, da trajetória pode ser esclarecedor ou um caminho para a desilusão. O contexto da frase de Hannah (foto) é peculiar, mas nos lembra que realmente, por mais que a gente conviva com alguém, falta um pedaço desse quebra-cabeça, que é aquilo que não vivemos junto com essa pessoa, que não testemunhamos e, portanto, ignoramos. A gente gosta ou desgosta da ideia que temos das pessoas, daquilo nosso que projetamos nelas, inclusive, mas é equivocado achar que conhecemos alguém. Até a gente mesmo se surpreende com certas facetas nossas que surgem, de supetão. Aliás, essa é a pergunta de um milhão de dólares: quem é essa pessoa que nos habita? Ao final da segunda temporada, parece que os autores acham que é possível que várias versões de nós vivam em universos paralelos. Uma alma esfarelada pelo cosmo, já pensou? Parece interessante e, quem sabe, é possível. Não duvido nem um pouco. Eu também sempre tive fé na ficção científica.
"Dark" tem vários personagens que não conseguem se desligar do passado e mesmo aqueles que sabem o que vai acontecer no futuro, bem, parece que essa informação não serve para muita coisa no sentido de dar um sentido maior a tudo que se viveu. Não diria nem que Adam, o aparentemente mais tranquilo, está em paz com o seu passado. Do contrário, por que estaria motivado a terminar com a humanidade?
Olhar as coisas na perspectiva do que aconteceu, da origem, da trajetória pode ser esclarecedor ou um caminho para a desilusão. O contexto da frase de Hannah (foto) é peculiar, mas nos lembra que realmente, por mais que a gente conviva com alguém, falta um pedaço desse quebra-cabeça, que é aquilo que não vivemos junto com essa pessoa, que não testemunhamos e, portanto, ignoramos. A gente gosta ou desgosta da ideia que temos das pessoas, daquilo nosso que projetamos nelas, inclusive, mas é equivocado achar que conhecemos alguém. Até a gente mesmo se surpreende com certas facetas nossas que surgem, de supetão. Aliás, essa é a pergunta de um milhão de dólares: quem é essa pessoa que nos habita? Ao final da segunda temporada, parece que os autores acham que é possível que várias versões de nós vivam em universos paralelos. Uma alma esfarelada pelo cosmo, já pensou? Parece interessante e, quem sabe, é possível. Não duvido nem um pouco. Eu também sempre tive fé na ficção científica.
Acho que as ideias ou contam do passado que não lembramos ou do futuro que ainda ignoramos. Está tudo aí no inconsciente da humanidade, no inconsciente da coletividade.
A outra questão do tempo tem a ver com a frustração (foto), daquilo que se sonhou e saiu dos trilhos por uma série de eventos que pareciam inofensivos, mas que tiveram, em conjunto, a capacidade de produzir grandes estragos. Vários, senão todos os personagens da série têm quilos de frustração, mesmo os do núcleo adolescente. Desejo e frustração são as molas dos ciclos temporais da série.
Essa questão do livre arbítrio, levantada pelo Jonas de 2052 (foto), também vem de uma forma interessante na série. Por mais que os personagens viagem no tempo, as coisas tendem a sempre acontecer como sempre aconteceram, como se houvesse um fio do destino que comanda tudo. Dizem que sentir é mais importante que saber (eu estou entre esses que "dizem"), e o personagem se questiona em relação ao desejo e o poder dele sobre as ações humanas. Com um "inquilino" martelando o nosso juízo, quem realmente é livre? Você pode até domar a fera, mas não fica livre; sentimento não se arranca, no máximo se ressignifica. Adam tem até uma fala sobre isso, de que alguns acontecimentos mudam a gente para sempre e não tem como escapar disso.
A outra questão do tempo tem a ver com a frustração (foto), daquilo que se sonhou e saiu dos trilhos por uma série de eventos que pareciam inofensivos, mas que tiveram, em conjunto, a capacidade de produzir grandes estragos. Vários, senão todos os personagens da série têm quilos de frustração, mesmo os do núcleo adolescente. Desejo e frustração são as molas dos ciclos temporais da série.
A última temporada de "Dark" vai ao ar dia 27 de junho de 2020, data cuja soma é 1, o número que significa tanto liderança quanto novos inícios. A terceira etapa... Olha a santíssima trindade aí, hehe. Não é exagero pensar num toque de religião nessa ficção científica. Os nomes dos personagens, aliás, saíram da Bíblia. Mas, enfim, vamos ver como essa história vai acabar. Tenho fé na precisão alemã (aquela testa toda não pode ser à toa). :P
Por enquanto, fiquem com a sabedoria do roteiro de Dark.
terça-feira, 26 de maio de 2020
A Estrangeira
O título desse texto poderia ser "desencontro". Concordo com Vinicius de Moraes quando falava que a vida é a arte dos encontros embora haja tantos desencontros. Nas minhas relações pessoais, meu sobrenome é desencontro. Por onde eu vou, por mais que eu tenha carinho pelas pessoas, a coisa não se encaixa, eu me sinto estrangeira. Já chego sabendo que daqui a pouco vou embora.
Mas tudo bem. Big girls don´t cry porque entendem que a vida é esse eterno pegar e deixar passageiros de estação em estação, que as pessoas têm data de validade na vida da gente, que elas têm inclusive o direito de irem embora e que isso pode ser total problema delas e não uma responsabilidade da gente. Quem já não fez de tudo para alguém ficar e a pessoa nem tchum? Pois é. Acho até que essa foi a minha parte nesses desencontros: não saber oferecer o que as pessoas queriam de mim, no caso em que elas queriam algo de mim. Oferecia o meu melhor e levava rasteira no final (sim, algumas pessoas foram ingratas, coração duro, mas isso é problema delas). Ofereci errado, baseado no que eu queria receber, e não rolou conexão. Sabe aquele marido que cuida de você pagando as contas, dando as coisas e achando que está fazendo a melhor das ofertas, mas que não te dá o que você mais precisa, que é um abraço, um carinho? A vida da gente é cheia desses desencontros, é disso que eu tô falando. É preciso saber viver, como canta Robertão. É preciso saber ler as pessoas. É preciso ter sobretudo autoestima para se retirar e se bastar depois disso.
É nisso que eu ando investindo ultimamente. Autoconhecimento, autoestima, autorrealização. Ando me perguntando muito onde eu me autorrealizo. Nem acho que sei muito sobre isso, mas vamos em busca até encontrar.
Teclado e tela branca do blog, me ajuda a pensar. Vamos lá: acho que meu eixo é o conhecimento, é aprender. Eu acho que gosto tanto de ler, de curso e de viagem por causa disso, por causa do acesso ao diferente, ao diverso e ao humano. Eu quero uma vida de baixa pressão, conforto e aprendizado. É o que eu quero da vida. Eu ando direcionando a terapia para esse lado profissional, que é de onde virá as condições materiais para eu ter essa vida. Eu quero envelhecer com tranquilidade, pelo menos a material. Quero ser uma dessas velhas do Barra que ficam batendo papo com as colegas sem se importar com a conta do restaurante. Acho que meu caminho no médio prazo vai ser o concurso público e no longo prazo a terapia. Ou talvez o Direito. Sinceramente, não quero saber do caminho, só quero ficar bem, leve (mas não no nível Reginazista Duarte, pelo amor de Deus!).
domingo, 24 de maio de 2020
Glória Perez e a horda de super frustrados do bolsonarismo
Eu admito: gostava de Gloria Perez. Não pelas novelas, mas pela mulher mesmo. Não pela carreira, mas por ter continuado aparentemente bem depois de ter perdido dois de seus três filhos. Achava ela uma mulher da porra, quase sobrenatural, até vir o bolsonarismo arrastando algumas reputações com ele, entre elas a de Glória.
Acho que ela colou em Bolsonaro por acúmulo de frustração. Eu não vou entrar no mérito do que deve ser a dor de perder um filho, ainda mais um filho perfeito de saúde, jovem pra cacete (22 anos!) e que foi assassinado por alguém que era amigo. Eu achava ela (e quem sobrevive a isso) sobrenatural por levar a vida adiante de forma relativamente boa, produtiva, alegre. Mas ela sempre deixou transparecer a frustração dela com a impunidade da morte da filha, e daí, quando apareceu Bolsonaro falando em fazer e acontecer com bandido, ela abraçou, como se diz na Bahia, "di cum força" esse movimento bizarro. Claro que isso não justifica, mas creio que explica, até porque sei de outros pais de vítimas da violência que abominam Bolsonaro (como o pai daquela menina Liana). Mas eu reconheço um padrão no bolsonarismo: são pessoas muito frustradas, amargas até a raiz do cabelo. Nem sempre são pessoas ruins, algumas até são boas pessoas, mas sempre são pessoas frustradas pra caramba. A irmã de um amigo meu é um caso desse: gente boa, do tipo que te recebe super bem na casa dela, mas bolsonarista doente. Por quê? Porque ela é frustrada por não ser rica, por não ser casada, por não ter filho, por não ser valorizada. Ela é do tipo que no fundo acha que por ser branca deveria estar em uma posição melhor, desfrutando, não sendo vendedora de uma loja em que ela atende Xuxa, mas mal consegue pagar as contas básicas do mês, que dirá desfrutar a vida como ela quer.
Eu acho que Glória já teve preocupação social, mas deixou a frustração subir à cabeça, perdeu o juízo e virou puro rancor na velhice (ela é da idade de meus pais mais ou menos, já deve ter 70 anos).
E eu acho que a velhice, se a pessoa não trabalha certas questões que ficaram soltas ao longo da vida, deixa algumas pessoas amargas, envelhecendo mal realmente. A velhice vai amplificar o que você tem de bom e o que você tem de ruim. Você sabe quem viveu bem pela qualidade da fase idosa. Essa é uma fase em que você perde muita coisa: saúde, poder, trabalho, amigos e parentes. Se você não ressignifica certas perdas, a tendência é ficar um velho amargo, punitivista, preconceituoso, apegado a um passado idealizado. Esse é o meu palpite sobre Glória Perez e os 20% do núcleo duro do bolsonarismo que têm acima de 60 anos.
Acho que ela colou em Bolsonaro por acúmulo de frustração. Eu não vou entrar no mérito do que deve ser a dor de perder um filho, ainda mais um filho perfeito de saúde, jovem pra cacete (22 anos!) e que foi assassinado por alguém que era amigo. Eu achava ela (e quem sobrevive a isso) sobrenatural por levar a vida adiante de forma relativamente boa, produtiva, alegre. Mas ela sempre deixou transparecer a frustração dela com a impunidade da morte da filha, e daí, quando apareceu Bolsonaro falando em fazer e acontecer com bandido, ela abraçou, como se diz na Bahia, "di cum força" esse movimento bizarro. Claro que isso não justifica, mas creio que explica, até porque sei de outros pais de vítimas da violência que abominam Bolsonaro (como o pai daquela menina Liana). Mas eu reconheço um padrão no bolsonarismo: são pessoas muito frustradas, amargas até a raiz do cabelo. Nem sempre são pessoas ruins, algumas até são boas pessoas, mas sempre são pessoas frustradas pra caramba. A irmã de um amigo meu é um caso desse: gente boa, do tipo que te recebe super bem na casa dela, mas bolsonarista doente. Por quê? Porque ela é frustrada por não ser rica, por não ser casada, por não ter filho, por não ser valorizada. Ela é do tipo que no fundo acha que por ser branca deveria estar em uma posição melhor, desfrutando, não sendo vendedora de uma loja em que ela atende Xuxa, mas mal consegue pagar as contas básicas do mês, que dirá desfrutar a vida como ela quer.
Eu acho que Glória já teve preocupação social, mas deixou a frustração subir à cabeça, perdeu o juízo e virou puro rancor na velhice (ela é da idade de meus pais mais ou menos, já deve ter 70 anos).
E eu acho que a velhice, se a pessoa não trabalha certas questões que ficaram soltas ao longo da vida, deixa algumas pessoas amargas, envelhecendo mal realmente. A velhice vai amplificar o que você tem de bom e o que você tem de ruim. Você sabe quem viveu bem pela qualidade da fase idosa. Essa é uma fase em que você perde muita coisa: saúde, poder, trabalho, amigos e parentes. Se você não ressignifica certas perdas, a tendência é ficar um velho amargo, punitivista, preconceituoso, apegado a um passado idealizado. Esse é o meu palpite sobre Glória Perez e os 20% do núcleo duro do bolsonarismo que têm acima de 60 anos.
Amor à flor da pele
Os dois não terminam juntos e ficam farejando um ao outro no ar, mas sem tomar a atitude. Engraçado que dias antes, uns dois mais ou menos, uma ouvinte ligou para um programa de rádio que eu escuto falando que estava de caso com um ex com quem ela não pôde se envolver na juventude por causa do pai (o ex também estava casado). O apresentador foi na jugular: ela estava revivendo isso por frustração do que não pôde ser, não por amor (ela não fez nenhuma menção do tipo na fala dela, ela destacou, no lugar, a frustração do passado), até porque, anos depois, esse homem já é outra pessoa, acrescentou ele.
É isso aí.
Eu não duvido do amor de ninguém, embora algumas situações, como essa aí, são pura teimosia em resgatar o irresgatável. Mas cada vez mais, tendo a achar que (fora em contextos de catástrofes sociais) você não faz o que não quer. Ou até queria, mas não tanto assim. Às vezes o medo é maior. Em outras ocasiões a acomodação é maior. Enfim, tem de tudo. Deixe os mortos enterrarem os seus mortos, o passado morto ficar com as suas histórias mortas.
Vou dar um exemplo do que estou dizendo: "As pontes de Madison". Francesca não amava Robert mais do que amava ficar com a própria família ou, talvez, mais do que temia a culpa de abandonar eles. Não interessa, o fato é que Robert não era a prioridade. E como toda escolha, algo se perdeu. Ela teria perdido também se tivesse ido. Em suma, acho que a gente faz o que precisava e conseguia fazer. Deixem o passado no passado. Se for pra resgatar antigos contatos, que seja no agora e não continuando algo que já foi. É ilusão e das improdutivas.
segunda-feira, 18 de maio de 2020
A criança como elo de ligação
Neste final de semana de novo apareceu o caso de uma mulher relacionando o ato de ter um filho a um objetivo de relacionamento/ligação. Ao contrário do caso anterior, em que a colega usou a gravidez para sair de uma relação abusiva, para se religar a própria vida, neste caso a pessoa preferiu não ter filho porque via que o relacionamento era abusivo, mas ficou magoada quando o ex se casou de novo e engravidou outra mulher, e ela sentiu como se não ter concretizado a paternidade com ela fosse uma recusa pessoal.
Isso não é raro. Há muitas mulheres que para ressuscitar uma relação falida, estreitar uma que não vai pra canto nenhum ou mesmo se religar à própria vida o fazem por meio de um filho, de uma gravidez. Foi o que imediatamente eu pensei quando li sobre a segunda gravidez de Ticiana Villas Boas com o dono da JBS. Ela havia descoberto pela mídia que o marido a enganava e a traía, se separou, mas, quando o ex marido saiu da cadeia, ela resolveu reatar o casamento. O que ela fez logo em seguida, imediatamente? Engravidou. É uma forma de justificar ficar com esse homem depois de tudo. "Não é qualquer homem, é o pai de meus dois filhos. Temos uma família." Eu mesma vim ao mundo assim, para que meus pais justificassem continuar o casamento, já que um bebê precisa de pais juntos; uma criança de quatro e outra de oito anos (minhas irmãs mais velhas) nem tanto assim.
E isso muitas vezes nem acontece deliberadamente, não. Só 4% das nossas decisões, do que sabemos é a nível consciente e somos basicamente comandados pelo inconsciente.
Eu não sou muito simpática a isso, não. O motivo é que geralmente você joga na criança a culpa pelo fracasso: "Ah, eu só fiquei nesse casamento por você", "Ah, eu aguentei esse emprego por você". Se for uma aposta parceira na religação com a vida, do tipo "Você me dá um novo início, uma alavanca pra eu voltar a gostar de viver e eu, com respeito a quem você é, vou te ajudar na sua caminhada", ok. Mas dificilmente alguém que pensa num filho como meio de ligação vai ter essa maturidade, essa sanidade psicoespiritual. Geralmente essa mulher vai estar ligada na energia do medo e não na do amor.
Minha oração para que as crianças que chegaram ao mundo assim consigam ajuda e discernimento.
Ah, sim, por meio da constelação a colega viu que essa ideia de ter filho com o ex não tinha nada a ver. Se limpou desse fantasma e agora vai poder ser feliz de um modo genuíno, sem usar o futuro filho como muleta para o que não cabe a ele consertar ou sequer sustentar.
Isso não é raro. Há muitas mulheres que para ressuscitar uma relação falida, estreitar uma que não vai pra canto nenhum ou mesmo se religar à própria vida o fazem por meio de um filho, de uma gravidez. Foi o que imediatamente eu pensei quando li sobre a segunda gravidez de Ticiana Villas Boas com o dono da JBS. Ela havia descoberto pela mídia que o marido a enganava e a traía, se separou, mas, quando o ex marido saiu da cadeia, ela resolveu reatar o casamento. O que ela fez logo em seguida, imediatamente? Engravidou. É uma forma de justificar ficar com esse homem depois de tudo. "Não é qualquer homem, é o pai de meus dois filhos. Temos uma família." Eu mesma vim ao mundo assim, para que meus pais justificassem continuar o casamento, já que um bebê precisa de pais juntos; uma criança de quatro e outra de oito anos (minhas irmãs mais velhas) nem tanto assim.
E isso muitas vezes nem acontece deliberadamente, não. Só 4% das nossas decisões, do que sabemos é a nível consciente e somos basicamente comandados pelo inconsciente.
Eu não sou muito simpática a isso, não. O motivo é que geralmente você joga na criança a culpa pelo fracasso: "Ah, eu só fiquei nesse casamento por você", "Ah, eu aguentei esse emprego por você". Se for uma aposta parceira na religação com a vida, do tipo "Você me dá um novo início, uma alavanca pra eu voltar a gostar de viver e eu, com respeito a quem você é, vou te ajudar na sua caminhada", ok. Mas dificilmente alguém que pensa num filho como meio de ligação vai ter essa maturidade, essa sanidade psicoespiritual. Geralmente essa mulher vai estar ligada na energia do medo e não na do amor.
Minha oração para que as crianças que chegaram ao mundo assim consigam ajuda e discernimento.
Ah, sim, por meio da constelação a colega viu que essa ideia de ter filho com o ex não tinha nada a ver. Se limpou desse fantasma e agora vai poder ser feliz de um modo genuíno, sem usar o futuro filho como muleta para o que não cabe a ele consertar ou sequer sustentar.
sábado, 16 de maio de 2020
Precisamos falar de Bert Hellinger (ou não)
O próximo módulo do curso é sobre Constelação Familiar. Por causa disso, estou lendo o livro de Bert Hellinger, "A simetria oculta do amor".
Bert é um ex padre que viveu na África e pegou de tribos de lá e de outros lugares a base da Constelação. Ele não criou nada, sistematizou apenas. As três leis dessa prática são:
1) Necessidade de pertencer a um clã ou grupo. Quando alguém é excluído, essa lei é quebrada e alguém, posteriormente, no sistema vai assumir essa história;
2) Equilíbrio entre o dar e o receber. Por isso que, num casamento, se alguém dá demais provavelmente vai ser trocado por alguém "menor", mas com o/a qual se tem uma relação mais equilibrada;
3) A necessidade de hierarquia dentro de um grupo. Quem veio antes tem prioridade. Por isso, o casamento tem prioridade em cima dos filhos, que vieram depois. Quando isso não é posto assim, os filhos se enfraquecem.
A CF trabalha com a ideia de honrar pai e mãe, o que significa respeitar, entender e aceitar. Não precisa amar, mas entender que cada um faz o que pode e agradecer pela vida dada por essa dupla de pessoas. Pra mim pareceu até óbvio que a sua vida ande quando isso acontece: pra conseguir honrar, é preciso gostar da vida, gostando da vida, você vai conseguir pelo menos ser grata a quem te deu a vida. É mais ou menos viver segundo essa frase da foto acima.
Mas Hellinger diz umas coisas que são bem difíceis de digerir, como o incesto acontecer porque a criança abusada faz isso ao genitor traído por amor. Ele também rebaixa pessoas sem filhos e homossexuais por não reproduzirem.
Ele também fala umas coisas que dão pano pra manga. Por exemplo, se alguém é ferido na relação, convém que a parte ferida revide, mas sempre um pouco abaixo, para que se reequilibre o dar e o receber. Outra afirmação dele sobre relacionamentos, que eu achei bem interessante, é a de que o ciumento inconscientemente quer que o outro vá embora. Eu acho que faz sentido.
***
Por Jordan Campos
Existem três situações nas relações familiares e sentimentais que devem ser entendidas, resolvidas e colocadas em seu devido lugar, quer você queira ou não. Muitas vezes encontro pessoas que se queixam de que suas vidas não andam, que as coisas "não acontecem", que se sentem como se fossem amaldiçoadas, e no fundo destes achismos todos, encontramos estas situações abaixo, como "fio elétrico" das queixas e infortúnios atuais. Vamos compreendê-las:
1. Problemas de exclusão – Quando você, seu pai, mãe ou alguém muito próximo nos laços de sangue se sente excluído, expulso e é julgado assim, esta energia reverbera de maneira tóxica e "escolhe" o mais frágil do sistema familiar e "encosta" nele. A pessoa tem uma sensação de não pertencimento, de não aceitação e passa a atrair relações em que os seus parceiros terminam de uma hora para outra; relações em que são traídas de forma rítmica, abortos espontâneos, dificuldade em engravidar e tudo o que convém à "exclusão".
2. Problemas de hierarquia – Pais existem antes dos filhos e netos depois. É necessário que cada qual esteja na frequência da sua função, mesmo que alguém tenha morrido ou não tenha conseguido fazer seu papel. Essa coisa moderna de "Pãe", mães que são pai e mãe ao mesmo tempo, acaba em problema para os dois lados. Você precisa ser apenas mãe de seus filhos ou apenas filho de seus pais; jamais tomar o lugar deles ou fazer funções que não os cabe. Aqui cabe aquele velho ditado: cada macaco no seu galho. Se falta alguém na família, deve-se deixar o espaço vazio. Hierarquias não são substituíveis.
3. Problemas com dar e receber – Em toda a relação familiar deve existir um equilíbrio entre o dar e receber. Mulheres que dão demais, por exemplo, que se agigantam na relação, fazem seus parceiros homens procurarem outras mulheres "inferiores" em casos extraconjugais, para sentir que também podem dar o que não podem na outra relação. Isso vale para os super-homens e supermulheres. Causam no parceiro a sensação de impotência e pequenez, e isso acaba sempre com "traições". O equilíbrio é essencial para bons relacionamentos.
sábado, 2 de maio de 2020
As caixinhas e o que é opinião e o que é posicionamento
Há semanas na vida da gente que parecem episódio de seriado, apresentam a discussão de um tema. Tenho a ligeira impressão de que já comentei isso aqui, mas, enfim, nada vai ser inédito mesmo a essa altura da vida e do blog.
Na terça, um amigo me confessou que estava muito chateado com uma amiga que já não estava tão amiga com ele, e argumentou que continuava o mesmo, não sabia o que havia ocorrido entre eles. Nesses casos, na minha opinião, existem dois cenários: ou a pessoa mudou e aquele laço não faz sentido mais; ou é da geração "fada sensata". Explico: as pessoas hoje só toleram quem pensa exatamente dentro da sua cartilha. Conheço vários grupos de amigos em que um é a cópia do outro. Assim tá fácil, né? Você está elogiando você mesmo, se relacionando com você mesmo. Na verdade, nem com você mesmo, mas com a projeção do que gostaria de ser. Amar é achar graça até nos defeitos. Tinha, mas acabou. Não é mais a onda dos relacionamentos de hoje.
Eu, pessoalmente, já me encolhi muito para caber nas caixinhas idealizadas pelos outros, achando que correria o risco de perder aquele afeto (grande afeto!...). Hoje em dia, tô mais aqui pra isso, não. Prefiro meus estudos, meus filmes, meus cada vez mais raros amigos.
Posicionamento
Mas eis que o diabo atenta e hoje a discussão, com outras amigas, foi sobre o filho do cão, o chefe da familícia. Uma amiga que quer passar o pano pra outra amiga que votou em Bolsonaro fica naquele discurso de "não quero julgar". Velho, ela poderia ser diferente de mim em vários quesitos e isso não me importunaria, mas ser a favor da única candidatura que, explicitamente e descaradamente, feriu os direitos humanos não é questão de opinião. Ainda mais que ele não tinha projeto. Qual era o motivo senão identificação? Opinião é gostar de sorvete de coco ou de chocolate. Apertar 17 é posicionamento ideológico, banalização do mal, e, enfim, só o fato de não se chocar com o Inominável diz algo sobre a pessoa. Assim como os influenciadores que você segue, as pessoas de quem é amigo/a, e etc, suas escolhas entregam seus valores. É direito seu escolher, mas é minha prerrogativa ter uma opinião, porque as minhas escolhas, as escolhas dos outros, falam por nós, não são neutras.
Votar na Familícia não é opinião, não é erro, foi opção gerada por identificação. Fato.
Na terça, um amigo me confessou que estava muito chateado com uma amiga que já não estava tão amiga com ele, e argumentou que continuava o mesmo, não sabia o que havia ocorrido entre eles. Nesses casos, na minha opinião, existem dois cenários: ou a pessoa mudou e aquele laço não faz sentido mais; ou é da geração "fada sensata". Explico: as pessoas hoje só toleram quem pensa exatamente dentro da sua cartilha. Conheço vários grupos de amigos em que um é a cópia do outro. Assim tá fácil, né? Você está elogiando você mesmo, se relacionando com você mesmo. Na verdade, nem com você mesmo, mas com a projeção do que gostaria de ser. Amar é achar graça até nos defeitos. Tinha, mas acabou. Não é mais a onda dos relacionamentos de hoje.
Eu, pessoalmente, já me encolhi muito para caber nas caixinhas idealizadas pelos outros, achando que correria o risco de perder aquele afeto (grande afeto!...). Hoje em dia, tô mais aqui pra isso, não. Prefiro meus estudos, meus filmes, meus cada vez mais raros amigos.
Posicionamento
Mas eis que o diabo atenta e hoje a discussão, com outras amigas, foi sobre o filho do cão, o chefe da familícia. Uma amiga que quer passar o pano pra outra amiga que votou em Bolsonaro fica naquele discurso de "não quero julgar". Velho, ela poderia ser diferente de mim em vários quesitos e isso não me importunaria, mas ser a favor da única candidatura que, explicitamente e descaradamente, feriu os direitos humanos não é questão de opinião. Ainda mais que ele não tinha projeto. Qual era o motivo senão identificação? Opinião é gostar de sorvete de coco ou de chocolate. Apertar 17 é posicionamento ideológico, banalização do mal, e, enfim, só o fato de não se chocar com o Inominável diz algo sobre a pessoa. Assim como os influenciadores que você segue, as pessoas de quem é amigo/a, e etc, suas escolhas entregam seus valores. É direito seu escolher, mas é minha prerrogativa ter uma opinião, porque as minhas escolhas, as escolhas dos outros, falam por nós, não são neutras.
Votar na Familícia não é opinião, não é erro, foi opção gerada por identificação. Fato.
quinta-feira, 30 de abril de 2020
Triplo viral - ou como eu parei de me preocupar e passei a amar a bomba
Em tempos de coronavírus, aqui no Brasil temos que lidar com mais dois vírus: o Bolsovírus (político) e o egovírus (social).
Confesso que estou, excepcionalmente, em uma situação privilegiada em meio à pandemia. Estou empregada (não é mérito meu; foi sorte), mas independente disso, teria minhas economias (isso é mérito meu, que aprendi depois de tantas dificuldades laborais durante a vida). Eu sei que sem isso eu estaria dormindo mal, comendo mal, angustiada, mas nem que eu estivesse numa situação financeira complicada, eu preferiria a economia à vida. A morte é a única coisa para a qual não se tem remédio. A frase é chavão, mas desconheço verdade maior que essa.
E veja o que é a hipocrisia dessa classe média que fica dizendo que "sem economia não há vidas". 😕 Essa mesma turma que diz que tem que abrir o comércio (e isso implica no risco de vida para os funcionários e, consequentemente, para as famílias deles), é a mesma turma que não quer mandar seus filhos para a escola quando as aulas voltarem. O famoso pimenta no ** dos outros é refresco.
Eu não tenho condições nem de continuar me chateando com isso. Hace falta fuerzas. Péssima época para ser alfabetizada em português.
Vou cuidar da minha vida, que eu ganho mais. A alma mesquinha do brasileiro é uma prova cármica pesada demais para tempos de coronavírus.
Confesso que estou, excepcionalmente, em uma situação privilegiada em meio à pandemia. Estou empregada (não é mérito meu; foi sorte), mas independente disso, teria minhas economias (isso é mérito meu, que aprendi depois de tantas dificuldades laborais durante a vida). Eu sei que sem isso eu estaria dormindo mal, comendo mal, angustiada, mas nem que eu estivesse numa situação financeira complicada, eu preferiria a economia à vida. A morte é a única coisa para a qual não se tem remédio. A frase é chavão, mas desconheço verdade maior que essa.
E veja o que é a hipocrisia dessa classe média que fica dizendo que "sem economia não há vidas". 😕 Essa mesma turma que diz que tem que abrir o comércio (e isso implica no risco de vida para os funcionários e, consequentemente, para as famílias deles), é a mesma turma que não quer mandar seus filhos para a escola quando as aulas voltarem. O famoso pimenta no ** dos outros é refresco.
Eu não tenho condições nem de continuar me chateando com isso. Hace falta fuerzas. Péssima época para ser alfabetizada em português.
Vou cuidar da minha vida, que eu ganho mais. A alma mesquinha do brasileiro é uma prova cármica pesada demais para tempos de coronavírus.
domingo, 26 de abril de 2020
O cinema afetivo de Campanella
Eu me identifico muito com o cinema argentino. Se a nossa televisão é superior a dos hermanos, o inverso acontece no cinema. E eu acho que, a despeito do que dizem do ego gigantesco dos nossos vizinhos, eles são mais simples. O mal do cinema brasileiro, a meu ver, são três: pretensão eterna de ser profundo e intelectualizado; roteiros que dificilmente são redondinhos; direção de atores que ainda falha muito. Tudo ao contrário do que vejo nos filmes argentinos. Sou fã confessa do cinema dos hermanos.
E eu amo o cinema afetivo de Juan José Campanella. Até porque eu amo cinema argentino. Até porque eu amo Ricardo Darín. Até porque Hollywood e o Oscar amam os dois, portanto não estou sendo nada original, né?
Em dez anos, ele produziu cinco filmes que falam de histórias banais (acho que a exceção é "O Segredo dos Seus Olhos"), mas com personagens bem construídos, próximos do público, e, por isso, são histórias que nos tocam, pois falam com elegância e humor de momentos possíveis na vida do espectador, pelo menos na maioria das vidas.
Acho que só não assisti "Las Comadrejas", que é recente. Mas os filmes dele fazem uma linha do tempo muito bacana. O primeiro, de 1999, é "O mesmo amor, a mesma chuva" (foto), que conta as idas e vindas de um casal, entre os anos 80 e 90. Nada de mais, mas uma graça de história. O final é muito fofo. Se você não se apaixonou aí, vai se apaixonar por "O filho da noiva" (foto), mais uma vez estrelado por Darín (que é o ator de Campanella, juntamente com Soledad Villamil e Eduardo Blanco), que é a história do casamento de um senhorzinho e de sua esposa de anos com alzheimer (Darín é o tal filho do título); o noivo quer realizar o sonho da noiva de casar na igreja, que no passado ela deixou passar em branco respeitando o fato dele não ser da mesma religião dela, ainda que ela, nos dias atuais, nem vá se dar conta de que estão realizando o sonho dela. Depois, em 2004, veio "Luna de Avellaneda", que é o menos legal de todos, mas bom de assistir; você se afeiçoa aos personagens. E por fim o consagrado "O Segredo dos Seus Olhos", que, além de trama policial, traz uma história de amor das boas com a mesma dupla de "O mesmo amor, a mesma chuva". O que todos esses filmes têm em comum? Bons personagens, tipos carismáticos. É isso: Campanella sabe criar "tipos", como se diz em espanhol!
Como bom canceriano, ele fala da importância dos afetos: da lealdade das amizades, da cumplicidade de casal, do amparo entre pais e filhos. Eu sempre achei que nada é mais político do que o próprio cotidiano. Se bem feito, não fica nada a dever aos "filmes de machos" que geralmente ganham as grandes premiações.
Fica a dica. :)
quarta-feira, 22 de abril de 2020
TTS
Faz dois meses que comecei uma formação em psicoterapia. Há muito tempo tinha vontade de experimentar esse caminho - desde a Facom -, e já que estou mesmo no limite com o jornalismo, resolvi me jogar. Fiz meu cálculo e decidi que, mesmo na pior das hipóteses, vou me melhorar.
Ainda estou no início da experiência, mas tive alguns aprendizados interessantes até agora.
O primeiro módulo foi uma grande introdução, em que se explicou o conceito de transpessoalidade. Foi interessante ter conhecimento de que as influências podem vir de várias zonas da vida da gente, inclusive dos antepassados. Também gostei muito de uma frase, que tô levando para a vida: a gente só reconhece o que conhece.
Tem gente que é ruim mesmo, mas a grande maioria não consegue compreender porque não conhece, então não vai conseguir reconhecer. Como um amigo meu, super bom coração, que foi distribuir uns pães comigo e se chocou com a violência das pessoas pra ter pão. Ele não reconhece o que é ter fome e viver na rua. Veja, pra pessoa crescer o olho por um pão, é porque a vida é pra lá de desgraçada. Isso serve pra outras coisas como racismo, diferença de gênero.
No segundo módulo, de PNL, foi interessante para aprender como acessar experiências não assimiladas e ressignificá-las. Também gostei da parte de linguagem corporal. Algumas coisas vou observar na vida, hehe.
O último módulo, agora, foi de iridologia. Nosso olho entrega a nossa vida. Impressionante.
Mas uma segunda ideia que eu aprendi lá e achei genial (e é muito simples) é: toda situação que te emociona revela uma ferida da criança interior. Só curando ela primeiro para o adulto poder assumir as rédeas da situação. Fez sentido. Isso explica tanta gente em relacionamento abusivo. O adulto não reage porque é a criança que está se relacionando.
Olha, ser humano é babado.
sexta-feira, 17 de abril de 2020
A saga humana
Acho que é por isso que eu gosto tanto de História e de ficção histórica e sonhava, quando criança, com a máquina do tempo. Me dá um aperto quando vejo/leio que mulheres eram propriedades de homens, que negros eram propriedades de branco, que pessoas sem muita noção de para onde iriam chegaram a um "novo mundo", que operários chegavam a trabalhar 14 horas e morriam antes dos 50, incluindo aí crianças.
E por isso me irrita muito que gente arrogante e mimada não consiga aquietar a raba no sofá de casa, gritando que estão ferindo o direito de ir e vir, mesmo com tudo disponível, enquanto pobres, quase sempre pretos, estão por aí arriscando a vida por uns trocados.
Péssima época para me reintegrar à saga humana, viu? Lucy (foto), tua raça não anda valendo o que come, moça.
domingo, 12 de abril de 2020
Babu e a fake news do "Querer, poder e conseguir"
Eu não assisto BBB, mas quando você frequenta o Twitter, impossível não saber o que rola por lá.
Há três personagens negros nessa fase final: Telma, a negra bem resolvida e bem sucedida; Flay, a que tem passabilidade e muita raiva no coração; e Babu, o ator cuja carreira foi desfavorecida pelo racismo e que passa muitas dificuldades materiais.
Detesto Flay porque, a parte de qualquer sofrimento que ela tenha passado, ela é gente ruim na essência, dá pra sentir isso. Torço por Telma. Tenho o pé atrás com Babu. Ps.: Ranço de Manu.
Por quê? Porque ele me remete a um fenômeno de pessoas negras, especialmente de homens negros, que querem compensar o racismo sofrido sustentando uma vida que eles não têm cacife para sustentar, cuja inconsequência impõe consequências às pessoas da família.
Babu reclama que os filhos chegam quase a passar fome. Algumas pessoas do público se aproveitam disso para questionar o fato de um dos filhos dele estudar em colégio de luxo (é bolsa integral, oras. quem não proporcionaria uma chance dessas aos filhos?). É aquela gente que acha que preto e pobre tem que ser humilhado o tempo todo. Todo mundo deve ter coisas boas, mas se puder. A minha bronca com Babu é ele não se adequar às possibilidades e querer forçar um sonho que compromete pessoas além dele, algumas delas menores de idade.
Eu não tenho dúvida que a aparência negra de Babu tirou muitas oportunidades dele. E nem o negro gostosinho ele é. Babu é gordo, o que já é "problema", independentemente da cor, e piora no caso de um homem negro. Mas acontece que certas carreiras são máquinas de moer gente de todos os tipos, especialmente aquelas de grupos já marginalizados. Uma coisa é você apostar num destino desse tendo respaldo da família ou sacrificando só a si. Quando você não tem nenhuma condição e ainda arrasta os outros, me desculpe, eu acho egoísmo. É esse egoísmo que me irrita em Babu. E por trás disso não está só a dor do racismo, mas a teimosia do macho que não sabe perder. Às vezes, na vida, a gente perde. Fazer o quê? Quem não tiver as suas frustrações que atire a primeira pedra. Esqueçam Xuxa: querer nem sempre é poder e muito menos certeza de conseguir. Ser uma pessoa boa ou esforçada não te livra de uma vida ruim e não te garante recompensa, só faz bem ao seu espírito mesmo.
Vou puxar aqui a minha própria história. Eu sou filha de uma família de classe média média (pai bancário e mãe dona de casa). Escolhi uma profissão elitista e que paga pouco, quando não impõe períodos de desemprego. Tirando uns dois ou três, meus colegas de curso são do meu padrão familiar pra cima. São pessoas que ganharam carro dos pais (eu não), alguns ganharam o apartamento da família (eu nunca), se estiverem desempregados, mamys leva pra NY (hahaha!), enfim, são pessoas que podem se sustentar nessa carreira instável à beça porque mesmo quando elas perdem profissionalmente, elas não perdem quase nada em padrão de vida. Há ainda aqueles que são casados com gente rica, que acabam também não perdendo quase nada mesmo estando desempregados, que vão dirigir um 4x4 mesmo quando estão sem emprego há um ano. Eu passei um tempão me iludindo que eu era como essas pessoas, porque meu pai é servidor aposentado. O pai de uma amiga minha da faculdade é bancário aposentado, a mãe dela é dona de casa, são pais de três filhas também e deram muito mais suporte a elas. Portanto meu pai poderia - e nossa vida teria tido muito mais possibilidades se ele tivesse feito isso -, mas meu pai não tem o mesmo zelo pelos filhos que os pais de meus amigos. Um dia, até, minha terapeuta esfregou isso na minha cara. Não adianta eu me pensar como um deles que eu não tenho o mesmo respaldo familiar deles. E digo: eu só pude me sustentar 20 anos nessa barca furada porque não tenho filho. Aliás, eu agradecia por isso o tempo todo em 2016, quando saí do jornal e depois da TV e começava a se desdobrar a crise econômica.
Dar comida e saúde a um incapaz, até onde minha compreensão vai, tem que vir na frente de qualquer sonho. A gente tem que sonhar, mas com os dois pés na realidade, se adequando ao que temos no momento, alternando fases da vida. É razoável pensar assim, não? Harrison Ford pensava assim, e só largou a carpintaria quando entrou no elenco de Star Wars. Uma moça branca padrão da minha época de Facom, mas de origem pobre, tentou a carreira de atriz em SP, viu que não ia rolar, e abraçou o jornalismo mesmo em sua terra natal. Wagner Moura foi repórter enquanto não emplacava carreira de ator - e olha que ele era um moço de classe média, não ia ficar sem eira e nem beira, sem teto e comida. Babu não. Eu entendo a frustração dele diante do racismo. Esses exemplos mesmo que eu dei, agora, provam também que praticamente só quem consegue chegar lá são os brancos. Mas Deus não oferece SAC. A gente tem que ajeitar as coisas aqui embaixo mesmo. Por que provar aos outros que pode é mais importante que o bem estar de si mesmo e dos filhos? Eu não consigo simpatizar com isso, eu não apoio quem joga pra conta dos outros as suas frustrações e teimosias pessoais. E, no caso de Babu, ainda me dá agonia a torcida, formada de gente que é acrítica a ele e o apoia tentando uma redenção dos sofrimentos causados pelo racismo através da vitória dele. Sou mais Telma, mas negro bem resolvido não dá ibope no Brasil.
EDIT: Conversei com um amigo sobre Babu, que repercutiu mal nas redes após declarar que o prêmio de R$ 150 mil serviria para pagar as dívidas e torrar. Meu amigo acha que não é só questão de se compensar, mas de ganhar humanidade, ainda que de uma forma que, no fundo, é falsa. Ambos concordamos nisso. Meu amigo também acha que é meio complicado, que tem que tomar cuidado com o discurso moralizante, do tipo "todos devem conseguir agir corretamente". Eu entendo e me preocupo de estar pesando a mão, mas, por outro lado, eu fico pensando se não tem um monte de gente se apegando às questões sociais para justificar um comportamento mimado, pra não precisar amadurecer. A gente não veio do nada, mas ninguém nasceu Gabriela, pô. Infelizmente, tem gente se escondendo por trás de questões sérias. Nisso também concordamos.
terça-feira, 17 de março de 2020
This is Lu
Luísa me liga no dia do meu aniversário. Claro que ela não sabe que é meu aniversário, a mãe é que pôs ela no telefone, mas ela sabe o que é um aniversário de todo modo. Ela me pergunta se vai ter festa, e eu digo que não. Pergunta, então, se vai ter bolo e eu nego. Por fim, ela me dá os parabéns, responde um par de perguntas minhas e se pica meio desapontada.
This is Lu.
Ladina que só ela. Mas titia ama mesmo assim, hehe. Eu saquei Luísa com dois meses de idade e aprendi uma coisa sobre o amor: amar é achar graça até nos defeitos. Acreditem, isso é possível.
Luísa fez cena comigo quando ela mal se movia, com dois meses, me castigando por ter desaparecido alguns dias. Esse tipo de coisa que os bebês fazem me intriga. Como é que sabe que a gente é família, que a gente faz parte de um grupo que não é equivalente a qualquer pessoa, a todo mundo? Só pode ser algo epigenético-espiritual mesmo.
Antes de aprender a andar, ela já dava as dela. Aprontona, quando era retirada do local do crime, gritava "Aiiiii!". Ela sacou que o "ai" fazia a pessoa largar ela. Quando aprendeu a falar, aprendeu também a comer o mundo. Não podia ver ninguém comendo que maliciosamente chegava perguntando o que era aquilo, só pra pessoa oferecer um pouquinho e ela beliscar.
A lista é extensa. Luísa sabe como se dar bem. Sabe até demais e às vezes até passa do ponto. Eu me preocupo com isso, mas é mais fácil trabalhar esses excessos do que a falta de energia. E ela tem energia vital, ela está na vida, ligada, imprimindo movimento. Dessa parte dela eu sou fã. Também aprecio a inteligência.
Um dos dias mais estranhos na vida de quem é "boa pessoa" é descobrir que fazer tudo certo e ser bom não te poupa de nada e não te traz recompensa. A única é a de você com você mesma. Se Luísa crescer sem se sentir assim, não vou mentir a ela que ela precisa ser boa pessoa porque a vida será boa com ela. Mas espero que se essa não for a natureza dela, que ela ao menos seja responsável.
Assinar:
Postagens (Atom)























